
Então a beijei mais uma vez, e outra e mais outra em seguida. Não deixava que seus seios ficassem longe do meu peito, tentava impregnar meus pulmões com aquele perfume barato que ela costumava usar e guardar uma impressão delicada do seu rosto colado no meu. Não. Não era tão bonito, ou romântico assim, não poderia ser, nada mais conseguia ser. Éramos apenas duas pessoas se beijando, cada uma por seus motivos, fingindo coisas diferentes e mentindo da forma mais tola, com nossos corpos e copos de vinho, algo que havíamos jurado esquecer e deixar de lado.
Ajeito minha saia e a observo, alguns passos já distante, tentando buscar alguma ternura no seu olhar.
Não foi com um ramalhete de flores que cheguei na casa dela, nem com boas intenções. Estava ali simplesmente pra quebrar mais uma das tantas promessas que havia feito para mim mesma. Podia mentir à vontade para mim, e para ela também, ao passo que, nenhuma de nós estava mais se importando com aquilo ali. Ao menos é o que tentávamos nos convencer.
Paranóia, pura paranóia.
“Um café, Déia, tu quer um café? Eu faço um pra nós.”
“Tu nunca foi boa em passar café...”
Não conseguia entender de onde vinha essa vontade de ser arisca com ela.
Ângela rebola para a cozinha com duas xícaras na mão, olhando volta e meia para trás para me atirar um sorriso encantador. Eu paro, olho as fotos de família pela sala, troco a estação de rádio e me sento no sofá. A barra da minha saia fica caída pelo joelho. Sempre achei meu joelho um bocado bonito.
Da cozinha ela canta, com a voz de anjo desafinada. Um belo encanto sem valor algum. Odeio quando ela canta, é como um golpe baixo, bem na boca do estômago.
“Mas nada vai conseguir mudar o que ficou, quando penso em alguém só penso em você, e aí, então, estamos bem... Como era o resto mesmo, Déia? Nem desistir, nem tentar? Algo assim não?”
Quando ela espiou pelo vão que ligava a cozinha à sala, eu já não estava mais lá.
n.d.a: Coup de coeur
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