terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Coisas que rasgamos



Quando dissemos adeus juramos nunca mais voltar. Prometemos todas as mentiras sujas que sucedem todo fim trágico de relação humana, acreditamos com uma fé sobrenatural no poder de cura do espírito que só o amor tem e assim que demos as costas um ao outro começamos a derrubar as memórias das paredes, deixando ali apenas um cheiro de mofo para que todos olhassem e, os poucos curiosos sentissem falta.

Não é fácil dizer adeus, e, quando se diz, ou se emprega toda uma força no sentido de cada palavra ou as cicatrizes permanecem abertas. Assim preferem os sádicos, mas o olhar que trocamos ao longe não acusava isso.

Me virei para frente e tão alto quanto pude disse.

‘E viveram felizes para sempre. Até que o para sempre se tornou uma dor, uma daquelas que se convive por preguiça de procurar um médico. Então, sem percebermos, por causa das outras dores, aquela dor vira uma lembrança, que volta e meia figura entre os cantos do mundo. Daí vira memória, e da memória cruza a ponte para o esquecimento. E no caso dos homens, bate a porta atrás de si sem mais olhar para ela.’

Tento fingir um sorriso. Sinto o cheiro do corpo dela em minhas mãos e fico próximo de uma lágrima. Ou de uma torrente delas.

Dobro os joelhos e caio no chão.

‘Caio’

Diz ela do outro lado, com um pedaço da saia nas mãos, afastando da linda coxa.

Então o silêncio. Imperativo e lustroso, iluminado por refletores quentes com filtros frios, azulados e noturnos como as coisas que fazemos escondidos.

‘Não. Ainda não é assim’.

Grita o diretor de uma cadeira no meio da platéia.

Depois do ensaio, fora do teatro pergunto para Isabela se ela não quer pegar um táxi comigo, ao que ela responde que sim, sem muito interesse. Um charme, uma fleuma impassível encantadora, mas, difícil de ser apreciada.

‘Gosta do texto?’ pergunto ingênuo enquanto dou um dos endereços para o taxista.

‘Não sei. Gosto, não gosto. Não faz lá muita difrença. Moço, eu fico na República, ali com a José do Patrocínio...’

‘Ahhh... Vai ficar na cidade baixa?’

‘É o jeito, preciso beber um bocado pra agüentar esses ensaios’. Diz ela sem tirar os olhos do vidro, sem olhar pra mim.

‘Olha...’ Falei arredondando as vogais mas sem a intenção de falar realmente algo.

‘Não precisa falar, a gente se entrosa nos ensaios. Deixa as formalidades pra lá e me beija logo, eu desço primeiro e a gente já tá chegando’.

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ela se virou para mim e me beijou.

Com força. Agarrando minha roupa, meu peito, minha barriga, coxas. Desajeitada e manhosa. Enquanto abria e fechava os olhos, hora pra entender, hora pra aproveitar de alguma maneira aquilo ali, percebi o taxista nos observando pelo retrovisor com a mesma cara de surpresa que eu estaria se não tivesse uma garota em cima de mim.

‘Obrigado...’ Disse ela, sorrindo e voltando para seu canto.

‘Só assim para mim sair do personagem, eu tava muito carregada’. Adicionou ela.

Pela primeira vez na vida decidi falar o que estava pensando. Me parecia uma boa oportunidade e não parecia ter muito a perder.

‘Eu não sei se tu é mais uma atriz louca que ele chama, se tu é pra lá de profissional ou se tu tava arrumando a desculpa mais estranha do mundo para me beijar...’

Ela sorriu quase de orelha a orelha.

‘Tu pode pagar a primeira cerveja e descobrir’.

Denovo. Pela primeira vez iria ver o onde minha curiosidade iria me levar, mesmo sem saber se torcia para acabar na cama dela ou ganhando aulas para melhorar minha atuação naquela doidera de peça que estávamos fazendo.

Não que uma coisa excluísse a outra, para a minha sorte.

Enquanto Dormes




As árvores caídas nos campos, delicadas e quietas, com seus falhos e folhas como se fossem longos cabelos jogados pelos lados, realmente se assemelham à uma mulher aninhada’ao’amor. Os poetas já exploraram essa metáfora, não exaustivamente, mas, ela aparece em diversos trabalhos importantes.

