quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Aos queridos amigos anônimos,
agora estamos atendendo em.......

http://fabulososempecilhos.blogspot.com/

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Soneto em Mi menor de amor e perdão

Vejo cordéis ao torno da lua
São fantasias de sonho ébrio
A quimera que me faz extenua
Nasce poeta e chora sem verbo

No fogo quente das meias noites
O visitante sai das estrelas
Fugindo temprano de rodas ermas
Amargando doces intempéries

Sabor destino do que faz ninguém
Repleta de uma ausência torpe
Urge o tempo entre, que sonhem!

Cruza o céu o cordel da sina
Canta Afrodite no seu castelo
a harmonia do fogo belo que tardia




ps.: Eu nunca tinha escrito um Soneto.
Só tu pra me colocar no meio disso tudo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ninguém



Eu aperto os cacos de vidro com a mão. Os fecho em um punho cerrado que logo se tinge de vermelho. As gotas caem por cima da mesa, do cinzeiro, no pé da taça de vinho vazia. No meu rosto, o mais débil dos sorrisos, a mais inocente das criancices. Eu te olho na foto, velha, tu e a foto, velhas. A mão começando a arder e os pequenos cacos furando a pele, alguns se aninhando dentro da palma da minha mão.

Pra que fazer isso, tu pensa, como tu é exagerado! Tu não tem nem um dos dois pés no chão, tu merecia uma cadeira de rodas, só pra ti ver como é, realmente, não ter nenhum dos pés no chão. “Quando eu ando de avião, eu me sinto em casa” eu fico dizendo, só pra mexer contigo, de como sou sonhador, e de como isso é a única coisa que me mantém vivo, os sonhos acordados. O gosto de jasmim que o meu sangue tem. Claro que eu dou umas lambidas nas pequenas feridas da minha mão. Eu já não preciso dos cacos, eu deixo eles fazendo companhia pra nossa aliança. Tu sabia que a gente usa aliança no dedo anular esquerdo porque os romanos descobriam que tinha ali, no dedo, uma veia que ia até o coração? E eu não tinha te dito que eu tinha te dado o meu coração?

Eu quero ele de volta. Eu preciso dele agora.

Eu também preciso que tu venha pegar teus livros, que traga o meu isqueiro que eu deixei na tua bolsa, e me livre dessa foto tua, tão feia, com o cabelo desgrenhado e uma barriga horrível. Tu nunca devia ter engordado, tu fica presunçosa fora do peso. Parece tão melhor do que tu realmente é. Na verdade tu não presta. E tu foi embora. Esse foi teu único pecado. Não que a gente não tivesse a nossa coleção de pecados coletivos, comuns, cúmplices, mas, o teu grande pecado, aquele que vai te mandar direto pro inferno, foi ter ido embora, assim, de manhã, sem esperar eu acordar. Tudo bem, trepar com as malas prontas, pular em cima de mim rindo da minha cara enquanto eu, chorando feito uma criança, implorava pra tu ficar. Isso acontece, isso te excita, a minha indigna submissão te excitou do início ao fim.

Não precisa voltar tão cedo. Pode ficar um bom tempo longe, curtindo umas férias no Caribe, na Jamaica, na puta que te pariu. Mas no fundo eu preciso que tu fique longe de mim. Já não me basta nada, nada que venha de ti. A não ser o meu isqueiro, que ficou na tua bolsa. E meus livros que tão na tua casa.

E o gato.

Tu tem que levar o gato. Eu sou infantil. Eu não tenho condição de criar um gato. Eles se criam sozinhos, tu vem e diz sempre, mas, ele não me ouve. Juro que ele não me ouve e ainda debocha da minha cara, subindo na poltrona e lambendo o rabo. Leva o gato, dá ele pra tua mãe. Pelo menos alguém tem que fazer companhia pra ela.

Vem, me traz minhas coisas, leva as tuas e deixa o chá. Eu que comprei, lá em rivera. Era pra nós tomarmos, depois de trepar, mas tu não gosta de chá. Tu não gosta de nada. Nem de trepar. Só quando ninguém na rua te quer, o que é quase sempre. Ninguém te quer, e nunca vai te querer.

Mas eu preciso que tu venha resolver isso tudo, antes que eu termine com essa garrafa de vinho, e essa foto horrível tua fique realmente manchada com gotinhas de sangue. Vê, como no fundo só eu preciso de ti?

Heloísa




“Tu tá sozinha?”
“Tô... O que tu quer me ligando essa hora?”
“Só me escuta...”

Enquanto despejei nela tudo o que tinha tirado o meu sono, liguei o fogão e coloquei a chaleira com água para esquentar. Acendi um cigarro e encostei minhas costas nuas e suadas no marco da porta. O cheiro de grama cortada estava forte, o orvalho da noite deve ter provocado isso. É o tipo de coisa que eu fico prestando atenção enquanto tiro ela da cama, com uma ligação, com um monte de porcaria sussurrada. Um monte de mentira que nem eu acreditava. Eu precisava daquilo. Ela de uma noite de sono. Claro que ela precisava dormir. Quatro horas e meia de avião? Um bom tempo no terminal? Mas pra mim não interessava.

“...Tu tá em outro fuso-horário?” Óbvio que ela tava. Eu só precisava da confirmação oral.

Queria mostrar pra ela que eu estava arrependido. Que o julgamento tinha consumido tudo de mim. Claro que eu era inocente. Eu sabia disso, o meu advogado sabia, o juíza sabia, o júri sabia. Mas pra ela não importava. Eu tinha herdado a culpa dela, junto com o casal de cachorros, um par de labradores, o Mouro e a Palestina. Isso e a merda do perfume dela que ela tinha jogado na parede do quarto. E que ainda fedia lá. Não.

Eu não tinha motivo algum para jogar tudo aquilo na cara dela. Nem pra dizer que ainda morro de medo de me cortar em algum pedaço de vidro do perfume. A idéia de me cortar e ficar com um corte infeccionado, impregnado do cheiro que ela usava pra tapear o suor desgastante do verão, simplesmente me dava asco. Tive que me controlar. Queria gritar que ela me dava asco. Asco! ASCO!

“...Espera um segundo, eu tô esquentando água.” A água fervendo, gritando no ar.

Eu não ia fazer chá, nem passar café, só achei que olhar a chaleira fumegante era bonito. Entre e a insônia e a angustia, decidi que precisava de algo bonito, já que ela não estava lá, mesmo já estando feia. Cabelo loiro. Nunca foi loira, inventou de ser loira. Mentiu o amarelo nos cabelos pra si mesma e conseguiu acreditar, ao contrário de mim. Velha. Acha que ainda pode ter filhos? Com quarenta e nove anos. Ela realmente achava que podia ter filhos ainda. Me sugar na cama diariamente era o caminho para a maternidade. Mesmo eu sendo um brocha, uma porcaria de amante, uma péssima companhia para dividir um colchão, uma coberta no inverno.

“Eu pintei o cabelo de castanho... de novo.” Ela disse, com o maior desinteresse do mundo. Como quem quer terminar uma conversa com um novo tópico para a próxima vez que nos encontrássemos.

“Como eu faço pra dormir?” Perguntei esperando a maior resposta do mundo. Algo bíblico, já sentado no chão, esperando o suspiro desesperado da angústia fazer coro com a chaleira.

“Fecha os olhos e torce pra que tu não consiga sonhar. Dorme do outro lado da cama.”

Como se a cama tivesse um lado que não era meu nem dela. Nem de ninguém.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

3 segundos antes de amar - (repostagem)





O som da respiração dele é forte e barulhento, seu rosto tem pingos de suor por todos os cantos, perto da boca, em cima do lábio. Ele me olha assustado, com olhos de remorso e medo, as mãos paralelas ao rosto, deitado naquela cama, com mais lembranças nossas do que de muitas outras meninas que estiveram ali. O quarto fede a maconha de má qualidade. Insuportável, mas, que garota apaixonada não faz vista grossa pra essas coisas? Ele sempre fuma depois de me "ver".

Devagar eu vou subindo, me ajeitando em cima do abdômen dele. Minha mini-saia xadrez cai devagar sobre o peito dele, ao mesmo tempo, sobe pela minha coxa, revelando um pedaço da minha calcinha branca. Minha blusa se pendura nos meus seios e nos meus ombros por apenas um botão. As pontas loiras do meu cabelo vermelho caem sobre meu rosto, que, estaria sério, se não fosse o cheiro de homem com medo, um aroma que me faz sorrir com o canto da boca. Foi enquanto olhava pra ele que tive a primeira seqüência de lembranças. De como nos conhecemos. Uma memória teimosa, mas, com os dias contados. Era convidativo saborear ela ali.

Eu trabalhava em um café, um desses quase chiques, com um par de computadores para as pessoas usarem, tinha uma decoração meio rústica, era com paredes alaranjadas e madeiras em mogno. João sempre ia lá as quintas à tarde, sentava sempre numa mesa diferente, mas, geralmente perto do rádio que, contra a vontade da dona, tocava algum jazz antigo que só eu ouvia. Mas só depois eu fui gratamente descobrir que era esse lixo cultural que nos juntava. Cultura dos anos 60 misturada com as bobagens novas de hoje em dia. João sempre me olhava, eu fingia que não via, e ele fingia que não sabia. Suas pilhas de livros e seus olhos escuros, seu jeans surrado e suas anotações fictícias para desviar o olhar de mim. Muito atraente. Mas, uma pena, depois da época de paquera silenciosa no café, eu jamais iria ver aquele João novamente.

Sacudo minha cabeça pra voltar à mim mesma. Começar o longo e tedioso processo de me desapegar daquelas lembranças. Eu tento me lembrar do único propósito que me faz voltar àquele apartamento, mesmo cheia de angústia e, para minha surpresa, sem a mínima ponta de arrependimento. Organizei os meus pensamentos e me concentrei no triângulo amoroso que estava se formando logo ali, naquele momento. Eu. João. E o revolver do meu irmão. Quem disse mesmo que ter um irmão bandido não tinha um lado positivo? O tempo se arrasta de um jeito saboroso. De algum modo eu estava comprando minha liberdade com um crime, mas, quando se está falando da liberdade da alma, qualquer cela de três por três metros, que vem de brinde com isso, parece gigante. Um preço extremamente razoável a se pagar. Eu não queria mais ser uma bonequinha para ele. Eu tenho amor por mim mesma. Entre um suspiro e outro, uma batida e outra do meu coração, tive outra seqüência de lembranças. Um segundo flashback, este sobre o dia em que as coisas mudaram de rumo, onde o conto de fadas ganhou um clima noir.

O vento batia forte e esvoaçava meu cabelo, tinha demorado horas pra arrumar, mas, valia a pena, tudo por ele valia a pena. Tínhamos marcado no parapeito da Usina. Era um dia cinza de agosto, um friozinho gostoso, mais porto-alegrês impossível. Eu fiquei me debruçando, pendurando boa parte do corpo pra fora da mureta até sentir ele me abraçar e com um singelo olhar e um tímido miado dizer "oi amor". Ele passeava a mão com nosso anel de prata pela minha roupa, e, delicadamente brincava com a minha mão.
Fazia isso enquanto discursava sobre algum poeta do início do século. Dizia que me amava entre uma história e outra, e comparava nosso romance a todos os épicos amorosos possíveis. Mais tarde, ainda naquele dia, o sorriso dele foi amarelando, e devagar ele foi ficando mais distante, um pouco arisco, sem motivo nenhum, simplesmente, de um momento para o outro, as coisas viraram o contrário do que eram. Ficou irritantemente quieto. Começou a falar de outras pessoas com quem ele estava tendo aulas, novas modelos com quem estava trabalhando. Livros que tinha sido apresentado por alguma menina do curso de letras.

Aquela última seqüência de lembranças era o ponto final. Minhas feições começaram a mudar, se tornando mais duras, o corpo começando a tremer um pouco. Eu não queria morrer, a saída fácil nunca era a minha favorita, eu queria que tudo acabasse, queria de volta todo amor que "perdi". Meus sorrisos, minhas alegrias, queria tudo. Até os sonhos bobos e os planos grandiosos de vivermos juntos. Pra mim é muito fácil culpar ele, ninguém é usada a troco de nada, claro que, em algum momento, eu tinha me colocado à disposição pra ele fazer o que quisesse comigo. Mas, isso é um pecado ingênuo. Nas regras do jogo, esse tipo de pecado não conta.

Eu saí do quarto e peguei um ônibus. Fiquei lendo "entre quatro paredes", do Sartre. Dali pra frente era um novo começo, eu e o livro. O resto do que eu sentia se misturou com o vermelho espirrado na cama.


(2005)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Três dias – (sonreisas brillantes de la muerte)


“E agora?...”
“Agora a gente... quero dizer, eu espero.”

...

Como tudo chegou ali? Tentava futilmente montar aquele quadro, dentro da minha cabeça tudo era lua. Onde eu havia errado? De quem eram as diversas culpas, as reações em cadeia que levaram tudo isso a um desfecho tão previsível... sim, mas, de toda forma, o fim que eu mais queria evitar. Muitas perguntas sem respostas, e no fundo eu não tinha muito tempo, nem para responder elas, nem para entender as respostas que eu já tinha. O nome da Nádia não parava de bater na minha cabeça, por uns instantes olhei para sua foto na estante. Não, talvez fosse paranóia minha. Iván poderia tirar minhas dúvidas, mas, certamente já estava morto.

