
Avistei de longe suas bochechas redondas. Titubeei por alguns instantes, devo ter ficado branco, como quem foge do sol. Estava devolta à Porto Alegre fazia alguns dias apenas, há muito tempo não andava pelo Moinhos, por aquelas ruas que sabiam todos os segredos do meu início de idade adulta. A noite em que eu e Pablo dormimos na rua, ou quando eu, ele e Hélio saímos andando, corações partidos nas mãos, garrafa de uísque em punho, esbravejando as bobagens dramáticas que nos eram tão próximas, tão pano de fundo de nossas vidas naquela época. Amargo, com um corte de cabelo mais sóbrio, uma barba distinta, elegante. Com certeza eu estava diferente. Mas lá estava ela, parada na esquina de sua casa. Admirando algo.
Minha calça xadrez desbotada me entregava fácil, minha camiseta branca, justa no corpo magro também, mas eu não havia mudado muito minha fisionomia, como muitos dizem, “Deves dormir num potinho de formol, poeta.” Assim que me olhasse iria me reconhecer. Vinte anos separam uma vida da outra, com certeza, mas, não há tempo que separe o que está dentro de nós. Lembro de ter pensado numa conclusão meio pateta e apressada. Uma justificativa para mim mesmo para poder me sentir assim ao vê-la. Achei que um dia iríamos parar de fumar, mas ambos estavam segurando um cigarro, casualmente na mesma mão. A esquerda.
Quando me aproximei ela virou, um pouco assustada. Ainda era muito bonita, mas tinha no rosto marcas profundas de expressão. Se vestia da mesma forma despreocupada, o cabelo continuava comprido. Tentou sorrir de maneira honesta, mas, não conseguiu, fingi que não dei bola.
“O jardim continua bonito. Tu ainda mora aqui...”
“Não, quando a vó faleceu a gente vendeu. A mãe foi morar com o namorado, eu e o mano já estávamos morando fora.”
“Nunca vou me esquecer de ti dizendo que...”
“Olha, não fala, não tá vendo que não é um bom momento?”
“Desculpa... Faz pouco tempo que eu voltei e eu...”
“Eu sei, eu te vi num café aqui perto esses dias, ontem eu acho. Tava com uma loira muito bonita junto. Tua mulher?”
“Não, minha afilhada.”
Sentei na frente do portão. Como fizemos da primeira vez que conversamos. Ela hesitou, me olhou com uma cara feia, como sempre fazia quando eu era inconveniente, mas, cedeu à lembrança, acho. Não sentou na minha frente, encravada no meu peito entre minhas coxas, mas, ao meu lado, deixando a saia cair por cima dos joelhos. Mas, ao menos sentou-se perto.
“Depois de um tempo não tive mais notícia de ti, poeta.”
“Acabei sumindo... O homem-ilha, lembra?”
“Assim que te chamavam na faculdade, né?”
“Pois é... Nossa, me livrei daquele suplício há tanto tempo.”
Então levei mais um cigarro até a boca, procurei displicente por um isqueiro até que ela sorriu e me passou o dela. As mãos estavam marcadas por algumas manchas, não eram mais lisinhas e macias como eu lembrava, estavam tão diferentes que por alguns segundos, enquanto o calor percorria da ponta ao filtro do cigarro, me perguntei se algum dia elas foram como eu lembrava, ou era apenas mais uma das lembranças que simplesmente tinham brotado na minha cabeça.
“O isqueiro, pode me devolver?”
“Lembra, quando eu te disse que tinha algo meu que seria teu pra sempre?”
“Cacete. Deus lá sabe quanto tempo sem se ver e tu continua o mesmo, né?”
“Desculpa, eu...”
“Meu deus, até se desculpando por nada ele continua, tu nunca vai mudar, né?”
“Tu continua falando né pra caramba.”
Então ambos sorrimos de forma pouco amistosa, sentindo um pouco do espinho em cada pequena provocação.
Queria lhe falar da minha vida. Dos livros, da Europa, das festas e bebedeiras intermináveis. Dos meus romances e do meu inevitável divórcio. Queria rir e lembrar de como era rir ao lado dela. Contar detalhadamente como era bom transar com ela na banheira, e como eu guardava comigo, como se fosse uma foto, a pequena cena dos nossos corpos enfiados na água, lutando tortos por um espaço, mas, principalmente, como a luz das velas pareciam um sol refletido na água. Minha cabeça pesando sobre os seios fartos dela, macios e sempre cheirosos. Minhas mãos caçando algum lugar entre suas coxas. Mas acima de tudo, aquele silêncio e as velas. Um certo desconforto, uma certa intimidade roubada, como se não tivesse lugar no mundo. Excertos de algo que não poderiam estar ali.
Não, não podia lhe falar nada disso, não faria nenhum sentido. Eu ainda tinha a mania de flutuar no tempo, de viver cada momento do passado no presente, como se deles dependesse o futuro. Para ela o tempo corria. Seu corpo acusava isso.
Meu silêncio e o cigarro não fumado, queimando o filtro, entregaram meu momento de devaneio.
“Que gosto amargo que eu to na minha boca.”
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