E eu, mesmo sendo um grande leitor de Robert Frost, nunca tinha sentido na minha própria pele tudo aquilo. Até então eram apenas páginas muito bem escritas, mas, enquanto se despia e deitava na cama, Marília era como a metáfora. Ou pelo menos como uma metáfora, certamente parecia representar algo que não apenas uma linda mulher se deitando na minha cama.

A luz da lua invadia o quarto pela janela e banhava tudo ali de forma uniforme, deixando silhuetas e volumes incrivelmente atraentes em nossos corpos.

Ela deitou de bruços e me olhou por cima do ombro. Estava nu, apoiado na janela do quarto, com as costas para a rua, olhando para ela e para o céu estrelado, hora tentando contar as estrelas, hora tentando descobrir, de longe, apenas com o olhar, cada canto do corpo dela. Eram estrelas demais para se contar, e ela era linda demais para se olhar.

Fechar os olhos não adiantava, apenas dava vasão a novas viagens sem volta da minha imaginação, que, sempre que eu fechava os olhos, ali naquele momento, cruzava estrelas, a lua, a Marília, o meu corpo.

Não se tratava de amor.

Ou talvez se tratasse.

Talvez isso fosse o que me atraia mais nela do que em qualquer outra garota. Não era simplesmente desejar ela, ou, de alguma forma, amá-la e me entregar a ela eternamente e da forma mais profunda enquanto não terminássemos de transar. Se tratava sim de algo que estava ali representando o amor, algo no seu lugar, que não era amor, mas, era algo semelhante, que encaixava perfeitamente no seu lugar e também tinha fim em si mesmo, e, para todos os efeitos, poderia ser chamado de qualquer coisa, pois, quem saberia mesmo o que é seriam apenas os donos daquelas peles se tocando, centímetro por centímetro. Ou seja, eu e ela.

Ela gemia de forma graciosa, se prestasse muita atenção, poderia encontrar algum padrão de canto em cada som, sopro, ofego que saia de sua boca, enfeitada não por caretas vulgares que nos acostumamos diariamente – para quem tem a sorte de transar diariamente – mas eram faces e rostos diferentes como que exclamando um solo frenético de piano ou de trompete, ao melhor estilo jazz bebop.

Gracioso e impossível de não acompanhar com o corpo inteiro.

Marília dormiu logo após terminarmos de nos entregar um ao corpo do outro. Parecia feliz e exausta, não por competência minha, mas, por dela própria em se satisfazer com aquilo e com tudo que deveria estar passando em sua cabeça. Algo que nunca perguntei, mas, adoraria ter investigado tanto quanto amar ela.

Cruzei os braços atrás da cabeça com um sorriso bobo de jovem adulto. Fiquei admirando o ventilador de teto girar lentamente, pois estava emperrado na velocidade 1. Parecia não querer chegar a lugar algum, sem destino, apenas apreciando o caminho. Parecia ter mais vida do que eu em meus dias mais tristes.

Mas não consegui ficar assim muito tempo. Estava acordado demais para aquilo e exausto demais para dormir. Então fiz o que normalmente não tinha a oportunidade de fazer.

Vesti uma calça jeans, preta e surrada, sem cuecas por baixo.

Então saí sem camisa, de jeans e tênis, até a frente do prédio. Acendi um cigarro sem mesmo saber por que e segui andando pela rua.

Tentei limpar minha mente, não pensar em nada, mas, geralmente, quanto mais tento, mais poluída fica a mente. Começo a pensar que não estou conseguindo e por aí vai. Até que parei embaixo de um poste de rua, não muito mais alto que eu e com uma luz tão amarela quanto meus dentes. No chão havia uma poça d’água que havia se juntado com a chuva que caíra durante quase toda a tarde. Embora abafada, a noite preservava o ar úmido que tinha durante o dia.

Me abaixei, apoiando-me nos joelhos e fiquei olhando para aquele reflexo distorcido no chão, dividindo lugar com a sarjeta, uma boca de bueiro e um saco grande de lixo, daqueles azuis de vinte litros. No meio de tudo meu rosto, que flutuava enquanto as cinzas do cigarro batiam na água.

Não lembro quanto tempo fiquei me olhando, mas sei que foi aí que consegui me livrar de qualquer pensamento que havia na cabeça, só me dei por mim quanto estava devolta ao apartamento, novamente nu, me deitando na cama. Ao que Marília abriu levemente os olhos e indagou.

