quinta-feira, 24 de abril de 2008

Quase quinta-feira


Mordeu o travesseiro com a mesma força com que apertou os olhos. Uma fútil tentativa de se desvencilhar da paranóia. Dentro de si, a nostalgia do gosto de uma bala de coca-cola, comprada na venda ao lado da casa da dona Lola, quase pode sentir o peso das moedas na mão, troco dos cigarros da avó, Hitz, Plaza, Parliament, já não tinha certeza. Segurou o peito e se virou de lado, em posição fetal.

“Vem pra cama, por favor.” Baixinho, sussurrando as vogais e alongando os sons nasais.

Olhou para a bundinha e o corpo nu dele na janela, sorriu achando que elas pareciam duas bolachas Maria se abraçando, Maria como sua irmã, que pedia sempre para a mãe coçar-lhe as costas, bem no meio, onde ela não alcançava, simplesmente para ganhar um pouco de carinho, e deixar o irmão enciumado.

Os dedos. Os dedos magros dele balançavam o cigarro de uma forma bastante delicada, tudo nele era delicado, os beijos, os carinhos. Até o rosto, levemente feminino, com os cabelos caídos por cima, o semblante perdido, contornado pela lua, o atraía.

...

Da janela olhei para a rua, torcendo para que ela me chamasse, mas nada ouvia além do barulho usual, carros, gente falando no telefone, néon brega vibrando. Tentava ler meu nome na boca das pessoas, mas não conseguia. Formava ele com as letras das placas dos carros, mas, isso não me levava a lugar algum. Dois. Quatro cigarros acesos um com o outro. Hábito ruim, coração bom. Sempre zombo de mim quando estou nervoso. “Arrumou a merendeira para ir para a faculdade, meu amor?”. “Sim, querido, uma garrafa de uísque, um pacote de ruffles e dois maços de marlboro”. Uísque. Ainda me sentia anestesiado por ele. Um pouco enjoado também.

“Quantas vezes eu prometi que não ia mais trepar bêbado? Sempre fico enjoado...” Um pouco ríspido, sem pensar.

Não ouvi resposta além de um leve ronco dele, os cigarros haviam acabado, ao que fui perceber quando fui pegar mais um. Não sei quanto tempo fiquei na janela. Também não sei quanto tempo fiquei olhando ele dormir. Só lembro de ter parado quando ficou frio.

Com carinho, para Bruno Polidoro.

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