
Baseado em fatos reais, compilados de diversas edições do jornal Zero Hora.
Porto Alegre. Dois milhões de pessoas, amantes e trabalhadores. Dois campeões mundiais. Polaridades espalhadas por todos os cantos, ou é PT ou odeia o PT, ou é gremista ou é colorado, ou é gaudério ou fala o bonfinês. Ou toma chimarrão, ou não. Tudo isso costura a capital dos gaúchos de uma forma ou de outra.
Amanhece e os raios do sol tocam o Guaíba. O nascer do sol, tão desprezado, tão deixado de lado em comparação com o “pôr-do-sol porto alegrense”, vai rapidamente tirando o breu da noite e transformando os escuros e sombreados em claridade. Temperatura amena, dezesseis graus e leve brisa. Na Borges de Medeiros as pessoas andam de um lado para o outro, devagar, aos poucos, esperando as horas passarem despercebidas por cada um. Quem observa o amanhecer em Porto Alegre não deixa de pensar: Todos sozinhos, mesmo juntos, mesmo rodeados por tanta coisa ao mesmo tempo. Demasiados sozinhos. Claro que é fácil fingir o contrário, mas, essa característica não foge dos olhares atentos, ou mesmo os não tão atentos. Basta parar na Esquina Democrática e observar os semblantes das pessoas, mesmo felizes, ou mesmo as tristes. Todas sozinhas, carregando consigo algo que é tão delas, tão de cada uma que impregna o ar de forma quase nauseante. No final da Borges, o prédio Solaris. Nele, sete andares e um terraço. Osmar, o porteiro, abre a porta, coloca um pequeno tijolo para que ela não bata, esfrega as mãos e convida o carteiro para “um mate bem quente”. Ao que ele aceita, colocando sua bolsa no chão e já puxando uma cadeira.
O apartamento 205
Mal decorado. A primeira coisa que se nota sobre o apartamento de Luzia, uma portuguesa de Lisboa, moradora de Porto Alegre há quase cinqüenta anos. Ela levanta e coloca as pantufas ridículas, rosas e sujas, enquanto procura pelo chambre, também rosa, mas um pouco mais decente. Põe os óculos e então pega a dentadura de dentro de um copo com água. Ela olha para os lados, se certifica de que está sozinha mesmo, então bebe um pequeno gole da água em que estava a dentadura, dá um leve sorriso de menina arteira e então segue para a sala. Lá ela cumprimenta a foto do falecido, em cima da mesa, com um caloroso bom dia, atira-lhe um beijo e pisca.
O jornal se desdobra sobre a mesa, Luzia separa cada caderno e lê com atenção letra por letra, aperta um largo pneu de sua barriga e pensa que definitivamente precisa perder peso, enquanto passa pela sessão de economia fica se perguntando qual é a graça de tomar café bebendo cigarros. Três páginas depois se dá conta que não se bebem, mas, sim, fumam cigarros, mais uma risadinha faceira para contar no final do dia. Quando a velha Ethel chegar para o chá da tarde com certeza vai comentar a bobagem que pensou, cinqüenta anos e elas nunca tiveram assunto algum, mas diariamente bebem chá. Coisas que a vida não explica, e que ninguém tenta entender, afinal de contas, são duas senhoras tomando chá, e nada mais.
Luzia levanta e vai para cozinha pensa nas coisas que tem que comprar no mercado e na curta viagem de trem que tem de fazer ainda essa semana, visitar uma parenta adoecida em Canoas, mas não hoje. Ela prepara o café e, enquanto a água esquenta, ela volta rapidamente, com seus passos lerdos, até o quarto para desligar o despertador, que teima em avisá-la de que é hora de acordar.
Qual usar? Café extra-forte, matinal, sabor do campo, aromático, grãos leves, francesinho, carioquinha, bugre. Quando se fica velha, pensa ela, os dilemas da vida acabam se resumindo em qual café tomar de manhã? Se apenas um comprasse, talvez a vida perderia um bocado da graça, pensa Luzia em voz alta, tentando esconder de si mesma a timidez ao se dar conta de que a metáfora se mantém para homens, carros e lugares para se ir nas férias de inverno. Principalmente a parte dos homens.