“...O Iván...?”
“...Sim.”

...

Três dias antes.

Que horas são? Já é hora de ir embora? Quem é essa mulher de verde? Nunca vi ela aqui. Aparenta bem, dança bem. No escuro qualquer uma delas dança bem. Vestido curto, deve estar morrendo de frio. Esse gordo babando em cima dela me irrita. Onde tá a minha bebida. Aquela porcaria de garçonete deve cuspir no copo de todo mundo. Não devem ter aprovado o número dela, deve ser horrível no palco. Mas que cacete, essa mulher de verde é gostosa pra cacete. Eu já vi esse gordo em algum lugar. Preciso de um cigarro. Preciso ir no banheiro. Se eu sair daqui aquela vagabunda vai chegar com a porcaria da minha bebida. Sei disso. Sei de um monte de coisa. Cacete, onde eu coloquei meu isqueiro? O Iván tá atrasado. Só mais uma carreirinha, só mais uma. Quem foi que matou a Penélope? Foi a Sílvia Maestro ou a Bela Llavé? Uma carreirinha não mata ninguém, ninguém. Isso aí. Uma linhazinha aqui, no meu canto, no escurinho, esperando a porcaria da bebida, a porcaria do Iván. Olhando aquela gostosinha ali no palco tirar a roupa. Só uma carreirinha. A última, juro. A última antes da última. Sempre tem uma última antes da última. Uma última trepada antes de se casar. Um último anti-biótico antes que a doença te mate. Ou que tu desista. Barbitúricos, codeína, Tylenol. Antigamente era mais fácil. Foda-se antigamente, eu tô me mijando. Porra o Iván chegou.

“Espera aqui, se uma bisca aparecer com o meu uísque, manda ela deixar aí. Eu já venho.”

A gostosinha de verde tá me olhando. O gordo tá com a cara enfiada entre os peitos dela. Mas que merda. A puta ainda pisca pra mim. A cara desse gordo deve feder à pastel de rodoviária, gordura velha, essas porra que a gente encontra no centro da cidade.

Um idiota sentado no vaso.
“Eu preciso mijar.”

Ele continua me olhando com uma cara de quem não entende português.

“Puto. Hablas español? Quiero mijar, te passa. Pinche pibe....”

Cacete. Nada.

“Eco, ma vai, te manda...”

Cacete, ele também não viu a novelinha italiana das oito, que começava às nove.

“Ô, tu entende isso aqui?”

Eu levanto minha blusa de veludo cotelê e mostro o meu revolver. Tem horas que a gente tem de ser rude. Afinal, eu só mijo em vaso.

...

Dois dias antes.

“Vem, eu vou te levar pro lugar mais lindo do mundo. O lugar onde tu vai ser uma rainha pra todo o sempre. E todas essas merdas que tu diz que curte. Mas tem que ser num lugar lindo. Eu conheço a porcaria dos lugares lindos por aqui, eu vou te levar pra todos eles e tu vai escolher, vai dizer, aqui é a porcaria do lugar mais lindo do mundo, daí tu vai poder ser o que tu quiser. Se tu não quiser ser nada, só curtir a beleza do lugar, tudo bem, eu não to nem aí, eu vou estar provavelmente bêbado. Bêbado o suficiente pra não me lembrar de nada por um punhado de dias. Sabe um punhado de dias? É tipo uma semana, tu consegue pegar com uma mão. Só não consegue pegar um findi. Seriam sete dias, faltariam dedos na mão. Daí que vem essas coisas de punhado de dias. Eu gosto. Olha pra mim, tu acha que eu pareço com o Denis Mallow? Eu poderia ser ator, seria um danado de bom. Só não serviria pra pornô... Não me entenda errado... Não é por aí. É só que eu não acredito em amor na frente das câmeras, e, eu, quando tô pelado, sou como o William Shakespeare. Poesia pura. Olha meu bem, vem cá, eu vou parar logo ali na frente, daí a gente vai pro banco de trás, e eu te ensino o que é poesia. E não me vem com esse olhar de que eu monopolizo as conversas, que não dou espaço pras pessoas conversarem, é que, bom, tu me entende, eu penso rápido, eu tenho que pensar, saca? É isso, ou eu já era. Rápido na cabeça, rápido no gatilho. Não que eu tenha uma arma, é só uma porcaria de ditado. Quando eu era pequeno eu vi filmes de faroeste demais. Todos eram iguais, sempre tinha um babaca com cara de mal que queria enfiar chumbo no rabo de algum índio. Daí vinha um monte de índio à cavalo, e o cara com cara de mau se ferrava. Daí vinham uns amigos deles, com umas escopetas do tamanho de uma perna de zebra, no duro, e chumbavam a indiazada pra longe de lá. Todos eram assim, eu entendo de roteiros, eu seria um puta dum roteirista. Vem cá meu amor...”

Um dia antes.


A carta era bem simples, as instruções eram bem claras. Eu tinha que dar no pé, mas, eu era danado de teimoso. Se eu pudesse esperar mais uns minutinhos, tudo seria diferente. Por que ela tinha que me ligar? Se eu fosse ela eu não me ligaria. Tudo bem, era meu aniversário. Há há há, feliz quarenta e oito anos, bunda mole. Mas, ela, logo ela. Agora, ao invés de dar no pé, eu tinha que ir lá, ver ela, dizer pra ela, fazendo ela sentir meu bafo de café velho, que eu tava indo embora e que ela era a razão de tudo. E que eu amava ela pra cacete. Olha, eu te amo. E pronto, e me ir embora. Nem um amorzinho, nem um chamego. Nada. Se bem... A merda já tinha sido jogada no ventilador mesmo...

...
No dia.

Eu me sentei no sofá, com uma das pernas no chão e a outra por cima de uma almofada. Enquanto segurava a barriga para que não vazasse tanto sangue, olhava ofegante pela janela e para ele ali parado. Tentei me lembrar do gosto do meu sorvete favorito. A dor já era algo além do suportável. Eu já tinha levado um tiro antes.

Fiquei com medo.

Desta vez parecia diferente. Algo estava muito diferente. A dor era doce, bem doce. Eu já estava babando um pouco do meu próprio sangue e, contra a minha vontade, estava emporcalhando o aconchegante sofá da Nádia.

“E agora?...”
“Agora a gente... quero dizer, eu espero.”

...

“Eu vou morrer, tu pode ir fazer alguma outra coisa, tomar uma cerveja.”
“Eu não bebo, e eu tenho de ficar aqui.”
“Tu vai matar a Nádia?”
“É esse o nome dela? Não, não vou. Ela não vai chegar tão cedo.”
“Quando ela chegar, e ver o meu corpo estirado no chão, cheio de sangue aqui, vai ficar puta...”
“Não vai ser novidade...”
“Onde foi que eu errei?”
“A mulher de verde.”
“Eu imaginei...”
“Me faz um favor, pega esse porta-retrato aí pra mim?”

...

Eu me rasguei da foto. Fiquei olhando pra Marla. Ela estava com um pequeno vestido de verão, segurando uma dessas bolas coloridas. Tinha uma borboleta nos cabelos e estava olhando com o sorriso mais maravilhoso do mundo para a câmera. Ela não tinha um ou dois dentes da frente. Parecia um anjo. Era aniversário dela. Dez, onze. Tentei, sem sucesso, não sujar a foto de sangue. O homem se aproximou.

”Filha?”
“Sim... Minha e da Nádia. Se chamava Marla.”
“Morreu?”
“Leucemia.”
“Comemoramos seu aniversário no hospital, dias antes de ela morrer...”

Então a dor aumentou. Fechei os olhos pela última vez e ouvi os ecos das risadas e cantigas de Marla. Nádia que me desculpe.



nota.do.autor: You have always told me youd not live past 25

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Cheiro De Nicotina

As coisas não podia ser piores. Eram meus dois últimos Marlboros e na minha carteira eu só tinha o dinheiro do ônibus. Mesmo assim, peguei os dois e os acendi. Era a última coisa que eu podia fazer. Um para fumar, o outro para ficar ali, queimando no cinzeiro e me fazendo compania, quase como uma vela de sétimo dia. Não que eu estivesse sozinho, ou mesmo morto, longe disso, estava no meio da porcaria do aeroporto rodeado de todo tipo de mundo. Um final de dia atípico, principalmente se tratando de uma sexta.

Trago lentamente e fico brincando de fazer pequenos circulos com a fumaça. Rio de mim mesmo, ainda que de forma discreta, observando no meu reflexo o biquinho ridiculo estampado nos lábios, cuspindo rodinhas de fumaça. Adoráveis porém igualmente ridículas. Algumas pessoas ficam olhando envolta, deve ser inveja, não é fácil fazer as rodinhas, leva anos de prática, e uma enormidade de dinheiro em cigarros.

Foi assim que nos conhecemos.

Mentira. Minto rapidamente para mim mesmo...

Não, verdade. Foi assim, sim. Eu assobrando rodelinhas de fumaça no balcão do bar, uma espelunca no subsolo de um hotel, e ela lá, com uma câmera com uma lente maior do que ela, me fotografando, sem pedir, sem vergonha. Não lembro quem estava mais bêbado, mas, lembro bem de ter me sentido um bocado invadido, usado, praticamente abalado. Nunca tivera me sentido tão bem.

Mas... Jamais ia perceber que era ela. A Ela. A ela que eu escrevia numa agenda velha, denoite, em casa, bebendo vinho do porto, achando que eu valia alguma coisa. Claro que eu levava um sermão lá na redação, quase diariamente, sobre meu pequeno romance e minha frieza. Eu pensava nela, admito, sem problemas. A não ser que eu tivesse de falar sobre ela. Aí era apenas uma amiga, alguém que queria um emprego no jornal e me via como uma ponte até o editor. "O que tu quer com um colunista meia roda?" Claro que nunca perguntei isso, mas, por várias vezes ficou trancado na garganta. Eu? Meia Roda? Não, não. Bom, talvez sim, não que eu tenha publicado nada relevante nos últimos anos... Ou... Bom, também teria de aceitar o fato de que ela queria algo de mim, e aí é uma longa, longa história que eu nunca li.

Abro minha agenda e anoto algumas coisas em dias aleatórios, a mocinha que trás os cafés ali no Café Escuro me conhece bem, quando levanto o rosto e procuro por seus olhos, ela já preenche minha xícara com café preto fumegante, forte, muito forte, passado com pouca água. E claro, sem açúcar. Doze. Doze aviões já levantaram vôo desde que eu chegara ali.

Cada vez que levava a xícara aos lábios, me embreagava do cheiro de nicotina na ponta dos dedos.

"Um jornal? Un periódico, a newspaper... Algum?"

Folha da tarde, datada já do dia anterior, tudo bem, meia noite e cinco, mas, jornal do dia anterior de qualquer forma. Fico mendigando os restos de nicotina da ponta dos dedos enquanto folho pelas páginas lidas e re-lidas. Alta do dólar, baixa da bolsa, alta da bolsa, baixa do dolar, chega um ponto que perde o sentido, a mesma notícia todo dia, apenas invertendo a ordem. Uma maravilha que me mantém ocupado. Isso e o rebolar da moça pra lá e pra cá com o café, servindo as pessoas ali, que reclamam, em maior parte, pelo atraso dos vôos

"Se tem pressa, não sai tão cedo de casa, os vôos sempre atrasam..." Falo baixinho pra mim mesmo e depois anoto num canto de folha, provavelmente o tema da minha coluna para o próximo dia.

Alguém que descreve um romance ao invés de contá-lo há de ser um péssimo amante. A moça rebolando, os dedos perto do nariz, falsamente coçando o bigode, aproveitando o cheirinho do cigarro recém fumado. O vício dos olhos, o vício da alma. Entre a paranóia e a genialidade, prefiro me abster. Viver e dar conta de mim mesmo já é trabalho duro demais. Uma maravilha de coluna para o próximo dia, os gênios, os amantes e os que ficam fumando e bebendo café, geralmente tarde da noite, no aeroporto. Sim, sim. E ela, lá no canto dela. E a moça do café aqui, me servindo e a todo mundo que precisa dela, do seu rebolado maroto e do café na ponta dos dedos, o uniformezinho cliché-marrom... "Achei ótimo, combina com café, chocolate, essas coisas de 'cafés'" Me confessou ela em uma dessas madrugadas. Riqiquinha, ela.

Tento me acalmar, bobagem, estou calmo. Coração palpitando, fôlego prejudicado, mas absolutamente calmo. No rádio toca um samba-bossa conhecido, tento assoviar junto com a melodia, mas, assim como beber e subir escadas, assoviar depois de fumar é impossível. Me satisfço em apenas ficar pensando nas últimas horas ali, sentado. O tempo não passa, claro que não, para quem não espera nada, o relógio tiquitaqueia num ritmo bastante diferente. Aliás, já é horário de verão e eu não me incomodo em arrumar o relógio. Faço o movimento voluntário de levar a mão ao coração procurando o maço de cigarros no bolso de dentro da jaqueta. De novo, me resta só ficar cheirando as pontas dos dedos. Isso e cantarolar a melodia, baixinho, sem que eu possa ser notado. Convenientemente, uma música que ela, A Ela, adorava, e possivelmente deve estar escutando agora enquanto cruza as nuvens.

