segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

TRILOGIA DO AMOR: Adeus


O som dos talheres batendo nos pratos e na comida era o mesmo de sempre. Comum e indiferente. O vinho era mesmo de um ou dois jantares atrás. A sala estava decorada da mesma forma desde que nos mudamos para aquele apartamento. As mesmas cortinas brancas, o mesmo carpete caramelo, os mesmos sofás cor de vinho. Não havia nada de diferente, mesmo que eu procurasse por algo.

Gabriel havia colocado a mesa do jeito que eu gostava, com os pratos de frente um pro outro, e não do lado. Tinha feito um macarrão bastante comum, mas, com um gosto de partir o coração. Nunca dei bola para as coisas que ele cozinhava, mas, fiquei tentando saborear o máximo possível dessa vez.

"Tu conseguiu aquele projeto que tu queria? Acabei esquecendo de te perguntar..."
"O resultado sai amanhã. De manhã, na primeira reunião. Chamaram alguns outros arquitetos, mas, bom... Tu viu o meu projeto."
"Me serve?" Falou ele me oferecendo seu cálice vazio. Ao que despejei cuidadosamente o pouco que havia ainda na garrafa.
"Vou ali na cozinha pegar mais, lembro de ter visto outra garrafa desse seco."

Enquanto abria a despensa me assustei com o abraço que recebi por trás. Com a cara de Gabriel enfiada em minhas costas.

"Que foi...Biel..."
"Eu te amo, Alexandre." Falou baixinho, procurando meu ouvido.
"Não faz isso, Biel... Vamos voltar pra mesa, eu to com fome."

Não lembro de termos conversado mais nada. A comida estava ficando fria e acho que isso acabou nos fazendo ficar quietos, apenas nos preocupando em comer. Ao menos foi assim pra mim. Volta e meia ele sorria, ao que eu retribuía piscando lentamente os dois olhos. Nossos pequenos códigos, nossas intimidades, mesmo elas, incapazes de sustentar a idéia de que era apenas mais um jantar.

"Tu volta amanhã ainda?"
"... Não, amanhã eu já durmo no apartamento novo."
"Quanto é o aluguel?"
"Biel, não precisa..."
"Eu posso te emprestar dinheiro, pro começo. Tu pode dormir aqui ainda, no sofá, se tu quiser."
"Biel, não..."
"Como tu vai pagar o aluguel?"
"Ai, Beil...pára..."

Ele soltou os talheres de forma ruidosa e fechou o rosto.

"Tu vai dividir com alguém."
Apenas confirmei com a cabeça. Aquilo colocou um ponto final na nossa conversa. Ele não precisava perguntar se era com um homem ou com um mulher, ele não precisava ou queria saber mais nada. Simplesmente limpou a boca com o guardanapo e agradeceu pela companhia.
Biel mordeu rapidamente o lábio inferior e foi se retirando vagarosamente sem me olhar. Logo desapareceu atrás da porta do nosso quarto enquanto eu o acompanhava com o canto do olho.

Comecei a tirar a mesa, coloquei o vinho de volta na despensa e o resto da massa na geladeira.

"O Bruninho não quis comer. Será que o Biel falou alguma coisa pra ele?"

Não sei por que pensei em voz alta, não tenho esse costume, mas acabou saindo. Tanta coisa diferente acontecendo, não estranharia se começasse a fazer algumas coisas de forma diferente.

Me sentei no sofá da sala, no escuro, por um instante. A pouca luz que vinha dos outros prédios era o suficiente para mim, não estava com sono, não queria ver tevê ou ler. Não queria ir até o quarto também. Sabia exatamente tudo que aconteceria se fosse até lá. Biel brigaria comigo, bateríamos boca por horas, correríamos o risco de acordar o Bruninho. Então de alguma forma transformaríamos aquela raiva em uma vontade de sentir o corpo um do outro tão junto, mas tão junto, que o espaço entre eles acabaria se tornando meramente um breve poema, ou de alguma forma assim como o Biel me explicaria depois. As roupas cairiam e então faríamos a única coisa que ainda sabíamos como fazer, pensando um no outro.

Não, melhor não. No fundo eu sabia que não precisava disso. Preferia me consolar com outras lembranças de Biel, de coisas nossas muito mais verdadeiras do que o sexo vulgar que vem com toda separação. Com todo fim.

O relógio apontava quinze para as dez. Me faltava a vontade de passar mais uma noite ali. Era melhor me despedir do Bruninho e recusar o convite do Biel, que a essa hora só se mantinha pela educação, provavelmente. Pelos onze anos juntos e pelo filho que tanto amávamos. Não era mais o sexo vulgar, era o garoto que ainda nos unia. Que ainda ligava um amor ao outro.

O telefone tocou. Não me preocupei em atendê-lo. Ao que pareceu, Beil também não. A secretária eletrônica deu conta do recado.

"Olá, você ligou para a casa de Alexandre Figueroa e Gabriel del Grecco. Não podemos atender no momento, deixe seu recado após o bip." Bip. "Oi, Alê, é a Tininha, a gente precisa conversar, não vai fazer bobagem hein? Eu falei com a Rebeca, ela te empresta a chave do carro dela, é pra tu pegar amanhã de manhã. Me liga assim que der, beijos."

Não era hora de lidar com aquilo também. Sabia que não estava sozinho. Era melhor ir logo dar boa noite para o Bruninho.

Abri a porta do quarto do Bruno com muita calma, ele estava quase dormindo, mas ainda de olhos abertos.

"O que está fazendo campeão? Não é hora de dormir, não?"
"Eu tava contando as estrelas, sempre me perco no meio do caminho."

O quarto estava com a luz apagada, e, as estrelas eram estrelas de plástico que brilham no escuro, inúmeras delas povoando o teto.

"Da última vez que nós contamos juntos eram oitenta e seis, não eram?"
"Eram sim, pai. Agora eu lembrei, foi naquela noite que nós saímos para jantar não foi?"
"Isso, quando os papais fizeram dez anos juntos."

Lembro com carinho daquela noite. Uma década ao lado do Biel. As coisas já não estavam muito bem, mas foi uma época boa. Eu já havia conhecido o Ângelo, já tinha me encontrado com ele algumas vezes. Porra. Eu tinho ido pro motel com ele na noite anterior.
Bruninho interrompeu meu transe antes que eu começasse a chorar como uma criança mais nova do que ele.

"Ficamos nós três na cama contando as estrelas né, pai? Foi tão legal. A gente não pode fazer isso hoje, chama o Biel pai. Chama!"

Nessas horas é impossível não se sentir um monstro. Então tive que fazer o que melhor fazia quando queria explicar algo para o Bruninho. Eu mentia.

"O Biel tava com dor de cabeça e foi deitar, tava com muito soninho também."
"Ahhh... Então, pai, me conta uma historinha?" Me disse já me entregando um livro de fábulas que eu tinha dado para ele no dia do seu aniversário, poucas semanas atrás.
"Era uma vez..."

