segunda-feira, 12 de maio de 2008

Encantador Sorriso de Adeus


Tosse. Duas, três, quatro tossidas. Então sorri, bastante sem jeito, ajustando o óculos no nariz. Selma me abraçou. Deixou de roer a unha e me abrçou com força, segurou o cheque na mão, amassando-o, e cruzou os braços nas minhas costas. Graças à Deus consegui disfarçar minha falta de sensibilidade ali. Não que eu não me importase, simplesmente não queria pensar nela assim. Me limitava em aproveitar o cheiro de mel que seus cabelos tinham, recém pintados. Poucos fios brancos, muita vaidade.

Deixei o ar e a fumaça do cigarro inundarem meu pulmão, era o prazer da última tragada. Selman nunca entendera esse prazer, tampouco o da primeira, junto com um café fumegante, olhando o prado.

"Acabou o meu cigarro."
"Ainda bem."
"Domingo?"
"Isso... Domingo. Vai ficar onde? Na tua irmã?"
"Isso."
"Eu volto."
"Eu sei. Cuida essa gripe... "
"...Eu volto." Este último bem baixinho, quase inaudível. Apenas pra mim, apenas para me convencer sem deixar cair uma lágrima.

Era redundante. Não fazia diferença onde ela iria ficar, mas preferia que ficasse com alguém. A única coisa que me incomodava eram as mentiras que estava contando para ela.

Então selei meus lábios nos dela uma outra vez e entrei no ônibus. Deixei a passagem na mão do cobrador e ignorei sua pergunta sobre minha bagagem. Eu não tina nada para levar, e isso não interessava para ele. "Melhor achar meu lugar", pensei em voz alta, evitando olhar para as pessoas que já tinham embarcado e se acomodavam preguiçosamente em suas poltronas, enfiando a cara em livros, em pacotes de biscoito.

Quando minha cabeça bateu no banco, suave e confortável, vi que Selma ainda estava do lado de fora, procurando pela minha janela e bastante inquieta. Tentava limpar a boca, lambuzada de creme do café que tomava. "Para meu gosto sair logo da tua boca, meu amor." Tive vontade de dizer-lhe, pelo pequeno buraco que era a janela, quase fechada por uma horrível cortina marrom. Então, por um segundo, fingi dormir. Mas não consegui me convencer disso. Foi aí que Selma me viu. Levou uma das mãos até a boca e me atirou um beijo. Acenei e pisquei com o olho direito, como sempre faço. Dei graças à Deus que o ônibus estava começando a andar.

Logo Selma se tornou bem pequena e difícil de distinguir das outras pessoas paradas junto ao box de onde saíra o ônibus. A rodoviária também foi ficando pequena, a noite era grande, o azul da luz dos carros iluminava precariamente os repetitivos terrenos descampados que costeavam a estrada que ligava a capital, o interior e o litoral. Desisti de ficar acordado e ingenuamente escolhi sonhar. Sonhar com a juventude, com as coisas que já tinham passado por mim.
Era um sonho estranho, estava sentado em uma cadeira em uma sala de cinema, podia ouvir o barulho do projetor bem no fundo, atrás de mim. Uma sala pequena, sem ninguém além de mim. Me assistia tentando ser músico, na frente de um piano, com um violão no colo embaixo de uma figueira, com uma garota de vestido rosa me olhando. Me via jogando bola na rua, machucando os pés e os dedos no paralelepípedo, parando o jogo com os guris sempre que um carro dobrava a esquina, às vezes me impedindo de marcar um gol, o que ganharia a partida, já no fim de tarde, com a avó chamando para entrar, me lavar e jantar com ela e o avô. Logo vieram as imagens do primeiro beijo, roubado de uma garota sentada na praça, acho que a mesma que me olhara tocar violão quando menino. Uma estranha familiaridade, a estranha familiaridade do meu mundo pequeno.