Mais café. Dessa vez a mocinha para e senta do meu lado.

"Quem era o irmão Henfil. Porque ele partiu?" Pergunta ela. Dezoito? Dezenove no máximo. Barriguinha de desleixe, cabelo preso com uma borboleta negra. Pele combinando com o avental, um tom um pouco mais claro.

"Um safado e um sortudo."

"Oi?"

Bom, eu tentei.

"Era um cartunista e escritor, fugiu da ditadura."

"E porque ele fugiu?"

"Ele não tinha mais o que fazer... Eu também fugi."

"Deve ter tanta história legal pra contar..." Ela sorri da maneira mais doce do mundo.

"Não, na verdade não tenho nada pra contar, acho que foi por isso que me tornei escritor."

"Eu, oficialmente, estou no meu intervalo agora, que tal se eu pegar um café pra mim, preencher o teu e tu me contar um pouquinho desse nada. Tu sempre senta aí, e fica anotando e me olhando, no início fiquei com medo, mas agora estou é curiosa pra saber quem era o distinto homem da mesa número 3"

Ela levanta e vai.

O-fi-ci-a-lme-n-te. Desenhando com a boca pequena cada letra, um espetáculo.

Mas ela volta. Com um cigarro na mão.

"Acende pra mim?"

Eu acendo o cigarro dela, devagar, sem tirar os olhos dos dela. Riquinha... e tão bonitinha. Ela joga a fumaça na minha direção e pergunta se eu quero um.

Eu sorrio.

É claro, eu sempre quero um.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Encantador Sorriso de Adeus


Tosse. Duas, três, quatro tossidas. Então sorri, bastante sem jeito, ajustando o óculos no nariz. Selma me abraçou. Deixou de roer a unha e me abrçou com força, segurou o cheque na mão, amassando-o, e cruzou os braços nas minhas costas. Graças à Deus consegui disfarçar minha falta de sensibilidade ali. Não que eu não me importase, simplesmente não queria pensar nela assim. Me limitava em aproveitar o cheiro de mel que seus cabelos tinham, recém pintados. Poucos fios brancos, muita vaidade.

Deixei o ar e a fumaça do cigarro inundarem meu pulmão, era o prazer da última tragada. Selman nunca entendera esse prazer, tampouco o da primeira, junto com um café fumegante, olhando o prado.

"Acabou o meu cigarro."
"Ainda bem."
"Domingo?"
"Isso... Domingo. Vai ficar onde? Na tua irmã?"
"Isso."
"Eu volto."
"Eu sei. Cuida essa gripe... "
"...Eu volto." Este último bem baixinho, quase inaudível. Apenas pra mim, apenas para me convencer sem deixar cair uma lágrima.

Era redundante. Não fazia diferença onde ela iria ficar, mas preferia que ficasse com alguém. A única coisa que me incomodava eram as mentiras que estava contando para ela.

Então selei meus lábios nos dela uma outra vez e entrei no ônibus. Deixei a passagem na mão do cobrador e ignorei sua pergunta sobre minha bagagem. Eu não tina nada para levar, e isso não interessava para ele. "Melhor achar meu lugar", pensei em voz alta, evitando olhar para as pessoas que já tinham embarcado e se acomodavam preguiçosamente em suas poltronas, enfiando a cara em livros, em pacotes de biscoito.

Quando minha cabeça bateu no banco, suave e confortável, vi que Selma ainda estava do lado de fora, procurando pela minha janela e bastante inquieta. Tentava limpar a boca, lambuzada de creme do café que tomava. "Para meu gosto sair logo da tua boca, meu amor." Tive vontade de dizer-lhe, pelo pequeno buraco que era a janela, quase fechada por uma horrível cortina marrom. Então, por um segundo, fingi dormir. Mas não consegui me convencer disso. Foi aí que Selma me viu. Levou uma das mãos até a boca e me atirou um beijo. Acenei e pisquei com o olho direito, como sempre faço. Dei graças à Deus que o ônibus estava começando a andar.

Logo Selma se tornou bem pequena e difícil de distinguir das outras pessoas paradas junto ao box de onde saíra o ônibus. A rodoviária também foi ficando pequena, a noite era grande, o azul da luz dos carros iluminava precariamente os repetitivos terrenos descampados que costeavam a estrada que ligava a capital, o interior e o litoral. Desisti de ficar acordado e ingenuamente escolhi sonhar. Sonhar com a juventude, com as coisas que já tinham passado por mim.
Era um sonho estranho, estava sentado em uma cadeira em uma sala de cinema, podia ouvir o barulho do projetor bem no fundo, atrás de mim. Uma sala pequena, sem ninguém além de mim. Me assistia tentando ser músico, na frente de um piano, com um violão no colo embaixo de uma figueira, com uma garota de vestido rosa me olhando. Me via jogando bola na rua, machucando os pés e os dedos no paralelepípedo, parando o jogo com os guris sempre que um carro dobrava a esquina, às vezes me impedindo de marcar um gol, o que ganharia a partida, já no fim de tarde, com a avó chamando para entrar, me lavar e jantar com ela e o avô. Logo vieram as imagens do primeiro beijo, roubado de uma garota sentada na praça, acho que a mesma que me olhara tocar violão quando menino. Uma estranha familiaridade, a estranha familiaridade do meu mundo pequeno.

Não que me fizesse acordar melhor, longe disso, mas, sonhar com minha juventude me vez sorrir como não fazia há alguns dias, tirou um pouco do peso dos meus cinqüenta e poucos anos que pareciam oitenta. Noventa às vezes. As pernas ainda estavam cansadas, mais uma vez a tosse, os ombros e a garganta formigando. Um gole de água e tudo melhora, sempre assim.

O cenário que a fresta da janela me mostrava já havia mudado, talvez, sutilmente enquanto eu dormia. Já podia ver algumas dunas e os banhados e arrozais que figuravam a cada quilômetro. O sol do final da manhã batendo no branco da areia me ofuscava os olhos, mas, pra mim, era impossível olhar para outra coisa. Vez que outra surgia uma casinha de madeira, não muito maior do que um banheiro de shopping center. Torta, feita com o que se tem por perto, mas cada uma tinha uma paz incrustada entre a porta e a janela que parecia o ponto de exclamação ao lado da palavra SOLIDÃO, escrita com os dedos na beira da praia.

O choro de uma criança, no fundo, perto da poltrona 46, me salvou da minha imaginação. Era um choro triste e pouco barulhento, mas constante, fácil de ser ignorado, sem picos ou soluços, lembrava um pouco o constrangido choro de um adulto. Não chegava a incomodar, mas era impossível de dormir ouvindo aquilo. Não faltava muito para chegar à Baía de São Simão, já podia ver os barcos dos pescadores ao fundo.

1979. Comprara um chalé lá, na última das três praias que fazem a Baía de São Simão. Barra do Vento. Bem no ano que meu pai havia falecido, parte da herança foi para isso, a outra, aposto que ainda está no banco. Foi o lugar onde Selma e eu dormimos juntos pela primeira vez, depois de um inusitado convite.

"Quer ir pra praia comigo? Só eu e tu?"
"Ah... Tu quer que eu vá contigo?"
"Tu tinha falado pra mim ir sozinho, que eu precisava mas..."

Não lembro do resto da conversa. Mas lembro que foi onde falei para ela, anos depois, já casados, que não poderíamos ter filhos. Ela estava esticada no sofá, na frente da lareira que eu havia construído no verão. Eu estava de costas para ela, terminando de limpar uma taínha que havia pescado. Nenhum de nós falou nada por um longo tempo. Mas os sons ficar muito altos. A faca raspando o peixe, a madeira crepitando. Selma se ajeitando no couro do sofá.

"Vou ligar o rádio, tu te importa?"
"Não. Quer que eu abra um vinho?"
"Quero. Pega as taças?"
"Pego."

Aí entram as mentiras. Na manhã passada havia dito para Selma que iria para o Chalé, sozinho, com a desculpa de terminar um material para um livro que o editor estava me pentelhando para terminar. Queria publicar logo. A tosse volta, mais forte dessa vez. Mas logo cessa. Tiro um envelope do paletó. Tento lembrar quantas vezes havia lido aquelas palavras de despedida do Dr. Amaral. Não eram muito longas, mas, eram carinhosas. Ele sabia que eu não iria me submeter a tratamento algum, e que meu corpo rejeitaria qualquer químico. Naquele momento tudo que ele queria, e podia, era se despedir de mim. Agradecer o companheirismo, a amizade, os favores, ter ajudado a criar o filho dele. E toda uma vida em algumas frases.

As pessoas no banco da frente tentavam lembrar se a frase do filme era "mais fortes são os poderes do homem ou de Deus?". Dos homens, repito pra mim mesmo. Mas, no fundo, de Deus.

"Baía de São Simão e Porto de Cândida. A próxima é a Praia de Santo Antônio e Baía de Santo Amaro." Anuncia solenemente o motorista. Minha deixa.

Os quarenta minutos andando pela beira da praia até a guarita 28 mais pareciam dias. Dias cinzas talvez, ou com pouco sol, daqueles que não sabemos como ou se realmente passaram por nós. Se vivemos eles ou não. Aqueles que olhamos para o calendário e não nos dizem mais do que um número. Poesia. Devo ter escrito uns dez poemas sobre escolher ou pular dias. Mesmas composições sobre a mesma coisa. Um pouco de vida, um cálice de morte ao dormir até que a garrafa termine. Qualquer coisa nesse sentido.

"Eu sou tão insistente em te amar quanto tu é em escrever, sabia?"
"Porque acha que eu me casei contigo?"

Eram sempre variações das mesmas conversas, na cama, com os pés gelados, tentando esquentar um o outro, enroscando os braços e procurando o habitual perfume de jasmim que a cama tinha.

A chave do chalé estava um bocado enferrujada, e a porta comida por cupins. Não havia sinal de arrombamento. Da guarita 28 até ali eram, contados, dezenove passos. Lentos, mais lentos que o normal dessa vez. Era o único ali, no topo daquela duna alta, o mais próximo era pequeno ao ver, pela distância. Tive de forçar um pouco a porta para poder entrar. Respirei aquele ar guardado, com aroma de pouco uso, da forma mais profunda que conseguia sem colocar o pulmão para fora. Já entardecia e em breve o sol iria cair atrás do mar, e eu sabia tudo o que tinha para fazer.

Em cima da mesa havia um bilhetinho escrito por Selma, com sua letra redonda, de menina ainda. Então essa era a desculpa dela para voltar ali para dentro mesmo com o carro já pronto para irmos embora. Sorrio de maneira boba. Talvez ambos tenhamos nossas pequenas mentiras um para o outro.

Acendo um cigarro no lampião e me sento no sofá para tomar o resto do café na térmica que Selma preparou. Do lado coloco um envelope amarelo dos correios, dentro, um poema rascunhado em um lenço de pano. Uma foto minha e de Selma, do nosso primeiro ano de namoro. E por último minha aliança. Procuro por uma caneta e escrevo em cima.

"Para Selma, ou o amor de quem encontrar."

Faço fogo rapidamente na lareira e coloco ali uma pilha de papeis que estavam por perto, anotações, rascunhos e algumas fotos antigas, preto e brancas ainda.

Levanto e fecho a porta atrás de mim. Arrumo o óculos na ponta do nariz e o cachecol que estava pendurado no armário do quarto. Tentei não olhar para a cama ainda feita da última vez que estivera lá, nem para a lareira.

De pés descalços ando até a duna, enorme e imponente, sem nenhuma grama de praia nela. Apenas um enorme monte branco. Fico contando os pássaros e pequenos roedores da areia que vejo pelo caminho. Me sento no topo, na subida, do outro lado da duna, a parte que é mais alta que o chalé. Fico esperando o sol cair e o revolto mar da noite chegar e brindar a praia.

Então o céu ganha uma vermelhidão que eu nunca tinha visto. Talvez demorasse uma vida inteira para contar todos os tons de vermelho que eu podia ver ali. Difusos por pequenas nuvens brancas, pouco densas, pequenas manchas no céu. Logo minhas pernas ficaram tão pesadas quanto minha respiração, veio o sono e o conforto de deitar na areia morna.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Uma frente fria vinda do sul


Uma frente fria. Casacos e cachecóis na rua, olhares austeros e impressionados perambulando com direção certa no passeio público. O visível deslumbre do narrador do rádio me irrita. No banco do passageiro, suco, uma baguete e um maço de marlboro vermelho. Trânsito lento. Engarrafamento da Mostardeiro até a Anita Garibalde. Lá em cima na independência também, bem possível. Dez e quinze, oito graus.