‘Eu tava sonhando que tava sozinha, ou tu foi dar uma voltinha?’ Falou sorrindo, repousando a mão no meu peito, enrolando algum cabelinho.

‘Tava contigo o tempo todo’.

Então ambos fechamos os olhos e dormimos como nunca havíamos dormido antes em nossas vidas. Podia ver isso no sorriso dela nos meus sonhos, e certamente meu silêncio figurava como ator principal nos sonhos dela.

Meus queridos botões



Baixinho, sentado em uma cadeira de praia no pátio, cerveja na mão esquerda, cigarro, carlton vermelho na mão direita, seguia falando para mim mesmo, olhando para o nada com toda a atenção do mundo e ouvindo um disco do John Coltrane.

‘Se abotôo já não sei, são botões de uma camisa de linho comprada em um brechó, tão rubra, tão parecida com os vinhos baratos que costumava beber nas terças de manhã. Mas são os melhores botões, alguns não são originais, e, certamente por anos ainda terá o cheiro e um pouco da alma do homem que morrera usando ela, e que, sem ser consultado, teve sua camisa vendida para um brechó e depois para um homem louco. Louco não. Poeta.’

Terminei minha cerveja e por um instante tudo estava bem. Foi um longo instante. Ele, com seus olhos claros e cabelos loiros beijava ela intensamente ali perto, acariciava seus cabelos avermelhados e seu jeito vulgar de se vestir, tentando parecer mulher e esconder a meninice que ainda fazia arrebitar os seios para parecerem maiores. Um adorável caos.

Por um longo instante tudo estava bem e eu tinha comigo a minha camisa de botões. Podia ser qualquer sentimento, vontade de ir no banheiro, necessidade de outra cerveja, queimadura nos lábios do cigarro fumado até o filtro. Mas não, era a plenitude de que tudo estava em seu lugar.

Eu estava ali aproveitando o melhor de mim enquanto eles romanceavam alguma mentira no sofá que fica do lado de fora pro pátio.

Vez’em’quando olhava para eles de forma discreta, antes de retornar ao momento aprazível de tranqüilidade que tive ao terminar minha cerveja. Fiquei pensando que faziam um casal danado de bonitinho. Se não fossem as verdades subcutâneas.

O desleixe dele para com os sentimentos dela. E o fato de eu ter me deitado com ela horas antes de ele chegar lá. Algo que combinamos jamais contar para ninguém.

Desisti da quietude e da paz para ficar olhando para eles. Para ela, na verdade, e lembrando de tudo aquilo que havia acontecido ali mesmo, horas antes.

Os seios pequenos e branquelos, sem graça e bons de apertar. Seus beijos intermitentes e o suor quente e com aroma doce.

Mordi meus lábios tentando pensar em outra coisa, mas era impossível.

Levantei decidido a falar para eles aquilo que melhor poderia falar naquele momento, mesmo sabendo das conseqüências, não só de interromper eles mas...

São coisas que fazemos e que justifica nossa masculinidade, nossa coragem e hombridade moral. Uma fibra de que me orgulho demais. Acima das conseqüências.

Então, um passo depois do outro, criando coragem, tentando não pensar demais para não falar alguma bobagem, me concentrando nas palavras prontas, as mais fáceis de falar, a frase feita.

Paro e olho para trás, para minha cadeira e para meu momento parado no tempo.

Viro para eles e num golpe de coragem, retomando os acontecimentos de horas antes e do meu paraíso pacífico entorpecido falei aquilo que deveria falar, expressar aquilo que era mais honesto em mim.

‘Vocês querem uma cerveja ou sou só eu?’

Então peguei mais uma cerveja e voltei para minha cadeira, saboreando aquele maravilhoso contraste, a sensação de dever cumprido e o amargo da bebida .

Realmente. Tudo estava bem, e eu só voltaria a pensar nela quando a cerveja acabasse, até lá poderia ficar entretido com o cigarro e os botões da minha camisa cor de vinho comprada em um brechó, lá na João Pessoa.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Com afeto e com carinho...


I – Eu, minha solidão e meus poemas

Sempre quis escrever um poema, mas, sem talento algum para isso fica difícil. Um que sempre quis escrever começa sempre assim:

Com afeto e com carinho, meu amor por ti, com todo zelo e...

