
“E agora?...”
“Agora a gente... quero dizer, eu espero.”
...
Como tudo chegou ali? Tentava futilmente montar aquele quadro, dentro da minha cabeça tudo era lua. Onde eu havia errado? De quem eram as diversas culpas, as reações em cadeia que levaram tudo isso a um desfecho tão previsível... sim, mas, de toda forma, o fim que eu mais queria evitar. Muitas perguntas sem respostas, e no fundo eu não tinha muito tempo, nem para responder elas, nem para entender as respostas que eu já tinha. O nome da Nádia não parava de bater na minha cabeça, por uns instantes olhei para sua foto na estante. Não, talvez fosse paranóia minha. Iván poderia tirar minhas dúvidas, mas, certamente já estava morto.
“...O Iván...?”
“...Sim.”
...
Três dias antes.
Que horas são? Já é hora de ir embora? Quem é essa mulher de verde? Nunca vi ela aqui. Aparenta bem, dança bem. No escuro qualquer uma delas dança bem. Vestido curto, deve estar morrendo de frio. Esse gordo babando em cima dela me irrita. Onde tá a minha bebida. Aquela porcaria de garçonete deve cuspir no copo de todo mundo. Não devem ter aprovado o número dela, deve ser horrível no palco. Mas que cacete, essa mulher de verde é gostosa pra cacete. Eu já vi esse gordo em algum lugar. Preciso de um cigarro. Preciso ir no banheiro. Se eu sair daqui aquela vagabunda vai chegar com a porcaria da minha bebida. Sei disso. Sei de um monte de coisa. Cacete, onde eu coloquei meu isqueiro? O Iván tá atrasado. Só mais uma carreirinha, só mais uma. Quem foi que matou a Penélope? Foi a Sílvia Maestro ou a Bela Llavé? Uma carreirinha não mata ninguém, ninguém. Isso aí. Uma linhazinha aqui, no meu canto, no escurinho, esperando a porcaria da bebida, a porcaria do Iván. Olhando aquela gostosinha ali no palco tirar a roupa. Só uma carreirinha. A última, juro. A última antes da última. Sempre tem uma última antes da última. Uma última trepada antes de se casar. Um último anti-biótico antes que a doença te mate. Ou que tu desista. Barbitúricos, codeína, Tylenol. Antigamente era mais fácil. Foda-se antigamente, eu tô me mijando. Porra o Iván chegou.
“Espera aqui, se uma bisca aparecer com o meu uísque, manda ela deixar aí. Eu já venho.”
A gostosinha de verde tá me olhando. O gordo tá com a cara enfiada entre os peitos dela. Mas que merda. A puta ainda pisca pra mim. A cara desse gordo deve feder à pastel de rodoviária, gordura velha, essas porra que a gente encontra no centro da cidade.
Um idiota sentado no vaso.
“Eu preciso mijar.”
Ele continua me olhando com uma cara de quem não entende português.
“Puto. Hablas español? Quiero mijar, te passa. Pinche pibe....”
Cacete. Nada.
“Eco, ma vai, te manda...”
Cacete, ele também não viu a novelinha italiana das oito, que começava às nove.
“Ô, tu entende isso aqui?”
Eu levanto minha blusa de veludo cotelê e mostro o meu revolver. Tem horas que a gente tem de ser rude. Afinal, eu só mijo em vaso.
...
Dois dias antes.