Não que me fizesse acordar melhor, longe disso, mas, sonhar com minha juventude me vez sorrir como não fazia há alguns dias, tirou um pouco do peso dos meus cinqüenta e poucos anos que pareciam oitenta. Noventa às vezes. As pernas ainda estavam cansadas, mais uma vez a tosse, os ombros e a garganta formigando. Um gole de água e tudo melhora, sempre assim.

O cenário que a fresta da janela me mostrava já havia mudado, talvez, sutilmente enquanto eu dormia. Já podia ver algumas dunas e os banhados e arrozais que figuravam a cada quilômetro. O sol do final da manhã batendo no branco da areia me ofuscava os olhos, mas, pra mim, era impossível olhar para outra coisa. Vez que outra surgia uma casinha de madeira, não muito maior do que um banheiro de shopping center. Torta, feita com o que se tem por perto, mas cada uma tinha uma paz incrustada entre a porta e a janela que parecia o ponto de exclamação ao lado da palavra SOLIDÃO, escrita com os dedos na beira da praia.

O choro de uma criança, no fundo, perto da poltrona 46, me salvou da minha imaginação. Era um choro triste e pouco barulhento, mas constante, fácil de ser ignorado, sem picos ou soluços, lembrava um pouco o constrangido choro de um adulto. Não chegava a incomodar, mas era impossível de dormir ouvindo aquilo. Não faltava muito para chegar à Baía de São Simão, já podia ver os barcos dos pescadores ao fundo.

1979. Comprara um chalé lá, na última das três praias que fazem a Baía de São Simão. Barra do Vento. Bem no ano que meu pai havia falecido, parte da herança foi para isso, a outra, aposto que ainda está no banco. Foi o lugar onde Selma e eu dormimos juntos pela primeira vez, depois de um inusitado convite.

"Quer ir pra praia comigo? Só eu e tu?"
"Ah... Tu quer que eu vá contigo?"
"Tu tinha falado pra mim ir sozinho, que eu precisava mas..."

Não lembro do resto da conversa. Mas lembro que foi onde falei para ela, anos depois, já casados, que não poderíamos ter filhos. Ela estava esticada no sofá, na frente da lareira que eu havia construído no verão. Eu estava de costas para ela, terminando de limpar uma taínha que havia pescado. Nenhum de nós falou nada por um longo tempo. Mas os sons ficar muito altos. A faca raspando o peixe, a madeira crepitando. Selma se ajeitando no couro do sofá.

"Vou ligar o rádio, tu te importa?"
"Não. Quer que eu abra um vinho?"
"Quero. Pega as taças?"
"Pego."

Aí entram as mentiras. Na manhã passada havia dito para Selma que iria para o Chalé, sozinho, com a desculpa de terminar um material para um livro que o editor estava me pentelhando para terminar. Queria publicar logo. A tosse volta, mais forte dessa vez. Mas logo cessa. Tiro um envelope do paletó. Tento lembrar quantas vezes havia lido aquelas palavras de despedida do Dr. Amaral. Não eram muito longas, mas, eram carinhosas. Ele sabia que eu não iria me submeter a tratamento algum, e que meu corpo rejeitaria qualquer químico. Naquele momento tudo que ele queria, e podia, era se despedir de mim. Agradecer o companheirismo, a amizade, os favores, ter ajudado a criar o filho dele. E toda uma vida em algumas frases.

As pessoas no banco da frente tentavam lembrar se a frase do filme era "mais fortes são os poderes do homem ou de Deus?". Dos homens, repito pra mim mesmo. Mas, no fundo, de Deus.

"Baía de São Simão e Porto de Cândida. A próxima é a Praia de Santo Antônio e Baía de Santo Amaro." Anuncia solenemente o motorista. Minha deixa.