Mas é difícil escrever um poema quando somos apenas alguém esquecido durante a vida toda, lembrados apenas no último instante, no último suspiro.

Eu não preciso de cerimônias, depois que a vida acaba poucas cerimônias são necessárias. Eu sou a morte, filho do tempo com a vida. Um filho bastardo, por sinal. Vê-se que o tempo e a vida jamais se deram bem, apesar de se amarem sem saber.

A eternidade é o meu presente. Mas não uma eternidade como a da alma, que recomeça aqui e ali. Eu vivo uma eterna nostalgia parada sem linha de tempo pra obedecer. Eu vou, eu volto. Eu sou. Sem ser percebido, escondido num sobretudo alto e comprido, porque afinal, nada mais frio do que a eternidade, tão longínqua do fim ao início, incapaz de pegar todos os raios do sol ao seu longo.

Para amenizar meu sofrimento me fiz belo, afinal venho da vida. Com longos cabelos esbranquiçados e olhos cor de nada mas brilhantes e reluzentes.

Sentado em uma estrela, fico falando para mim mesmo.

“São apenas palavras, não tenho pressa pra juntá-las, mas anseio por um poema, um simples poema, algo catártico para com meu sofrimento.”

Até que a mãe vida se aproxima.

“Filho? Ainda sofres?”

Não a olho, como sempre faço, apenas me aconchego em seu perfume, procurando nele o toque e o colo de que sempre fujo.

“Não... Apenas pensativo.”

E as mentiras que a morte conta são sempre as mesmas, assim fica mais fácil de levar as pessoas que não estão prontas.

“Sei o que é. Esses olhares mais distantes que o usual, essas mãos pálidas e frias... É o amor não é?”

“Não há amor na morte?”

“O amor pertence ao Sonho” Diz ela sem ter que pensar duas vezes.

Enfio a cabeça entre os joelhos e me recolho em uma posição quase fetal. Fico de longe me lembrando de quando me explicaram o que era um sonho e de como ele era quase sempre mais importante que a vida para as pessoas.

“Vou te provar errada...”

“Podes tentar, mas isso te fará mais infeliz ainda... Já lhe disse que os poemas que procura não estão no amor, mas na saudade dele, na tua imaginação de nunca tê-los vivido e mesmo assim teimar em sentir eles.”

II – O amor além das lembranças

As pessoas podem me ver, me vêem o tempo todo, eu estou sempre perto delas, mas teimam em não prestar atenção em mim. E, andando na noite na rua acabei encontrando minha irmã, a Fortuna. Foi um encontro rápido, pois até os que não morrem não gostam de passar muito tempo com a morte. Não ficamos mais juntos do que o tempo para que ela me respondesse a pergunta do que era a coisa mais bela do mundo. Para minha surpresa fui levado à um bar simples, no meio de gente mais simples ainda, mas no palco. Ah! No palco eu entendi aquilo que a Fortuna queria dizer.

Ela era linda. “Linda de morrer” como algumas pessoas ironicamente constavam ao meu redor. Não demorei a pedir algo para beber, afinal, até eu me enjôo do gosto de morte na boca. O lugar se chamava Pinotage, era especializado em vinhos e, naquele dia, aquela mulher linda estava cantando para distrair as pessoas de suas vidas. Ao menos assim entendi o que ela estava fazendo naquele baixo palco, tão empoeirado, quase esquecido e ignorado.

Antes de contar como ela era, preciso lembrar do que estava cantando. Era tão belo quanto ela. E, por vezes, chamava mais atenção que sua própria beleza.

Deixe a porta bater em suas costas nuas,

diga que vai, que ira morar nas ruas,

meu coração nao é um bom lugar, pra ti

teus passos na escada me fazem pensar assim.

Se for morrer, me avise, lembre de mim,

uma carta, uma cara, careta, um sorriso amargo.

Se for viver, minta pra mim, me engane e diga

que já nao pode viver sem o que fui.

Quando for a hora, nao diga tchau, nao diga nada,

me deixe amando nossas fotos, cheiros e madrugadas,

nao se dispessa apenas vá, para que assim eu acredite,

nas doces mentiras de que um dia voltará.

Talvez volte e se voltar, meus beijos serão teus, terás

o teu lugar, se o amor viver, de mim sei que vais cobrar...

um desejo um afago, um abraço ardente enrolados em um lençol para me amar

eternamente por umas horas, e repetir tudo, pedindo para eu cantar...