Gravata no pendurador de chaves. Chave no cinzeiro, bituca de cigarro pela janela. Pão na bancada da cozinha, Dr. Spiegel do lado de fora, Humberto ali dentro. Luzes ligadas fazendo sombra na pilha de contas esperando preguiçosamente serem pagas. Tâmara dormiu assistindo “Bande à part”. Me casei com ela por que ela queria fazer na Rua da Praia o que eles fazem no Louvre. Nunca fizemos. Fizemos outras coisas, mas, continuamos falando até hoje daquela bobagem que nos atraía. Um desejo que teima em não se desfazer. Tiro a franja do rosto dela. Não, não, melhor nem encostar nela. Melhor assim, enrolada em um cobertor. Encolhida. Rosto amparado pelas costas de uma das mãos.

Ligo o chuveiro, não lembrava de como a água quente batendo nos azulejos frios fazia tanta fumaça. Tiro a roupa tentando não me envergonhar do que vejo no largo espelho. Catarina Vilas, potencial suicida. Sr. Arnaldo, problemas com solidão. Aldo, obsessivo. Não, nenhum deles com problemas de verdade. Libido, quando foi que comecei a perder a libido. Vinte de março. Oito de novembro. Não sei. Não sei de nada. Cabelo branco, quando os cabelos do peito começaram a ficar acinzentados. Foi aí. Banho quente, corpo frio. Corpo quente, água fria. Fim do banho.

Julie. Abro a porta do quarto dela com cuidado. Acordada. Sentada na cama olhando uma tela que ela pintou no teto.

“Tua mão dormiu na sala. Melhor deixar ela lá, né?”
“Essa tela lembra Rohmer ou Rembrandt?”
“Posso sentar por aqui? Parece mais com algo do Márcio Galo”
“Não gosto dele. Posso me sentir insultada com essa, sabia? Ah, se acha que deve, senta.”

O nariz da mão, as minhas mãos e olhos. O jeito de menina grande.

“Como foi o dia?”
“Possivelmente igual ao teu”
“Gente maluca? Bebida e insensatez? Baguete e suco?”
“Por aí. Troca a baguete por um namorado broxa e o suco por uma coca-cola e tamos quites”

Me sento ao pé da cama, junto aos pés dela, mas, no chão. Deixo a cabeça cair sobre o colchão. O silêncio. Nossa respiração funda e pesada. Somada. Fumantes. Da janela as luzes de uma roda gigante invadem o quarto. Parque xinfrim. Elas vão se apagando lentamente, como se um homem baixinho, com bigode todo branco, macacão azul e boné estranho as removesse uma por uma, as lâmpadas na roda gigante. Logo elas se apagam. Pego no sono.

Versa-me


E você aí, se apoiando nos cotovelos. Me olhando, jeitinho de mulher moderna, independente, vagabundinha na cama, péssima cozinheira e anfitriã. Apartamento vazio, disco do Tom Waits no tocador de LP. Porra um toca discos, nenhum CD, tudo LP, só pra fazer gênero de mulher retro, mas no fundo uma reacionária de direita. Que ouve Tom Waits. Uma voz familiar, Rain Dogs e uma noite fria e nublada, um céu da cor do rótulo do Johnny Walker Black Label, mas nem gosta de uísque, deve ter comprado numa viagenzinha barata pra Rivera. Cama bagunçada, aposto, desfeita há dias e nenhuma vontade de arrumá-la. A cara marcada, advogadazinha de merda, tem toda pinta. E toda grana. Aposto. Uma advogada que ouve Tom Waits, que merda. Cartão Visa international e um brinde das milhagens da Varig na bolsa. Só pode. Amigos advogados, funcionários públicos, uma agenda lotada deles. Umas foda-fixa meio bagaceira e bem mais-ou-menos, um careca de barba rala, todo metidinho a artista. Brocha sempre que lembra da ex-mulher. E tu vem com sacadinhas polêmicas e irônicas, tua pinta. Tua boca, ninguém deve gostar dela, com esse batomzinho vermelho, parece até uma puta que tava fazendo programa com um palhaço, um palhaço fodido demitido de um cirquinho de quinta categoria. É, bem tua cara.

Lavo as mãos, arrumo o rabo de cavalo e saio do banheiro.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Quase quinta-feira


Mordeu o travesseiro com a mesma força com que apertou os olhos. Uma fútil tentativa de se desvencilhar da paranóia. Dentro de si, a nostalgia do gosto de uma bala de coca-cola, comprada na venda ao lado da casa da dona Lola, quase pode sentir o peso das moedas na mão, troco dos cigarros da avó, Hitz, Plaza, Parliament, já não tinha certeza. Segurou o peito e se virou de lado, em posição fetal.

“Vem pra cama, por favor.” Baixinho, sussurrando as vogais e alongando os sons nasais.

Olhou para a bundinha e o corpo nu dele na janela, sorriu achando que elas pareciam duas bolachas Maria se abraçando, Maria como sua irmã, que pedia sempre para a mãe coçar-lhe as costas, bem no meio, onde ela não alcançava, simplesmente para ganhar um pouco de carinho, e deixar o irmão enciumado.

Os dedos. Os dedos magros dele balançavam o cigarro de uma forma bastante delicada, tudo nele era delicado, os beijos, os carinhos. Até o rosto, levemente feminino, com os cabelos caídos por cima, o semblante perdido, contornado pela lua, o atraía.

...

Da janela olhei para a rua, torcendo para que ela me chamasse, mas nada ouvia além do barulho usual, carros, gente falando no telefone, néon brega vibrando. Tentava ler meu nome na boca das pessoas, mas não conseguia. Formava ele com as letras das placas dos carros, mas, isso não me levava a lugar algum. Dois. Quatro cigarros acesos um com o outro. Hábito ruim, coração bom. Sempre zombo de mim quando estou nervoso. “Arrumou a merendeira para ir para a faculdade, meu amor?”. “Sim, querido, uma garrafa de uísque, um pacote de ruffles e dois maços de marlboro”. Uísque. Ainda me sentia anestesiado por ele. Um pouco enjoado também.

“Quantas vezes eu prometi que não ia mais trepar bêbado? Sempre fico enjoado...” Um pouco ríspido, sem pensar.

Não ouvi resposta além de um leve ronco dele, os cigarros haviam acabado, ao que fui perceber quando fui pegar mais um. Não sei quanto tempo fiquei na janela. Também não sei quanto tempo fiquei olhando ele dormir. Só lembro de ter parado quando ficou frio.

Com carinho, para Bruno Polidoro.

Tom e o pó de estrela

“Lembrei. Lembrei da Jaqueline, da Sandra, da Talita e da Laura. Por um instante pude dar nome ao gosto de cada uma, melhor que isso: Escondi no meu quarto a calcinha delas. Noites de solidão, meu rosto afogado na seda, lycra, algodão de uma noite com duas semanas de prazo de validade vencido. Mas que o presente já se fez futuro, entende, o que eu to falando? Sempre que me masturbo pensando em alguma delas acontece isso. Vícios, uma cara trota, um pudim de cachaça e todo o sono que a bebedeira pode nos brindar. Sacou? Bebedeira. Brindar. E todas essas obviedades que fazem nosso dia-a-dia palatável. Um, se tivesse que escolher um beijo... (uma pausa dinâmica e enfática.) Seira o da Lia. Claro que esse maço de cigarros e o uísque me ajudam a admitir isso. Não, não vou me lembrar amanhã, não preciso, não vai me dizer nada. Um breve silêncio...... Ina, que mulher deslumbrante, por duas semanas guardei a calcinha dela na fronha do meu travesseiro. Duas porcarias de semanas. Mas era uma mala, uma bobinha.”

O ouvi com atenção, rodeando minha aliança no dedo. Bebericando do copo entre uma frase e outra. Fiz o sinal de que deveria ir embora e pensei se deveria deixar meu moletom ali, sei que ele não levantaria da rede nem pra abrir a porta para mim. Acabaria dormindo ao relento, mas havia ainda meia garrafa, e todas as viagens no tempo que alguém bêbado consegue ter, tempo, espaço, um gato preto olhando do 504, no prédio da frente. Tom tinha toda a companhia de que precisava. Por uma noite me convenceu de que a memória era toda a viagem no tempo de que ele precisava.



Para Tom Saavedra

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Amargo


Avistei de longe suas bochechas redondas. Titubeei por alguns instantes, devo ter ficado branco, como quem foge do sol. Estava devolta à Porto Alegre fazia alguns dias apenas, há muito tempo não andava pelo Moinhos, por aquelas ruas que sabiam todos os segredos do meu início de idade adulta. A noite em que eu e Pablo dormimos na rua, ou quando eu, ele e Hélio saímos andando, corações partidos nas mãos, garrafa de uísque em punho, esbravejando as bobagens dramáticas que nos eram tão próximas, tão pano de fundo de nossas vidas naquela época. Amargo, com um corte de cabelo mais sóbrio, uma barba distinta, elegante. Com certeza eu estava diferente. Mas lá estava ela, parada na esquina de sua casa. Admirando algo.

Minha calça xadrez desbotada me entregava fácil, minha camiseta branca, justa no corpo magro também, mas eu não havia mudado muito minha fisionomia, como muitos dizem, “Deves dormir num potinho de formol, poeta.” Assim que me olhasse iria me reconhecer. Vinte anos separam uma vida da outra, com certeza, mas, não há tempo que separe o que está dentro de nós. Lembro de ter pensado numa conclusão meio pateta e apressada. Uma justificativa para mim mesmo para poder me sentir assim ao vê-la. Achei que um dia iríamos parar de fumar, mas ambos estavam segurando um cigarro, casualmente na mesma mão. A esquerda.

Quando me aproximei ela virou, um pouco assustada. Ainda era muito bonita, mas tinha no rosto marcas profundas de expressão. Se vestia da mesma forma despreocupada, o cabelo continuava comprido. Tentou sorrir de maneira honesta, mas, não conseguiu, fingi que não dei bola.

“O jardim continua bonito. Tu ainda mora aqui...”
“Não, quando a vó faleceu a gente vendeu. A mãe foi morar com o namorado, eu e o mano já estávamos morando fora.”
“Nunca vou me esquecer de ti dizendo que...”
“Olha, não fala, não tá vendo que não é um bom momento?”
“Desculpa... Faz pouco tempo que eu voltei e eu...”
“Eu sei, eu te vi num café aqui perto esses dias, ontem eu acho. Tava com uma loira muito bonita junto. Tua mulher?”
“Não, minha afilhada.”

Sentei na frente do portão. Como fizemos da primeira vez que conversamos. Ela hesitou, me olhou com uma cara feia, como sempre fazia quando eu era inconveniente, mas, cedeu à lembrança, acho. Não sentou na minha frente, encravada no meu peito entre minhas coxas, mas, ao meu lado, deixando a saia cair por cima dos joelhos. Mas, ao menos sentou-se perto.

“Depois de um tempo não tive mais notícia de ti, poeta.”
“Acabei sumindo... O homem-ilha, lembra?”
“Assim que te chamavam na faculdade, né?”
“Pois é... Nossa, me livrei daquele suplício há tanto tempo.”

Então levei mais um cigarro até a boca, procurei displicente por um isqueiro até que ela sorriu e me passou o dela. As mãos estavam marcadas por algumas manchas, não eram mais lisinhas e macias como eu lembrava, estavam tão diferentes que por alguns segundos, enquanto o calor percorria da ponta ao filtro do cigarro, me perguntei se algum dia elas foram como eu lembrava, ou era apenas mais uma das lembranças que simplesmente tinham brotado na minha cabeça.

“O isqueiro, pode me devolver?”
“Lembra, quando eu te disse que tinha algo meu que seria teu pra sempre?”
“Cacete. Deus lá sabe quanto tempo sem se ver e tu continua o mesmo, né?”
“Desculpa, eu...”
“Meu deus, até se desculpando por nada ele continua, tu nunca vai mudar, né?”
“Tu continua falando né pra caramba.”

Então ambos sorrimos de forma pouco amistosa, sentindo um pouco do espinho em cada pequena provocação.

Queria lhe falar da minha vida. Dos livros, da Europa, das festas e bebedeiras intermináveis. Dos meus romances e do meu inevitável divórcio. Queria rir e lembrar de como era rir ao lado dela. Contar detalhadamente como era bom transar com ela na banheira, e como eu guardava comigo, como se fosse uma foto, a pequena cena dos nossos corpos enfiados na água, lutando tortos por um espaço, mas, principalmente, como a luz das velas pareciam um sol refletido na água. Minha cabeça pesando sobre os seios fartos dela, macios e sempre cheirosos. Minhas mãos caçando algum lugar entre suas coxas. Mas acima de tudo, aquele silêncio e as velas. Um certo desconforto, uma certa intimidade roubada, como se não tivesse lugar no mundo. Excertos de algo que não poderiam estar ali.

Não, não podia lhe falar nada disso, não faria nenhum sentido. Eu ainda tinha a mania de flutuar no tempo, de viver cada momento do passado no presente, como se deles dependesse o futuro. Para ela o tempo corria. Seu corpo acusava isso.

Meu silêncio e o cigarro não fumado, queimando o filtro, entregaram meu momento de devaneio.