Cinco, oito minutos pegando um pacote ou outro. Cheirando-os e pesando cada um, esperando ouvir de cada um deles uma espécie de chamado para ser bebido. Sabor do campo. Claro, fazia todo sentido, era dia de caderno rural no jornal, era um dia fresco, todos os sinais indicavam isso.
Mesa posta, Luzia vagarosamente começa a despejar o líquido negro e fumegante na grande xícara ovalada, trazida de San José Almagro, em sua última viagem. Ela se posta na frente da janela, observando o dia, as coisas do lado de fora.
Na rua um homem é rendido por um assaltante, Luzia observa a cena com muita atenção, se assusta com o disparo do revolver, um objeto metálico e reluzente, e com o café quente queimando seus dedos. Luzia não recorda se o corpo do homem e a xícara caíram no chão no mesmo instante.
O apartamento 302
“A gente podia ficar um pouquinho mais na cama né?”
“Hoje não, tenho que levar um material para o editor. Juro que nunca mais faço um contrato tão maluco com um editora. Cacete, três livros em dois anos é terrível... Quer dizer, nem tanto, mas, sabe como é, né.”
“Quando tu vai parar de escrever romances heteros?”
“Quando eles pararem de dar dinheiro, acho.”
“Mas tu não entende nada de mulher, como pode escrever aquelas coisas, não que eu não goste, mas...”
“Homem, mulher, tudo a mesma merda no fundo.”
“Ta maluco, né?”
“Na verdade não, nunca me senti tão lúcido. As únicas diferenças são que: Duas mulheres São amiguinhas, mas um pé no saco de aturar, dois homens são menos chatos, mas tem suas inconveniências, e um homem e uma mulher tem a parte chata, a parte inconveniente e a parte romantiquinha que todo mundo tem em mente.”
“Juro que nunca mais te deixo beber tanto café antes de vir pra cama dormir.”
André deita de bruços e resmunga alguma coisa pouco inteligível. Augusto dá de ombros.
“O que tu vai fazer hoje André?”
“Nada, de preferência, queria ficar na cama o dia todo.”
“Que vida, hein, querido?”
“A que eu pedi a Deus, juro, nunca fui bom em nada, nunca quis fazer nada.”
“E qual é a parte interessante disso tudo mesmo?”
“Todas as coisas maravilhosas que o ócio me permite pensar, ócio criativo e tudo mais.”
“E o que tu crias mesmo? Meu Bem?”
“A mim, me reinvento di-a-ria-men-te...”
Augusto se veste enquanto André rola na cama nu. Cada peça de roupa vestida parece grudar a vácuo no corpo, ele escolhe bem a gravata, o terninho, procura pelos cigarros em cima da mesa e suspira insatisfeito.
“To bem?”
“Um gato, miau.”
“Quando tu vai crescer, hein André?”
“Quando eu fizer aniversário, possivelmente.”
“Quanto tempo a gente tá junto mesmo?”
“Dez anos, onze meses, três semanas, vinte quatro dias e algumas horas.”
“Como que eu agüentei?”
“Menor idéia.”
Augusto pega uns papéis e sai do quarto. André fica de quatro na cama e late para o companheiro, atira um beijinho e observa a porta fechar, então, senta na cama e tenta teatralmente controlar uma cara triste, sem sucesso.
Na cozinha, Augusto derruba uns cubos de gelo num copo pequeno e, em cima, despeja displicente um generosa dose de uísque.
“Quando comecei a iniciar o dia com um copo de uísque e um cigarro?” Pensa ele em voz alta? Não se dando muito conta da bagunça do apartamento, da sujeira na pia, algumas fotos estranhas tiradas com os amigos em uma festa algumas noites antes.