Enquanto narrava a estória para ele de uma forma bastante mecânica, comecei a lembrar de tudo que estava acontecendo. De como eu e Beil havíamos brigado no dia do aniversário dele, mas, tivemos de acobertar tudo para que ele não ficasse triste. Que no meio daqueles sorrisos falsos e daquela intimidade forçada conseguimos encontrar um amor muito forte. E, que, depois de nos amarmos por horas, ficamos jurando coisas um para o outro de uma forma adolescente, quase infantil, enquanto olhávamos o sol nascer pela janela. E, acima de tudo, que ficaríamos juntos pelo Bruninho.

Nunca consegui cumprir promessa alguma.

"...E daí o príncipe beijou a princesa e eles foram felizes para sempre."
"E o baile?"
"E no baile eles dançaram a noite inteira, e depois, assistiram o sol nascer do alto de uma colina, abraçados, jurando ficarem juntos para sempre."
"E ficaram juntos para sempre, pai?"
"Ficaram."

Queria prometer me desculpar com ele por tantas mentiras, mas, dificilmente reuniria a coragem necessária para isso.

Ele já estava dormindo quando dei-lhe um beijo na testa e me apoiei para me levantar.

"Adeus, meu amor."

Biel estava na porta.
"Há quanto tempo tu tá aí nos espiando."
"O suficiente."
"Olha... Fala o que tu quiser...Mas não aqui, o Bruninho não tem nada a ver."

Enquanto ele se dirigiu até a sala eu fui até a porta e coloquei minha chave. Beil mudou de idéia.

"Não preciso te lembrar o que tu tinha me prometido... Uma das tantas coisas..."
"Não, eu mesmo já fiz isso."

Abri a porta e fiquei parado, esperando covardemente por uma reação do Biel.

"Tchau, Biel..."

Ele correu a pouca distância até mim, já descalço mas ainda de jeans e camiseta. Com a cara amassada de sono e inchada de choro. Segurou meu rosto e me beijou.

"Eu te amo, Biel... Não pensa outra coisa de mim..."
"Então porque tu tá indo embora?"

Então o beijei por mais uma vez e deixei para ele minhas costas e meus passos cansados até o elevador.

TRILOGIA DO AMOR: Obrigado


Quando a enfermeira abriu a porta eu me senti naquele lugar como se não tivesse saído de lá nunca. Muitas tardes, manhãs, noites, madrugadas ali, por todos aqueles cantos. Para onde eu olhava parecia me defrontar com alguma lembrança, que vinha sem ser chamada, apenas para me deixar mais insegura em estar ali, na casa do Pedro mais uma vez. Pela primeira vez depois do acidente.

“Ele tá no pátio, tomando sol. Acho que está de bom humor, os remédios pra dor tem funcionado, mas os médicos estão muito preocupados com as dosagens, não querem que ele fique dependente nem nada disso, mas, mesmo depois de três anos ele continua com muitas dores. Sabe, Heloisa, eles disseram que ele voltaria a andar, mas, uns meses atrás mudaram de opinião. Parece que o dano no disco é irreparável.”

Depois de um tempo não prestando muita atenção, nem olhando pra ela, me dei conta do que ela estava falando e de como ainda me sentia culpada por tudo aquilo. Tentei demonstrar o que estava sentindo em um olhar no mínimo educado. Mas repreensivo.

“Desculpe minha indelicadeza, eu esqueci que você estava também no acidente...”

Nenhuma de nós teve coragem de falar nada por alguns momentos. Ela se virou para me apontar o caminho como se eu não o conhecesse. Não deu tempo de me ver corar de vergonha com a situação. Segurei firme minha bolsa e andei atrás daquela mulher estranha, procurando não olhar por muito tempo para lugar nenhum. Os que eram mais difíceis de ignorar eram os que passávamos muito tempo nos amando. Indo nus, de um lugar para o outro ali dentro, alimentados apenas pelo nosso próprio desejo um pelo outro.

Ela nos deixou a sós, e, antes de sair avisou que se precisássemos de algo, ela estaria na sala.

Moisés estava de olhos fechados, tomando o sol direto no rosto, com uma cara bastante pacífica. Parecia ter engordado poucos quilos, ainda mantinha seu charme atraente, sua pele bastante escura, seu rosto grande e seus dreads grossos, presos por uma fita azul escura. Ele estava vestindo roupas velhas, uma calça cor de mogno e uma camiseta branca amarelada pelo tempo. Demorei pra me lembrar delas, mas, as reconhecia.

A dificuldade era em saber se ria ou se chorava, se me mostrava feliz ou triste. Qualquer opção era sincera demais e me deixaria vulnerável, algo que eu não queria.

Me aproximei timidamente e me assustei com aquela voz grave e familiar.

“Oi, Heloísa.” Disse ele sem abrir os olhos.
“Oi. Oi... Tu ouviu minha voz?”
“O vento tá soprando pra cá, eu reconheci teu perfume.”
“É mesmo?” Falei me aproximando.
“Não, eu ouvi tua voz mesmo, lá de dentro.”

Acho que ele sentiu meu nervosismo, pareceu querer me deixar menos nervosa. Não que tenha funcionado, mas a intenção me pareceu muito amável. Era difícil reconhecer ele ali, daquele jeito. Era difícil ver ele depois de tanto tempo. Queria me desculpar por não ter ido visitar ele no hospital, depois do acidente, quando ele esteve em coma, ou depois das cirurgias, tão duras com ele. Mas me faltava a coragem pra isso.

Ele abriu um pouco os olhos, fazendo uma meia careta por causa do sol.

“Posso te pedir pra me empurrar para a sombra?”

Senti um calafrio ao tocar, sem querer, em seu ombro ao invés da guia para empurrar a cadeira. Ele cuidadosamente, ao perceber que tinha ficado travada, pegou minha mão e botou no lugar certo.

“Ali perto da mesinha e da cadeira está ótimo. A não ser que tu queira ir para dentro. São as melhores opções de lugares que eu tenho pra te oferecer.”

A cada sílaba a vontade de chorar ia crescendo e mandando embora minha vontade de rir de nervosa.

“Eu sei porque tu veio...”
“Acho que não sabe. Bom, talvez não a coisa toda...”
“Veio para se desculpar, não? Por ter sumido depois do acidente?”
“É... Eu acho que sim. Mas eu não sei se mereço perdão pelo que fiz...”
“A mim cabe perdoar, julgar é com o cara lá de cima...”
“Moisés. Eu...”
“Tudo bem, Helô.”

Ele segurou minha mão e esboçou distantemente um sorriso. Estava com a barba por fazer, do jeito que eu mais gostava, um pouco de bigode junto com o cavanhaque, tudo ligado na costeleta pela base do rosto, e, ao redor uma barba por fazer. Eu não consegui acreditar que aquele homem abatido há alguns anos era com quem eu trocava juras de amor quentes e vulgares e, acima de tudo, um carinho e um amor incondicionais.

Queria poder ficar ali, queria ficar saboreando as coisas de antes, sem pensar no peso de tudo, queria lembrar cada detalhe do nosso amor sem pensar que teria de viver um dia na próxima manhã. Queria lhe fazer amor da mesma maneira que fazíamos durante os cinco anos que passamos juntos, sem nunca cansar do corpo um do outro, sempre achando lugares novos e maneiras novas de sentir aquilo tudo que nos unia. Mesmo nossos silêncios ou nossas brigas, tão raras, mas tão duras. Não demorou muito para me dar conta de que ainda o amava. Mas essa era a pior notícia que eu poderia ter. Não que o que eu tinha pra lhe falar fosse melhor.