“Que gosto amargo que eu to na minha boca.”

domingo, 13 de abril de 2008

O Pêssego


Mauro amava Elza. Elza amava Mauro. Até onde ele especulava. Quarenta e oito minutos. São Leopoldo até Porto Alegre. A porcaria do trem lotado. Ele estava feliz, havia preparado uma surpresa para ela. Algo que, na cabeça dele, a faria se apaixonar perdidamente. Se não fosse quem fosse, se não fosse Ela. Elza, do beijo magnífico, sem muita língua, mas com a boca toda, as mãos perdidas procurando um lugar, um ninho, uma pousada em qualquer canto das costas, da cintura.

Mesmo com o trem chacoalhando, tentou escrever um poema no caderno. Puxou com cuidado de dentro da mochila uma caneta, e virou algumas páginas procurando por algum lugar em branco para escrever, ou mesmo um lugar rabiscado, onde pudesse escrever por cima. Algo confessional, lúgubre. Palavras soltas tentando traduzir aquela sensação de estrada sem volta. O adolescente sentimento, ou impressão, de ter trocado a saúde física e emocional por lampejos de criatividade que não o levaria à lugar algum. Ao menos é o que seu pai dizia, nos jantares de quinta-feira principalmente, enquanto ambos comem em silêncio a comida feita pela irmã.

Deixou o poema de lado, ficou deslumbrado ao reconhecer a canção que os alto-falantes do trem estavam jorrando – My Way, Frank Sinatra – cantou junto. Sozinho na verdade. Não passava de uma versão orquestrada, um arranjo que lembrava algo do Benny Goodman – que na verdade se chamava Benjamin – da época do sexteto.

”Farrapos” anunciava o maquinista – Era assim que chamavam eles ainda? As pessoas que dirigiam o trem?. Então abriu a mochila e verificou mais uma vez o presente. Um sutiã preto, com laços roxos no topo de cada bojo e um no meio, entre os dois. Junto, preso por um clips, seis páginas rasgadas, tiradas de um livro de contos do autor favorito. O esquerdo, gostava mais do seio esquerdo, sempre tivera essa impressão mesmo quando nunca os tinha visto.

Mas era Elza. Colocaria o sutiã, reclamaria de como apertavam-lhe os seios – ao que ele mentalmente retrucaria “quem mandou ter peitos tão grandes” – e o agradeceria com uma trepada fria, enquanto as páginas se deixariam amarelar em algum canto da bagunça elegante e distinta que era a escrivaninha dela.

sábado, 12 de abril de 2008

Agosto



Então abriu mão da sobriedade como nunca fizera antes. Desejou de forma ardente algo que não sabia dizer o nome e pouco conseguia sentir. Pediu uma vodca com tônica para o barista invisível no balcão de seu apartamento. Sentiu-se acolhida pelo barulho da tevê – um filme antigo com Veronica Lake – e uma canção insossa de mpb que o rádio teimava em tocar.

Olhou para as próprias mãos, segurando o copo, e as achou velhas, gastas, tentou dizer algo de bom para si mesma, na esperança de reverter aquele asco que sentiu ao se perceber, mas, a voz tão rouca a fez hesitar de forma infantil. Então lembrou-se da infância, em Montenegro, interior do estado, casa grande, quase uma chácara. O pomar. Adorava o pequeno pomar. Comia as maçãs, suculentas, com gosto, com o prazer de quem não sabe outra coisa da vida. Adorava tanto aquelas árvores que as incorporou em sua história, deu-as nomes, pendurou nelas todos seus sutiãs quando um namorado – um baixinho metido à besta da capital – lhe falou dos acontecimentos do Maio de 68, um pouco antes de fazer 16 anos. Deu. Deu empoleirada em uma das árvores num fim de tarde de domingo e, na mesma árvore, meses depois, trocou os mais gostosos beijos com uma prima, os mais gostosos beijos que podia lembrar até hoje.

Mas estava ali, de camisola, sob uma luz tétrica de Agosto, daquelas que só Porto Alegre oferece, fatiando uma bucha e meia com um cartão vencido do Banco do Brasil.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Não canta... por favor...


Então a beijei mais uma vez, e outra e mais outra em seguida. Não deixava que seus seios ficassem longe do meu peito, tentava impregnar meus pulmões com aquele perfume barato que ela costumava usar e guardar uma impressão delicada do seu rosto colado no meu. Não. Não era tão bonito, ou romântico assim, não poderia ser, nada mais conseguia ser. Éramos apenas duas pessoas se beijando, cada uma por seus motivos, fingindo coisas diferentes e mentindo da forma mais tola, com nossos corpos e copos de vinho, algo que havíamos jurado esquecer e deixar de lado.

Ajeito minha saia e a observo, alguns passos já distante, tentando buscar alguma ternura no seu olhar.

Não foi com um ramalhete de flores que cheguei na casa dela, nem com boas intenções. Estava ali simplesmente pra quebrar mais uma das tantas promessas que havia feito para mim mesma. Podia mentir à vontade para mim, e para ela também, ao passo que, nenhuma de nós estava mais se importando com aquilo ali. Ao menos é o que tentávamos nos convencer.

Paranóia, pura paranóia.

“Um café, Déia, tu quer um café? Eu faço um pra nós.”
“Tu nunca foi boa em passar café...”

Não conseguia entender de onde vinha essa vontade de ser arisca com ela.

Ângela rebola para a cozinha com duas xícaras na mão, olhando volta e meia para trás para me atirar um sorriso encantador. Eu paro, olho as fotos de família pela sala, troco a estação de rádio e me sento no sofá. A barra da minha saia fica caída pelo joelho. Sempre achei meu joelho um bocado bonito.

Da cozinha ela canta, com a voz de anjo desafinada. Um belo encanto sem valor algum. Odeio quando ela canta, é como um golpe baixo, bem na boca do estômago.

“Mas nada vai conseguir mudar o que ficou, quando penso em alguém só penso em você, e aí, então, estamos bem... Como era o resto mesmo, Déia? Nem desistir, nem tentar? Algo assim não?”

Quando ela espiou pelo vão que ligava a cozinha à sala, eu já não estava mais lá.




n.d.a: Coup de coeur

Como se fosse cereja...


Jezebel senta num canto da sala, apesar de ajeitar no chão seu vestido preto curtinho com muito zelo, não dá bola para a alça que cai do ombro, revelando o topo do seio. Ela sorri para a janela e para a noite de céu fechado, e bem como os pingos de chuva que caem aleatórios, de seu rosto caem algumas lágrimas. Ela sorri chorando, como sempre disse que faria sempre que pensasse nele, como uma boa menina apaixonada cheia de promessas, mentiras e elogios. O olho azul escondido entre os cílios e o rímel pouco se difere da lua azulada por holofotes de um hotel ali perto. Um canto de apartamento, um pedaço de lua, lágrimas e promessas quebradas, o cuidadosamente decorado universo de Jezebel.

De um abajur em pedestal baixo vem uma luz verde e forte que banha toda a sala, o silêncio é impecável, dispersado apenas pelo bater da chuva no vidro da janela, tirando a atenção da menina de vestido no chão, enquanto ela arranca pedaços de papel de parede e olha para uma foto dela com um menino, no alto de uma estante de livros e fotos em preto e branco de pessoas estranhas. Ela gosta de tirar fotos de estranhos na rua, mendigos, velhas senhoras, homens elegantes, cachorros. E ela gosta do menino na foto no porta-retratos mais alto.

Jezebel tem as mãos molhadas, um pouco de chuva, um pouco de lágrimas. No chão, junto com o vestido, caem tiras e pedaços de papel simples e azul, revelando partes machucadas de uma parede velha e amarelada, de madeira e com vários buracos de cupim. Os buracos são como se fossem machucados, marcas propositais, deixadas por alguém, como se precisassem estar lá, para serem lembrados, para remeter a algo.

No centro da sala um tripé solitário segura uma tela em branco, de papel macio e sedoso, com uma textura de veludo, esverdeado por causa do abajur. Perto dele alguns potinhos de tinta e pincéis. A chuva aumenta, o vento também. As cortinas roxas dançam um balé imaginário, coreografias sincronizadas de cada lado de uma janela aberta e chorosa. Balançam em uma mistura de ritmos frenéticos e suaves, tocando o chão e o teto, por vezes os dois ao mesmo tempo. Dançando como Jezebel e o menino jamais dançaram, como jamais quiseram, mas, sempre sentiram falta. O jacquard felpudo da cortina derruba um dos potinhos de tinta, e ela escorre pelo chão até tocar os dedos de Jezebel, que, enquanto aumentam as lágrimas, troca seu olhar de tristeza por um de ansiedade, se levanta e anda de um lado para o outro.

Tinta voa pela tela, sem analogias com pássaros, ou com liberdade, apenas voa pela tela, marcando e misturando, criando algo em cima do que já era, movimentos perdidos e interrompidos, violentos de natureza mas de resultado suave, até que um vaso quebra, a cortina bate, e ele cai, nunca fora do tipo distraída, até aquele momento. Ninguém poderia explicar aquilo para ela, o que era sua respiração ofegante, o que eram as manchas na tela, aqueles cacos no chão trouxeram calmaria, no lado de fora a crescente tempestade cessara.

De um salto o que era sol virou nublado, o que era nublado virou chuva, chuva tempestade e de tempestade o silêncio.
E Jezebel parada, de frente pro quadro, alça caída e unhas dos pés pintadas de preto, uma correntinha no tornozelo direito. O som das cortinas parando de dançar faz coro com duas batidas na porta. Na correntinha diz “cereja”.

Do outro lado da porta o menino da foto escora uma mão e diz “Sou eu”, como se a familiaridade da voz fosse o suficiente, se transformasse em uma chave. O silencio repousa sobre todos os objetos como um lençol jogado com desdém sobre uma poltrona feia.
“Eu voltei” diz ele, pingando, embrulhado em uma jaqueta de couro. Jezebel senta sobre os joelhos, tapa a boca, tapa os olhos, tapa o peito, tapa os ouvidos e quando se dá conta de que não poderia tapar todos ao mesmo tempo engatinha até a porta e senta de costas pra ela. Do outro lado o menino escorrega pela porta e senta de costas também. Jezebel brinca com a correntinha do tornozelo e ele acende um cigarro.

Delicadamente ela quebra o silêncio. “Não gosto quando tu fuma”, dito com simplicidade, beirando um mio de gato pequeno. “Só fumo quando estou triste, quando tenho saudade” intercalando uma frase com uma tragada de cigarro. “Eu não mandei você ir embora...” ela fala brincando com a correntinha, mas com mais firmeza na voz.

Ele hesita por um par de segundos e com a respiração pesada e o cigarro queimando nos dedos ele diz, “Acho que gosto de ti”. Jezebel tira a correntinha de um tornozelo e põe no outro, depois de reunir força pergunta, “Acha? Quando vai saber?”. Prontamente ele responde enquanto acaricia a porta como se fossem as costas dela, “Quando o frio desaparecer... Lembra?”

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Declarações de Amor recicladas

Senti uma dor incomum. Estávamos eu e ela deitados na cama do meu quarto ouvindo música. A dor eu não sei de onde vinha, talvez da intimidade. Talvez do pavor das coisas que sentíamos e nos espreitavam. O quarto estava propositalmente mal iluminado, ela ainda tinha vergonha do seu corpo, e eu ainda teimava em fechar os olhos quando mais a sentia perto de mim. Estranhamente sentia como se tirasse uma foto dela toda vez que eu piscava os olhos. Nossos perfumes se misturaram após o banho, junto com o cheiro das velas. Alguma coisa, além da dor, perambulava ao redor.

Ela se aconchegou em cima do meu peito e deitou a cabeça no meu ombro, esperando um cafuné, me olhando com um sorriso terrivelmente encantador, feliz e genuíno. Dancei minha mão por sua barriga e então repousei-a em sua coxa. Pelo que podia ver, ela também sentia alguma espécie de dor. Uma dor aconchegante. Um bocado diferente da minha, que latejava. Era incômoda, mas, não parecia ser em lugar algum, uma dor que não podia ser tocada, mas era facilmente sentida. Não é a solidão que dói, o que dói é a afronta à solidão. E claro que aquele carinho e ternura, um quase sensual jogo de intimidades, feria gravemente minha solidão. O verdadeiro ninho do meu amor.

O prazer, por outro lado, valia a pena. Lembrar daquilo, dias depois, meses, anos, seria uma das melhores sensações do mundo. Isso que não havíamos feito nada ainda. Memórias teimam em durar mais que orgasmos.

“Me beija...?”

Então ela sorriu, gozando por dentro de um sentimento de cumplicidade ingênua e me beijou. Ao que logo parei.

“Me beija de um jeito que eu vá lembrar pra sempre.”

Ela hesitou, ficou vermelha e se escondeu no meu pescoço.

“Não sei se consigo...”
“É mais fácil que parece.”
“Porquê?”
“Experimenta.”
“E eu não tava te beijando agora mesmo...?”
“Não, bobalhona. Me beija pensando nisso que eu falei. Em um beijo que eu vá lembrar para sempre.”

