quinta-feira, 24 de abril de 2008

Quase quinta-feira


Mordeu o travesseiro com a mesma força com que apertou os olhos. Uma fútil tentativa de se desvencilhar da paranóia. Dentro de si, a nostalgia do gosto de uma bala de coca-cola, comprada na venda ao lado da casa da dona Lola, quase pode sentir o peso das moedas na mão, troco dos cigarros da avó, Hitz, Plaza, Parliament, já não tinha certeza. Segurou o peito e se virou de lado, em posição fetal.

“Vem pra cama, por favor.” Baixinho, sussurrando as vogais e alongando os sons nasais.

Olhou para a bundinha e o corpo nu dele na janela, sorriu achando que elas pareciam duas bolachas Maria se abraçando, Maria como sua irmã, que pedia sempre para a mãe coçar-lhe as costas, bem no meio, onde ela não alcançava, simplesmente para ganhar um pouco de carinho, e deixar o irmão enciumado.

Os dedos. Os dedos magros dele balançavam o cigarro de uma forma bastante delicada, tudo nele era delicado, os beijos, os carinhos. Até o rosto, levemente feminino, com os cabelos caídos por cima, o semblante perdido, contornado pela lua, o atraía.

...

Da janela olhei para a rua, torcendo para que ela me chamasse, mas nada ouvia além do barulho usual, carros, gente falando no telefone, néon brega vibrando. Tentava ler meu nome na boca das pessoas, mas não conseguia. Formava ele com as letras das placas dos carros, mas, isso não me levava a lugar algum. Dois. Quatro cigarros acesos um com o outro. Hábito ruim, coração bom. Sempre zombo de mim quando estou nervoso. “Arrumou a merendeira para ir para a faculdade, meu amor?”. “Sim, querido, uma garrafa de uísque, um pacote de ruffles e dois maços de marlboro”. Uísque. Ainda me sentia anestesiado por ele. Um pouco enjoado também.

“Quantas vezes eu prometi que não ia mais trepar bêbado? Sempre fico enjoado...” Um pouco ríspido, sem pensar.

Não ouvi resposta além de um leve ronco dele, os cigarros haviam acabado, ao que fui perceber quando fui pegar mais um. Não sei quanto tempo fiquei na janela. Também não sei quanto tempo fiquei olhando ele dormir. Só lembro de ter parado quando ficou frio.

Com carinho, para Bruno Polidoro.

Tom e o pó de estrela

“Lembrei. Lembrei da Jaqueline, da Sandra, da Talita e da Laura. Por um instante pude dar nome ao gosto de cada uma, melhor que isso: Escondi no meu quarto a calcinha delas. Noites de solidão, meu rosto afogado na seda, lycra, algodão de uma noite com duas semanas de prazo de validade vencido. Mas que o presente já se fez futuro, entende, o que eu to falando? Sempre que me masturbo pensando em alguma delas acontece isso. Vícios, uma cara trota, um pudim de cachaça e todo o sono que a bebedeira pode nos brindar. Sacou? Bebedeira. Brindar. E todas essas obviedades que fazem nosso dia-a-dia palatável. Um, se tivesse que escolher um beijo... (uma pausa dinâmica e enfática.) Seira o da Lia. Claro que esse maço de cigarros e o uísque me ajudam a admitir isso. Não, não vou me lembrar amanhã, não preciso, não vai me dizer nada. Um breve silêncio...... Ina, que mulher deslumbrante, por duas semanas guardei a calcinha dela na fronha do meu travesseiro. Duas porcarias de semanas. Mas era uma mala, uma bobinha.”

O ouvi com atenção, rodeando minha aliança no dedo. Bebericando do copo entre uma frase e outra. Fiz o sinal de que deveria ir embora e pensei se deveria deixar meu moletom ali, sei que ele não levantaria da rede nem pra abrir a porta para mim. Acabaria dormindo ao relento, mas havia ainda meia garrafa, e todas as viagens no tempo que alguém bêbado consegue ter, tempo, espaço, um gato preto olhando do 504, no prédio da frente. Tom tinha toda a companhia de que precisava. Por uma noite me convenceu de que a memória era toda a viagem no tempo de que ele precisava.



Para Tom Saavedra

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Amargo


Avistei de longe suas bochechas redondas. Titubeei por alguns instantes, devo ter ficado branco, como quem foge do sol. Estava devolta à Porto Alegre fazia alguns dias apenas, há muito tempo não andava pelo Moinhos, por aquelas ruas que sabiam todos os segredos do meu início de idade adulta. A noite em que eu e Pablo dormimos na rua, ou quando eu, ele e Hélio saímos andando, corações partidos nas mãos, garrafa de uísque em punho, esbravejando as bobagens dramáticas que nos eram tão próximas, tão pano de fundo de nossas vidas naquela época. Amargo, com um corte de cabelo mais sóbrio, uma barba distinta, elegante. Com certeza eu estava diferente. Mas lá estava ela, parada na esquina de sua casa. Admirando algo.

Minha calça xadrez desbotada me entregava fácil, minha camiseta branca, justa no corpo magro também, mas eu não havia mudado muito minha fisionomia, como muitos dizem, “Deves dormir num potinho de formol, poeta.” Assim que me olhasse iria me reconhecer. Vinte anos separam uma vida da outra, com certeza, mas, não há tempo que separe o que está dentro de nós. Lembro de ter pensado numa conclusão meio pateta e apressada. Uma justificativa para mim mesmo para poder me sentir assim ao vê-la. Achei que um dia iríamos parar de fumar, mas ambos estavam segurando um cigarro, casualmente na mesma mão. A esquerda.

Quando me aproximei ela virou, um pouco assustada. Ainda era muito bonita, mas tinha no rosto marcas profundas de expressão. Se vestia da mesma forma despreocupada, o cabelo continuava comprido. Tentou sorrir de maneira honesta, mas, não conseguiu, fingi que não dei bola.

“O jardim continua bonito. Tu ainda mora aqui...”
“Não, quando a vó faleceu a gente vendeu. A mãe foi morar com o namorado, eu e o mano já estávamos morando fora.”
“Nunca vou me esquecer de ti dizendo que...”
“Olha, não fala, não tá vendo que não é um bom momento?”
“Desculpa... Faz pouco tempo que eu voltei e eu...”
“Eu sei, eu te vi num café aqui perto esses dias, ontem eu acho. Tava com uma loira muito bonita junto. Tua mulher?”
“Não, minha afilhada.”

Sentei na frente do portão. Como fizemos da primeira vez que conversamos. Ela hesitou, me olhou com uma cara feia, como sempre fazia quando eu era inconveniente, mas, cedeu à lembrança, acho. Não sentou na minha frente, encravada no meu peito entre minhas coxas, mas, ao meu lado, deixando a saia cair por cima dos joelhos. Mas, ao menos sentou-se perto.

“Depois de um tempo não tive mais notícia de ti, poeta.”
“Acabei sumindo... O homem-ilha, lembra?”
“Assim que te chamavam na faculdade, né?”
“Pois é... Nossa, me livrei daquele suplício há tanto tempo.”

Então levei mais um cigarro até a boca, procurei displicente por um isqueiro até que ela sorriu e me passou o dela. As mãos estavam marcadas por algumas manchas, não eram mais lisinhas e macias como eu lembrava, estavam tão diferentes que por alguns segundos, enquanto o calor percorria da ponta ao filtro do cigarro, me perguntei se algum dia elas foram como eu lembrava, ou era apenas mais uma das lembranças que simplesmente tinham brotado na minha cabeça.

“O isqueiro, pode me devolver?”
“Lembra, quando eu te disse que tinha algo meu que seria teu pra sempre?”
“Cacete. Deus lá sabe quanto tempo sem se ver e tu continua o mesmo, né?”
“Desculpa, eu...”
“Meu deus, até se desculpando por nada ele continua, tu nunca vai mudar, né?”
“Tu continua falando né pra caramba.”

Então ambos sorrimos de forma pouco amistosa, sentindo um pouco do espinho em cada pequena provocação.

Queria lhe falar da minha vida. Dos livros, da Europa, das festas e bebedeiras intermináveis. Dos meus romances e do meu inevitável divórcio. Queria rir e lembrar de como era rir ao lado dela. Contar detalhadamente como era bom transar com ela na banheira, e como eu guardava comigo, como se fosse uma foto, a pequena cena dos nossos corpos enfiados na água, lutando tortos por um espaço, mas, principalmente, como a luz das velas pareciam um sol refletido na água. Minha cabeça pesando sobre os seios fartos dela, macios e sempre cheirosos. Minhas mãos caçando algum lugar entre suas coxas. Mas acima de tudo, aquele silêncio e as velas. Um certo desconforto, uma certa intimidade roubada, como se não tivesse lugar no mundo. Excertos de algo que não poderiam estar ali.

Não, não podia lhe falar nada disso, não faria nenhum sentido. Eu ainda tinha a mania de flutuar no tempo, de viver cada momento do passado no presente, como se deles dependesse o futuro. Para ela o tempo corria. Seu corpo acusava isso.

Meu silêncio e o cigarro não fumado, queimando o filtro, entregaram meu momento de devaneio.

“Que gosto amargo que eu to na minha boca.”

domingo, 13 de abril de 2008

O Pêssego


Mauro amava Elza. Elza amava Mauro. Até onde ele especulava. Quarenta e oito minutos. São Leopoldo até Porto Alegre. A porcaria do trem lotado. Ele estava feliz, havia preparado uma surpresa para ela. Algo que, na cabeça dele, a faria se apaixonar perdidamente. Se não fosse quem fosse, se não fosse Ela. Elza, do beijo magnífico, sem muita língua, mas com a boca toda, as mãos perdidas procurando um lugar, um ninho, uma pousada em qualquer canto das costas, da cintura.

Mesmo com o trem chacoalhando, tentou escrever um poema no caderno. Puxou com cuidado de dentro da mochila uma caneta, e virou algumas páginas procurando por algum lugar em branco para escrever, ou mesmo um lugar rabiscado, onde pudesse escrever por cima. Algo confessional, lúgubre. Palavras soltas tentando traduzir aquela sensação de estrada sem volta. O adolescente sentimento, ou impressão, de ter trocado a saúde física e emocional por lampejos de criatividade que não o levaria à lugar algum. Ao menos é o que seu pai dizia, nos jantares de quinta-feira principalmente, enquanto ambos comem em silêncio a comida feita pela irmã.

Deixou o poema de lado, ficou deslumbrado ao reconhecer a canção que os alto-falantes do trem estavam jorrando – My Way, Frank Sinatra – cantou junto. Sozinho na verdade. Não passava de uma versão orquestrada, um arranjo que lembrava algo do Benny Goodman – que na verdade se chamava Benjamin – da época do sexteto.

”Farrapos” anunciava o maquinista – Era assim que chamavam eles ainda? As pessoas que dirigiam o trem?. Então abriu a mochila e verificou mais uma vez o presente. Um sutiã preto, com laços roxos no topo de cada bojo e um no meio, entre os dois. Junto, preso por um clips, seis páginas rasgadas, tiradas de um livro de contos do autor favorito. O esquerdo, gostava mais do seio esquerdo, sempre tivera essa impressão mesmo quando nunca os tinha visto.

Mas era Elza. Colocaria o sutiã, reclamaria de como apertavam-lhe os seios – ao que ele mentalmente retrucaria “quem mandou ter peitos tão grandes” – e o agradeceria com uma trepada fria, enquanto as páginas se deixariam amarelar em algum canto da bagunça elegante e distinta que era a escrivaninha dela.

sábado, 12 de abril de 2008

Agosto



Então abriu mão da sobriedade como nunca fizera antes. Desejou de forma ardente algo que não sabia dizer o nome e pouco conseguia sentir. Pediu uma vodca com tônica para o barista invisível no balcão de seu apartamento. Sentiu-se acolhida pelo barulho da tevê – um filme antigo com Veronica Lake – e uma canção insossa de mpb que o rádio teimava em tocar.

Olhou para as próprias mãos, segurando o copo, e as achou velhas, gastas, tentou dizer algo de bom para si mesma, na esperança de reverter aquele asco que sentiu ao se perceber, mas, a voz tão rouca a fez hesitar de forma infantil. Então lembrou-se da infância, em Montenegro, interior do estado, casa grande, quase uma chácara. O pomar. Adorava o pequeno pomar. Comia as maçãs, suculentas, com gosto, com o prazer de quem não sabe outra coisa da vida. Adorava tanto aquelas árvores que as incorporou em sua história, deu-as nomes, pendurou nelas todos seus sutiãs quando um namorado – um baixinho metido à besta da capital – lhe falou dos acontecimentos do Maio de 68, um pouco antes de fazer 16 anos. Deu. Deu empoleirada em uma das árvores num fim de tarde de domingo e, na mesma árvore, meses depois, trocou os mais gostosos beijos com uma prima, os mais gostosos beijos que podia lembrar até hoje.

Mas estava ali, de camisola, sob uma luz tétrica de Agosto, daquelas que só Porto Alegre oferece, fatiando uma bucha e meia com um cartão vencido do Banco do Brasil.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Não canta... por favor...


Então a beijei mais uma vez, e outra e mais outra em seguida. Não deixava que seus seios ficassem longe do meu peito, tentava impregnar meus pulmões com aquele perfume barato que ela costumava usar e guardar uma impressão delicada do seu rosto colado no meu. Não. Não era tão bonito, ou romântico assim, não poderia ser, nada mais conseguia ser. Éramos apenas duas pessoas se beijando, cada uma por seus motivos, fingindo coisas diferentes e mentindo da forma mais tola, com nossos corpos e copos de vinho, algo que havíamos jurado esquecer e deixar de lado.

Ajeito minha saia e a observo, alguns passos já distante, tentando buscar alguma ternura no seu olhar.

Não foi com um ramalhete de flores que cheguei na casa dela, nem com boas intenções. Estava ali simplesmente pra quebrar mais uma das tantas promessas que havia feito para mim mesma. Podia mentir à vontade para mim, e para ela também, ao passo que, nenhuma de nós estava mais se importando com aquilo ali. Ao menos é o que tentávamos nos convencer.

Paranóia, pura paranóia.

“Um café, Déia, tu quer um café? Eu faço um pra nós.”
“Tu nunca foi boa em passar café...”

Não conseguia entender de onde vinha essa vontade de ser arisca com ela.

Ângela rebola para a cozinha com duas xícaras na mão, olhando volta e meia para trás para me atirar um sorriso encantador. Eu paro, olho as fotos de família pela sala, troco a estação de rádio e me sento no sofá. A barra da minha saia fica caída pelo joelho. Sempre achei meu joelho um bocado bonito.

Da cozinha ela canta, com a voz de anjo desafinada. Um belo encanto sem valor algum. Odeio quando ela canta, é como um golpe baixo, bem na boca do estômago.

“Mas nada vai conseguir mudar o que ficou, quando penso em alguém só penso em você, e aí, então, estamos bem... Como era o resto mesmo, Déia? Nem desistir, nem tentar? Algo assim não?”

Quando ela espiou pelo vão que ligava a cozinha à sala, eu já não estava mais lá.




n.d.a: Coup de coeur

Como se fosse cereja...


Jezebel senta num canto da sala, apesar de ajeitar no chão seu vestido preto curtinho com muito zelo, não dá bola para a alça que cai do ombro, revelando o topo do seio. Ela sorri para a janela e para a noite de céu fechado, e bem como os pingos de chuva que caem aleatórios, de seu rosto caem algumas lágrimas. Ela sorri chorando, como sempre disse que faria sempre que pensasse nele, como uma boa menina apaixonada cheia de promessas, mentiras e elogios. O olho azul escondido entre os cílios e o rímel pouco se difere da lua azulada por holofotes de um hotel ali perto. Um canto de apartamento, um pedaço de lua, lágrimas e promessas quebradas, o cuidadosamente decorado universo de Jezebel.

De um abajur em pedestal baixo vem uma luz verde e forte que banha toda a sala, o silêncio é impecável, dispersado apenas pelo bater da chuva no vidro da janela, tirando a atenção da menina de vestido no chão, enquanto ela arranca pedaços de papel de parede e olha para uma foto dela com um menino, no alto de uma estante de livros e fotos em preto e branco de pessoas estranhas. Ela gosta de tirar fotos de estranhos na rua, mendigos, velhas senhoras, homens elegantes, cachorros. E ela gosta do menino na foto no porta-retratos mais alto.

Jezebel tem as mãos molhadas, um pouco de chuva, um pouco de lágrimas. No chão, junto com o vestido, caem tiras e pedaços de papel simples e azul, revelando partes machucadas de uma parede velha e amarelada, de madeira e com vários buracos de cupim. Os buracos são como se fossem machucados, marcas propositais, deixadas por alguém, como se precisassem estar lá, para serem lembrados, para remeter a algo.

No centro da sala um tripé solitário segura uma tela em branco, de papel macio e sedoso, com uma textura de veludo, esverdeado por causa do abajur. Perto dele alguns potinhos de tinta e pincéis. A chuva aumenta, o vento também. As cortinas roxas dançam um balé imaginário, coreografias sincronizadas de cada lado de uma janela aberta e chorosa. Balançam em uma mistura de ritmos frenéticos e suaves, tocando o chão e o teto, por vezes os dois ao mesmo tempo. Dançando como Jezebel e o menino jamais dançaram, como jamais quiseram, mas, sempre sentiram falta. O jacquard felpudo da cortina derruba um dos potinhos de tinta, e ela escorre pelo chão até tocar os dedos de Jezebel, que, enquanto aumentam as lágrimas, troca seu olhar de tristeza por um de ansiedade, se levanta e anda de um lado para o outro.

Tinta voa pela tela, sem analogias com pássaros, ou com liberdade, apenas voa pela tela, marcando e misturando, criando algo em cima do que já era, movimentos perdidos e interrompidos, violentos de natureza mas de resultado suave, até que um vaso quebra, a cortina bate, e ele cai, nunca fora do tipo distraída, até aquele momento. Ninguém poderia explicar aquilo para ela, o que era sua respiração ofegante, o que eram as manchas na tela, aqueles cacos no chão trouxeram calmaria, no lado de fora a crescente tempestade cessara.

De um salto o que era sol virou nublado, o que era nublado virou chuva, chuva tempestade e de tempestade o silêncio.
E Jezebel parada, de frente pro quadro, alça caída e unhas dos pés pintadas de preto, uma correntinha no tornozelo direito. O som das cortinas parando de dançar faz coro com duas batidas na porta. Na correntinha diz “cereja”.

Do outro lado da porta o menino da foto escora uma mão e diz “Sou eu”, como se a familiaridade da voz fosse o suficiente, se transformasse em uma chave. O silencio repousa sobre todos os objetos como um lençol jogado com desdém sobre uma poltrona feia.
“Eu voltei” diz ele, pingando, embrulhado em uma jaqueta de couro. Jezebel senta sobre os joelhos, tapa a boca, tapa os olhos, tapa o peito, tapa os ouvidos e quando se dá conta de que não poderia tapar todos ao mesmo tempo engatinha até a porta e senta de costas pra ela. Do outro lado o menino escorrega pela porta e senta de costas também. Jezebel brinca com a correntinha do tornozelo e ele acende um cigarro.

Delicadamente ela quebra o silêncio. “Não gosto quando tu fuma”, dito com simplicidade, beirando um mio de gato pequeno. “Só fumo quando estou triste, quando tenho saudade” intercalando uma frase com uma tragada de cigarro. “Eu não mandei você ir embora...” ela fala brincando com a correntinha, mas com mais firmeza na voz.

Ele hesita por um par de segundos e com a respiração pesada e o cigarro queimando nos dedos ele diz, “Acho que gosto de ti”. Jezebel tira a correntinha de um tornozelo e põe no outro, depois de reunir força pergunta, “Acha? Quando vai saber?”. Prontamente ele responde enquanto acaricia a porta como se fossem as costas dela, “Quando o frio desaparecer... Lembra?”

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Declarações de Amor recicladas

Senti uma dor incomum. Estávamos eu e ela deitados na cama do meu quarto ouvindo música. A dor eu não sei de onde vinha, talvez da intimidade. Talvez do pavor das coisas que sentíamos e nos espreitavam. O quarto estava propositalmente mal iluminado, ela ainda tinha vergonha do seu corpo, e eu ainda teimava em fechar os olhos quando mais a sentia perto de mim. Estranhamente sentia como se tirasse uma foto dela toda vez que eu piscava os olhos. Nossos perfumes se misturaram após o banho, junto com o cheiro das velas. Alguma coisa, além da dor, perambulava ao redor.

Ela se aconchegou em cima do meu peito e deitou a cabeça no meu ombro, esperando um cafuné, me olhando com um sorriso terrivelmente encantador, feliz e genuíno. Dancei minha mão por sua barriga e então repousei-a em sua coxa. Pelo que podia ver, ela também sentia alguma espécie de dor. Uma dor aconchegante. Um bocado diferente da minha, que latejava. Era incômoda, mas, não parecia ser em lugar algum, uma dor que não podia ser tocada, mas era facilmente sentida. Não é a solidão que dói, o que dói é a afronta à solidão. E claro que aquele carinho e ternura, um quase sensual jogo de intimidades, feria gravemente minha solidão. O verdadeiro ninho do meu amor.

O prazer, por outro lado, valia a pena. Lembrar daquilo, dias depois, meses, anos, seria uma das melhores sensações do mundo. Isso que não havíamos feito nada ainda. Memórias teimam em durar mais que orgasmos.

“Me beija...?”

Então ela sorriu, gozando por dentro de um sentimento de cumplicidade ingênua e me beijou. Ao que logo parei.

“Me beija de um jeito que eu vá lembrar pra sempre.”

Ela hesitou, ficou vermelha e se escondeu no meu pescoço.

“Não sei se consigo...”
“É mais fácil que parece.”
“Porquê?”
“Experimenta.”
“E eu não tava te beijando agora mesmo...?”
“Não, bobalhona. Me beija pensando nisso que eu falei. Em um beijo que eu vá lembrar para sempre.”

Ela tentou denovo, apertou uma das mãos atrás da minha nuca e deixou o rosto pressionar levemente o meu. Aos poucos foi tocando todo meu corpo com o seu. E, antes que pudéssemos pensar em outra coisa, algumas peças de roupa estava caindo pelo lado da cama.

Então abri os olhos, enquanto procurava algum lugar pelo pescoço dela que me excitasse com sua textura, perfume, jeito. Não podia distinguir muita coisa, parte dos cabelos jogados à minha cara, pedaços claros de pele, e tudo aquilo que na maioria das vezes foge nossa imaginação quando pensamos no mais apaixonado e cálido beijo. Havia uma vulgaridade qualquer, que, faz parte natural de qualquer contato humano, e que tornava aquilo ali algo especial de verdade.

“Tu fica comigo essa noite?”
“A noite inteira.”
“E quando tu for embora?”
“Tu pode lembrar do beijo e de certas coisas boas.”
“Muito cedo... Prefiro ainda sentir teu gosto, ele ainda é melhor que uma lembrança.”
“Mas, o que acontece se eu ficar?”
“Eu não sei. Talvez tenha um pouco de medo de descobrir, mas...”
“Acho que medo não é bem a palavra, mas sei como é.”
“E se a gente ficar simplesmente fazendo amor o tempo todo, sem pensar no mundo ali fora, nem no tempo ao nosso redor?”
“Eu gosto dessa música... Talvez seja uma coisa boa.”
“Seria muito boa, gosto de sentir tua boca, teus seios, teus olhos.”
“E gosta de fazer amor.”
“Sim, tu não?”
“Claro.”

Ela parou um instante para me beijar rapidamente. E continuou.”

“Mas não acha estranho? Essa frase? Fazer amor?”
“Acho... Tem algo de estranho nela mesmo.”
“E as pessoas que transam sem se amar? Dizem o que?”
“Sexo. Acho...”
“Tão vulgar...”
“Algum problema com vulgaridades?”
“Não. Não sei. Eu acho que eu imaginava que as coisas iam ser diferentes quando eu crescesse. Não tinha a menor idéia de que a vida era assim.”
“Achou que não existia sexo sem amor?”
“Se soubéssemos que seria assim, talvez ninguém teria coragem de crescer.”
“Essa música é tão bonita... Engraçado ouvir essas canções de amor e falar dessas coisas.”
“Talvez eu devesse colocar Paint a vulgar picture...”
“Não, daí cada um vira pro lado e dorme no seu cantinho dolorido. Smiths às vezes não funciona para isso.”
“Sexo, amor, ou cantinho...?”
“É um convite?”
“Acho que não. No fundo nenhum dos três. Acho que prefiro ficar te beijando.”
“Porquê? Que tem demais em me beijar?”
“Não sei.”
“Sabe sim. Fala.”
“Bom... É macio.”
“Lábios são geralmente macios, não?”
“É... vai ver são.”
“O que houve? Parece que tu tá falando comigo olhando pro alto de uma montanha.”
“A convivência te fez gostar de falar por metáforas?”
“Ai, como tu é bobo.”
“Metáforas, poemas e mentiras.”
“O que que tem isso?”
“São as minhas ferramentas de trabalho.”
“...Memórias, faltaram as memórias.”
“...É... Mas não. Essas são uma droga de uso pessoal apenas.”
“Eu não gosto de mentiras.”
“Nem eu. Mas, a gente vive no meio delas.”
“Como assim, o que tu mentiu pra mim?”
“Nada. Mas a gente sem querer mente pra si mesmo, que uma coisa é outra e... Que gosta de uma coisa, que não gosta de outra.”

Ela ficou me olhando desconfiada da minha teoria.

“Olha, não sei te explicar. A gente mente pra si mesmo, por exemplo, que não ama uma pessoa, pra se proteger. Ou mente pra si mesmo que a ama simplesmente para cuidar da nossa solidão.”
“Eu não consigo fazer isso.”
“Então, tu me ama?”
“Quem sabe...”
“Tu precisa me amar?”
“Não, eu acho.”
“Tu tá começando a entender.”
“Mas eu quero te amar. Ou não, vai ver te amar é o começo do fim.”

Ficamos um bom tempo nos beijando.

“Não tem como esconder, não é?”
“Tem uma hora que a gente cansa de esconder as coisas.”
“Sozinha é mais fácil. Mas odeio ficar sozinha, não sei como tu gosta de mim, não me agüento às vezes.”
“Acho que não. Esconder de nós mesmos é mais complicado.”
“E se for verdade? E se eu te amar, e se tu me amar?”
“Uma hora a gente descobre sem querer.”
“Como assim...?”
“Uma hora tu pode sentir minha falta, não apenas saudade.”
“Tem diferença entre saudade e sentir falta?”
“Toda diferença do mundo.”
“...Que é...?”
“Com a saudade a gente consegue conviver, e, uma hora ela simplesmente desaparece, deixando pouco rastro.”
“E sentir falta?”
“Sentir falta é algo além de uma metáfora, como a água para o deserto, ou a noite para as estrelas, e todos esses jogos literários tão fáceis. Sentir falta é como uma dor ou uma doença. Pois no fundo não precisamos de nada disso, mas, mesmo assim sentimos falta. E isso é o amor, de certa forma. Uma amor não lá muito saudável, mas, amor... Sentir falta de algo mesmo sem precisar.”
“Isso é um sinal de amor?”
“De certa forma sim. Mas tu pode não querer nada meu, muito menos sentir minha falta, ou saudade.”
“E como que a gente tem certeza?”
“Aí que as memórias teimam em aparecer...”
“Que ruim...”
“As coisas são assim... Na maioria das vezes.”
“E se eu sentir tua falta e te amar e tu me amar, e se te beijar ainda for a melhor parte do meu dia?”
“Então a gente torce para que seja amor. E que mesmo na solidão isso tudo, o que se sente e o que se lembra, faça algum sentido.”
“Aí alguém pega o telefone e liga pro outro, só pra ouvir a voz, não diz nada e então desliga.”
“Claro... E é sempre bom quando é assim.
“E se não for amor, é o quê?”
“Pode ser a solidão se virando na cama, nos provocando de alguma forma que é ruim de agüentar sozinhos. Se chama paixão.”
“Achei que paixão era outra coisa.”
“Paixão pode ser qualquer coisa.”
“Pode ser isso?”

Ela desabotoou minha camisa e percorreu com os dedos o suor do meu peito e da minha barriga. Estava muito quente, aquele início de noite parecia uma noite de verão perdida no meio daquele inverno todo. Com pequenos beijos ela percorreu minha pele, desviando dos tufos de pelo no meu peito e em cima do meu umbigo.

“Diz que me ama, diz alguma coisa pra mim?”
“Tu é linda.”
“Não, eu quero ser algo melhor que linda.”
“Ahn?”
“Eu quero que tu lembre de mim de um outro jeito.”
“E se tu estiver do meu lado? E se eu não precisar lembrar?”
“Não, tu nunca ia conseguir viver com uma mulher que não quer viver todos os dias. Às vezes eu quero dormir, se pudesse, com certeza não viveria todos os dias, isso cansa.”

Rolei para o lado puxando ela para cima de mim. Poderia ficar ali beijando-a por horas. Ou olhando-a dormir.

“Porra. Diz que me ama.”
“Eu não sou bom com declarações de amor.”
“Mas eu sei que tu é.”
“Eu não sei dizer isso. Mas, se eu te faço sentir, porque eu preciso dizer?”
“Não é o que eu sempre te digo?”
“É o que a gente acaba vivendo.”

Então nos calamos uma última vez e deixamos nossas mãos se tornarem olhos, explorando e conhecendo o corpo um do outro. Deixamos nosso suor se tornar uma espécie de sangue que nos unia. E com um longo beijo dormimos abraçados. Por um instante a dor havia passado para só voltar a aparecer na manhã seguinte, quando estivesse sozinho com um perfume estranho, e uma voz suave procurando por mim dentro de um quarto vazio e Mal iluminado, com alguma roupa especialmente bonita pendurada na arara e uma foto dela comendo pão de queijo na mesa de cabiceira.

E não esqueça de desligar o abajour antes de dormir




As cinzas de cigarro formam desenhos abstratos dentro do enorme cinzeiro verde musgo. Procuro uma camisola para vestir enquanto observo a bagunça criando um abitate natural nos cantos do quarto. No rádio, a sonolenta e distante voz do narrador do programa de blues, a madrugada blues da rádio universitária. Fico pensando, mais um cigarro antes de dormir e pronto, já posso me ir deitar. Não, mais um cigarro me deixaria acordada, já foram cinco. Tanta nicotina no corpo só pode ser o que está me causando essa insônia. Uma e tanto, me sinto cansada, um bocado sonolenta. Mas, sempre que tento deitar o sono vai embora. Sinto meu coração palpitar, é péssimo. Se não fosse o rádio, poderia ficar ouvindo horas o barulho do meu coração batendo na cama. A nicotina, só pode ser a nicotina. Deveria fumar menos, deveria me exercitar mais, sentir menos e amar menos, tudo pode, mas com moderação. Mamãe sempre dizia isso.

Ler. Ler ajuda.Acho que já troquei de lugar no quarto umas seis vezes. Sento na cama, no chão, na poltrona. Às vezes acho que esse papel de parede me irrita, azul, um azul tão claro e neutro, sem personalidade. Nada a ver comigo. Essa euforia, essa tristeza, porque as coisas tem de ser assim? Acho que se eu tomar um café eu posso ficar acordada até amanhã de manhã, e então, quando o sol raiar poso tentar dormir, quentinha, no meio de um recorte de luz do sol, desenhado pelas árvores, jogado displicentemente na minha cama. Não lembro quando dei para ficar pensando por advérbios de modo, deve ser coisa tua. Aliás, tu podia me ligar, tu podia estar em casa, quietinho dormindo. Sonhando comigo. Se ao menos eu soubesse quem tu é.

Às vezes eu levanto o telefone e imagino a tua voz, rude, meio seca, como a de alguém que fuma muitos cigarros e não se cansa pela noite, tem problemas para dormir, como eu, mas, quando apaga, apaga mesmo. Já tentei te apagar da minha vida e ainda não te conheci, que péssima amante devo ser. Tão inconstante, tão sem graça.

A rotina. A rotina tem seus encantos, já tentei me convencer disso. Se eu arranjar uma rotina para mim posso me acalmar. Quem sabe dormir sempre no mesmo horário, comer sempre nos mesmos horários. Tirando o trabalho, nada parece ter um ponto fixo por aqui. Nem a gata, que às vezes come, às vezes aparece, às vezes quer carinho. A vida poderia ser vivida às vezes. Um dia to poderia me ensinar a tocar piano, ou mesmo a morrer, quando eu era adolescente vivia dizendo que viver é aprender a morrer. Hoje já acho que a cada dia a gente morre um pouco, cada hora, na verdade.

Meu bem, pensa comigo. Se a gente tem de aprender a morrer, e a cada hora morremos um pouco. Quantas horas passamos morrendo aprendendo? Ou as duas coisas não acabam por ser as mesmas?

Eu ando pelo quarto colocando a camisola longa e branca, tão infantil, de bichinhos, coloridos, espalhados pelo corpo, sentados delicadamente sobre meus seios grandes, seios que sempre achei que te fariam se apaixonar por mim, quanta bobagem, vai ver gosta de seios pequenos, que cabem na mão, simplesmente, que têm personalidade. Que servem para alguma coisa.

Seria mais fácil dormir se não me preocupasse contigo. Se tu nunca tivesse existido na minha cabeça. Como posso te tirar da minha cabeça, meu amor? Se nem te conheço e já sou assim, tão louca por ti.

Acaricio as pontas do meu cabelo e levanto o telefone, me certifico de que não é tua voz do outro lado, que o silêncio, misturado com o sinal para discagem não escondem por trás o barulho da tua respiração. Não, nunca encontro, às vezes quero tanto perceber algo, uma sílaba titubeada, dita por mero descuido. Passo horas te procurando no meio da linha. Muitas linhas, todos os dias.

Sei que poderia te amar e te fazer a pessoas mais feliz do mundo. Que bobagem, eu aqui, sem sono, procurando algo pra me distrair, pensando em ti, como se estivesse aqui do meu lado.

Não, não vá dormir agora, não me deixe aqui acordado do teu lado, como sempre faz. No fundo tu é um insensível, sabia? Podia dormir junto comigo, não simplesmente me dar boa noite, virar para o lado e começar a roncar triste e baixinho. Seria mais fácil se não te amasse.

Tu é tão bom pra mim, mas tão terrível ao mesmo tempo. Se aparecesse eu podia, sei lá, te beijar ou te dar um tapa, te dizer que te odeio, ou que te amo, enquanto tu fala que são meramente a mesma coisa. Isso, te odiar, poderia começar a te odiar, a rir da tua cara, do teu jeito... Incomum. Buscaria uma honestidade fajuta e me acabaria nos corpos de outras pessoas para te ver mendigando por um pouco da minha atenção.

Não, não sou assim. Não sei quem tu és, de onde vem, mas sei que mexe tanto comigo.

Não sinto sono e o programa de rádio já está acabando. Podia ser diferente. Eu podia não sentir tanta dor. Podia me contentar com tudo que tenho e achar um ninho na minha solidão furada. Tu podia me telefonar agora, me dando boa noite, me colocando com palavras na caminha, me cobrindo com um lençol, me lembrando que acordo de manhã sempre com frio. E, antes de se despedir, podia me lembrar de apagar a luz azulada do abajur. Uma palavra francesa, abat-jour, o quebra-dia. Como tu mesmo brinca. É podia.

Incidentes – Um dia na vida de um prédio Porto Alegrense


Baseado em fatos reais, compilados de diversas edições do jornal Zero Hora.

Porto Alegre. Dois milhões de pessoas, amantes e trabalhadores. Dois campeões mundiais. Polaridades espalhadas por todos os cantos, ou é PT ou odeia o PT, ou é gremista ou é colorado, ou é gaudério ou fala o bonfinês. Ou toma chimarrão, ou não. Tudo isso costura a capital dos gaúchos de uma forma ou de outra.

Amanhece e os raios do sol tocam o Guaíba. O nascer do sol, tão desprezado, tão deixado de lado em comparação com o “pôr-do-sol porto alegrense”, vai rapidamente tirando o breu da noite e transformando os escuros e sombreados em claridade. Temperatura amena, dezesseis graus e leve brisa. Na Borges de Medeiros as pessoas andam de um lado para o outro, devagar, aos poucos, esperando as horas passarem despercebidas por cada um. Quem observa o amanhecer em Porto Alegre não deixa de pensar: Todos sozinhos, mesmo juntos, mesmo rodeados por tanta coisa ao mesmo tempo. Demasiados sozinhos. Claro que é fácil fingir o contrário, mas, essa característica não foge dos olhares atentos, ou mesmo os não tão atentos. Basta parar na Esquina Democrática e observar os semblantes das pessoas, mesmo felizes, ou mesmo as tristes. Todas sozinhas, carregando consigo algo que é tão delas, tão de cada uma que impregna o ar de forma quase nauseante. No final da Borges, o prédio Solaris. Nele, sete andares e um terraço. Osmar, o porteiro, abre a porta, coloca um pequeno tijolo para que ela não bata, esfrega as mãos e convida o carteiro para “um mate bem quente”. Ao que ele aceita, colocando sua bolsa no chão e já puxando uma cadeira.

O apartamento 205

Mal decorado. A primeira coisa que se nota sobre o apartamento de Luzia, uma portuguesa de Lisboa, moradora de Porto Alegre há quase cinqüenta anos. Ela levanta e coloca as pantufas ridículas, rosas e sujas, enquanto procura pelo chambre, também rosa, mas um pouco mais decente. Põe os óculos e então pega a dentadura de dentro de um copo com água. Ela olha para os lados, se certifica de que está sozinha mesmo, então bebe um pequeno gole da água em que estava a dentadura, dá um leve sorriso de menina arteira e então segue para a sala. Lá ela cumprimenta a foto do falecido, em cima da mesa, com um caloroso bom dia, atira-lhe um beijo e pisca.

O jornal se desdobra sobre a mesa, Luzia separa cada caderno e lê com atenção letra por letra, aperta um largo pneu de sua barriga e pensa que definitivamente precisa perder peso, enquanto passa pela sessão de economia fica se perguntando qual é a graça de tomar café bebendo cigarros. Três páginas depois se dá conta que não se bebem, mas, sim, fumam cigarros, mais uma risadinha faceira para contar no final do dia. Quando a velha Ethel chegar para o chá da tarde com certeza vai comentar a bobagem que pensou, cinqüenta anos e elas nunca tiveram assunto algum, mas diariamente bebem chá. Coisas que a vida não explica, e que ninguém tenta entender, afinal de contas, são duas senhoras tomando chá, e nada mais.

Luzia levanta e vai para cozinha pensa nas coisas que tem que comprar no mercado e na curta viagem de trem que tem de fazer ainda essa semana, visitar uma parenta adoecida em Canoas, mas não hoje. Ela prepara o café e, enquanto a água esquenta, ela volta rapidamente, com seus passos lerdos, até o quarto para desligar o despertador, que teima em avisá-la de que é hora de acordar.

Qual usar? Café extra-forte, matinal, sabor do campo, aromático, grãos leves, francesinho, carioquinha, bugre. Quando se fica velha, pensa ela, os dilemas da vida acabam se resumindo em qual café tomar de manhã? Se apenas um comprasse, talvez a vida perderia um bocado da graça, pensa Luzia em voz alta, tentando esconder de si mesma a timidez ao se dar conta de que a metáfora se mantém para homens, carros e lugares para se ir nas férias de inverno. Principalmente a parte dos homens.

Cinco, oito minutos pegando um pacote ou outro. Cheirando-os e pesando cada um, esperando ouvir de cada um deles uma espécie de chamado para ser bebido. Sabor do campo. Claro, fazia todo sentido, era dia de caderno rural no jornal, era um dia fresco, todos os sinais indicavam isso.

Mesa posta, Luzia vagarosamente começa a despejar o líquido negro e fumegante na grande xícara ovalada, trazida de San José Almagro, em sua última viagem. Ela se posta na frente da janela, observando o dia, as coisas do lado de fora.

Na rua um homem é rendido por um assaltante, Luzia observa a cena com muita atenção, se assusta com o disparo do revolver, um objeto metálico e reluzente, e com o café quente queimando seus dedos. Luzia não recorda se o corpo do homem e a xícara caíram no chão no mesmo instante.

O apartamento 302

“A gente podia ficar um pouquinho mais na cama né?”
“Hoje não, tenho que levar um material para o editor. Juro que nunca mais faço um contrato tão maluco com um editora. Cacete, três livros em dois anos é terrível... Quer dizer, nem tanto, mas, sabe como é, né.”
“Quando tu vai parar de escrever romances heteros?”
“Quando eles pararem de dar dinheiro, acho.”
“Mas tu não entende nada de mulher, como pode escrever aquelas coisas, não que eu não goste, mas...”
“Homem, mulher, tudo a mesma merda no fundo.”
“Ta maluco, né?”
“Na verdade não, nunca me senti tão lúcido. As únicas diferenças são que: Duas mulheres São amiguinhas, mas um pé no saco de aturar, dois homens são menos chatos, mas tem suas inconveniências, e um homem e uma mulher tem a parte chata, a parte inconveniente e a parte romantiquinha que todo mundo tem em mente.”
“Juro que nunca mais te deixo beber tanto café antes de vir pra cama dormir.”

André deita de bruços e resmunga alguma coisa pouco inteligível. Augusto dá de ombros.

“O que tu vai fazer hoje André?”
“Nada, de preferência, queria ficar na cama o dia todo.”
“Que vida, hein, querido?”
“A que eu pedi a Deus, juro, nunca fui bom em nada, nunca quis fazer nada.”
“E qual é a parte interessante disso tudo mesmo?”
“Todas as coisas maravilhosas que o ócio me permite pensar, ócio criativo e tudo mais.”
“E o que tu crias mesmo? Meu Bem?”
“A mim, me reinvento di-a-ria-men-te...”

Augusto se veste enquanto André rola na cama nu. Cada peça de roupa vestida parece grudar a vácuo no corpo, ele escolhe bem a gravata, o terninho, procura pelos cigarros em cima da mesa e suspira insatisfeito.

“To bem?”
“Um gato, miau.”
“Quando tu vai crescer, hein André?”
“Quando eu fizer aniversário, possivelmente.”
“Quanto tempo a gente tá junto mesmo?”
“Dez anos, onze meses, três semanas, vinte quatro dias e algumas horas.”
“Como que eu agüentei?”
“Menor idéia.”

Augusto pega uns papéis e sai do quarto. André fica de quatro na cama e late para o companheiro, atira um beijinho e observa a porta fechar, então, senta na cama e tenta teatralmente controlar uma cara triste, sem sucesso.

Na cozinha, Augusto derruba uns cubos de gelo num copo pequeno e, em cima, despeja displicente um generosa dose de uísque.

“Quando comecei a iniciar o dia com um copo de uísque e um cigarro?” Pensa ele em voz alta? Não se dando muito conta da bagunça do apartamento, da sujeira na pia, algumas fotos estranhas tiradas com os amigos em uma festa algumas noites antes.

Em um pequeno papel ele anota, com uma caneta preta. “Me desculpe...” Faz isso, termina o uísque e sai pela porta da sala.

O apartamento 401

Nunca tinha me dado conta de que eram vinte e três passos do meu quarto até o banheiro, pensa Lígia. Cigarros, todo mundo deveria parar de fumar, começando por mim. Até porquê, começar o dia assim não deve de ser lá muito saudável. A gastrite ainda me incomoda, tomar leite costumava ajudar, mas, é tão ruim, tão nojento o gosto. Se bem que poderia quebrar um pouco com café, mas, perderia o propósito de ajudar com a gastrite. São tantas coisas ao mesmo tempo. A conta, a conta de telefone eu não paguei esse mês, nem a de luz, não me admira se cortarem uma hora dessas. A de água eu paguei, não poderia viver sem água quente. Poderia viver sem muita coisa, sem tevê, sem micro-ondas, sem correspondência, até sem amigos, dizem que a gente pode viver, mas sei bem como não poderia viver sem água quente. Um banho eu poderia tomar um banho, para começar bem o dia. Não que dez e vinte seja hora de começar o dia, o que será que pensariam de mim se soubessem que eu durmo até tarde? Que emendo o café da manhã no almoço, que geralmente acabo indo para o motel com alguém depois de visitar o túmulo do meu finado esposo. Os cigarros deveria começar pelos cigarros. Pensa ainda, Lígia, de camisola, tentando tirar os nós do cabelo na frente de um espelho do tipo camafeu.

Ela vai até a cozinha, procura por alguma coisa na geladeira vazia mas não encontra nada, bebe um pouco de água da torneira e se senta no balcão, geralmente onde prepara alguma coisa pra comer quando a fome aperta. Ela olha para as ruas pela janela, ignora o movimento, fica observando se os ônibus que vão para a zona sul estão muito cheios ou não. Estão sim, conclui ela pelas enormes filas. Ela liga o rádio mas logo se cansa da discussão proposta pelo Lauro Quadros, por alguns instantes tenta uma estação FM, mas se sente com muitos quarenta anos pra ouvir uma rádio FM.

Enquanto volta para o banheiro ela fica imaginando como seria sua vida se Carlos não tivesse morrido tão cedo, um trágico acidente de moto voltando do litoral. De Torres, se ela bem se lembra, como não lembraria, se fazem só seis anos, conclui ela.

“Faça por mim, o que eu fiz por ti, escolha a vida, escolha sorrir...” Canta ela esperando a água da banheira encher, uma música de alguma banda que ouviu em alguma rádio que não fez questão de recordar. Mas de alguma forma fazia sentido pra ela. No espelho ela vê o corpo flácido e as teimosas marcas de expressão no rosto. “O que eu não gostaria de ter vivido? Como era bobo achar que a gente podia escolher os dias que gostaria de viver, aí eu fico assim, emburrada, marcando o rosto, feia. Tão mulher.” Ela tenta alisar os seios, pegando-os com firmeza, mas não sente nada, nada além de uma patética meninice latente. Melhor tomar um banho, fica repetindo para si mesma enquanto mergulha o corpo na banheira. A calma água quente, confortável.

Até que afunda. Abre os olhos algumas vezes então os fecha lentamente. Como a fumaça de um cigarro preenche os pulmões ela deixa a água entrar pelas narinas e pela boca. No fundo, sorri.

O apartamento 506

“Julinha, te arruma filha, te arruma que tá quase na hora e a gente precisa almoçar ainda. Ô Beto, me ajuda com isso aqui, leva as roupas ali pro nosso quarto? ... Eu falei nosso quarto? Cacete, daqui a pouco já estou nos casando e a Julinha já ta te chamando de papai...”

Clarissa procura por seus comprimidos na bolsa enquanto observa o boletim no rádio. O seu apartamento, tirado a muito custo do ex-marido, é impecavelmente arrumado, cheira a flores sem perfume e mantém uma linha de decoração extremamente Clean. Mesmo com o alto salário, Clarissa não faz questão de ter muitos móveis, prega um discurso de desapego às coisas materiais mas secretamente consome cigarros, pessoas e jantares caros, como ninguém.

Julia, já de uniforme e mochila, observa a mãe anotando coisas em pequenos papeis para si mesma e o namorado dela sem camisa, fumando um cigarro na janela.

“Morreu um cara aqui na Borges hoje de manhã, quando fui comprar cigarro, acho que tu tava tomando banho ainda, vi a velha lá de baixo comentando que tavam levando o corpo, assalto. Essa Porto Alegre tá uma merda. Violência que não acaba mais.”

“É mesmo? Não ouvi nada no rádio...”

“Bom, meu bem, o rádio não diz tudo. Nem eu.”

“Mais uma crítica velada ao meu trabalho? Sr. Beto?”

“Não, de forma alguma, apenas constando a realidade das coisas. Já que a senhorita tava nos casando já, porque a gente não se muda daqui? Até que o apartamento é bom e tudo mais, mas a escola da Júlia é longe e o teu trabalho também...”

“Mas a Julinha ama aqui.”

“Amo nada.” Interrompe prontamente a garotinha de dez anos.

“Quieta filha, a mamãe e o Beto estão conversando, não te disse que quando os adultos tão conversando, as crianças só ouvem?”

“Mãe, o Beto é só doze anos mais velho do que eu...”

Beto dá uma risada e continua fumando seu cigarro, a mãe olha constrangida para a filha e termina de arrumar sua bolsa.

“Bom... vamos? Vamos almoçar e levar essa espertinha pro colégio?”

“Eu não vou a lugar algum, quero é ficar aqui olhando a vida lá fora.”

“Acordaste poeta hoje, seu Beto?”

“Infelizmente...”

Clarissa dá de ombros e pega filha pela mão, saem pela porta batendo-a não muito forte. Beto sorri, e, quando elas passam na rua ele atira-lhes um rápido beijo. Então acende outro cigarro.

“Um cara morreu aqui na frente hoje de manhã... Que doidera.”

O Terraço

Marcel senta no parapeito. Compara vários rascunhos de uma mesma idéia, versada de formas diferentes, tentando dizer algo que nem ele mesmo tem idéia clara. “Melissa, te amo, contigo passei os dias mais felizes da minha vida. Pena não ter dado certo, quis mais de ti do que poderia me dar, quis mais de mim mesmo do que realmente tinha. Adeus.” Não, não soava como um bom bilhete de despedida, mas era o melhor dos nove escritos. O mais honesto. Um último cigarro? Talvez? Não, nunca fumara em quarenta e nove anos, não seria agora que começaria. Agosto, talvez esperar até agosto fosse mais prudente, quem sabe uma nova oportunidade de emprego, não que o trabalho na Siqueira Campos fosse ruim, era perto de casa, a grana era boa, mas... Existia uma incompletude para ele que estava incomodando-o demais. Certamente não era o Amor, vivera muito tempo sem ele. Para dizer que não fumava, fumava ocasionalmente. Se pudesse fumaria uma ou duas carteiras de amor por mês. A metáfora era boa, se convencia disso, o amor era-lhe como os cigarros, podia viver sem, mas, quando os tinha, saboreava-os até ficar com um gosto ruim na boca. Ou melhor, acordar com um gosto ruim na boca.

Marcel nunca foi dado à vulgaridades, isso tirava-lhe o interesse das mulheres, não era bonito, tinha algum dinheiro, não era lá muito inteligente, então restava-lhe uma falsa vulgaridade, uma espécie de personagem que inventava na cama. Chega. Marcel opta pelo bilhete de Melissa, deixando o de Joana, Catarina e Ângela no lixo. Faz isso e deixa seu corpo pender para fora do parapeito do prédio.

Em Porto Alegre. Mais um dia.