“Eu vou me casar agora, em outubro.”

Não resisti em tirar minha mão, ela não merecia estar ali junto da dele.

“Foi isso que eu vim falar. Eu achei que tu merecia saber. Tu foi... Tu é importante demais pra mim. Eu queria a tua benção.”
“Benção.”

Então ele permaneceu imóvel, não parecia respirar, nem nada. Estava com um olhar sério vidrado em mim, queria que ele gritasse, que me xingasse, que me julgasse por ser alguém tão fraca e tão ruim.

“Eu vim porque, quando a gente tava junto, tu me deu uma carta, que tinha escrito do lado de fora para abrir somente no dia que eu deixasse de te amar. Só que...”
“Só que tu chegou aqui, linda como sempre. Com o mesmo perfume que colocava quando sabia que ia me ver. E descobriu, ao me ver aqui, que ainda me amava.”
“É...”
“Isso não é amor, Heloísa. Isso é pena. Isso é a pena que tu sente por mim e o remorso por ter me abandonado. Eu tava em coma, como eu poderia lutar pra tu não me deixar?”
“Pára, Moisés, tu tá me magoando com isso que tu tá dizendo.”
“E o teu silêncio não me magoou? Tua ausência?”

O rancor escorria das nossas palavras, as minhas e as dele. Por longos minutos continuamos fazendo ping-pong da culpa, tentando fazer um ou o outro se sentir pior, impotente. Até que desisti ao ver ele escondendo um par de lágrimas.

“Eu não tive coragem de ler a carta...”
“...Escrevi ela depois de fazer amor contigo no teu aniversário. Aquele que passamos na praia, no inverno.”

Fiquei lembrando e saboreando os pedaços de memória espalhados por todo meu corpo. Podia sentir cada segundo passado junto dele naquele dia.

“Porque tu escreveu ela?”
Ele teve de fechar os olhos e respirar fundo para me responder.

“Porque um dia eu sabia que, em algum dia, tu não iria mais me amar.”

Levei a mão até o cabelo e baguncei um pouco ele, tentando me distrair, tentando pensar alguma coisa que não nas palavras dele.

“Como tu pode pensar isso de mim, Moisés?”
“Não sei, eu escrevi ela torcendo para que nunca fosse aberta.”
“Tu acha que eu tenho que ler ela?”
“Tu me ama?”
“Quando tu souber responder isso tu resolve o problema da carta.”

Abri a bolsa e tirei a carta. Coloquei ela na frente dele. Moisés deu uma olhada rápida e continuou se concentrando em me olhar nos olhos.

“E tu, Moisés. Deixou de me amar?”
“Faz diferença pra ti saber essa resposta?”
“Não sei... Tu fala com uma naturalidade...”
“É que eu nunca tive medo de deixar de te amar, porque eu sempre soube que te amaria pra sempre.”

Eu começo a chorar e tento me levantar pra ir embora. A mão forte dele me segura. Me viro, procurando algum traço de amor no rosto dele. Lá, lágrimas.

“Acha que é fácil pra mim te amar, nessa cadeira de rodas? Sem poder fazer nada do que amávamos, sem poder te pegar no colo e andar contigo pelo casa, procurando algum lugar para fazermos amor? Sem poder me levantar daqui pra impedir que tu vá embora.”

Caio vagarosamente me ajoelhando junto à cadeira de rodas dele. Puxo seu rosto junto ao meu e deixo nossas lágrimas se misturarem, cada um com seu gosto e seu jeito, seu peso, sua maneira de rolar pelo rosto. Então beijo-o. Com o corpo todo.

“Obrigado meu amor, obrigado por não deixar de me amor, por não esquecer disso que é tão nosso e que fica guardado no nosso corpo. Tu tem razão, eu nunca tive a coragem necessária, mas eu sei que eu vivi tudo tão forte, queria que nada disso tivesse acontecido.”

Ele segura meu rosto entre as mãos e me olha com a mesma ternura de anos atrás.

”Vai embora, Helô. Vai embora agora senão tu não vai conseguir ir nunca mais.”

“Obrigado. obrigado, meu amor.”

Eu me levanto. Saio correndo pela casa. Entro no carro e saio dali o mais rápido possível. No semáforo fico soluçando junto com as lágrimas. Tento socar o volante, mas logo me dou por vencida.

TRILOGIA DO AMOR: Desculpa


“Não sejas assim, fala do teu coração para alguém como eu, muda teu destino e me perdoa do início ao fim, meu amor, teu perdão é minha água...”

Ana Clara canta na sacada do seu apartamento, pequeno e sujo, de um único quarto. Entoa as melodias de forma triste, como se aquele perdão da canção fosse o seu próprio. Como se fosse uma canção para ela, apoiando as mãos no parapeito, de blusa e cabelos negros e calcinha branca, pés descalços tocando com as pontas o chão frio, saboreando com a boca entreaberta o vento e o aroma simples da noite fria. O decote nas costas, que revela com delicadeza a breve nudez que aparece, reflete suave a pouca luz que vem de dentro da sala.

“Teu amor, teu perdão, meu amor, uma canção, uma única can-ção”

Os braços leves e raquíticos, marcados pelas seringas, balançam no ar, como se batessem asas, como se fizessem um paço de dança. Por fim, como se abraçasse a si mesma e toda sua eternidade com o alento do sentimento, que ali, para ela, se traduzia em medo e saudade.

O antes lindo e pequeno corpo de Ana Clara agora se prostava vencido no chão, segurando os joelhos e brigando com os choramingos que venciam a felicidade reticente de dos últimos versos que cantara e, com esforço, rastejando por entre pacotes de camisinha rasgados e garrafas vazias, Ana Clara se deita no colchão atirado num canto no chão. E dorme de exaustão, ao fim da rotina que repete há dias, depois de receber um cliente, depois antes de se dar por vencida em tolerar a si própria, o gosto amargo do ar que respira e a traição venenosa das veias e dos pensamentos, ambos bombeados por um coração doente. Para ela mesma, já morta. Tombada pela aids.

Exaustão. Sempre a exaustão que a leva ao sono, que é sempre evitado, como quem briga contra um dragão imenso. Mas a fraqueza já a impede até de olhar para tal dragão. De gemer em seu trabalho e de encarar a face no espelho, que, o único do apartamento, já fora quebrado em um acesso de embriaguez e loucura, logo após que descobriu que portava o HIV, contraído, pela ironia, não de um cliente, mas do namorado.

O suor frio. As dores. O corpo delgado se contorcendo encharcado junto à parede, no colchão. Um gole seco de whisky velho. O suficiente para acalmar, ou entorpecer os pontos de dor, enganá-los por uns instantes.

De súbito se levanta. Joga no chão pequenos porta-retratos de uma prateleira modesta. Fotos que já não agüentava mais olhar. Envelhecidas pelos maus tratos, agora rasgadas pelas mãos fracas de Ana Clara. Fotos dela mesma, grávida, ao lado do namorado, o amor de sua vida, até que se provasse o contrário. Seu corpo arqueado na parede. A calcinha branca amarelada e as unhas pintadas de roxo escuro, na mão direita pequenos pedaços de fotos rasgadas caindo no chão como neve. Na direito o punho cerrado batendo na parede com tanta força quanto conseguia espremer de seus braços.

