
I – Eu, minha solidão e meus poemas
Sempre quis escrever um poema, mas, sem talento algum para isso fica difícil. Um que sempre quis escrever começa sempre assim:
Com afeto e com carinho, meu amor por ti, com todo zelo e...
Mas é difícil escrever um poema quando somos apenas alguém esquecido durante a vida toda, lembrados apenas no último instante, no último suspiro.
Eu não preciso de cerimônias, depois que a vida acaba poucas cerimônias são necessárias. Eu sou a morte, filho do tempo com a vida. Um filho bastardo, por sinal. Vê-se que o tempo e a vida jamais se deram bem, apesar de se amarem sem saber.
A eternidade é o meu presente. Mas não uma eternidade como a da alma, que recomeça aqui e ali. Eu vivo uma eterna nostalgia parada sem linha de tempo pra obedecer. Eu vou, eu volto. Eu sou. Sem ser percebido, escondido num sobretudo alto e comprido, porque afinal, nada mais frio do que a eternidade, tão longínqua do fim ao início, incapaz de pegar todos os raios do sol ao seu longo.
Para amenizar meu sofrimento me fiz belo, afinal venho da vida. Com longos cabelos esbranquiçados e olhos cor de nada mas brilhantes e reluzentes.
Sentado em uma estrela, fico falando para mim mesmo.
“São apenas palavras, não tenho pressa pra juntá-las, mas anseio por um poema, um simples poema, algo catártico para com meu sofrimento.”
Até que a mãe vida se aproxima.
“Filho? Ainda sofres?”
Não a olho, como sempre faço, apenas me aconchego em seu perfume, procurando nele o toque e o colo de que sempre fujo.
“Não... Apenas pensativo.”
E as mentiras que a morte conta são sempre as mesmas, assim fica mais fácil de levar as pessoas que não estão prontas.
“Sei o que é. Esses olhares mais distantes que o usual, essas mãos pálidas e frias... É o amor não é?”
“Não há amor na morte?”
“O amor pertence ao Sonho” Diz ela sem ter que pensar duas vezes.
Enfio a cabeça entre os joelhos e me recolho em uma posição quase fetal. Fico de longe me lembrando de quando me explicaram o que era um sonho e de como ele era quase sempre mais importante que a vida para as pessoas.
“Vou te provar errada...”
“Podes tentar, mas isso te fará mais infeliz ainda... Já lhe disse que os poemas que procura não estão no amor, mas na saudade dele, na tua imaginação de nunca tê-los vivido e mesmo assim teimar em sentir eles.”
II – O amor além das lembranças
As pessoas podem me ver, me vêem o tempo todo, eu estou sempre perto delas, mas teimam em não prestar atenção em mim. E, andando na noite na rua acabei encontrando minha irmã, a Fortuna. Foi um encontro rápido, pois até os que não morrem não gostam de passar muito tempo com a morte. Não ficamos mais juntos do que o tempo para que ela me respondesse a pergunta do que era a coisa mais bela do mundo. Para minha surpresa fui levado à um bar simples, no meio de gente mais simples ainda, mas no palco. Ah! No palco eu entendi aquilo que a Fortuna queria dizer.
Ela era linda. “Linda de morrer” como algumas pessoas ironicamente constavam ao meu redor. Não demorei a pedir algo para beber, afinal, até eu me enjôo do gosto de morte na boca. O lugar se chamava Pinotage, era especializado em vinhos e, naquele dia, aquela mulher linda estava cantando para distrair as pessoas de suas vidas. Ao menos assim entendi o que ela estava fazendo naquele baixo palco, tão empoeirado, quase esquecido e ignorado.
Antes de contar como ela era, preciso lembrar do que estava cantando. Era tão belo quanto ela. E, por vezes, chamava mais atenção que sua própria beleza.
Deixe a porta bater em suas costas nuas,
diga que vai, que ira morar nas ruas,
meu coração nao é um bom lugar, pra ti
teus passos na escada me fazem pensar assim.
Se for morrer, me avise, lembre de mim,
uma carta, uma cara, careta, um sorriso amargo.
Se for viver, minta pra mim, me engane e diga
que já nao pode viver sem o que fui.
Quando for a hora, nao diga tchau, nao diga nada,
me deixe amando nossas fotos, cheiros e madrugadas,
nao se dispessa apenas vá, para que assim eu acredite,
nas doces mentiras de que um dia voltará.