Os quarenta minutos andando pela beira da praia até a guarita 28 mais pareciam dias. Dias cinzas talvez, ou com pouco sol, daqueles que não sabemos como ou se realmente passaram por nós. Se vivemos eles ou não. Aqueles que olhamos para o calendário e não nos dizem mais do que um número. Poesia. Devo ter escrito uns dez poemas sobre escolher ou pular dias. Mesmas composições sobre a mesma coisa. Um pouco de vida, um cálice de morte ao dormir até que a garrafa termine. Qualquer coisa nesse sentido.

"Eu sou tão insistente em te amar quanto tu é em escrever, sabia?"
"Porque acha que eu me casei contigo?"

Eram sempre variações das mesmas conversas, na cama, com os pés gelados, tentando esquentar um o outro, enroscando os braços e procurando o habitual perfume de jasmim que a cama tinha.

A chave do chalé estava um bocado enferrujada, e a porta comida por cupins. Não havia sinal de arrombamento. Da guarita 28 até ali eram, contados, dezenove passos. Lentos, mais lentos que o normal dessa vez. Era o único ali, no topo daquela duna alta, o mais próximo era pequeno ao ver, pela distância. Tive de forçar um pouco a porta para poder entrar. Respirei aquele ar guardado, com aroma de pouco uso, da forma mais profunda que conseguia sem colocar o pulmão para fora. Já entardecia e em breve o sol iria cair atrás do mar, e eu sabia tudo o que tinha para fazer.

Em cima da mesa havia um bilhetinho escrito por Selma, com sua letra redonda, de menina ainda. Então essa era a desculpa dela para voltar ali para dentro mesmo com o carro já pronto para irmos embora. Sorrio de maneira boba. Talvez ambos tenhamos nossas pequenas mentiras um para o outro.

Acendo um cigarro no lampião e me sento no sofá para tomar o resto do café na térmica que Selma preparou. Do lado coloco um envelope amarelo dos correios, dentro, um poema rascunhado em um lenço de pano. Uma foto minha e de Selma, do nosso primeiro ano de namoro. E por último minha aliança. Procuro por uma caneta e escrevo em cima.

"Para Selma, ou o amor de quem encontrar."

Faço fogo rapidamente na lareira e coloco ali uma pilha de papeis que estavam por perto, anotações, rascunhos e algumas fotos antigas, preto e brancas ainda.

Levanto e fecho a porta atrás de mim. Arrumo o óculos na ponta do nariz e o cachecol que estava pendurado no armário do quarto. Tentei não olhar para a cama ainda feita da última vez que estivera lá, nem para a lareira.

De pés descalços ando até a duna, enorme e imponente, sem nenhuma grama de praia nela. Apenas um enorme monte branco. Fico contando os pássaros e pequenos roedores da areia que vejo pelo caminho. Me sento no topo, na subida, do outro lado da duna, a parte que é mais alta que o chalé. Fico esperando o sol cair e o revolto mar da noite chegar e brindar a praia.

Então o céu ganha uma vermelhidão que eu nunca tinha visto. Talvez demorasse uma vida inteira para contar todos os tons de vermelho que eu podia ver ali. Difusos por pequenas nuvens brancas, pouco densas, pequenas manchas no céu. Logo minhas pernas ficaram tão pesadas quanto minha respiração, veio o sono e o conforto de deitar na areia morna.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Uma frente fria vinda do sul


Uma frente fria. Casacos e cachecóis na rua, olhares austeros e impressionados perambulando com direção certa no passeio público. O visível deslumbre do narrador do rádio me irrita. No banco do passageiro, suco, uma baguete e um maço de marlboro vermelho. Trânsito lento. Engarrafamento da Mostardeiro até a Anita Garibalde. Lá em cima na independência também, bem possível. Dez e quinze, oito graus.