Ela tentou denovo, apertou uma das mãos atrás da minha nuca e deixou o rosto pressionar levemente o meu. Aos poucos foi tocando todo meu corpo com o seu. E, antes que pudéssemos pensar em outra coisa, algumas peças de roupa estava caindo pelo lado da cama.

Então abri os olhos, enquanto procurava algum lugar pelo pescoço dela que me excitasse com sua textura, perfume, jeito. Não podia distinguir muita coisa, parte dos cabelos jogados à minha cara, pedaços claros de pele, e tudo aquilo que na maioria das vezes foge nossa imaginação quando pensamos no mais apaixonado e cálido beijo. Havia uma vulgaridade qualquer, que, faz parte natural de qualquer contato humano, e que tornava aquilo ali algo especial de verdade.

“Tu fica comigo essa noite?”
“A noite inteira.”
“E quando tu for embora?”
“Tu pode lembrar do beijo e de certas coisas boas.”
“Muito cedo... Prefiro ainda sentir teu gosto, ele ainda é melhor que uma lembrança.”
“Mas, o que acontece se eu ficar?”
“Eu não sei. Talvez tenha um pouco de medo de descobrir, mas...”
“Acho que medo não é bem a palavra, mas sei como é.”
“E se a gente ficar simplesmente fazendo amor o tempo todo, sem pensar no mundo ali fora, nem no tempo ao nosso redor?”
“Eu gosto dessa música... Talvez seja uma coisa boa.”
“Seria muito boa, gosto de sentir tua boca, teus seios, teus olhos.”
“E gosta de fazer amor.”
“Sim, tu não?”
“Claro.”

Ela parou um instante para me beijar rapidamente. E continuou.”

“Mas não acha estranho? Essa frase? Fazer amor?”
“Acho... Tem algo de estranho nela mesmo.”
“E as pessoas que transam sem se amar? Dizem o que?”
“Sexo. Acho...”
“Tão vulgar...”
“Algum problema com vulgaridades?”
“Não. Não sei. Eu acho que eu imaginava que as coisas iam ser diferentes quando eu crescesse. Não tinha a menor idéia de que a vida era assim.”
“Achou que não existia sexo sem amor?”
“Se soubéssemos que seria assim, talvez ninguém teria coragem de crescer.”
“Essa música é tão bonita... Engraçado ouvir essas canções de amor e falar dessas coisas.”
“Talvez eu devesse colocar Paint a vulgar picture...”
“Não, daí cada um vira pro lado e dorme no seu cantinho dolorido. Smiths às vezes não funciona para isso.”
“Sexo, amor, ou cantinho...?”
“É um convite?”
“Acho que não. No fundo nenhum dos três. Acho que prefiro ficar te beijando.”
“Porquê? Que tem demais em me beijar?”
“Não sei.”
“Sabe sim. Fala.”
“Bom... É macio.”
“Lábios são geralmente macios, não?”
“É... vai ver são.”
“O que houve? Parece que tu tá falando comigo olhando pro alto de uma montanha.”
“A convivência te fez gostar de falar por metáforas?”
“Ai, como tu é bobo.”
“Metáforas, poemas e mentiras.”
“O que que tem isso?”
“São as minhas ferramentas de trabalho.”
“...Memórias, faltaram as memórias.”
“...É... Mas não. Essas são uma droga de uso pessoal apenas.”
“Eu não gosto de mentiras.”
“Nem eu. Mas, a gente vive no meio delas.”
“Como assim, o que tu mentiu pra mim?”
“Nada. Mas a gente sem querer mente pra si mesmo, que uma coisa é outra e... Que gosta de uma coisa, que não gosta de outra.”

Ela ficou me olhando desconfiada da minha teoria.

“Olha, não sei te explicar. A gente mente pra si mesmo, por exemplo, que não ama uma pessoa, pra se proteger. Ou mente pra si mesmo que a ama simplesmente para cuidar da nossa solidão.”
“Eu não consigo fazer isso.”
“Então, tu me ama?”
“Quem sabe...”
“Tu precisa me amar?”
“Não, eu acho.”
“Tu tá começando a entender.”
“Mas eu quero te amar. Ou não, vai ver te amar é o começo do fim.”

Ficamos um bom tempo nos beijando.

“Não tem como esconder, não é?”
“Tem uma hora que a gente cansa de esconder as coisas.”
“Sozinha é mais fácil. Mas odeio ficar sozinha, não sei como tu gosta de mim, não me agüento às vezes.”
“Acho que não. Esconder de nós mesmos é mais complicado.”
“E se for verdade? E se eu te amar, e se tu me amar?”
“Uma hora a gente descobre sem querer.”
“Como assim...?”
“Uma hora tu pode sentir minha falta, não apenas saudade.”
“Tem diferença entre saudade e sentir falta?”
“Toda diferença do mundo.”
“...Que é...?”
“Com a saudade a gente consegue conviver, e, uma hora ela simplesmente desaparece, deixando pouco rastro.”
“E sentir falta?”
“Sentir falta é algo além de uma metáfora, como a água para o deserto, ou a noite para as estrelas, e todos esses jogos literários tão fáceis. Sentir falta é como uma dor ou uma doença. Pois no fundo não precisamos de nada disso, mas, mesmo assim sentimos falta. E isso é o amor, de certa forma. Uma amor não lá muito saudável, mas, amor... Sentir falta de algo mesmo sem precisar.”
“Isso é um sinal de amor?”
“De certa forma sim. Mas tu pode não querer nada meu, muito menos sentir minha falta, ou saudade.”
“E como que a gente tem certeza?”
“Aí que as memórias teimam em aparecer...”
“Que ruim...”
“As coisas são assim... Na maioria das vezes.”
“E se eu sentir tua falta e te amar e tu me amar, e se te beijar ainda for a melhor parte do meu dia?”
“Então a gente torce para que seja amor. E que mesmo na solidão isso tudo, o que se sente e o que se lembra, faça algum sentido.”
“Aí alguém pega o telefone e liga pro outro, só pra ouvir a voz, não diz nada e então desliga.”
“Claro... E é sempre bom quando é assim.
“E se não for amor, é o quê?”
“Pode ser a solidão se virando na cama, nos provocando de alguma forma que é ruim de agüentar sozinhos. Se chama paixão.”
“Achei que paixão era outra coisa.”
“Paixão pode ser qualquer coisa.”
“Pode ser isso?”

Ela desabotoou minha camisa e percorreu com os dedos o suor do meu peito e da minha barriga. Estava muito quente, aquele início de noite parecia uma noite de verão perdida no meio daquele inverno todo. Com pequenos beijos ela percorreu minha pele, desviando dos tufos de pelo no meu peito e em cima do meu umbigo.

“Diz que me ama, diz alguma coisa pra mim?”
“Tu é linda.”
“Não, eu quero ser algo melhor que linda.”
“Ahn?”
“Eu quero que tu lembre de mim de um outro jeito.”
“E se tu estiver do meu lado? E se eu não precisar lembrar?”
“Não, tu nunca ia conseguir viver com uma mulher que não quer viver todos os dias. Às vezes eu quero dormir, se pudesse, com certeza não viveria todos os dias, isso cansa.”

Rolei para o lado puxando ela para cima de mim. Poderia ficar ali beijando-a por horas. Ou olhando-a dormir.

“Porra. Diz que me ama.”
“Eu não sou bom com declarações de amor.”
“Mas eu sei que tu é.”
“Eu não sei dizer isso. Mas, se eu te faço sentir, porque eu preciso dizer?”
“Não é o que eu sempre te digo?”
“É o que a gente acaba vivendo.”

Então nos calamos uma última vez e deixamos nossas mãos se tornarem olhos, explorando e conhecendo o corpo um do outro. Deixamos nosso suor se tornar uma espécie de sangue que nos unia. E com um longo beijo dormimos abraçados. Por um instante a dor havia passado para só voltar a aparecer na manhã seguinte, quando estivesse sozinho com um perfume estranho, e uma voz suave procurando por mim dentro de um quarto vazio e Mal iluminado, com alguma roupa especialmente bonita pendurada na arara e uma foto dela comendo pão de queijo na mesa de cabiceira.

E não esqueça de desligar o abajour antes de dormir




As cinzas de cigarro formam desenhos abstratos dentro do enorme cinzeiro verde musgo. Procuro uma camisola para vestir enquanto observo a bagunça criando um abitate natural nos cantos do quarto. No rádio, a sonolenta e distante voz do narrador do programa de blues, a madrugada blues da rádio universitária. Fico pensando, mais um cigarro antes de dormir e pronto, já posso me ir deitar. Não, mais um cigarro me deixaria acordada, já foram cinco. Tanta nicotina no corpo só pode ser o que está me causando essa insônia. Uma e tanto, me sinto cansada, um bocado sonolenta. Mas, sempre que tento deitar o sono vai embora. Sinto meu coração palpitar, é péssimo. Se não fosse o rádio, poderia ficar ouvindo horas o barulho do meu coração batendo na cama. A nicotina, só pode ser a nicotina. Deveria fumar menos, deveria me exercitar mais, sentir menos e amar menos, tudo pode, mas com moderação. Mamãe sempre dizia isso.

Ler. Ler ajuda.Acho que já troquei de lugar no quarto umas seis vezes. Sento na cama, no chão, na poltrona. Às vezes acho que esse papel de parede me irrita, azul, um azul tão claro e neutro, sem personalidade. Nada a ver comigo. Essa euforia, essa tristeza, porque as coisas tem de ser assim? Acho que se eu tomar um café eu posso ficar acordada até amanhã de manhã, e então, quando o sol raiar poso tentar dormir, quentinha, no meio de um recorte de luz do sol, desenhado pelas árvores, jogado displicentemente na minha cama. Não lembro quando dei para ficar pensando por advérbios de modo, deve ser coisa tua. Aliás, tu podia me ligar, tu podia estar em casa, quietinho dormindo. Sonhando comigo. Se ao menos eu soubesse quem tu é.

Às vezes eu levanto o telefone e imagino a tua voz, rude, meio seca, como a de alguém que fuma muitos cigarros e não se cansa pela noite, tem problemas para dormir, como eu, mas, quando apaga, apaga mesmo. Já tentei te apagar da minha vida e ainda não te conheci, que péssima amante devo ser. Tão inconstante, tão sem graça.

A rotina. A rotina tem seus encantos, já tentei me convencer disso. Se eu arranjar uma rotina para mim posso me acalmar. Quem sabe dormir sempre no mesmo horário, comer sempre nos mesmos horários. Tirando o trabalho, nada parece ter um ponto fixo por aqui. Nem a gata, que às vezes come, às vezes aparece, às vezes quer carinho. A vida poderia ser vivida às vezes. Um dia to poderia me ensinar a tocar piano, ou mesmo a morrer, quando eu era adolescente vivia dizendo que viver é aprender a morrer. Hoje já acho que a cada dia a gente morre um pouco, cada hora, na verdade.

Meu bem, pensa comigo. Se a gente tem de aprender a morrer, e a cada hora morremos um pouco. Quantas horas passamos morrendo aprendendo? Ou as duas coisas não acabam por ser as mesmas?

Eu ando pelo quarto colocando a camisola longa e branca, tão infantil, de bichinhos, coloridos, espalhados pelo corpo, sentados delicadamente sobre meus seios grandes, seios que sempre achei que te fariam se apaixonar por mim, quanta bobagem, vai ver gosta de seios pequenos, que cabem na mão, simplesmente, que têm personalidade. Que servem para alguma coisa.

Seria mais fácil dormir se não me preocupasse contigo. Se tu nunca tivesse existido na minha cabeça. Como posso te tirar da minha cabeça, meu amor? Se nem te conheço e já sou assim, tão louca por ti.

Acaricio as pontas do meu cabelo e levanto o telefone, me certifico de que não é tua voz do outro lado, que o silêncio, misturado com o sinal para discagem não escondem por trás o barulho da tua respiração. Não, nunca encontro, às vezes quero tanto perceber algo, uma sílaba titubeada, dita por mero descuido. Passo horas te procurando no meio da linha. Muitas linhas, todos os dias.

Sei que poderia te amar e te fazer a pessoas mais feliz do mundo. Que bobagem, eu aqui, sem sono, procurando algo pra me distrair, pensando em ti, como se estivesse aqui do meu lado.

Não, não vá dormir agora, não me deixe aqui acordado do teu lado, como sempre faz. No fundo tu é um insensível, sabia? Podia dormir junto comigo, não simplesmente me dar boa noite, virar para o lado e começar a roncar triste e baixinho. Seria mais fácil se não te amasse.

Tu é tão bom pra mim, mas tão terrível ao mesmo tempo. Se aparecesse eu podia, sei lá, te beijar ou te dar um tapa, te dizer que te odeio, ou que te amo, enquanto tu fala que são meramente a mesma coisa. Isso, te odiar, poderia começar a te odiar, a rir da tua cara, do teu jeito... Incomum. Buscaria uma honestidade fajuta e me acabaria nos corpos de outras pessoas para te ver mendigando por um pouco da minha atenção.

Não, não sou assim. Não sei quem tu és, de onde vem, mas sei que mexe tanto comigo.