Talvez volte e se voltar, meus beijos serão teus, terás
o teu lugar, se o amor viver, de mim sei que vais cobrar...
um desejo um afago, um abraço ardente enrolados em um lençol para me amar
eternamente por umas horas, e repetir tudo, pedindo para eu cantar...
Outra vez, deixe a porta bater em suas costas nuas...
Pela primeira vez vi algo durar por mais tempo que a própria eternidade, sentia cada pedaço daquilo bater em mim e ressoar por vidas e vidas inteiras dentro de mim.
Bom... Ela tinha cabelos loiros, não era mais alta que eu, mas, sei que sou alto. Tinha olhos parecidos com os meus, porém eram cheios de algo que eu não conseguia entender o que era. Sua pele parecia macia escondida por um vestido de verão tão negro quanto a noite. Romance meu a parte, parecia assim. Acima de tudo, parecia o que deveria ser.
Aos poucos todos foram indo embora, ela ficou em sua mesa debruçada sobre os braços em frente à um cálice de vinho, olhando triste para um ou outro lado, sorrindo cordialmente aos cumprimentos de qualquer um que tivesse passado por ali, claramente ainda vivenciando algum momento perdido emaranhado em suas memórias.
Nesse momento desisti do meu poema. Ela era o meu poema. Estava certo de que A Vida estava errada, aquilo era o amor, eu estava vivendo o amor, e era muito melhor do que relembrá-lo. Pois cada segundo que lembrava do anterior era ofuscado pelo novo segundo observando ela ali.
III – Com afeto e com carinho.
Seis noites fui observar ela, sempre terminando seu espetáculo com a mesma canção, que segundo ela permanecia sem nome.
Então, já com o lugar vazio ela veio sentar à minha mesa.
Não pude esconder meu nervosismo.
“Acabo de te eleger o meu maior fã.”
“Lembre de mim...”
Ela sorriu tentando disfarçar a sensação de não estar entendendo o que estava acontecendo, se eu estava dando em cima dela ou se estava agradecendo de forma poética ou algo assim. Mas não, nada disso.
“O nome da música, seria ótimo se ela se chamasse Lembre de Mim... Não que precise de um nome, na verdade nada precisa de nome, as coisas são melhores assim sem sabermos o que elas são de verdade. Nossos sentidos são melhores pra isso que nossa lógica.”
“Meu fã, um filósofo.”
“Não, meu anjo. Simplesmente alguém com tempo demais nas mãos e não muito pra fazer...”
Não conseguia esconder meu irritante jeito lacônico de falar.
“Adoro esse teu jeito arrastado de falar... É invejável!”
Tudo bem, há loucos para tudo.
Fiquei em silêncio observando ela. Muito, muito tempo. Ela foi ao piano e começou a tocar uma música então me olhou e seguiu cantando. Era tão arrastada quanto meu jeito de falar e parecia exprimir uma dor incompreensível, do tamanho do mundo. Então me recordei de algo que tinha me dado conta, que as coisas mais belas, geralmente, carregam as maiores tristezas dentro de si. Então, como se seu corpo se dissolvesse ela foi arqueando-se em direção às teclas do piano, mantendo o mesmo ritmo e melodia, mas, cessando o canto.
“é...”
Não precisava dizer nada. Fui me aproximando até que me apoiei nos joelhos e a abracei pelas costas, juntando sua barriga, braços, seios, cabelos, ombros.
“O que é que eu faço agora?”
Sussurrei ao seu ouvido, o esquerdo.
“Agora tu me beija.”
Então deixei o pescoço dela pender sob meu ombro e fui deslizando meu rosto pelo seu até que imprevisivelmente nossos lábios começaram a tocar uns aos outros.
IV – Hotel Majestic
Lá perto ficava o hotel Majestic. Então, com ela no colo, aninhada ao meu peito, subi as escadas. No quarto coloquei-a na cama e juntei as mãos ao peito. Fiquei observando a beleza que se ia como a areia em uma ampulheta quebrada, certamente mais depressa que seu decurso natural.
Fui colocando pétalas de rosa ao redor de seu corpo, tão sôfrego agora naquele vestido.
Então, quando seu sono ficou pacífico, quando já não mais saboreava o ar perfumado dali, saí pela janela com lágrimas nos olhos e pensando “que mais poderia acontecer ao beijar a morte?”
Aí, finalmente, entendi o que A Vida tinha me dito, da beleza de lembrar da eternidade de um amor. Mesmo um amor que havia teimado em não acontecer, perdido em um beijo com gosto de começo’fim.