Em um pequeno papel ele anota, com uma caneta preta. “Me desculpe...” Faz isso, termina o uísque e sai pela porta da sala.
O apartamento 401
Nunca tinha me dado conta de que eram vinte e três passos do meu quarto até o banheiro, pensa Lígia. Cigarros, todo mundo deveria parar de fumar, começando por mim. Até porquê, começar o dia assim não deve de ser lá muito saudável. A gastrite ainda me incomoda, tomar leite costumava ajudar, mas, é tão ruim, tão nojento o gosto. Se bem que poderia quebrar um pouco com café, mas, perderia o propósito de ajudar com a gastrite. São tantas coisas ao mesmo tempo. A conta, a conta de telefone eu não paguei esse mês, nem a de luz, não me admira se cortarem uma hora dessas. A de água eu paguei, não poderia viver sem água quente. Poderia viver sem muita coisa, sem tevê, sem micro-ondas, sem correspondência, até sem amigos, dizem que a gente pode viver, mas sei bem como não poderia viver sem água quente. Um banho eu poderia tomar um banho, para começar bem o dia. Não que dez e vinte seja hora de começar o dia, o que será que pensariam de mim se soubessem que eu durmo até tarde? Que emendo o café da manhã no almoço, que geralmente acabo indo para o motel com alguém depois de visitar o túmulo do meu finado esposo. Os cigarros deveria começar pelos cigarros. Pensa ainda, Lígia, de camisola, tentando tirar os nós do cabelo na frente de um espelho do tipo camafeu.
Ela vai até a cozinha, procura por alguma coisa na geladeira vazia mas não encontra nada, bebe um pouco de água da torneira e se senta no balcão, geralmente onde prepara alguma coisa pra comer quando a fome aperta. Ela olha para as ruas pela janela, ignora o movimento, fica observando se os ônibus que vão para a zona sul estão muito cheios ou não. Estão sim, conclui ela pelas enormes filas. Ela liga o rádio mas logo se cansa da discussão proposta pelo Lauro Quadros, por alguns instantes tenta uma estação FM, mas se sente com muitos quarenta anos pra ouvir uma rádio FM.
Enquanto volta para o banheiro ela fica imaginando como seria sua vida se Carlos não tivesse morrido tão cedo, um trágico acidente de moto voltando do litoral. De Torres, se ela bem se lembra, como não lembraria, se fazem só seis anos, conclui ela.
“Faça por mim, o que eu fiz por ti, escolha a vida, escolha sorrir...” Canta ela esperando a água da banheira encher, uma música de alguma banda que ouviu em alguma rádio que não fez questão de recordar. Mas de alguma forma fazia sentido pra ela. No espelho ela vê o corpo flácido e as teimosas marcas de expressão no rosto. “O que eu não gostaria de ter vivido? Como era bobo achar que a gente podia escolher os dias que gostaria de viver, aí eu fico assim, emburrada, marcando o rosto, feia. Tão mulher.” Ela tenta alisar os seios, pegando-os com firmeza, mas não sente nada, nada além de uma patética meninice latente. Melhor tomar um banho, fica repetindo para si mesma enquanto mergulha o corpo na banheira. A calma água quente, confortável.
Até que afunda. Abre os olhos algumas vezes então os fecha lentamente. Como a fumaça de um cigarro preenche os pulmões ela deixa a água entrar pelas narinas e pela boca. No fundo, sorri.
O apartamento 506
“Julinha, te arruma filha, te arruma que tá quase na hora e a gente precisa almoçar ainda. Ô Beto, me ajuda com isso aqui, leva as roupas ali pro nosso quarto? ... Eu falei nosso quarto? Cacete, daqui a pouco já estou nos casando e a Julinha já ta te chamando de papai...”
Clarissa procura por seus comprimidos na bolsa enquanto observa o boletim no rádio. O seu apartamento, tirado a muito custo do ex-marido, é impecavelmente arrumado, cheira a flores sem perfume e mantém uma linha de decoração extremamente Clean. Mesmo com o alto salário, Clarissa não faz questão de ter muitos móveis, prega um discurso de desapego às coisas materiais mas secretamente consome cigarros, pessoas e jantares caros, como ninguém.
Julia, já de uniforme e mochila, observa a mãe anotando coisas em pequenos papeis para si mesma e o namorado dela sem camisa, fumando um cigarro na janela.
“Morreu um cara aqui na Borges hoje de manhã, quando fui comprar cigarro, acho que tu tava tomando banho ainda, vi a velha lá de baixo comentando que tavam levando o corpo, assalto. Essa Porto Alegre tá uma merda. Violência que não acaba mais.”
“É mesmo? Não ouvi nada no rádio...”
“Bom, meu bem, o rádio não diz tudo. Nem eu.”
“Mais uma crítica velada ao meu trabalho? Sr. Beto?”
“Não, de forma alguma, apenas constando a realidade das coisas. Já que a senhorita tava nos casando já, porque a gente não se muda daqui? Até que o apartamento é bom e tudo mais, mas a escola da Júlia é longe e o teu trabalho também...”
“Mas a Julinha ama aqui.”
“Amo nada.” Interrompe prontamente a garotinha de dez anos.
“Quieta filha, a mamãe e o Beto estão conversando, não te disse que quando os adultos tão conversando, as crianças só ouvem?”
“Mãe, o Beto é só doze anos mais velho do que eu...”
Beto dá uma risada e continua fumando seu cigarro, a mãe olha constrangida para a filha e termina de arrumar sua bolsa.
“Bom... vamos? Vamos almoçar e levar essa espertinha pro colégio?”
“Eu não vou a lugar algum, quero é ficar aqui olhando a vida lá fora.”
“Acordaste poeta hoje, seu Beto?”
“Infelizmente...”
Clarissa dá de ombros e pega filha pela mão, saem pela porta batendo-a não muito forte. Beto sorri, e, quando elas passam na rua ele atira-lhes um rápido beijo. Então acende outro cigarro.
“Um cara morreu aqui na frente hoje de manhã... Que doidera.”
O Terraço
Marcel senta no parapeito. Compara vários rascunhos de uma mesma idéia, versada de formas diferentes, tentando dizer algo que nem ele mesmo tem idéia clara. “Melissa, te amo, contigo passei os dias mais felizes da minha vida. Pena não ter dado certo, quis mais de ti do que poderia me dar, quis mais de mim mesmo do que realmente tinha. Adeus.” Não, não soava como um bom bilhete de despedida, mas era o melhor dos nove escritos. O mais honesto. Um último cigarro? Talvez? Não, nunca fumara em quarenta e nove anos, não seria agora que começaria. Agosto, talvez esperar até agosto fosse mais prudente, quem sabe uma nova oportunidade de emprego, não que o trabalho na Siqueira Campos fosse ruim, era perto de casa, a grana era boa, mas... Existia uma incompletude para ele que estava incomodando-o demais. Certamente não era o Amor, vivera muito tempo sem ele. Para dizer que não fumava, fumava ocasionalmente. Se pudesse fumaria uma ou duas carteiras de amor por mês. A metáfora era boa, se convencia disso, o amor era-lhe como os cigarros, podia viver sem, mas, quando os tinha, saboreava-os até ficar com um gosto ruim na boca. Ou melhor, acordar com um gosto ruim na boca.
Marcel nunca foi dado à vulgaridades, isso tirava-lhe o interesse das mulheres, não era bonito, tinha algum dinheiro, não era lá muito inteligente, então restava-lhe uma falsa vulgaridade, uma espécie de personagem que inventava na cama. Chega. Marcel opta pelo bilhete de Melissa, deixando o de Joana, Catarina e Ângela no lixo. Faz isso e deixa seu corpo pender para fora do parapeito do prédio.
Em Porto Alegre. Mais um dia.
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