Senti uma dor incomum. Estávamos eu e ela deitados na cama do meu quarto ouvindo música. A dor eu não sei de onde vinha, talvez da intimidade. Talvez do pavor das coisas que sentíamos e nos espreitavam. O quarto estava propositalmente mal iluminado, ela ainda tinha vergonha do seu corpo, e eu ainda teimava em fechar os olhos quando mais a sentia perto de mim. Estranhamente sentia como se tirasse uma foto dela toda vez que eu piscava os olhos. Nossos perfumes se misturaram após o banho, junto com o cheiro das velas. Alguma coisa, além da dor, perambulava ao redor.Ela se aconchegou em cima do meu peito e deitou a cabeça no meu ombro, esperando um cafuné, me olhando com um sorriso terrivelmente encantador, feliz e genuíno. Dancei minha mão por sua barriga e então repousei-a em sua coxa. Pelo que podia ver, ela também sentia alguma espécie de dor. Uma dor aconchegante. Um bocado diferente da minha, que latejava. Era incômoda, mas, não parecia ser em lugar algum, uma dor que não podia ser tocada, mas era facilmente sentida. Não é a solidão que dói, o que dói é a afronta à solidão. E claro que aquele carinho e ternura, um quase sensual jogo de intimidades, feria gravemente minha solidão. O verdadeiro ninho do meu amor.
O prazer, por outro lado, valia a pena. Lembrar daquilo, dias depois, meses, anos, seria uma das melhores sensações do mundo. Isso que não havíamos feito nada ainda. Memórias teimam em durar mais que orgasmos.
“Me beija...?”
Então ela sorriu, gozando por dentro de um sentimento de cumplicidade ingênua e me beijou. Ao que logo parei.
“Me beija de um jeito que eu vá lembrar pra sempre.”
Ela hesitou, ficou vermelha e se escondeu no meu pescoço.
“Não sei se consigo...”
“É mais fácil que parece.”
“Porquê?”
“Experimenta.”
“E eu não tava te beijando agora mesmo...?”
“Não, bobalhona. Me beija pensando nisso que eu falei. Em um beijo que eu vá lembrar para sempre.”
Ela tentou denovo, apertou uma das mãos atrás da minha nuca e deixou o rosto pressionar levemente o meu. Aos poucos foi tocando todo meu corpo com o seu. E, antes que pudéssemos pensar em outra coisa, algumas peças de roupa estava caindo pelo lado da cama.
Então abri os olhos, enquanto procurava algum lugar pelo pescoço dela que me excitasse com sua textura, perfume, jeito. Não podia distinguir muita coisa, parte dos cabelos jogados à minha cara, pedaços claros de pele, e tudo aquilo que na maioria das vezes foge nossa imaginação quando pensamos no mais apaixonado e cálido beijo. Havia uma vulgaridade qualquer, que, faz parte natural de qualquer contato humano, e que tornava aquilo ali algo especial de verdade.
“Tu fica comigo essa noite?”
“A noite inteira.”
“E quando tu for embora?”
“Tu pode lembrar do beijo e de certas coisas boas.”
“Muito cedo... Prefiro ainda sentir teu gosto, ele ainda é melhor que uma lembrança.”
“Mas, o que acontece se eu ficar?”
“Eu não sei. Talvez tenha um pouco de medo de descobrir, mas...”
“Acho que medo não é bem a palavra, mas sei como é.”
“E se a gente ficar simplesmente fazendo amor o tempo todo, sem pensar no mundo ali fora, nem no tempo ao nosso redor?”
“Eu gosto dessa música... Talvez seja uma coisa boa.”
“Seria muito boa, gosto de sentir tua boca, teus seios, teus olhos.”
“E gosta de fazer amor.”
“Sim, tu não?”
“Claro.”
Ela parou um instante para me beijar rapidamente. E continuou.”
“Mas não acha estranho? Essa frase? Fazer amor?”
“Acho... Tem algo de estranho nela mesmo.”
“E as pessoas que transam sem se amar? Dizem o que?”
“Sexo. Acho...”
“Tão vulgar...”
“Algum problema com vulgaridades?”
“Não. Não sei. Eu acho que eu imaginava que as coisas iam ser diferentes quando eu crescesse. Não tinha a menor idéia de que a vida era assim.”
“Achou que não existia sexo sem amor?”
“Se soubéssemos que seria assim, talvez ninguém teria coragem de crescer.”
“Essa música é tão bonita... Engraçado ouvir essas canções de amor e falar dessas coisas.”
“Talvez eu devesse colocar Paint a vulgar picture...”
“Não, daí cada um vira pro lado e dorme no seu cantinho dolorido. Smiths às vezes não funciona para isso.”
“Sexo, amor, ou cantinho...?”
“É um convite?”
“Acho que não. No fundo nenhum dos três. Acho que prefiro ficar te beijando.”
“Porquê? Que tem demais em me beijar?”
“Não sei.”
“Sabe sim. Fala.”
“Bom... É macio.”
“Lábios são geralmente macios, não?”
“É... vai ver são.”
“O que houve? Parece que tu tá falando comigo olhando pro alto de uma montanha.”
“A convivência te fez gostar de falar por metáforas?”