Não sinto sono e o programa de rádio já está acabando. Podia ser diferente. Eu podia não sentir tanta dor. Podia me contentar com tudo que tenho e achar um ninho na minha solidão furada. Tu podia me telefonar agora, me dando boa noite, me colocando com palavras na caminha, me cobrindo com um lençol, me lembrando que acordo de manhã sempre com frio. E, antes de se despedir, podia me lembrar de apagar a luz azulada do abajur. Uma palavra francesa, abat-jour, o quebra-dia. Como tu mesmo brinca. É podia.

Incidentes – Um dia na vida de um prédio Porto Alegrense


Baseado em fatos reais, compilados de diversas edições do jornal Zero Hora.

Porto Alegre. Dois milhões de pessoas, amantes e trabalhadores. Dois campeões mundiais. Polaridades espalhadas por todos os cantos, ou é PT ou odeia o PT, ou é gremista ou é colorado, ou é gaudério ou fala o bonfinês. Ou toma chimarrão, ou não. Tudo isso costura a capital dos gaúchos de uma forma ou de outra.

Amanhece e os raios do sol tocam o Guaíba. O nascer do sol, tão desprezado, tão deixado de lado em comparação com o “pôr-do-sol porto alegrense”, vai rapidamente tirando o breu da noite e transformando os escuros e sombreados em claridade. Temperatura amena, dezesseis graus e leve brisa. Na Borges de Medeiros as pessoas andam de um lado para o outro, devagar, aos poucos, esperando as horas passarem despercebidas por cada um. Quem observa o amanhecer em Porto Alegre não deixa de pensar: Todos sozinhos, mesmo juntos, mesmo rodeados por tanta coisa ao mesmo tempo. Demasiados sozinhos. Claro que é fácil fingir o contrário, mas, essa característica não foge dos olhares atentos, ou mesmo os não tão atentos. Basta parar na Esquina Democrática e observar os semblantes das pessoas, mesmo felizes, ou mesmo as tristes. Todas sozinhas, carregando consigo algo que é tão delas, tão de cada uma que impregna o ar de forma quase nauseante. No final da Borges, o prédio Solaris. Nele, sete andares e um terraço. Osmar, o porteiro, abre a porta, coloca um pequeno tijolo para que ela não bata, esfrega as mãos e convida o carteiro para “um mate bem quente”. Ao que ele aceita, colocando sua bolsa no chão e já puxando uma cadeira.

O apartamento 205

Mal decorado. A primeira coisa que se nota sobre o apartamento de Luzia, uma portuguesa de Lisboa, moradora de Porto Alegre há quase cinqüenta anos. Ela levanta e coloca as pantufas ridículas, rosas e sujas, enquanto procura pelo chambre, também rosa, mas um pouco mais decente. Põe os óculos e então pega a dentadura de dentro de um copo com água. Ela olha para os lados, se certifica de que está sozinha mesmo, então bebe um pequeno gole da água em que estava a dentadura, dá um leve sorriso de menina arteira e então segue para a sala. Lá ela cumprimenta a foto do falecido, em cima da mesa, com um caloroso bom dia, atira-lhe um beijo e pisca.

O jornal se desdobra sobre a mesa, Luzia separa cada caderno e lê com atenção letra por letra, aperta um largo pneu de sua barriga e pensa que definitivamente precisa perder peso, enquanto passa pela sessão de economia fica se perguntando qual é a graça de tomar café bebendo cigarros. Três páginas depois se dá conta que não se bebem, mas, sim, fumam cigarros, mais uma risadinha faceira para contar no final do dia. Quando a velha Ethel chegar para o chá da tarde com certeza vai comentar a bobagem que pensou, cinqüenta anos e elas nunca tiveram assunto algum, mas diariamente bebem chá. Coisas que a vida não explica, e que ninguém tenta entender, afinal de contas, são duas senhoras tomando chá, e nada mais.

Luzia levanta e vai para cozinha pensa nas coisas que tem que comprar no mercado e na curta viagem de trem que tem de fazer ainda essa semana, visitar uma parenta adoecida em Canoas, mas não hoje. Ela prepara o café e, enquanto a água esquenta, ela volta rapidamente, com seus passos lerdos, até o quarto para desligar o despertador, que teima em avisá-la de que é hora de acordar.

Qual usar? Café extra-forte, matinal, sabor do campo, aromático, grãos leves, francesinho, carioquinha, bugre. Quando se fica velha, pensa ela, os dilemas da vida acabam se resumindo em qual café tomar de manhã? Se apenas um comprasse, talvez a vida perderia um bocado da graça, pensa Luzia em voz alta, tentando esconder de si mesma a timidez ao se dar conta de que a metáfora se mantém para homens, carros e lugares para se ir nas férias de inverno. Principalmente a parte dos homens.

Cinco, oito minutos pegando um pacote ou outro. Cheirando-os e pesando cada um, esperando ouvir de cada um deles uma espécie de chamado para ser bebido. Sabor do campo. Claro, fazia todo sentido, era dia de caderno rural no jornal, era um dia fresco, todos os sinais indicavam isso.

Mesa posta, Luzia vagarosamente começa a despejar o líquido negro e fumegante na grande xícara ovalada, trazida de San José Almagro, em sua última viagem. Ela se posta na frente da janela, observando o dia, as coisas do lado de fora.

Na rua um homem é rendido por um assaltante, Luzia observa a cena com muita atenção, se assusta com o disparo do revolver, um objeto metálico e reluzente, e com o café quente queimando seus dedos. Luzia não recorda se o corpo do homem e a xícara caíram no chão no mesmo instante.

O apartamento 302

“A gente podia ficar um pouquinho mais na cama né?”
“Hoje não, tenho que levar um material para o editor. Juro que nunca mais faço um contrato tão maluco com um editora. Cacete, três livros em dois anos é terrível... Quer dizer, nem tanto, mas, sabe como é, né.”
“Quando tu vai parar de escrever romances heteros?”
“Quando eles pararem de dar dinheiro, acho.”
“Mas tu não entende nada de mulher, como pode escrever aquelas coisas, não que eu não goste, mas...”
“Homem, mulher, tudo a mesma merda no fundo.”
“Ta maluco, né?”
“Na verdade não, nunca me senti tão lúcido. As únicas diferenças são que: Duas mulheres São amiguinhas, mas um pé no saco de aturar, dois homens são menos chatos, mas tem suas inconveniências, e um homem e uma mulher tem a parte chata, a parte inconveniente e a parte romantiquinha que todo mundo tem em mente.”
“Juro que nunca mais te deixo beber tanto café antes de vir pra cama dormir.”

André deita de bruços e resmunga alguma coisa pouco inteligível. Augusto dá de ombros.

“O que tu vai fazer hoje André?”
“Nada, de preferência, queria ficar na cama o dia todo.”
“Que vida, hein, querido?”
“A que eu pedi a Deus, juro, nunca fui bom em nada, nunca quis fazer nada.”
“E qual é a parte interessante disso tudo mesmo?”
“Todas as coisas maravilhosas que o ócio me permite pensar, ócio criativo e tudo mais.”
“E o que tu crias mesmo? Meu Bem?”
“A mim, me reinvento di-a-ria-men-te...”

Augusto se veste enquanto André rola na cama nu. Cada peça de roupa vestida parece grudar a vácuo no corpo, ele escolhe bem a gravata, o terninho, procura pelos cigarros em cima da mesa e suspira insatisfeito.

“To bem?”
“Um gato, miau.”
“Quando tu vai crescer, hein André?”
“Quando eu fizer aniversário, possivelmente.”
“Quanto tempo a gente tá junto mesmo?”
“Dez anos, onze meses, três semanas, vinte quatro dias e algumas horas.”
“Como que eu agüentei?”
“Menor idéia.”

Augusto pega uns papéis e sai do quarto. André fica de quatro na cama e late para o companheiro, atira um beijinho e observa a porta fechar, então, senta na cama e tenta teatralmente controlar uma cara triste, sem sucesso.

Na cozinha, Augusto derruba uns cubos de gelo num copo pequeno e, em cima, despeja displicente um generosa dose de uísque.

“Quando comecei a iniciar o dia com um copo de uísque e um cigarro?” Pensa ele em voz alta? Não se dando muito conta da bagunça do apartamento, da sujeira na pia, algumas fotos estranhas tiradas com os amigos em uma festa algumas noites antes.

Em um pequeno papel ele anota, com uma caneta preta. “Me desculpe...” Faz isso, termina o uísque e sai pela porta da sala.

O apartamento 401

Nunca tinha me dado conta de que eram vinte e três passos do meu quarto até o banheiro, pensa Lígia. Cigarros, todo mundo deveria parar de fumar, começando por mim. Até porquê, começar o dia assim não deve de ser lá muito saudável. A gastrite ainda me incomoda, tomar leite costumava ajudar, mas, é tão ruim, tão nojento o gosto. Se bem que poderia quebrar um pouco com café, mas, perderia o propósito de ajudar com a gastrite. São tantas coisas ao mesmo tempo. A conta, a conta de telefone eu não paguei esse mês, nem a de luz, não me admira se cortarem uma hora dessas. A de água eu paguei, não poderia viver sem água quente. Poderia viver sem muita coisa, sem tevê, sem micro-ondas, sem correspondência, até sem amigos, dizem que a gente pode viver, mas sei bem como não poderia viver sem água quente. Um banho eu poderia tomar um banho, para começar bem o dia. Não que dez e vinte seja hora de começar o dia, o que será que pensariam de mim se soubessem que eu durmo até tarde? Que emendo o café da manhã no almoço, que geralmente acabo indo para o motel com alguém depois de visitar o túmulo do meu finado esposo. Os cigarros deveria começar pelos cigarros. Pensa ainda, Lígia, de camisola, tentando tirar os nós do cabelo na frente de um espelho do tipo camafeu.

Ela vai até a cozinha, procura por alguma coisa na geladeira vazia mas não encontra nada, bebe um pouco de água da torneira e se senta no balcão, geralmente onde prepara alguma coisa pra comer quando a fome aperta. Ela olha para as ruas pela janela, ignora o movimento, fica observando se os ônibus que vão para a zona sul estão muito cheios ou não. Estão sim, conclui ela pelas enormes filas. Ela liga o rádio mas logo se cansa da discussão proposta pelo Lauro Quadros, por alguns instantes tenta uma estação FM, mas se sente com muitos quarenta anos pra ouvir uma rádio FM.

Enquanto volta para o banheiro ela fica imaginando como seria sua vida se Carlos não tivesse morrido tão cedo, um trágico acidente de moto voltando do litoral. De Torres, se ela bem se lembra, como não lembraria, se fazem só seis anos, conclui ela.

“Faça por mim, o que eu fiz por ti, escolha a vida, escolha sorrir...” Canta ela esperando a água da banheira encher, uma música de alguma banda que ouviu em alguma rádio que não fez questão de recordar. Mas de alguma forma fazia sentido pra ela. No espelho ela vê o corpo flácido e as teimosas marcas de expressão no rosto. “O que eu não gostaria de ter vivido? Como era bobo achar que a gente podia escolher os dias que gostaria de viver, aí eu fico assim, emburrada, marcando o rosto, feia. Tão mulher.” Ela tenta alisar os seios, pegando-os com firmeza, mas não sente nada, nada além de uma patética meninice latente. Melhor tomar um banho, fica repetindo para si mesma enquanto mergulha o corpo na banheira. A calma água quente, confortável.

Até que afunda. Abre os olhos algumas vezes então os fecha lentamente. Como a fumaça de um cigarro preenche os pulmões ela deixa a água entrar pelas narinas e pela boca. No fundo, sorri.

O apartamento 506

“Julinha, te arruma filha, te arruma que tá quase na hora e a gente precisa almoçar ainda. Ô Beto, me ajuda com isso aqui, leva as roupas ali pro nosso quarto? ... Eu falei nosso quarto? Cacete, daqui a pouco já estou nos casando e a Julinha já ta te chamando de papai...”

Clarissa procura por seus comprimidos na bolsa enquanto observa o boletim no rádio. O seu apartamento, tirado a muito custo do ex-marido, é impecavelmente arrumado, cheira a flores sem perfume e mantém uma linha de decoração extremamente Clean. Mesmo com o alto salário, Clarissa não faz questão de ter muitos móveis, prega um discurso de desapego às coisas materiais mas secretamente consome cigarros, pessoas e jantares caros, como ninguém.

Julia, já de uniforme e mochila, observa a mãe anotando coisas em pequenos papeis para si mesma e o namorado dela sem camisa, fumando um cigarro na janela.

“Morreu um cara aqui na Borges hoje de manhã, quando fui comprar cigarro, acho que tu tava tomando banho ainda, vi a velha lá de baixo comentando que tavam levando o corpo, assalto. Essa Porto Alegre tá uma merda. Violência que não acaba mais.”

“É mesmo? Não ouvi nada no rádio...”

“Bom, meu bem, o rádio não diz tudo. Nem eu.”

“Mais uma crítica velada ao meu trabalho? Sr. Beto?”

“Não, de forma alguma, apenas constando a realidade das coisas. Já que a senhorita tava nos casando já, porque a gente não se muda daqui? Até que o apartamento é bom e tudo mais, mas a escola da Júlia é longe e o teu trabalho também...”