Então, o retorno. Um som estranho vindo do outro lado da parede, da porta. Pelo olho mágico ninguém do outro lado, mas a insistência permanecia, a cada batida na parede outra vinha em retorno, então outra e mais outra, quase beirando um eco débil. Então a exaustão mais uma vez, e mais uma vez os sonhos.

O céu vermelho, uma neve cinza caindo sobre os carros, as árvores e as ruas. Ana Clara parada no topo do prédio jogando pétalas de lineus roxos para baixo, carregados velozmente pelo som e a languidez dos ventos. Aí o silêncio. Seu olhar perdido tomado pelo sorriso de uma criança no meio das nuvens, uma menininha. Da igreja, do outro lado da rua, lentamente os sinos começam a se mexer, com um espaço de tempo enorme até as primeiras marteladas recomeçarem.

“Um grito um, um amor. Pra mim, tão distante, me leva meu amor, me abraça com a tua dor.”

As rimas. Então a fome.

Ana Clara desperta e bebe um gole do vinho virado perto da cama. Ergue a garrafa e deixa o líquido morno descer cortando pela garganta. Ela se sente melhor, por alguns segundos. Então volta a se sentir como antes.

Com as mãos cruzadas junto ao ventre ela acaricia uma cicatriz e tenta se levantar, apoiando-se na parede. E, como se estivesse dançando na água, anda de um lado para o outro devolta até a sacada. E sobe.

O vento lhe acaricia o corpo de uma maneira triste.

“Me desculpa meu amor, me desculpa.”

Então com o mais débil sorriso ela deixa seu corpo pender para fora do prédio. Segura os braços e fecha os olhos vagarosamente, pensando no perfume delicioso que sua filhinha teria se não tivesse sido abortada. Em todo amor do mundo que iria ganhar de Ana Clara, em toda a felicidade de uma vida que se encontrava ali. Em algo tão pequeno, tão vivo e tão importante, onde a coragem de amá-la não se esvaia na ponta de uma agulha, ou na cama com um estranho. Desta vez Ana Clara teria todo o tempo do mundo para estar junto à pequena Lia, quem sabe Sabrina, ou mesmo Agnes. Em alguns segundos ela descobriria.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Um silêncio como nenhum outro




A verdade é que eu não queria estar lá. Estava com muita dor de cabeça, um pouco de ressaca e entediada já ao chegar. Serviço comunitário por péssimo comportamento, não pude deixar de pensar, “se com dezesseis anos tenho que fazer isso, que porcaria vou ter que fazer quando for adulta?”

Seis visitas a um asilo para cuidar de algum velho, ou velha, deprimido que nem a família agüenta. Eu poderia estar errada, mas, tinha todo direito de pensar isso, eu não pretendia envelhecer, ao menos não estar viva para me ver enrugada e velha, dependendo do dinheiro de algum ex-amor. Não... Simplesmente não.

Eu estava no pátio, sentada em um banco de madeira chumbado na grama. Estava com os pés em cima do banco e a saia jogada por cima das coxas, tapando-as para que continuassem braquinhas, fugindo do sol forte de verão. Já era final de tarde, mas ainda estava quente e abafado. Uma brisa calma levava aquele ar morno de lá pra cá, hora balançando um pouco as folhas e flores, hora se escondendo entre as amoreiras. Isso eu não podia negar, o lugar era muito bonito, bastante bucólico e tranqüilo. Mas estes lugares são carregados de uma tristeza e um cheiro de morte que são inconfundíveis e bastante constrangedores.

Enquanto observava alguns moradores do asilo caminhando, e esperava interminavelmente por alguém que fosse me levar até o velho de quem eu tomaria conta, brinquei com as pontas do meu cabelo até ficarem oleosas. Pensei em ligar para o Marco e me desculpar pela briga boba. Mas, antes que eu pudesse criar coragem para pegar o telefone, ou mesmo tentar formular alguma desculpa esfarrapada, uma jovem moça de branco me interrompeu.

“Elis?”
“Isso...”
“Como a cantora?”
“Sabe que eu nunca tinha parado pra perceber isso?”
“Oi?”
“Nada não. É tu que vai me levar para o...?”
“Duarte. Maestro Omar Duarte”
“Maestro?”
”Ele foi Maestro da filarmônica municipal durante décadas.”
“Hmm...”
“Bom, acho que vocês vão se dar bem. Ele é um homem muito interessante, mas muito reservado.”

Fiquei com vontade de pedir para ela não falar dele como se fosse um pretendente a namorado. Talvez fosse o jeito dela, mas era altamente irritante. Os minutos caminhando até o alojamento onde ele estava, um quarto simples de solteiro com uma janela para um outro pátio, foram tortuosos ao ponto de eu fingir uma ligação telefônica para que ela ficasse quieta e parasse de falar das qualidades do tal Maestro. Quem sabe ela era tão solitária quanto aquelas pessoas ali ao nosso redor, por isso esse jeito tão estranho, escondendo a solidão com um pacote de dentes brancos e um sorriso falso.

Ela me deixou do lado de fora da porta e me desejou, estranhamente, boa sorte.
“...Está aberta.”

Como um trovão. Uma voz rouca e imponente. Mas de forma alguma combinava com aquele homem mirrado, quase sumindo dentro de um pijama de algodão listrado, prostrado em uma cadeira de rodas que parecia ser tão velha quanto ele.

A pele marcada, com vários vincos. O rosto cinza e os olhos negro-leitosos, contemplando alguma coisa ao longe pela janela. Duarte não se deu ao trabalho de virar para me receber, ao menos dizer “olá!” ou olhar para minha cara. Estava com o queixo apoiado em uma das mãos, como uma criança entediada em um dia de chuva. O sol, recortado pela janela, fazia com que sua sombra se esparramasse pelo vazio do quarto, pouco mobilhado e decorado. A não ser pela cama, um pequeno armário e uma estante com livros, ao lado de um criado mudo, nada havia ali.

Não lembro quanto tempo foi que levou para que ele voltasse a falar. Mas com certeza mais de dez minutos.

“Não precisa ficar parada na porta.”

Claro que eu não precisava.

Dei alguns passos e encostei a porta deixando a mão pendurar para trás, pensei em me apresentar, um mínimo de educação. Mas surpreendentemente ele pensou em algo para falar antes de mim. Surpreendente porque ele parecia um daqueles senhores que falam no máximo duas ou três vezes por dia.

“Não me importa teu nome. Vocês vem. Vão. Voltam uma semana depois. Vem e vão denovo. E pronto. Vou te salvar a paciência, não precisa ficar ou falar nada. Se quiser ir eu digo que tivemos ótimas conversas sobre um passado saudoso e que mal posso esperar por teu retorno. Mas, se for ficar. Não vai ganhar meu desafeto com teu silêncio... Muito antes pelo contrário.”