“Ai, como tu é bobo.”
“Metáforas, poemas e mentiras.”
“O que que tem isso?”
“São as minhas ferramentas de trabalho.”
“...Memórias, faltaram as memórias.”
“...É... Mas não. Essas são uma droga de uso pessoal apenas.”
“Eu não gosto de mentiras.”
“Nem eu. Mas, a gente vive no meio delas.”
“Como assim, o que tu mentiu pra mim?”
“Nada. Mas a gente sem querer mente pra si mesmo, que uma coisa é outra e... Que gosta de uma coisa, que não gosta de outra.”
Ela ficou me olhando desconfiada da minha teoria.
“Olha, não sei te explicar. A gente mente pra si mesmo, por exemplo, que não ama uma pessoa, pra se proteger. Ou mente pra si mesmo que a ama simplesmente para cuidar da nossa solidão.”
“Eu não consigo fazer isso.”
“Então, tu me ama?”
“Quem sabe...”
“Tu precisa me amar?”
“Não, eu acho.”
“Tu tá começando a entender.”
“Mas eu quero te amar. Ou não, vai ver te amar é o começo do fim.”
Ficamos um bom tempo nos beijando.
“Não tem como esconder, não é?”
“Tem uma hora que a gente cansa de esconder as coisas.”
“Sozinha é mais fácil. Mas odeio ficar sozinha, não sei como tu gosta de mim, não me agüento às vezes.”
“Acho que não. Esconder de nós mesmos é mais complicado.”
“E se for verdade? E se eu te amar, e se tu me amar?”
“Uma hora a gente descobre sem querer.”
“Como assim...?”
“Uma hora tu pode sentir minha falta, não apenas saudade.”
“Tem diferença entre saudade e sentir falta?”
“Toda diferença do mundo.”
“...Que é...?”
“Com a saudade a gente consegue conviver, e, uma hora ela simplesmente desaparece, deixando pouco rastro.”
“E sentir falta?”
“Sentir falta é algo além de uma metáfora, como a água para o deserto, ou a noite para as estrelas, e todos esses jogos literários tão fáceis. Sentir falta é como uma dor ou uma doença. Pois no fundo não precisamos de nada disso, mas, mesmo assim sentimos falta. E isso é o amor, de certa forma. Uma amor não lá muito saudável, mas, amor... Sentir falta de algo mesmo sem precisar.”
“Isso é um sinal de amor?”
“De certa forma sim. Mas tu pode não querer nada meu, muito menos sentir minha falta, ou saudade.”
“E como que a gente tem certeza?”
“Aí que as memórias teimam em aparecer...”
“Que ruim...”
“As coisas são assim... Na maioria das vezes.”
“E se eu sentir tua falta e te amar e tu me amar, e se te beijar ainda for a melhor parte do meu dia?”
“Então a gente torce para que seja amor. E que mesmo na solidão isso tudo, o que se sente e o que se lembra, faça algum sentido.”
“Aí alguém pega o telefone e liga pro outro, só pra ouvir a voz, não diz nada e então desliga.”
“Claro... E é sempre bom quando é assim.
“E se não for amor, é o quê?”
“Pode ser a solidão se virando na cama, nos provocando de alguma forma que é ruim de agüentar sozinhos. Se chama paixão.”
“Achei que paixão era outra coisa.”
“Paixão pode ser qualquer coisa.”
“Pode ser isso?”
Ela desabotoou minha camisa e percorreu com os dedos o suor do meu peito e da minha barriga. Estava muito quente, aquele início de noite parecia uma noite de verão perdida no meio daquele inverno todo. Com pequenos beijos ela percorreu minha pele, desviando dos tufos de pelo no meu peito e em cima do meu umbigo.
“Diz que me ama, diz alguma coisa pra mim?”
“Tu é linda.”
“Não, eu quero ser algo melhor que linda.”
“Ahn?”
“Eu quero que tu lembre de mim de um outro jeito.”
“E se tu estiver do meu lado? E se eu não precisar lembrar?”
“Não, tu nunca ia conseguir viver com uma mulher que não quer viver todos os dias. Às vezes eu quero dormir, se pudesse, com certeza não viveria todos os dias, isso cansa.”
Rolei para o lado puxando ela para cima de mim. Poderia ficar ali beijando-a por horas. Ou olhando-a dormir.
“Porra. Diz que me ama.”
“Eu não sou bom com declarações de amor.”
“Mas eu sei que tu é.”
“Eu não sei dizer isso. Mas, se eu te faço sentir, porque eu preciso dizer?”
“Não é o que eu sempre te digo?”
“É o que a gente acaba vivendo.”
Então nos calamos uma última vez e deixamos nossas mãos se tornarem olhos, explorando e conhecendo o corpo um do outro. Deixamos nosso suor se tornar uma espécie de sangue que nos unia. E com um longo beijo dormimos abraçados. Por um instante a dor havia passado para só voltar a aparecer na manhã seguinte, quando estivesse sozinho com um perfume estranho, e uma voz suave procurando por mim dentro de um quarto vazio e Mal iluminado, com alguma roupa especialmente bonita pendurada na arara e uma foto dela comendo pão de queijo na mesa de cabiceira.
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