“Mas a Julinha ama aqui.”

“Amo nada.” Interrompe prontamente a garotinha de dez anos.

“Quieta filha, a mamãe e o Beto estão conversando, não te disse que quando os adultos tão conversando, as crianças só ouvem?”

“Mãe, o Beto é só doze anos mais velho do que eu...”

Beto dá uma risada e continua fumando seu cigarro, a mãe olha constrangida para a filha e termina de arrumar sua bolsa.

“Bom... vamos? Vamos almoçar e levar essa espertinha pro colégio?”

“Eu não vou a lugar algum, quero é ficar aqui olhando a vida lá fora.”

“Acordaste poeta hoje, seu Beto?”

“Infelizmente...”

Clarissa dá de ombros e pega filha pela mão, saem pela porta batendo-a não muito forte. Beto sorri, e, quando elas passam na rua ele atira-lhes um rápido beijo. Então acende outro cigarro.

“Um cara morreu aqui na frente hoje de manhã... Que doidera.”

O Terraço

Marcel senta no parapeito. Compara vários rascunhos de uma mesma idéia, versada de formas diferentes, tentando dizer algo que nem ele mesmo tem idéia clara. “Melissa, te amo, contigo passei os dias mais felizes da minha vida. Pena não ter dado certo, quis mais de ti do que poderia me dar, quis mais de mim mesmo do que realmente tinha. Adeus.” Não, não soava como um bom bilhete de despedida, mas era o melhor dos nove escritos. O mais honesto. Um último cigarro? Talvez? Não, nunca fumara em quarenta e nove anos, não seria agora que começaria. Agosto, talvez esperar até agosto fosse mais prudente, quem sabe uma nova oportunidade de emprego, não que o trabalho na Siqueira Campos fosse ruim, era perto de casa, a grana era boa, mas... Existia uma incompletude para ele que estava incomodando-o demais. Certamente não era o Amor, vivera muito tempo sem ele. Para dizer que não fumava, fumava ocasionalmente. Se pudesse fumaria uma ou duas carteiras de amor por mês. A metáfora era boa, se convencia disso, o amor era-lhe como os cigarros, podia viver sem, mas, quando os tinha, saboreava-os até ficar com um gosto ruim na boca. Ou melhor, acordar com um gosto ruim na boca.

Marcel nunca foi dado à vulgaridades, isso tirava-lhe o interesse das mulheres, não era bonito, tinha algum dinheiro, não era lá muito inteligente, então restava-lhe uma falsa vulgaridade, uma espécie de personagem que inventava na cama. Chega. Marcel opta pelo bilhete de Melissa, deixando o de Joana, Catarina e Ângela no lixo. Faz isso e deixa seu corpo pender para fora do parapeito do prédio.

Em Porto Alegre. Mais um dia.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Não são flores, são rosas


Quando Beatriz chegou ao café Medialuna, de alguma forma, ela estava ciente de tudo que estaria por transcorrer nas próximas horas. A boa consciência, a má, a enorme gama de escolhas que ela tinha nas mãos, além do simpático esmalte roxo. Não era fácil pra ela estar ali, preparando inúmeras coisas para dizer para Júlio, assim que ele chegasse. Ao acordar, perto da uma da tarde tomou apenas um banho rápido, escolheu as roupas mais fáceis, sem pensar muito, mas queria estar bonita para ele, de alguma forma importava ainda. Uma saia preta, uma blusa cinza, um tênis normal. Tinha perdido o apetite durante o banho, não parecia ela mesma, era difícil manter o foco em alguma coisa por muito tempo, tão difícil que não se deu conta de que algumas lágrimas rolavam pelo seu rosto junto com a água do chuveiro.

De certa forma ainda não acreditava que tinha sido aceita na universidade de Montevidéu, tudo havia sido tão rápido, o telegrama, o telefonema e a rápida visita ao consulado. Todos haviam sido gentis demais com ela, algo que não estava acostumada, a não ser por Júlio, que normalmente eram quem alegrava seus dias quando estava triste. Dar as notícias para ele seria tremendamente difícil. Mas era apenas a primeira das despedidas que teria que passar. Porquê ele primeiro? Ficava se perguntando enquanto brincava com a pequena xícara de café vazia. Não sabia responder, talvez por ser quem mais importava, talvez por ser o mais difícil e talvez, também, doloroso.

Duas e meia. Pensa Beatriz em voz alta. Não sei porque cheguei tão cedo.

Beatriz pede outro café, mergulha nele algumas colheres de açúcar e bebe sem pressa. Se Júlio já estivesse ali, ao seu lado, brincaria com a quantidade de açúcar, bolaria alguma metáfora como “o café é amargo como a vida, e a gente tenta adoçar com as coisas que temos por perto.” Mas ele não estava por perto naquele momento. As brincadeiras, as pequenas bobagens que faziam parte do convívio deles seriam as cosas mais difíceis de deixar para trás.

Quando Júlio chegou, eles se cumprimentaram com um selinho rápido e quase infantil. Ele estava mais bonito do que de costume, ao que primeiro ela notou. A barba rala estava bem desenhada, estava com um perfume muito gostoso, vestia roupas que só caiam bem nele, nos outros seriam apenas um conjunto de clichês andantes. Ele tinha personalidade, isso a atraía nele, mesmo que fosse dia sim dia não.

Júlio ficou olhando para a janela, Beatriz para suas mãos e para as pessoas nas mesas ao longe. Nunca tinham problemas em ficar em silêncio, mas este era desconfortável e inquieto. Ele não parecia ter nada pra dizer ou ouvir, ela havia perdido a coragem de dizer qualquer coisa, queria ficar ali apenas saboreando aquele momento, mesmo não conseguindo encarar o olhar dele.

Ao que ele quebrou o silêncio.

“Quem tu ama mais? Eu, ou o Otávio.” Perguntou ele de forma arranhada, com se as sílabas arranhassem cada parte da garganta e da boca.

Beatriz olha reticente para Julio enquanto morde o lábio superior. Julio, ao fazer menção de levantar, tem seu punho pego por Beatriz. Ele torna a sentar de maneira silenciosa e aparentando estar bastante desconfortável.
Julio olha perdido para longe de Beatriz, logo morde um cigarro de dentro do maço e acende.

“Que foi? O gato comeu tua língua?” Perguntou Júlio.

“O gato não comeu “nada” aqui...”

Júlio repousa o cigarro no cinzeiro e bebe um pouco do seu café, ainda esfumegante. Lembra da conversa que tivera com Beatriz no telefone na madrugada anterior, então volta a fumar o cigarro. Beatriz, dessa vez, interrompe o silêncio.

“Ai, Julio, desculpa. Tu sabe como eu to nervosa. Ainda não bateu fundo que eu to indo. Mesmo com a passagem comprada e...”

Beatriz hesita em continuar falando. Julio apaga o cigarro. Ela segura as mãos dele.

“Eu...”

Júlio não a deixa continuar falando.

“Não fala nada. Por favor. Vamo continuar tomando nosso café, Bea.”

Uma garçonete observa os dois de longe, segurando uma bandeja contra o peito, escorada no marco da porta que dá para o lugar onde Beatriz e Julio estão. Ela apóia o queixo na bandeja e fecha os olhos, mantendo-os fechados por um longo tempo. Julio, com uma expressão de derrota no rosto, olha para Beatriz.

“Tu chega em Montevidéu quando? Leva roupa, essa época é bem frio. Faz o seguinte. Toma, pega meu cachecol, é presente. Não te preocupa, não foi a Dê quem costurou. Eu comprei na Duque mesmo. Perto da catedral. Um dia depois daquele que fomos pra cidade baixa comer alguma coisa.”

Julio tira o cachecol e coloca em Beatriz, deixando sua mão deslizar pelo braço dela. Fica então olhando para sua boca como se fosse beijá-la. Ela vira um pouco o rosto para não ter de ver ele.

“Obrigada, Julinho. Ah, bom, eu chego na quarta mesmo. Fiz a entrevista por telefone, se eu não chegar lá na quarta, eu perco a vaga.”

Os dois ficam se olhando entre um gole de café e outro. Beatriz fica séria e coça o pescoço. Julio fica bastante sério.

"Que foi, Beatriz? Eu conheço essa tua cara."

Beatriz olha para o colo e para a janela. Ela esfrega as mãos de forma impaciente.


"...Se tu pedisse pra mim ficar. Eu tremia, eu acho que eu...."

Julio desvia o olhar e pega um cigarro, brinca com ele e põe devolta no maço.

"...Pra “eu” ficar. Mim não faz nada."

Beatriz faz uma cara feia para Julio e se inclina para frente. Ela fala com um tom de voz bastante áspero.

"Porra, Julinho. É a última vez que a gente vai se ver e tu fica assim? Quando tu acha que eu vou te ver de novo?"

Julio dá de ombros.

"Qual a diferença? Me diz, qual a diferença de hoje pros outros dias? Eu continuo não sabendo quando eu vou te ver. Seja indo pra casa do Otávio ou, nesse caso, pra fora da porra do país."

Depois de arrumar os óculos, Julio pega a xícara de café tremendo um pouco a mão, bebe um gole e limpa a garganta depois. Beatriz leva um pedaço de bolo à boca e deixa algumas lágrimas caírem dos olhos. Os gestos de sua mastigação são os mais visíveis e deseducados possíveis.

"A porra da tua cama, a porra da tua vida. É a única coisa que me prende aqui. Sempre dou um jeito de ir parar junto do teu corpo. São os únicos momentos em que eu consigo ser sincera comigo mesma."

Julio limpa a boca com o guardanapo de pano em sua frente. Quando repousa sua mão sobre a mesa, leva-o até o rosto de Beatriz e enxuga-o, cuidadosamente. Julio se inclina para frente e deixa o guardanapo escorregar lentamente pelo rosto de Beatriz, que coloca a mão no pescoço dele e o beija, ainda suja de bolo em algumas partes.

"Não quero que teu cheiro na minha roupa seja o resto, ou a melhor parte da nossa despedida. Quero saber o que acontece com a gente. Quero que isso aqui tem algum significado."

Julio vira o rosto e recua.

"Lá tu arranja alguém pra te entender. Um cara que deixe um cheiro melhor nas tuas roupas. Melhor de cama e uma companhia mais agradável."

Beatriz tapa os olhos com uma das mãos.

"Eu sei que eu escolhi ir, mas eu queria escolher não te deixar, e eu termino com o Otávio a qualquer hora pra poder ficar só contigo."

Julio se inclina um pouco para frente. Beatriz olha para a janela. Segura um guardanapo de pano com uma das mãos.

"Tu diz isso... Mas tu sabe que tu não consegue...
Eu terminei com a Denise. Eu ia falar ontem, mas tu tava tão empolgada falando que ia ir para Montividéo. No fundo tu nem sabe porque tá indo! E deixa pra mim apenas aquela sensação invisível de que eu tenho o teu carinho só pra mim."

Beatriz avança sobre a mesa e puxa o rosto de Julio para junto do dela e o beija. Ele recua, termina o café em um gole rápido. Observa a mão tremendo, bem perto do seu rosto e então a apóia na mesa e se levanta e sai andando.

Desaparecendo, entre as mesas e as pessoas, assim como de dentro dela. Não que fosse fácil ver ele ir embora, mas, de alguma forma, Beatriz sabia que não conseguiria fazê-lo. Tentou em vão não chorar, mas se deu ao luxo, pois se tratava dele, alguém que apareceu e sumiu de sua vida várias vezes.

Beatriz deixa uma nota de vinte para pagar a conta e sai do café. Observa o movimento na Av. Goethe e tenta atravessar por entre os carros, sem pressa, olhando para tudo e todos ao seu redor, não fazendo parte daquele cenário, se sentido tão distante de tudo e de si mesma, buscando entender coisas que normalmente são feitas para ser apenas sentidas, não compreendidas.

Do outro lado da rua, no Parcão ela anda sem um destino certo. Ela tira uma frasqueta da bolsa, bebe um pouco e senta num banco. Fica olhando as coisas ao redor e canta uma música baixinho. Enquanto canta, ela tira uma agenda da bolsa e começa a anotar algo. Uma garotinha loira, de uns oito anos, lhe oferece rosas.

“Não precisa parar de cantar." Diz ela sorrindo ingenuamente.

Beatriz fica corada e joga a franja para o lado.

“Que tu ta escrevendo?”

A Garotinha se inclina para tentar ler o que Beatriz está escrevendo, mas não consegue.

“Nada de mais. Uma carta eu acho.”

“Pra quem?” Pergunta a garotinha com um ar ingênuo de curiosidade.

Beatriz morde o lábio e olha para cima, tentando evitar que alguma lágrima caia, a garotinha entende o recado.

“Compra uma rosa!”

“Ah, hoje não, a tia não quer flores... Obrigado, garotinha. Você é muito mimosa, sabia”

“Sabia sim. Vai compra, teu amor vai gostar das rosas. Vai gostar mais de ti.”

“Mas a tia não tem um a...”

“E não são flores, são rosas.”