As coisas não podia ser piores. Eram meus dois últimos Marlboros e na minha carteira eu só tinha o dinheiro do ônibus. Mesmo assim, peguei os dois e os acendi. Era a última coisa que eu podia fazer. Um para fumar, o outro para ficar ali, queimando no cinzeiro e me fazendo compania, quase como uma vela de sétimo dia. Não que eu estivesse sozinho, ou mesmo morto, longe disso, estava no meio da porcaria do aeroporto rodeado de todo tipo de mundo. Um final de dia atípico, principalmente se tratando de uma sexta.Trago lentamente e fico brincando de fazer pequenos circulos com a fumaça. Rio de mim mesmo, ainda que de forma discreta, observando no meu reflexo o biquinho ridiculo estampado nos lábios, cuspindo rodinhas de fumaça. Adoráveis porém igualmente ridículas. Algumas pessoas ficam olhando envolta, deve ser inveja, não é fácil fazer as rodinhas, leva anos de prática, e uma enormidade de dinheiro em cigarros.
Foi assim que nos conhecemos.
Mentira. Minto rapidamente para mim mesmo...
Não, verdade. Foi assim, sim. Eu assobrando rodelinhas de fumaça no balcão do bar, uma espelunca no subsolo de um hotel, e ela lá, com uma câmera com uma lente maior do que ela, me fotografando, sem pedir, sem vergonha. Não lembro quem estava mais bêbado, mas, lembro bem de ter me sentido um bocado invadido, usado, praticamente abalado. Nunca tivera me sentido tão bem.
Mas... Jamais ia perceber que era ela. A Ela. A ela que eu escrevia numa agenda velha, denoite, em casa, bebendo vinho do porto, achando que eu valia alguma coisa. Claro que eu levava um sermão lá na redação, quase diariamente, sobre meu pequeno romance e minha frieza. Eu pensava nela, admito, sem problemas. A não ser que eu tivesse de falar sobre ela. Aí era apenas uma amiga, alguém que queria um emprego no jornal e me via como uma ponte até o editor. "O que tu quer com um colunista meia roda?" Claro que nunca perguntei isso, mas, por várias vezes ficou trancado na garganta. Eu? Meia Roda? Não, não. Bom, talvez sim, não que eu tenha publicado nada relevante nos últimos anos... Ou... Bom, também teria de aceitar o fato de que ela queria algo de mim, e aí é uma longa, longa história que eu nunca li.
Abro minha agenda e anoto algumas coisas em dias aleatórios, a mocinha que trás os cafés ali no Café Escuro me conhece bem, quando levanto o rosto e procuro por seus olhos, ela já preenche minha xícara com café preto fumegante, forte, muito forte, passado com pouca água. E claro, sem açúcar. Doze. Doze aviões já levantaram vôo desde que eu chegara ali.
Cada vez que levava a xícara aos lábios, me embreagava do cheiro de nicotina na ponta dos dedos.
"Um jornal? Un periódico, a newspaper... Algum?"
Folha da tarde, datada já do dia anterior, tudo bem, meia noite e cinco, mas, jornal do dia anterior de qualquer forma. Fico mendigando os restos de nicotina da ponta dos dedos enquanto folho pelas páginas lidas e re-lidas. Alta do dólar, baixa da bolsa, alta da bolsa, baixa do dolar, chega um ponto que perde o sentido, a mesma notícia todo dia, apenas invertendo a ordem. Uma maravilha que me mantém ocupado. Isso e o rebolar da moça pra lá e pra cá com o café, servindo as pessoas ali, que reclamam, em maior parte, pelo atraso dos vôos
"Se tem pressa, não sai tão cedo de casa, os vôos sempre atrasam..." Falo baixinho pra mim mesmo e depois anoto num canto de folha, provavelmente o tema da minha coluna para o próximo dia.
Alguém que descreve um romance ao invés de contá-lo há de ser um péssimo amante. A moça rebolando, os dedos perto do nariz, falsamente coçando o bigode, aproveitando o cheirinho do cigarro recém fumado. O vício dos olhos, o vício da alma. Entre a paranóia e a genialidade, prefiro me abster. Viver e dar conta de mim mesmo já é trabalho duro demais. Uma maravilha de coluna para o próximo dia, os gênios, os amantes e os que ficam fumando e bebendo café, geralmente tarde da noite, no aeroporto. Sim, sim. E ela, lá no canto dela. E a moça do café aqui, me servindo e a todo mundo que precisa dela, do seu rebolado maroto e do café na ponta dos dedos, o uniformezinho cliché-marrom... "Achei ótimo, combina com café, chocolate, essas coisas de 'cafés'" Me confessou ela em uma dessas madrugadas. Riqiquinha, ela.
Tento me acalmar, bobagem, estou calmo. Coração palpitando, fôlego prejudicado, mas absolutamente calmo. No rádio toca um samba-bossa conhecido, tento assoviar junto com a melodia, mas, assim como beber e subir escadas, assoviar depois de fumar é impossível. Me satisfço em apenas ficar pensando nas últimas horas ali, sentado. O tempo não passa, claro que não, para quem não espera nada, o relógio tiquitaqueia num ritmo bastante diferente. Aliás, já é horário de verão e eu não me incomodo em arrumar o relógio. Faço o movimento voluntário de levar a mão ao coração procurando o maço de cigarros no bolso de dentro da jaqueta. De novo, me resta só ficar cheirando as pontas dos dedos. Isso e cantarolar a melodia, baixinho, sem que eu possa ser notado. Convenientemente, uma música que ela, A Ela, adorava, e possivelmente deve estar escutando agora enquanto cruza as nuvens.
Mais café. Dessa vez a mocinha para e senta do meu lado.
"Quem era o irmão Henfil. Porque ele partiu?" Pergunta ela. Dezoito? Dezenove no máximo. Barriguinha de desleixe, cabelo preso com uma borboleta negra. Pele combinando com o avental, um tom um pouco mais claro.
"Um safado e um sortudo."
"Oi?"
Bom, eu tentei.
"Era um cartunista e escritor, fugiu da ditadura."
"E porque ele fugiu?"
"Ele não tinha mais o que fazer... Eu também fugi."
"Deve ter tanta história legal pra contar..." Ela sorri da maneira mais doce do mundo.
"Não, na verdade não tenho nada pra contar, acho que foi por isso que me tornei escritor."
"Eu, oficialmente, estou no meu intervalo agora, que tal se eu pegar um café pra mim, preencher o teu e tu me contar um pouquinho desse nada. Tu sempre senta aí, e fica anotando e me olhando, no início fiquei com medo, mas agora estou é curiosa pra saber quem era o distinto homem da mesa número 3"
Ela levanta e vai.
O-fi-ci-a-lme-n-te. Desenhando com a boca pequena cada letra, um espetáculo.
Mas ela volta. Com um cigarro na mão.
"Acende pra mim?"
Eu acendo o cigarro dela, devagar, sem tirar os olhos dos dela. Riquinha... e tão bonitinha. Ela joga a fumaça na minha direção e pergunta se eu quero um.
Eu sorrio.
É claro, eu sempre quero um.