Gravata no pendurador de chaves. Chave no cinzeiro, bituca de cigarro pela janela. Pão na bancada da cozinha, Dr. Spiegel do lado de fora, Humberto ali dentro. Luzes ligadas fazendo sombra na pilha de contas esperando preguiçosamente serem pagas. Tâmara dormiu assistindo “Bande à part”. Me casei com ela por que ela queria fazer na Rua da Praia o que eles fazem no Louvre. Nunca fizemos. Fizemos outras coisas, mas, continuamos falando até hoje daquela bobagem que nos atraía. Um desejo que teima em não se desfazer. Tiro a franja do rosto dela. Não, não, melhor nem encostar nela. Melhor assim, enrolada em um cobertor. Encolhida. Rosto amparado pelas costas de uma das mãos.

Ligo o chuveiro, não lembrava de como a água quente batendo nos azulejos frios fazia tanta fumaça. Tiro a roupa tentando não me envergonhar do que vejo no largo espelho. Catarina Vilas, potencial suicida. Sr. Arnaldo, problemas com solidão. Aldo, obsessivo. Não, nenhum deles com problemas de verdade. Libido, quando foi que comecei a perder a libido. Vinte de março. Oito de novembro. Não sei. Não sei de nada. Cabelo branco, quando os cabelos do peito começaram a ficar acinzentados. Foi aí. Banho quente, corpo frio. Corpo quente, água fria. Fim do banho.

Julie. Abro a porta do quarto dela com cuidado. Acordada. Sentada na cama olhando uma tela que ela pintou no teto.

“Tua mão dormiu na sala. Melhor deixar ela lá, né?”
“Essa tela lembra Rohmer ou Rembrandt?”
“Posso sentar por aqui? Parece mais com algo do Márcio Galo”
“Não gosto dele. Posso me sentir insultada com essa, sabia? Ah, se acha que deve, senta.”

O nariz da mão, as minhas mãos e olhos. O jeito de menina grande.

“Como foi o dia?”
“Possivelmente igual ao teu”
“Gente maluca? Bebida e insensatez? Baguete e suco?”
“Por aí. Troca a baguete por um namorado broxa e o suco por uma coca-cola e tamos quites”

Me sento ao pé da cama, junto aos pés dela, mas, no chão. Deixo a cabeça cair sobre o colchão. O silêncio. Nossa respiração funda e pesada. Somada. Fumantes. Da janela as luzes de uma roda gigante invadem o quarto. Parque xinfrim. Elas vão se apagando lentamente, como se um homem baixinho, com bigode todo branco, macacão azul e boné estranho as removesse uma por uma, as lâmpadas na roda gigante. Logo elas se apagam. Pego no sono.

Versa-me


E você aí, se apoiando nos cotovelos. Me olhando, jeitinho de mulher moderna, independente, vagabundinha na cama, péssima cozinheira e anfitriã. Apartamento vazio, disco do Tom Waits no tocador de LP. Porra um toca discos, nenhum CD, tudo LP, só pra fazer gênero de mulher retro, mas no fundo uma reacionária de direita. Que ouve Tom Waits. Uma voz familiar, Rain Dogs e uma noite fria e nublada, um céu da cor do rótulo do Johnny Walker Black Label, mas nem gosta de uísque, deve ter comprado numa viagenzinha barata pra Rivera. Cama bagunçada, aposto, desfeita há dias e nenhuma vontade de arrumá-la. A cara marcada, advogadazinha de merda, tem toda pinta. E toda grana. Aposto. Uma advogada que ouve Tom Waits, que merda. Cartão Visa international e um brinde das milhagens da Varig na bolsa. Só pode. Amigos advogados, funcionários públicos, uma agenda lotada deles. Umas foda-fixa meio bagaceira e bem mais-ou-menos, um careca de barba rala, todo metidinho a artista. Brocha sempre que lembra da ex-mulher. E tu vem com sacadinhas polêmicas e irônicas, tua pinta. Tua boca, ninguém deve gostar dela, com esse batomzinho vermelho, parece até uma puta que tava fazendo programa com um palhaço, um palhaço fodido demitido de um cirquinho de quinta categoria. É, bem tua cara.

Lavo as mãos, arrumo o rabo de cavalo e saio do banheiro.