“Vem, eu vou te levar pro lugar mais lindo do mundo. O lugar onde tu vai ser uma rainha pra todo o sempre. E todas essas merdas que tu diz que curte. Mas tem que ser num lugar lindo. Eu conheço a porcaria dos lugares lindos por aqui, eu vou te levar pra todos eles e tu vai escolher, vai dizer, aqui é a porcaria do lugar mais lindo do mundo, daí tu vai poder ser o que tu quiser. Se tu não quiser ser nada, só curtir a beleza do lugar, tudo bem, eu não to nem aí, eu vou estar provavelmente bêbado. Bêbado o suficiente pra não me lembrar de nada por um punhado de dias. Sabe um punhado de dias? É tipo uma semana, tu consegue pegar com uma mão. Só não consegue pegar um findi. Seriam sete dias, faltariam dedos na mão. Daí que vem essas coisas de punhado de dias. Eu gosto. Olha pra mim, tu acha que eu pareço com o Denis Mallow? Eu poderia ser ator, seria um danado de bom. Só não serviria pra pornô... Não me entenda errado... Não é por aí. É só que eu não acredito em amor na frente das câmeras, e, eu, quando tô pelado, sou como o William Shakespeare. Poesia pura. Olha meu bem, vem cá, eu vou parar logo ali na frente, daí a gente vai pro banco de trás, e eu te ensino o que é poesia. E não me vem com esse olhar de que eu monopolizo as conversas, que não dou espaço pras pessoas conversarem, é que, bom, tu me entende, eu penso rápido, eu tenho que pensar, saca? É isso, ou eu já era. Rápido na cabeça, rápido no gatilho. Não que eu tenha uma arma, é só uma porcaria de ditado. Quando eu era pequeno eu vi filmes de faroeste demais. Todos eram iguais, sempre tinha um babaca com cara de mal que queria enfiar chumbo no rabo de algum índio. Daí vinha um monte de índio à cavalo, e o cara com cara de mau se ferrava. Daí vinham uns amigos deles, com umas escopetas do tamanho de uma perna de zebra, no duro, e chumbavam a indiazada pra longe de lá. Todos eram assim, eu entendo de roteiros, eu seria um puta dum roteirista. Vem cá meu amor...”
Um dia antes.
A carta era bem simples, as instruções eram bem claras. Eu tinha que dar no pé, mas, eu era danado de teimoso. Se eu pudesse esperar mais uns minutinhos, tudo seria diferente. Por que ela tinha que me ligar? Se eu fosse ela eu não me ligaria. Tudo bem, era meu aniversário. Há há há, feliz quarenta e oito anos, bunda mole. Mas, ela, logo ela. Agora, ao invés de dar no pé, eu tinha que ir lá, ver ela, dizer pra ela, fazendo ela sentir meu bafo de café velho, que eu tava indo embora e que ela era a razão de tudo. E que eu amava ela pra cacete. Olha, eu te amo. E pronto, e me ir embora. Nem um amorzinho, nem um chamego. Nada. Se bem... A merda já tinha sido jogada no ventilador mesmo...
...
No dia.
Eu me sentei no sofá, com uma das pernas no chão e a outra por cima de uma almofada. Enquanto segurava a barriga para que não vazasse tanto sangue, olhava ofegante pela janela e para ele ali parado. Tentei me lembrar do gosto do meu sorvete favorito. A dor já era algo além do suportável. Eu já tinha levado um tiro antes.
Fiquei com medo.
Desta vez parecia diferente. Algo estava muito diferente. A dor era doce, bem doce. Eu já estava babando um pouco do meu próprio sangue e, contra a minha vontade, estava emporcalhando o aconchegante sofá da Nádia.
“E agora?...”
“Agora a gente... quero dizer, eu espero.”
...
“Eu vou morrer, tu pode ir fazer alguma outra coisa, tomar uma cerveja.”
“Eu não bebo, e eu tenho de ficar aqui.”
“Tu vai matar a Nádia?”
“É esse o nome dela? Não, não vou. Ela não vai chegar tão cedo.”
“Quando ela chegar, e ver o meu corpo estirado no chão, cheio de sangue aqui, vai ficar puta...”
“Não vai ser novidade...”
“Onde foi que eu errei?”
“A mulher de verde.”
“Eu imaginei...”
“Me faz um favor, pega esse porta-retrato aí pra mim?”
...
Eu me rasguei da foto. Fiquei olhando pra Marla. Ela estava com um pequeno vestido de verão, segurando uma dessas bolas coloridas. Tinha uma borboleta nos cabelos e estava olhando com o sorriso mais maravilhoso do mundo para a câmera. Ela não tinha um ou dois dentes da frente. Parecia um anjo. Era aniversário dela. Dez, onze. Tentei, sem sucesso, não sujar a foto de sangue. O homem se aproximou.
”Filha?”
“Sim... Minha e da Nádia. Se chamava Marla.”
“Morreu?”
“Leucemia.”
“Comemoramos seu aniversário no hospital, dias antes de ela morrer...”
Então a dor aumentou. Fechei os olhos pela última vez e ouvi os ecos das risadas e cantigas de Marla. Nádia que me desculpe.
nota.do.autor: You have always told me youd not live past 25
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