Parecia um desaforo. E no fundo era. O que mais um velho mal amado poderia dizer no final da vida, fiquei pensando. Mas, era contraditório, ao mesmo tempo em que parecia rude, era tudo o que eu queria. Mas tinha algo errado ali.

“Minha carona só chega às sete e meia...” Falei sem a pretensão de ser ouvida, enquanto tateava pelo meu corpo procurando por um isqueiro. Um cigarro me faria bem. Poderia fumar quase a carteira toda naquela hora e meia que tinha para matar ali. Duarte permanecia imóvel, a não ser pelo visível movimento do peito, para respirar, Inspiradas profundas, expiradas ruidosas.

Me escorei numa das paredes, com um pouco de medo que ela caísse e tudo viesse abaixo, pois era muito fina, dava para ouvir as pessoas do quarto ao lado assistindo um programa de auditório na televisão, o som dos passos junto com o andador no corredor, e das conversas no jardim. O silêncio torna os ruídos mais altos, pensei ao reparar no som do fumo queimando perto dos lábios, e da pedra riscando toda vez que rumava um novo cigarro até a boca.

Ocasionalmente ele murmurava alguma coisa, algo incompreensível. Gesticulava com uma das mãos e depois tornava a se concentrar na janela.

Quando comecei a fumar o último cigarro, procurei por uma lixeira, havia uma no canto, do outro lado da cama, que não o da mesinha de cabeceira. Nele havia um lenço. Coloquei o maço de Marlboro no lixo e toquei o pano. Era muito macio e tinha um pequenino rasgão na ponta, como se estivesse preso a algum lugar. Tinha tons de marrom e preto, se misturavam graciosamente.

Ainda sem olhar para mim ele gritou, agarrando forte o apoio dos braços na cadeira de rodas.

“Nunca mais toca nesse pano, sua garotinha.”

Claro que me chamar de garotinha não era nada, mas, certamente eu imaginava qual era a intenção daquelas palavras. Minhas pulseiras farfalharam e fizeram um ruído e, batendo os pés no chão, bastante consternada, saí dali deixando a porta atrás de mim, sem entender, sem querer entender e sem nenhum cigarro para fumar, ainda com uma dor de cabeça aguda.

Demorou um pouco para minha carona chegar, não expliquei nada para ninguém ali, apenas saí ignorando qualquer chamado pelo meu nome e me sentei no meio-fio.

A sexta-feira seguinte chegou rápido. Minha tentativa de me desvencilhar daquele trabalho não tinha se sustentado e mais uma vez eu estava lá. Rabugento e louco, pensei. Aquele homem não passava de um idiota. Desta vezes não precisei ficar horas esperando para que alguém me indicasse algo. Ao chegar, sorri para a mulher atrás da escrivaninha, e deixei um documento ali, para que ela anotasse e me desse depois uma espécie de recibo por estar lá. Em algum momento pensei em tentar suborná-la e me dar todos de uma vez, mas, certamente não teria nada para lhe oferecer além de dois chicletes e algumas moedas. Não, não parecia o tipo de pessoa que faria algo por tão pouco.

Eu entrei e fui surpreendida por um leve sorriso, pequeno, com parte da boca apenas, mas que logo se tornou a mesma carranca do outro dia. Omar Duarte estava ali sentado na cadeira de rodas praticamente no mesmo lugar, cheguei a pensar que a cadeira era tão chumbada no quarto quanto os bancos do jardim, ou algo que o valha. Ele coçou a barba e tornou a olhar para um álbum de fotos no que tinha ao colo.

Por algum motivo achei que deveria me desculpar por alguma coisa, seja lá o que fosse.

“Olha... eu não sabia que...”

Vagarosamente ele virou para mim, parecendo um pouco indefeso.

“Não tinha como saber.”’
“É que eu tenho...”

Mais uma vez ele me interrompeu, alisando a fronte e correndo a mão pelo lado do rosto.
“Não tinha como saber que tu era assim.”

Ele falou girando o álbum de fotos em minha direção como quem diz, “aproxime-se... Ou, entre”.

Com um pouco de desconfiança fui até ali. Por um longo tempo fiquei parada, deixando o rosto cair lentamente para ver melhor, até que coloquei minha mochila no chão e me apoiei sobre os joelhos. Não dava para julgar direito mas a mulher na foto parecia comigo, de uma forma distante, era uma foto preto e branca bastante velha, ela estava sentada em uma praça, Parecia sorrir para alguém fora do quadro da foto, estava usando um vestido de verão branco e tinha os cabelos caídos pelos ombros da mesma forma que eu,

Não havia necessidade de falar nada e por um bom tempo ficamos calados, ele fechava os olhos às vezes, como que lembrando das coisas ao redor daquela cena fotografada, o jeito do seu cabelo e como havia beijado aquela mulher,a maneira como ela segurava a sua mão e puxava para perto de si.

“Porque acha que é difícil?” Ele me perguntou com uma voz mansa e triste.

Seria complicado, e foi, dizer algo depois disso. Mas ele percebeu e, quando me sentei no chão com as pernas cruzadas ele respirou fundo e olhou para o teto, como se lá estivesse escrito toda sua vida e não apenas uma lâmpada e um ventilador velho de ferro.

“Ela se chamava Nádia e...”

A partir daí eu não prestei mais atenção no que ele falava, primeiro porque ele parecia estar perdido demais contanto a história para si mesmo, escolhendo as palavras que mais lhe agradavam para traduzir todas aquelas imagens e memórias, e segundo, ainda estava assustada por ela se parecer tanto comigo, fisicamente, claro.

“...Desculpe. Sei como é entediante ouvir sobre a vida de um velho tolo.”

A voz dele já não era ríspida, não parecia mais tão seca e tão profunda. Apesar de lacônico ele tinha uma felicidade estranha nos olhos, diferente da semana passada. Parecia estar em contato com algo perdido. Talvez algum parente tivesse trazido o álbum para ele, encontrado em uma caixa vazia em um sótão, ou porão. Estava um pouco empoeirado e castigado pelo tempo.

“Conheci ela em um teatro, Nádia dançava e...”

E, vagarosamente enquanto ia me aninhando no ritmo e na cadência com que ele narrava, me distraí com o calor pouco usual de uma lágrima rolando preguiçosamente pelo meu rosto. Então outra. E outra. Já havia ouvido histórias de amor, não que eu acreditasse muito nelas, mas sabia quando me deparava com algo interessante, e de um momento para outro tornou-se impossível não sentir a dor daquelas palavras, daquele amor perdido, roubado. Omar demorou a perceber minhas lágrimas, e, tão logo ele as percebeu, ao virar casualmente o rosto em minha direção, escondi meu rosto deixando os cabelos caírem pelo lado e olhei para baixo.

Eu podia ouvir o barulho de um ou outra gota batendo no assoalho de madeira, mais uma vez, o silêncio transforma as coisas que não ouvimos em gritos, em coisas que se pode ouvir até mesmo do topo do mundo. Daquele momento em diante não houve mais silêncio para mim, pois, mesmo a mais profunda das quietudes morre por teimar e fazer ela mesmo tão presente, tão perceptível. Aquele silêncio mentiroso evidenciava tanto barulho dentro e fora de mim que me era quase palpável. Entendi o que os poetas queriam dizer com “o silêncio é a primeira mentira bem escrita”. Também entendi um pouco da loucura que se cai sobre quem sente a mesma dor diariamente, por anos a fio, inquestionável e incessante.