Outra vez, deixe a porta bater em suas costas nuas...

Pela primeira vez vi algo durar por mais tempo que a própria eternidade, sentia cada pedaço daquilo bater em mim e ressoar por vidas e vidas inteiras dentro de mim.

Bom... Ela tinha cabelos loiros, não era mais alta que eu, mas, sei que sou alto. Tinha olhos parecidos com os meus, porém eram cheios de algo que eu não conseguia entender o que era. Sua pele parecia macia escondida por um vestido de verão tão negro quanto a noite. Romance meu a parte, parecia assim. Acima de tudo, parecia o que deveria ser.

Aos poucos todos foram indo embora, ela ficou em sua mesa debruçada sobre os braços em frente à um cálice de vinho, olhando triste para um ou outro lado, sorrindo cordialmente aos cumprimentos de qualquer um que tivesse passado por ali, claramente ainda vivenciando algum momento perdido emaranhado em suas memórias.

Nesse momento desisti do meu poema. Ela era o meu poema. Estava certo de que A Vida estava errada, aquilo era o amor, eu estava vivendo o amor, e era muito melhor do que relembrá-lo. Pois cada segundo que lembrava do anterior era ofuscado pelo novo segundo observando ela ali.

III – Com afeto e com carinho.

Seis noites fui observar ela, sempre terminando seu espetáculo com a mesma canção, que segundo ela permanecia sem nome.

Então, já com o lugar vazio ela veio sentar à minha mesa.

Não pude esconder meu nervosismo.

“Acabo de te eleger o meu maior fã.”

“Lembre de mim...”

Ela sorriu tentando disfarçar a sensação de não estar entendendo o que estava acontecendo, se eu estava dando em cima dela ou se estava agradecendo de forma poética ou algo assim. Mas não, nada disso.

“O nome da música, seria ótimo se ela se chamasse Lembre de Mim... Não que precise de um nome, na verdade nada precisa de nome, as coisas são melhores assim sem sabermos o que elas são de verdade. Nossos sentidos são melhores pra isso que nossa lógica.”

“Meu fã, um filósofo.”

“Não, meu anjo. Simplesmente alguém com tempo demais nas mãos e não muito pra fazer...”

Não conseguia esconder meu irritante jeito lacônico de falar.

“Adoro esse teu jeito arrastado de falar... É invejável!”

Tudo bem, há loucos para tudo.

Fiquei em silêncio observando ela. Muito, muito tempo. Ela foi ao piano e começou a tocar uma música então me olhou e seguiu cantando. Era tão arrastada quanto meu jeito de falar e parecia exprimir uma dor incompreensível, do tamanho do mundo. Então me recordei de algo que tinha me dado conta, que as coisas mais belas, geralmente, carregam as maiores tristezas dentro de si. Então, como se seu corpo se dissolvesse ela foi arqueando-se em direção às teclas do piano, mantendo o mesmo ritmo e melodia, mas, cessando o canto.

“é...”

Não precisava dizer nada. Fui me aproximando até que me apoiei nos joelhos e a abracei pelas costas, juntando sua barriga, braços, seios, cabelos, ombros.

“O que é que eu faço agora?”

Sussurrei ao seu ouvido, o esquerdo.

“Agora tu me beija.”

Então deixei o pescoço dela pender sob meu ombro e fui deslizando meu rosto pelo seu até que imprevisivelmente nossos lábios começaram a tocar uns aos outros.

IV – Hotel Majestic

Lá perto ficava o hotel Majestic. Então, com ela no colo, aninhada ao meu peito, subi as escadas. No quarto coloquei-a na cama e juntei as mãos ao peito. Fiquei observando a beleza que se ia como a areia em uma ampulheta quebrada, certamente mais depressa que seu decurso natural.

Fui colocando pétalas de rosa ao redor de seu corpo, tão sôfrego agora naquele vestido.

Então, quando seu sono ficou pacífico, quando já não mais saboreava o ar perfumado dali, saí pela janela com lágrimas nos olhos e pensando “que mais poderia acontecer ao beijar a morte?”

Aí, finalmente, entendi o que A Vida tinha me dito, da beleza de lembrar da eternidade de um amor. Mesmo um amor que havia teimado em não acontecer, perdido em um beijo com gosto de começo’fim.