sexta-feira, 2 de maio de 2008

Uma frente fria vinda do sul


Uma frente fria. Casacos e cachecóis na rua, olhares austeros e impressionados perambulando com direção certa no passeio público. O visível deslumbre do narrador do rádio me irrita. No banco do passageiro, suco, uma baguete e um maço de marlboro vermelho. Trânsito lento. Engarrafamento da Mostardeiro até a Anita Garibalde. Lá em cima na independência também, bem possível. Dez e quinze, oito graus.

Gravata no pendurador de chaves. Chave no cinzeiro, bituca de cigarro pela janela. Pão na bancada da cozinha, Dr. Spiegel do lado de fora, Humberto ali dentro. Luzes ligadas fazendo sombra na pilha de contas esperando preguiçosamente serem pagas. Tâmara dormiu assistindo “Bande à part”. Me casei com ela por que ela queria fazer na Rua da Praia o que eles fazem no Louvre. Nunca fizemos. Fizemos outras coisas, mas, continuamos falando até hoje daquela bobagem que nos atraía. Um desejo que teima em não se desfazer. Tiro a franja do rosto dela. Não, não, melhor nem encostar nela. Melhor assim, enrolada em um cobertor. Encolhida. Rosto amparado pelas costas de uma das mãos.

Ligo o chuveiro, não lembrava de como a água quente batendo nos azulejos frios fazia tanta fumaça. Tiro a roupa tentando não me envergonhar do que vejo no largo espelho. Catarina Vilas, potencial suicida. Sr. Arnaldo, problemas com solidão. Aldo, obsessivo. Não, nenhum deles com problemas de verdade. Libido, quando foi que comecei a perder a libido. Vinte de março. Oito de novembro. Não sei. Não sei de nada. Cabelo branco, quando os cabelos do peito começaram a ficar acinzentados. Foi aí. Banho quente, corpo frio. Corpo quente, água fria. Fim do banho.

Julie. Abro a porta do quarto dela com cuidado. Acordada. Sentada na cama olhando uma tela que ela pintou no teto.

“Tua mão dormiu na sala. Melhor deixar ela lá, né?”
“Essa tela lembra Rohmer ou Rembrandt?”
“Posso sentar por aqui? Parece mais com algo do Márcio Galo”
“Não gosto dele. Posso me sentir insultada com essa, sabia? Ah, se acha que deve, senta.”

O nariz da mão, as minhas mãos e olhos. O jeito de menina grande.

“Como foi o dia?”
“Possivelmente igual ao teu”
“Gente maluca? Bebida e insensatez? Baguete e suco?”
“Por aí. Troca a baguete por um namorado broxa e o suco por uma coca-cola e tamos quites”

Me sento ao pé da cama, junto aos pés dela, mas, no chão. Deixo a cabeça cair sobre o colchão. O silêncio. Nossa respiração funda e pesada. Somada. Fumantes. Da janela as luzes de uma roda gigante invadem o quarto. Parque xinfrim. Elas vão se apagando lentamente, como se um homem baixinho, com bigode todo branco, macacão azul e boné estranho as removesse uma por uma, as lâmpadas na roda gigante. Logo elas se apagam. Pego no sono.

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