Não deixei que visse meu rosto até a hora que fui embora.

“...Eu me chamo Elis.”

E levantei-me virando, dando-lhe as costas. Envergonhada do que havia sentido ao ouvir aquela história e pronta para beber muito de qualquer coisa, qualquer coisa suficiente para me fazer sentir algo diferente daquilo que estava se lastrando em mim.

No caminho de casa tentei lembrar do nome do disco que Nádia estava dançando quando eles se dormiram juntos pela primeira vez. Algum jazzista antigo. Charlie Parker, John Coltrane, Duke Ellington, Dizzy Gillespe. Poderia ser qualquer um deles.

Quando cheguei na loja já havia me decidido, e, quando cheguei em casa mal podia esperar para ver a agulha arranhando os sulcos do disco e reproduzindo aquilo que fora trilha Sonora da vida daquele homem.

Tinha melodias tristes, mas, ao mesmo tempo algo que dava vontade de dançar, ou mesmo balançar o corpo vagarosamente, acompanhando o sopro longo de cada nota que se espalhava no ar.

Quando a sexta-feira seguinte chegou, peguei um vinho que tinha em casa e o disco que havia comprado. Coloquei-os na mochila e fui para o asilo, saí com tempo, preferi caminhar todo o trajeto. Não estava tão quente. Estava um pouquinho frio na verdade. Coloquei uma saia longa e uma blusa com um pequeno corte junto aos seios. Também peguei um cachecol, um leve e de cor escura, um preto meio azulado. Era uma cor que eu gostava muito mais jamais descobrira o nome, parecia com o céu no inverno antes de amanhecer. Só que mais puxado para o azul.

A mulher da frente do asilo, que cuidava as entradas e saídas me olhou da mesma maneira, mas de uma forma diferente, procurou não encontrar meus olhos, apenas verificou se era eu, ao olhar minha identidade, e voltou a anotar o que estava copiando. Tinha um livro bem grosso na sua frente.

“Eu preciso dos atestados, recibos, sei lá...”
“Quando tu for embora eu te dou.”

Toquei a ponta da mesinha com os dedos antes de deixar ela de lado.

Bati na porta do Maestro e fui entrando, preparei um sorriso sincero, mas fui detida rapidamente por uma enfermeira. A mesma que me levou até ali da primeira vez.

“Elis, podemos conversar um pouquinho?”
Então fechou a porta e se encostou na parede.

“O Sr. Duarte teve um problema. Ele teve uma recaída e uma reação à um dos remédios que o psiquiatra daqui prescreveu e... Bom, ele não ouve ou fala mais e não reconhece mais ninguém.”

Queria perguntar “como assim?” ou algo do gênero. Mas eu preferi entrar, e antes que ela pudesse dizer alguma coisa fechei a porta na cara dela. Pude ouvir ela escorrer uma das mãos pela madeira antes de seus passos desaparecerem no corredor.

Omar estava sentado no mesmo lugar. Agi naturalmente, larguei minhas coisas e fiquei falando com ele, esperando que tivesse algo em retorno. Mas nem um músculo, olhar, sorriso. Nada.

Eu coloquei o disco numa espécie de vitrola e tomei um gole do vinho. Deixei cair um bocado dentro da boca e, de forma pouco feminina, pouquíssimo delicada, enguli tudo de uma vez.

Olhei para a foto de Nádia na mesa de cabeceira e tentei arrumar o cabelo de forma parecida com o dela. Então, tirei os sapatos e coloquei meu cachecol junto ao pano marrom.

Desajeitadamente comecei a dançar por ali, da forma mais ingênua e atenciosa possível. Girei, tentando entrar num ritmo parecido com o da música e fiquei na frente do Maestro. Encolhi-me quase sentando no chão e proteji a boca com uma das mãos, sufocando os soluços. Mais uma vez molhando aquele assoalho com algumas lágrimas.

Me aproximei, devagar, e coloquei um cobertor, que estava dobrado ao lado da cadeira, sob suas pernas. O quarto estava frio, apesar de um dia de verão, principalmente para alguém que não pode se mexer e fica apenas parado em uma cadeira de rodas. O vento cortava as folhas no jardim, como me mostrava a janela, e se juntava acanhadamente à melodia do disco.

Eu o olhei por um longo momento e então, sem pensar muito, e coloquei de forma muito infantil meus lábios sob os dele e os apertei com alguma forma de carinho. A agulha arranhava os sulcos do vinil e dançava pelos acordes finais da música, e, pela janela algumas gotas de chuva começavam a tilitar no vidro.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A noite em que os touros de Pamplona caíram


A noite em que os touros de Pamplona caíram

Júlio

Me organizar. É isso que eu preciso. Organizar o que eu estava pensando e o que eu iria fazer, não vou perder meu tempo tentando entender o que estava sentindo, talvez mais tarde, tomando café, depois de dormir pelo menos um dia inteiro, dois, quem sabe. Uma e vinte e cinco. Acho que essa hora já está dormindo, vai lá saber que porcaria de dia deve ter tido. Pode ter sido um dia cheio, ou simplesmente ter pego alguma roupa na tinturaria, comido um pedaço de pizza, meio fria-meio velha, e ido dormir. Não. Especular não faz parte de me organizar. Eu olho para os papeis e para a sujeira do fast food que havia comido minutos antes, seria o suficiente para não sentir fome tão cedo. Sede sim, três cervejas e meio litro de refrigerante de limão não foram suficientes. Mas, melhor não me incomodar com isso agora.

Bato as mãos no volante lentamente esperando o intervalo comercial do rádio terminar. Estação AM. Um início de madrugada de terça para quarta. Inverno de 2006. Faz frio em Porto Alegre, chove no porto dos casais. Ironicamente, antes de ser substituído pela vinheta comercial, com direito a jingle de uma farmácia e tudo mais, Humberto Alavés havia dado a previsão do tempo. Parcialmente nublado, com chuvas ocasionais. O cenário se apresentava diferente. Aquela chuva torrencial, o vento ruidoso e as nuvens cor de breu indicavam algo que talvez, simplesmente talvez, tenha escapado a percepção do sempre tão acurado Humberto Alavés. O telefone toca, uma, duas vezes, fico algum tempo parado olhando sem muito foco, mas, percebendo a luz azul piscando. Ninguém disse que eu tenho que atender, principalmente depois do que aconteceu.

Melhor me distrair com outra coisa. Melhor ficar algum tempo sem pensar em nada. Mais tarde me abandonaria, mas, ali ainda podia sentir uma perspectiva de que alguma coisa iria melhorar.

Abro o porta-luvas, esbarro em tudo pelo caminho, maço de cigarros vazio, palanca de marchas, lata vazia de cerveja. Enfio a mão fundo, desconfiando de mim mesmo se havia guardado o que estava procurando ali ou em outro lugar. Do outro lado da rua a van entrega, curiosamente, o jornal. Cedo demais, pouca coisa pra virar pauta, eu acho. Bom, sem nada de novo nos esportes, nem na cultura e nem na política fica fácil fechar o jornal, poder ir embora mais cedo. Remexo mais um pouco o porta-luvas. No fundo, estava lá.

Faço uma breve ginástica para tirar a jaqueta da maneira mais rápida possível, não que o Gol tenha muito espaço interno, mas, não se mostrou grande desafio. A partir daí não lembro de muita coisa, sei que rolei a manga da minha camiseta cinza para cima, na altura do que sobrava do meu bíceps. Tirei o cinto e deixei o pequeno estojo de couro no colo por alguns instantes. Atei o braço e puxei a tira de coro com os dentes, acariciando com a outra mão o meu braço, procurando por alguma veia que estivesse apta a colaborar comigo. Sempre havia uma, principalmente nessas horas. Acho que foi assim.

A sensação era muito boa, muito familiar. Como voltar para casa depois de um fim-de-semana na praia. Fazia algum tempo que eu havia parado de olhar, mas desta vez não pude tirar os olhos daquilo. A pequena agulha hipodérmica entrando, como se dançasse para dentro do meu corpo, então o vermelho do sangue se misturando com o líquido laranja que havia ali, numa triste combinação de cores que lembrava mais algum pigmento da palheta do Goya do que qualquer outra coisa no mundo. Tão bonito quanto o degradê do céu no fim de tarde, arcando entre o azul da noite e o vermelho do sol. Poesia ingênua, entre o sol e as cores de Goya nada poderia definir a sensação e o delírio que estava por vir. Então como um disparo, o sangue, agora misturado, volta para dentro da veia e, sem teimar muito, a agulha sai, deixando uma tímida gotícula de sangue ali no lugar, fazendo companhia para as outras marcas e furos.

Alícia

“Ai, Neivinha, não sei, já é dez e meia passada. Eu não tô muito afim, sabe? Eu já vou sair na quinta e na sexta, não quero fazer nada hoje. Tem umas coisas de trabalho ainda que eu to vendo. Eu sou super careta, tu que não descobriu esse meu lado ainda. Ai, sabe como eu sou, quando tô sozinha quero companhia, quando tô acompanhada fico entediada... Não, eu não tô esperando gatinho nenhum. Ai, como tu é desconfiada. Hahaha. Hoje, eu quero ficar bonitinha, de pijaminha, bem quentinha curtindo esse clima. Ah, sei lá, eu gosto. É, tem que nascer aqui pra poder aproveitar, realmente saborear o clima. Ou em Londres, ou Seattle. Hahaha, sim, eu sempre disse, Porto Alegre é a Londres latina, só que um pouco mais decadente. Tem o clima gris, o rock’n’roll e um porto que funciona pra pouca coisa. Ah, mas quando a gente foi lá tava divertido. Tá, eu prometo. Não, não, que isso, tu nunca incomoda, eu até tô com sono, mas, quero tomar um banho bem quente e bem longo ainda. Um pouco elétrica, mas eu fico assim quando tô cansada, inquieta. Por isso quer relaxar na banheira. Tá certo, beijo, Neivinha.”

Tu... tu... tu. Clic. Acho que seria bom sair, mas, realmente não é clima. Eu e minhas manias, ficar escutando o sinal que dá quando alguém desliga o telefone.

Júlio

Minhas pupilas dilatadas. Minha respiração ofegante, o coração apertado e o peito ardendo e formigando. A eufórica calma, a tristeza calada se misturando com o som da chuva, ainda forte e insistente. Um momento de quietude. Então a paranóia.

As castanheiras batem forte e tem seu som ecoado por todo meu corpo, reverberado no meu peito e arrancado de todo seu sentido, sua poética e sua cadência entre meu inspirar e expirar. Então logo vêm as batidas dos lindos sapatos negros imaginários num tablado, duas mulheres replicadas por um interessante jogo de espelhos, seus movimentos repetidos por todos os lados seguindo um caminho da música que só elas parecem perceber. Solene, um bandoneon triste e insistente no fundo se esgueira entre o caos, surrado pelos gritos da multidão que tudo observa. Uma mulher igualmente triste, chorando como apenas um bandoneon bem tocado sabe chorar, apoiada no guarda-corpo de uma tribuna, canta, perseguindo a melodia, que agora também ganha companhia dos urros e grunhidos do touro, que se agita e se prosta entre os espaços deixados pelo toureador. Por entre as nuvens, o animal se deixa ficar num único filete cálido do sol, em tons pastéis com o negro de sua pele emperrado, sujo e escuro como a noite. Tarnado de vermelho ao longo de seu dorso soberano. As castanheiras se intensificam e se sobrepõem umas as outras. O bandoneon deixa de lado sua tristeza e começa a carregar em suas notas, diminutas, sobrepostas, uma leveza contínua quase frenética, porém pequena e pontual, marcando cada toque no chão que caracteriza aquela dança inebriada das mulheres de decote vermelho e seu flamenco proibido.

O homem distinto e elegante, no meio da arena, com a haste de veludo verde e anil em riste, observa sua obra prima, tudo que a cerca e seu par majestoso e imponente, agonizando em súplica com as patas dianteiras já dobradas e estendidas sob o chão em direção ao próprio ventre, com a língua de fora e ofegante a olhar fixamente para o brilho do sol na lámina, que não demora a lhe fazer companhia junto ao coração. Agora misturado na areia, o vermelho de seu sangue, o vermelho do vestido da loira sorridente com as castanheiras cerradas, o da morena de olhar fulminante e infantil, o dos cabelos da mulher apoiada no guarda-corpo, cantando baixinho o último verso e voltando para seu início, como se seu mundo se resumisse a isso, e por fim o vermelho do couro do bandoneon, que fica sozinho perambulando por um par de notas para avisar que se trata do fim.

Alícia

A sopa quente tem um gosto mais palatável, mas com esse frio logo vai ficar gelada e sem graça. Acho que deveria ter tratado a Neiva um pouco melhor, não que ela fique chateada, longe disso, mas sei que de alguma forma ela gostaria de passar mais tempo comigo, talvez se eu não pintasse tanto para fora. Outra hora eu saio com ela, melhor assim.

Essa cozinha me deixa emburrada, justo eu, não consegui perceber que ficaria tão entediada com essas cores. Bem que minha mãe me disse para pintar de branco, não por ser comum, mas, simplesmente por ser algo facilmente ignorado. Paredes brancas, teto branco, tudo branco, algo que não incomode, que não pareça estar lá. É, acho que teria sido melhor. Melhor ir para sala.

Fazia anos que eu não ficava assim quieta ouvindo a chuva. Dá um sono, principalmente com esses cheiros de tinta dos quadros ainda frescos. Preciso parar de teimar de pitar em casa. O atelier serve pra isso. Mais fácil dizer do que fazer. Fácil mesmo é ficar assim, recostada no sofá enrolada no cobertor tomando sopa. Sopa de aspargos, de lata, mas, já é algo. Aquele quadro tá torto, que agonia. Chama tanta atenção. Tudo tão certinho ao redor e ele ali torto. Que boba... E minha sopa aqui esfriando.

Júlio

Mais calmo.

