quinta-feira, 3 de abril de 2008

E não esqueça de desligar o abajour antes de dormir




As cinzas de cigarro formam desenhos abstratos dentro do enorme cinzeiro verde musgo. Procuro uma camisola para vestir enquanto observo a bagunça criando um abitate natural nos cantos do quarto. No rádio, a sonolenta e distante voz do narrador do programa de blues, a madrugada blues da rádio universitária. Fico pensando, mais um cigarro antes de dormir e pronto, já posso me ir deitar. Não, mais um cigarro me deixaria acordada, já foram cinco. Tanta nicotina no corpo só pode ser o que está me causando essa insônia. Uma e tanto, me sinto cansada, um bocado sonolenta. Mas, sempre que tento deitar o sono vai embora. Sinto meu coração palpitar, é péssimo. Se não fosse o rádio, poderia ficar ouvindo horas o barulho do meu coração batendo na cama. A nicotina, só pode ser a nicotina. Deveria fumar menos, deveria me exercitar mais, sentir menos e amar menos, tudo pode, mas com moderação. Mamãe sempre dizia isso.

Ler. Ler ajuda.Acho que já troquei de lugar no quarto umas seis vezes. Sento na cama, no chão, na poltrona. Às vezes acho que esse papel de parede me irrita, azul, um azul tão claro e neutro, sem personalidade. Nada a ver comigo. Essa euforia, essa tristeza, porque as coisas tem de ser assim? Acho que se eu tomar um café eu posso ficar acordada até amanhã de manhã, e então, quando o sol raiar poso tentar dormir, quentinha, no meio de um recorte de luz do sol, desenhado pelas árvores, jogado displicentemente na minha cama. Não lembro quando dei para ficar pensando por advérbios de modo, deve ser coisa tua. Aliás, tu podia me ligar, tu podia estar em casa, quietinho dormindo. Sonhando comigo. Se ao menos eu soubesse quem tu é.

Às vezes eu levanto o telefone e imagino a tua voz, rude, meio seca, como a de alguém que fuma muitos cigarros e não se cansa pela noite, tem problemas para dormir, como eu, mas, quando apaga, apaga mesmo. Já tentei te apagar da minha vida e ainda não te conheci, que péssima amante devo ser. Tão inconstante, tão sem graça.

A rotina. A rotina tem seus encantos, já tentei me convencer disso. Se eu arranjar uma rotina para mim posso me acalmar. Quem sabe dormir sempre no mesmo horário, comer sempre nos mesmos horários. Tirando o trabalho, nada parece ter um ponto fixo por aqui. Nem a gata, que às vezes come, às vezes aparece, às vezes quer carinho. A vida poderia ser vivida às vezes. Um dia to poderia me ensinar a tocar piano, ou mesmo a morrer, quando eu era adolescente vivia dizendo que viver é aprender a morrer. Hoje já acho que a cada dia a gente morre um pouco, cada hora, na verdade.

Meu bem, pensa comigo. Se a gente tem de aprender a morrer, e a cada hora morremos um pouco. Quantas horas passamos morrendo aprendendo? Ou as duas coisas não acabam por ser as mesmas?

Eu ando pelo quarto colocando a camisola longa e branca, tão infantil, de bichinhos, coloridos, espalhados pelo corpo, sentados delicadamente sobre meus seios grandes, seios que sempre achei que te fariam se apaixonar por mim, quanta bobagem, vai ver gosta de seios pequenos, que cabem na mão, simplesmente, que têm personalidade. Que servem para alguma coisa.

Seria mais fácil dormir se não me preocupasse contigo. Se tu nunca tivesse existido na minha cabeça. Como posso te tirar da minha cabeça, meu amor? Se nem te conheço e já sou assim, tão louca por ti.

Acaricio as pontas do meu cabelo e levanto o telefone, me certifico de que não é tua voz do outro lado, que o silêncio, misturado com o sinal para discagem não escondem por trás o barulho da tua respiração. Não, nunca encontro, às vezes quero tanto perceber algo, uma sílaba titubeada, dita por mero descuido. Passo horas te procurando no meio da linha. Muitas linhas, todos os dias.

Sei que poderia te amar e te fazer a pessoas mais feliz do mundo. Que bobagem, eu aqui, sem sono, procurando algo pra me distrair, pensando em ti, como se estivesse aqui do meu lado.

Não, não vá dormir agora, não me deixe aqui acordado do teu lado, como sempre faz. No fundo tu é um insensível, sabia? Podia dormir junto comigo, não simplesmente me dar boa noite, virar para o lado e começar a roncar triste e baixinho. Seria mais fácil se não te amasse.

Tu é tão bom pra mim, mas tão terrível ao mesmo tempo. Se aparecesse eu podia, sei lá, te beijar ou te dar um tapa, te dizer que te odeio, ou que te amo, enquanto tu fala que são meramente a mesma coisa. Isso, te odiar, poderia começar a te odiar, a rir da tua cara, do teu jeito... Incomum. Buscaria uma honestidade fajuta e me acabaria nos corpos de outras pessoas para te ver mendigando por um pouco da minha atenção.

Não, não sou assim. Não sei quem tu és, de onde vem, mas sei que mexe tanto comigo.

Não sinto sono e o programa de rádio já está acabando. Podia ser diferente. Eu podia não sentir tanta dor. Podia me contentar com tudo que tenho e achar um ninho na minha solidão furada. Tu podia me telefonar agora, me dando boa noite, me colocando com palavras na caminha, me cobrindo com um lençol, me lembrando que acordo de manhã sempre com frio. E, antes de se despedir, podia me lembrar de apagar a luz azulada do abajur. Uma palavra francesa, abat-jour, o quebra-dia. Como tu mesmo brinca. É podia.

Nenhum comentário: