
Então abriu mão da sobriedade como nunca fizera antes. Desejou de forma ardente algo que não sabia dizer o nome e pouco conseguia sentir. Pediu uma vodca com tônica para o barista invisível no balcão de seu apartamento. Sentiu-se acolhida pelo barulho da tevê – um filme antigo com Veronica Lake – e uma canção insossa de mpb que o rádio teimava em tocar.
Olhou para as próprias mãos, segurando o copo, e as achou velhas, gastas, tentou dizer algo de bom para si mesma, na esperança de reverter aquele asco que sentiu ao se perceber, mas, a voz tão rouca a fez hesitar de forma infantil. Então lembrou-se da infância, em Montenegro, interior do estado, casa grande, quase uma chácara. O pomar. Adorava o pequeno pomar. Comia as maçãs, suculentas, com gosto, com o prazer de quem não sabe outra coisa da vida. Adorava tanto aquelas árvores que as incorporou em sua história, deu-as nomes, pendurou nelas todos seus sutiãs quando um namorado – um baixinho metido à besta da capital – lhe falou dos acontecimentos do Maio de 68, um pouco antes de fazer 16 anos. Deu. Deu empoleirada em uma das árvores num fim de tarde de domingo e, na mesma árvore, meses depois, trocou os mais gostosos beijos com uma prima, os mais gostosos beijos que podia lembrar até hoje.
Mas estava ali, de camisola, sob uma luz tétrica de Agosto, daquelas que só Porto Alegre oferece, fatiando uma bucha e meia com um cartão vencido do Banco do Brasil.
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