Eu acaricio a testa e arrumo o cabelo, hora dividindo, hora jogando para um lado ou outro. Tento não acreditar no que aconteceu e ao mesmo tempo criar coragem para fazer o que tem de ser feito. Os fatos já parecem fora de ordem, nossa vida juntos emaranhada entre coisas vividas, sonhadas e passadas. Mas não chega a formar uma linha do tempo, é tênue demais.

Disse que não beberia, que nunca mais tocaria uma garrafa e todas essas mentiras que contamos quando nos sentimos acuados e prestes a perder algo que julgamos importante. Horas mais tarde eu estava voltando pra casa bêbado como sempre. Quando disse que iria sair senti uma tristeza na voz de Lívia. Se eu tivesse ficado um tempo ainda atrás da porta, mesmo com ela batida às minhas costas, poderia o choro de criança, tão característico dela. Também poderia ouvir o som das roupas sendo jogadas com rancor dentro de uma mala velha, cheia de adesivos recebidos por onde passou.

O barulho da minha chave não a assustou, sei que não. Todo o tempo que passei fora, imagino que ela tenha usado para se preparar para ir embora. Eu, na verdade, me assustei ao ver aquela mala solitária junto ao sofá. Lívia adoravelmente vestida com um vestidinho roxo e meias grossas por baixo. Parecia tão adorável, mas a mágoa escorria-lhe pelas bochechas, caída dos olhos.

“Não vou perguntar o que é isso. Não quero terminar essa briga assim.”

“Olha, Júlio, eu não devo satisfação pra ninguém, eu podia ter ido embora assim que tu saiu. Mas não seria certo, tu merece ouvir que... Que eu te amo, mas que eu tenho de ir embora”

“Porra, mulher, se tu me ama, porque cacete tu tá indo? Eu já disse que vou parar com tudo.”

“Tu não vai entender... Tu nunca entende.”

Um milhão de brigas, todas variantes dos mesmos motivos. Era o que parecia. E o que ela sempre brigava em dizer que não tinha nada a ver. Aquelas palavras dela não tinham um eco ou uma raiz, pareciam palavras de quem já não tinha mais nada para perder, e que, ironicamente, depois de perder tudo, parecia ter ganho o que estava lutando o tempo todo.

Aí ela pegou a mala e andou discretamente até mim, sem olhar para os lados ou para nada, para os lugares onde fizemos amor, ou algo parecido, por onde fomos juntos e também fomos um pouco o ninguém de cada um de nós. E me beijou, com um bocado de carinho e o rosto ainda molhado.

“Vai embora e não faz isso. Eu preferia que tu tivesse ido embora enquanto eu tava fora.”

“Porquê...?”

“Para não precisar mentir e te dizer que eu quero que tu fique. Que eu me importo. Que faz alguma diferença pra mim.”

Ela ficou em silêncio e deixou a mão rolar pelo meu rosto, nuca e peito.

“Júlio, não precisa tentar me magoar agora que eu to indo embora, tu já fez isso durante muito tempo... Eu já tô cansada de tudo.”

Lembro do som da porta batendo. E de ficar sentado por horas a fio, respirando ocasionalmente e contemplando a enorme tela na parede. Uma cena de uma tourada, replicada da memória dos dias de fúria de uma artista ao visitar Pamplona. Comprado com carinho, a única moeda que importava para mim naquela noite. Acho que a dor daquele touro fazia coro com a minha e o torpor de seus últimos suspiros, tão deixados em claro naquela pintura, se espreitava entre as coisas que eu estava sentindo.

Alícia

Melhor deitar aqui mesmo, amanhã eu levo essa cumbuca para a cozinha. Tanta coisa pra fazer amanhã, já devia ter dormido. Eu devia roer menos as unhas, elas tão sempre cheias de tinta, eu devia pagar as contas atrasadas também. Tá tão friozinho, mas tá tão gostoso.

Júlio

Eu pego a tela enrolada no banco de trás e abro a porta do carro, rapidamente corro em direção à porta. 303? 305? Era no terceiro andar, era um número ímpar.

“Alícia?”

“Quem é?”

“...É o Júlio.”

“Bom... Não vou te deixar na chuva...”

Estava encharcado, pelo menos a tela estava enrolada e protegida.

O barulho inaudível do interfone e da porta elétrica abrindo, as gotas de chuva batendo forte nas poças ao meu redor. O prédio deveria ter uma marquise. O elevador estava ali no térreo, e, antes que eu pudesse me acostumar com o pouco espaço que havia ali dentro a porta já estava abrindo e eu já estava em mim denovo.

Eu toquei a porta, leve, quase sem fazer barulho, mas, ainda assim de forma audível. Podia ouvir no fundo um disco da Tracey Thorn tocando, não muito mais alto do que a forma que eu havia batido na porta. A porta se abriu apenas um tanto. Alícia surgiu atrás de uma correntinha, preenchendo um pequeno vão que dava par dentro de seu apartamento.

“Oi, Júlio.”

Disse ela quase sorrindo, sem jeito, sem simpatia e sem agrado, mas de forma extremamente educada.

Paro e olho para uma das mãos vazias e para a tela na outra.

“Se eu tivesse flores, seria mais fácil entrar?”

“Seria.”

“Eu imaginei. Não tem nenhuma floricultura aberta essa hora, né?”

“Não é teu dia de sorte.”

“Eu já tinha parado pra pensar nisso hoje.”

“Que pena, achei que tinha alguma originalidade no que eu tava falando.”

“Bom, já passa da meia noite. Hoje ninguém me disse isso, e, podemos fingir que eu não pensei isso depois da meia noite.”

“Parece bom. Mas, pro teu azar tu não é bom em mentir ou fingir.”

“A gente faz de conta que sim.”

“E como fazemos isso?”

Me aproximo, chego perto o suficiente pra me embriagar de seu perfume e ver meu rosto cansado refletido nos olhos dela.

“Posso começar dizendo que não gosto muito de ti.”

“...Acho melhor mentir outra coisa, já passei tempo demais tentando me convencer disso. O que é que tu tem na mão?”

“A que sobrou.”

“Sobrou do quê?”

“Longa história...”

“Resume, tô com sono.”

Da forma mais desajeitada possível me esgueiro naquele pequeno vão procurando pela boca dela com a minha. A corrente cai e a porta abre.

“Não diz nada, não me fala da Lívia, não me diz que tu tem que ir embora logo ou antes do sol nascer. Só fica aqui um pouco, comigo, deitado nesse sofá.”

“Foi aqui que a gente dormiu aquela vez?”

Ela calou minha boca com a ponta dos dedos.

Eu estendo a tela junto da parede.

“Nossa, tu ainda tem isso. Porque tu trouxe? Quer devolver? È pra isso que tu tá aqui? Assim no meio da madrugada? Andou bebendo demais denovo Júlio?”

Me aconchego ao lado dela no sofá.

“Era a única coisa minha de verdade. Achei que faria algum sentido trazer ela aqui.”

“Tu ainda não me disse porque tu tá aqui. Mas que bom que tu veio.”

“É que não faz muito sentido estar em outro lugar.”

Eu adormeço rápido junto ao perfume do pescoço dela.


FIM


nota do autor: Orgulhosamente uma visão positiva do "amor".