sexta-feira, 21 de março de 2008

Não são flores, são rosas


Quando Beatriz chegou ao café Medialuna, de alguma forma, ela estava ciente de tudo que estaria por transcorrer nas próximas horas. A boa consciência, a má, a enorme gama de escolhas que ela tinha nas mãos, além do simpático esmalte roxo. Não era fácil pra ela estar ali, preparando inúmeras coisas para dizer para Júlio, assim que ele chegasse. Ao acordar, perto da uma da tarde tomou apenas um banho rápido, escolheu as roupas mais fáceis, sem pensar muito, mas queria estar bonita para ele, de alguma forma importava ainda. Uma saia preta, uma blusa cinza, um tênis normal. Tinha perdido o apetite durante o banho, não parecia ela mesma, era difícil manter o foco em alguma coisa por muito tempo, tão difícil que não se deu conta de que algumas lágrimas rolavam pelo seu rosto junto com a água do chuveiro.

De certa forma ainda não acreditava que tinha sido aceita na universidade de Montevidéu, tudo havia sido tão rápido, o telegrama, o telefonema e a rápida visita ao consulado. Todos haviam sido gentis demais com ela, algo que não estava acostumada, a não ser por Júlio, que normalmente eram quem alegrava seus dias quando estava triste. Dar as notícias para ele seria tremendamente difícil. Mas era apenas a primeira das despedidas que teria que passar. Porquê ele primeiro? Ficava se perguntando enquanto brincava com a pequena xícara de café vazia. Não sabia responder, talvez por ser quem mais importava, talvez por ser o mais difícil e talvez, também, doloroso.

Duas e meia. Pensa Beatriz em voz alta. Não sei porque cheguei tão cedo.

Beatriz pede outro café, mergulha nele algumas colheres de açúcar e bebe sem pressa. Se Júlio já estivesse ali, ao seu lado, brincaria com a quantidade de açúcar, bolaria alguma metáfora como “o café é amargo como a vida, e a gente tenta adoçar com as coisas que temos por perto.” Mas ele não estava por perto naquele momento. As brincadeiras, as pequenas bobagens que faziam parte do convívio deles seriam as cosas mais difíceis de deixar para trás.

Quando Júlio chegou, eles se cumprimentaram com um selinho rápido e quase infantil. Ele estava mais bonito do que de costume, ao que primeiro ela notou. A barba rala estava bem desenhada, estava com um perfume muito gostoso, vestia roupas que só caiam bem nele, nos outros seriam apenas um conjunto de clichês andantes. Ele tinha personalidade, isso a atraía nele, mesmo que fosse dia sim dia não.

Júlio ficou olhando para a janela, Beatriz para suas mãos e para as pessoas nas mesas ao longe. Nunca tinham problemas em ficar em silêncio, mas este era desconfortável e inquieto. Ele não parecia ter nada pra dizer ou ouvir, ela havia perdido a coragem de dizer qualquer coisa, queria ficar ali apenas saboreando aquele momento, mesmo não conseguindo encarar o olhar dele.

Ao que ele quebrou o silêncio.

“Quem tu ama mais? Eu, ou o Otávio.” Perguntou ele de forma arranhada, com se as sílabas arranhassem cada parte da garganta e da boca.

Beatriz olha reticente para Julio enquanto morde o lábio superior. Julio, ao fazer menção de levantar, tem seu punho pego por Beatriz. Ele torna a sentar de maneira silenciosa e aparentando estar bastante desconfortável.
Julio olha perdido para longe de Beatriz, logo morde um cigarro de dentro do maço e acende.

“Que foi? O gato comeu tua língua?” Perguntou Júlio.

“O gato não comeu “nada” aqui...”

Júlio repousa o cigarro no cinzeiro e bebe um pouco do seu café, ainda esfumegante. Lembra da conversa que tivera com Beatriz no telefone na madrugada anterior, então volta a fumar o cigarro. Beatriz, dessa vez, interrompe o silêncio.

“Ai, Julio, desculpa. Tu sabe como eu to nervosa. Ainda não bateu fundo que eu to indo. Mesmo com a passagem comprada e...”

Beatriz hesita em continuar falando. Julio apaga o cigarro. Ela segura as mãos dele.

“Eu...”

Júlio não a deixa continuar falando.

“Não fala nada. Por favor. Vamo continuar tomando nosso café, Bea.”

Uma garçonete observa os dois de longe, segurando uma bandeja contra o peito, escorada no marco da porta que dá para o lugar onde Beatriz e Julio estão. Ela apóia o queixo na bandeja e fecha os olhos, mantendo-os fechados por um longo tempo. Julio, com uma expressão de derrota no rosto, olha para Beatriz.

“Tu chega em Montevidéu quando? Leva roupa, essa época é bem frio. Faz o seguinte. Toma, pega meu cachecol, é presente. Não te preocupa, não foi a Dê quem costurou. Eu comprei na Duque mesmo. Perto da catedral. Um dia depois daquele que fomos pra cidade baixa comer alguma coisa.”

Julio tira o cachecol e coloca em Beatriz, deixando sua mão deslizar pelo braço dela. Fica então olhando para sua boca como se fosse beijá-la. Ela vira um pouco o rosto para não ter de ver ele.

“Obrigada, Julinho. Ah, bom, eu chego na quarta mesmo. Fiz a entrevista por telefone, se eu não chegar lá na quarta, eu perco a vaga.”

Os dois ficam se olhando entre um gole de café e outro. Beatriz fica séria e coça o pescoço. Julio fica bastante sério.

"Que foi, Beatriz? Eu conheço essa tua cara."

Beatriz olha para o colo e para a janela. Ela esfrega as mãos de forma impaciente.


"...Se tu pedisse pra mim ficar. Eu tremia, eu acho que eu...."

Julio desvia o olhar e pega um cigarro, brinca com ele e põe devolta no maço.

"...Pra “eu” ficar. Mim não faz nada."

Beatriz faz uma cara feia para Julio e se inclina para frente. Ela fala com um tom de voz bastante áspero.

"Porra, Julinho. É a última vez que a gente vai se ver e tu fica assim? Quando tu acha que eu vou te ver de novo?"

Julio dá de ombros.

"Qual a diferença? Me diz, qual a diferença de hoje pros outros dias? Eu continuo não sabendo quando eu vou te ver. Seja indo pra casa do Otávio ou, nesse caso, pra fora da porra do país."

Depois de arrumar os óculos, Julio pega a xícara de café tremendo um pouco a mão, bebe um gole e limpa a garganta depois. Beatriz leva um pedaço de bolo à boca e deixa algumas lágrimas caírem dos olhos. Os gestos de sua mastigação são os mais visíveis e deseducados possíveis.

"A porra da tua cama, a porra da tua vida. É a única coisa que me prende aqui. Sempre dou um jeito de ir parar junto do teu corpo. São os únicos momentos em que eu consigo ser sincera comigo mesma."

Julio limpa a boca com o guardanapo de pano em sua frente. Quando repousa sua mão sobre a mesa, leva-o até o rosto de Beatriz e enxuga-o, cuidadosamente. Julio se inclina para frente e deixa o guardanapo escorregar lentamente pelo rosto de Beatriz, que coloca a mão no pescoço dele e o beija, ainda suja de bolo em algumas partes.

"Não quero que teu cheiro na minha roupa seja o resto, ou a melhor parte da nossa despedida. Quero saber o que acontece com a gente. Quero que isso aqui tem algum significado."

Julio vira o rosto e recua.

"Lá tu arranja alguém pra te entender. Um cara que deixe um cheiro melhor nas tuas roupas. Melhor de cama e uma companhia mais agradável."

Beatriz tapa os olhos com uma das mãos.

"Eu sei que eu escolhi ir, mas eu queria escolher não te deixar, e eu termino com o Otávio a qualquer hora pra poder ficar só contigo."

Julio se inclina um pouco para frente. Beatriz olha para a janela. Segura um guardanapo de pano com uma das mãos.

"Tu diz isso... Mas tu sabe que tu não consegue...
Eu terminei com a Denise. Eu ia falar ontem, mas tu tava tão empolgada falando que ia ir para Montividéo. No fundo tu nem sabe porque tá indo! E deixa pra mim apenas aquela sensação invisível de que eu tenho o teu carinho só pra mim."

Beatriz avança sobre a mesa e puxa o rosto de Julio para junto do dela e o beija. Ele recua, termina o café em um gole rápido. Observa a mão tremendo, bem perto do seu rosto e então a apóia na mesa e se levanta e sai andando.

Desaparecendo, entre as mesas e as pessoas, assim como de dentro dela. Não que fosse fácil ver ele ir embora, mas, de alguma forma, Beatriz sabia que não conseguiria fazê-lo. Tentou em vão não chorar, mas se deu ao luxo, pois se tratava dele, alguém que apareceu e sumiu de sua vida várias vezes.

Beatriz deixa uma nota de vinte para pagar a conta e sai do café. Observa o movimento na Av. Goethe e tenta atravessar por entre os carros, sem pressa, olhando para tudo e todos ao seu redor, não fazendo parte daquele cenário, se sentido tão distante de tudo e de si mesma, buscando entender coisas que normalmente são feitas para ser apenas sentidas, não compreendidas.

Do outro lado da rua, no Parcão ela anda sem um destino certo. Ela tira uma frasqueta da bolsa, bebe um pouco e senta num banco. Fica olhando as coisas ao redor e canta uma música baixinho. Enquanto canta, ela tira uma agenda da bolsa e começa a anotar algo. Uma garotinha loira, de uns oito anos, lhe oferece rosas.

“Não precisa parar de cantar." Diz ela sorrindo ingenuamente.

Beatriz fica corada e joga a franja para o lado.

“Que tu ta escrevendo?”

A Garotinha se inclina para tentar ler o que Beatriz está escrevendo, mas não consegue.

“Nada de mais. Uma carta eu acho.”

“Pra quem?” Pergunta a garotinha com um ar ingênuo de curiosidade.

Beatriz morde o lábio e olha para cima, tentando evitar que alguma lágrima caia, a garotinha entende o recado.

“Compra uma rosa!”

“Ah, hoje não, a tia não quer flores... Obrigado, garotinha. Você é muito mimosa, sabia”

“Sabia sim. Vai compra, teu amor vai gostar das rosas. Vai gostar mais de ti.”

“Mas a tia não tem um a...”

“E não são flores, são rosas.”

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