
E você aí, se apoiando nos cotovelos. Me olhando, jeitinho de mulher moderna, independente, vagabundinha na cama, péssima cozinheira e anfitriã. Apartamento vazio, disco do Tom Waits no tocador de LP. Porra um toca discos, nenhum CD, tudo LP, só pra fazer gênero de mulher retro, mas no fundo uma reacionária de direita. Que ouve Tom Waits. Uma voz familiar, Rain Dogs e uma noite fria e nublada, um céu da cor do rótulo do Johnny Walker Black Label, mas nem gosta de uísque, deve ter comprado numa viagenzinha barata pra Rivera. Cama bagunçada, aposto, desfeita há dias e nenhuma vontade de arrumá-la. A cara marcada, advogadazinha de merda, tem toda pinta. E toda grana. Aposto. Uma advogada que ouve Tom Waits, que merda. Cartão Visa international e um brinde das milhagens da Varig na bolsa. Só pode. Amigos advogados, funcionários públicos, uma agenda lotada deles. Umas foda-fixa meio bagaceira e bem mais-ou-menos, um careca de barba rala, todo metidinho a artista. Brocha sempre que lembra da ex-mulher. E tu vem com sacadinhas polêmicas e irônicas, tua pinta. Tua boca, ninguém deve gostar dela, com esse batomzinho vermelho, parece até uma puta que tava fazendo programa com um palhaço, um palhaço fodido demitido de um cirquinho de quinta categoria. É, bem tua cara.
Lavo as mãos, arrumo o rabo de cavalo e saio do banheiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário