
I
Hélio é uma criança de oito anos. Mais importante que seus oito anos, é o fato de ser uma criança. E ele é bom nisso, em ser criança. Sua irmã Natalie não é mais criança, faz um bom tempo, mas isso nunca foi problema para Hélio, ou, Helinho, como ela o chamava.
Já estava com sono, Hélio havia brincado no quintal por horas a fio. Tinha jogado bola, brincado de batman, construído um foguete espacial com as cadeiras de plástico de sua mãe. Estava quase dormindo depois do jantar enquanto contava tudo para Natalie. Batman havia jogado bola na lua e construído um foguete. "Um dia agitado, bem agitado" ficava repetindo ele enquanto Natalie o pegava no colo e o levava para o quarto que dividiam no andar de cima da pequena casa.
"Eu trabalhei no mercado, vendemos tanta coisa para as ceias de fim de ano, e depois eu passei na igreja para ajudar o padre Olavo... E..."
Já estava cochilando. Natalie o colocou na cama e ficou observando por uns instantes, mas, se surpreendeu, quase se assustou quando estava saindo do quarto e apagando a luz e ouviu o chamado do irmão.
"Mana, não vai ainda"
"Quer ouvir uma história, meu anjinho?"
O garoto fez que sim com a cabeça enquanto puxava as cobertas por sobre o pescoço, sorrindo, fez com que todo o cansaço e sono de sua irmã fossem embora.
"Bom, era uma vez, há muito, muito tempo atrás, um castelo onde vivia um príncipe muito corajoso. E este príncipe ia receber a visita de uma belíssima princesa. Como saberia quem é ela, ficou se perguntando o príncipe, se tantas mulheres lindas andavam pelo palácio. Até que mais uma vez ele leu a carta que a princesa havia mandado, em que dizia que ele saberia quem ela era..."
O choro de Hélio impediu que Natalie continuasse narrando a história. Assustado ele se levantou e pendurou-se no pescoço dela. Os gritos vindos do andar de baixo eram altos, tão altos quanto os sons de pratos e de garrafas quebrando.
Natalie deitou-se junto de hélio e ambos cobriram-se com as cobertas, cuidando para que nenhuma parte do corpo ficasse exposta ao lado de fora da cama.
"Vou te abraçar aqui até tu dormir, Helinho..."
E assim ela fez até que ele dormiu. Então, pé por pé, um bom tempo depois de o andar de baixo ter se silenciado, ela saiu do quarto.
II
Ana Luíza agarra os braços por baixo dos seios. Se escora na pia e deixa as lágrimas lavarem os restos de maquilagem que haviam em seu rosto. Ela soluça e limpa o nariz com as costas da mão. Olha para o relógio, vê os ponteiros juntos no número doze e liga o rádio. A voz familiar do locutor a acalma um pouco, mas não muito.
O chão dá cozinha parece uma versão caseira de uma trincheira de batalha. Comida e bebida esparramadas por todos os lados, garrafas de vinho estateladas entre a geladeira e o fogão, pratos caros, presentes de noivado de sua avó, quase todos quebrados em pedacinhos ao redor da mesa e da despensa. Ela tenta varrer mas isso só a faz chorar mais, mas, desta vez baixinho, como se estivesse envergonhada de estar chorando ainda. O sangue seco no lábio a incomoda, bem como as contrações e o peso da enorme barriga de sete meses.
Natalie a observa de longe sem ser vista. Suspira fundo e conta números até se perder, quinhentos, talvez seiscentos.
Ana Luíza senta à mesa e risca um fósforo. Deixa-o queimar até a ponta do dedo, vai repetindo um a um até acabarem dentro da caixinha amarela. Enquanto queimam ela vai deixando cair na medida em que tocam seus dedos. Oras apagando antes disso, com o peso de uma lágrima ruidosa caindo pelo rosto.
Natalie fecha os olhos tão apertados quanto consegue, fazendo força e segurando o marco de madeira da porta até sua pequena mão branca doer.
III
Naldo, o chefe da família, um homem gordo, enorme, com uma barba espessa e negra se senta na modesta cama de casal. Abre uma das gavetas da mesa de cabeceira e pega uma frasqueta. Bebe o conteúdo e dá um arroto grosso e sonoro.
Ele se levanta e dá passos trôpegos pelo quarto, balançando a frasqueta vazia e bradando qualquer canção tradicional francesa, ou irlandesa. Naldo se diz o mais culto dos homens que moram no conjunto habitacional popular da prefeitura, o único que sabe a diferença entre quatro ou cinco tipos de uva diferentes e fala três línguas.
"Die fin ahora"
Fala alta e se cuspindo, repete inúmeras vezes, pensando consigo próprio os anos que tomou para aprender alemão, francês e espanhol, para acabar entregando cartas. Uma porcaria de um carteiro, pensa ele. E todos os clientes dos correios, segundo ele próprio.
Naldo se senta mais uma vez na cama, guarda a frasqueta de onde a tirou e, desta vez, tira de lá um revolver. Abre o tambor, tira quatro das cinco balas e então gira.
Gira mais uma vez, e então outra, daí a quarta, quinta. Na sétima vez coloca o cano da arma contra a própria cabeça. Aperta o gatilho.
Clic.
"Não. Também não é nesse ano..." Fala baixinho enquanto se deita puxando as cobertas e pensando que é o cara mais sortudo do mundo, capaz de sobreviver a trinta e duas roletas russas natalinas.
IV
Natalie, que ouvira tudo de trás da porta do quarto onde o pai estava, faz uma cara de braba, vai até o banheiro e joga água no rosto. Se olha no espelho e se orgulha do que vê.
Já no quarto ela enrola em papel de seda, retirado de algumas frutas do mercado, um pequeno livro com o título de Uma aventura na neve.
Da outra cama Hélio espia curioso, ao se acordar pelo barulho dos papéis sendo embrulhados ao redor do livro. Natalie sorri para ele, que pergunta curioso:
"Mas... e o papai noel?"
A garota sorri e põe o livro dentro de uma bolsa.
"Me pediu ajuda porque fui uma boa garota esse ano"
Natalie coloca um casaco e prepara as roupas de frio em Hélio, que fica facilmente no colo dela devido ao seu tamanho tão pequeno.
Sem ser notada, Natalie bate a porta da casa e segue em direção à estação de trem. Exausta, com o irmão ainda no colo, ela deita do lado de fora da grade de entrada para a estação e se entristece ao perceber que não poderá entrar. Ela então acende um fogo dentro de uma lixeira e deita perto com o irmão caído sobre seu peito.
V
"Feliz natal, Helinho"
Hélio acorda ainda no colo da irmã, estranhando o cheiro de fumaça da lata ao lado, que os fornecera calor por toda noite.
Ela dá o pacote para ele, que o abre sem pensar muito, ele também ganha uma maçã.
"Aposto vai que vai gostar, maninho. Vai sim. Tu não disse que sempre quis saber como era a neve?"
O garotinho sorri de uma orelha até a outra.
"Mas mana, como acaba aquela história que tu tava contando antes de..."
Natalie derrama uma lágrima. Então disfarça e sorri.
"O príncipe não encontrou nenhuma princesa bonita, mas encontrou uma plebéia que precisava de ajuda. Mais tarde ele descobriu que se tratava da princesa, testando o caráter do príncipe para saber se ele daria um bom rei. Daí ele ajudou ela e quando limpou ela e deu para ela umas roupas novas, ela lhe pareceu lindíssima, e então ela falou pra ele que era ela o tempo todo, e viveram felizes para sempre."
Os dois sorriem e se abraçam.
(Trilha: Oasis - Stop Crying your heart out)