Aos queridos amigos anônimos,
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Soneto em Mi menor de amor e perdão
Vejo cordéis ao torno da lua
São fantasias de sonho ébrio
A quimera que me faz extenua
Nasce poeta e chora sem verbo
No fogo quente das meias noites
O visitante sai das estrelas
Fugindo temprano de rodas ermas
Amargando doces intempéries
Sabor destino do que faz ninguém
Repleta de uma ausência torpe
Urge o tempo entre, que sonhem!
Cruza o céu o cordel da sina
Canta Afrodite no seu castelo
a harmonia do fogo belo que tardia
ps.: Eu nunca tinha escrito um Soneto.
Só tu pra me colocar no meio disso tudo.
São fantasias de sonho ébrio
A quimera que me faz extenua
Nasce poeta e chora sem verbo
No fogo quente das meias noites
O visitante sai das estrelas
Fugindo temprano de rodas ermas
Amargando doces intempéries
Sabor destino do que faz ninguém
Repleta de uma ausência torpe
Urge o tempo entre, que sonhem!
Cruza o céu o cordel da sina
Canta Afrodite no seu castelo
a harmonia do fogo belo que tardia
ps.: Eu nunca tinha escrito um Soneto.
Só tu pra me colocar no meio disso tudo.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Ninguém

Eu aperto os cacos de vidro com a mão. Os fecho em um punho cerrado que logo se tinge de vermelho. As gotas caem por cima da mesa, do cinzeiro, no pé da taça de vinho vazia. No meu rosto, o mais débil dos sorrisos, a mais inocente das criancices. Eu te olho na foto, velha, tu e a foto, velhas. A mão começando a arder e os pequenos cacos furando a pele, alguns se aninhando dentro da palma da minha mão.
Pra que fazer isso, tu pensa, como tu é exagerado! Tu não tem nem um dos dois pés no chão, tu merecia uma cadeira de rodas, só pra ti ver como é, realmente, não ter nenhum dos pés no chão. “Quando eu ando de avião, eu me sinto em casa” eu fico dizendo, só pra mexer contigo, de como sou sonhador, e de como isso é a única coisa que me mantém vivo, os sonhos acordados. O gosto de jasmim que o meu sangue tem. Claro que eu dou umas lambidas nas pequenas feridas da minha mão. Eu já não preciso dos cacos, eu deixo eles fazendo companhia pra nossa aliança. Tu sabia que a gente usa aliança no dedo anular esquerdo porque os romanos descobriam que tinha ali, no dedo, uma veia que ia até o coração? E eu não tinha te dito que eu tinha te dado o meu coração?
Eu quero ele de volta. Eu preciso dele agora.
Eu também preciso que tu venha pegar teus livros, que traga o meu isqueiro que eu deixei na tua bolsa, e me livre dessa foto tua, tão feia, com o cabelo desgrenhado e uma barriga horrível. Tu nunca devia ter engordado, tu fica presunçosa fora do peso. Parece tão melhor do que tu realmente é. Na verdade tu não presta. E tu foi embora. Esse foi teu único pecado. Não que a gente não tivesse a nossa coleção de pecados coletivos, comuns, cúmplices, mas, o teu grande pecado, aquele que vai te mandar direto pro inferno, foi ter ido embora, assim, de manhã, sem esperar eu acordar. Tudo bem, trepar com as malas prontas, pular em cima de mim rindo da minha cara enquanto eu, chorando feito uma criança, implorava pra tu ficar. Isso acontece, isso te excita, a minha indigna submissão te excitou do início ao fim.
Não precisa voltar tão cedo. Pode ficar um bom tempo longe, curtindo umas férias no Caribe, na Jamaica, na puta que te pariu. Mas no fundo eu preciso que tu fique longe de mim. Já não me basta nada, nada que venha de ti. A não ser o meu isqueiro, que ficou na tua bolsa. E meus livros que tão na tua casa.
E o gato.
Tu tem que levar o gato. Eu sou infantil. Eu não tenho condição de criar um gato. Eles se criam sozinhos, tu vem e diz sempre, mas, ele não me ouve. Juro que ele não me ouve e ainda debocha da minha cara, subindo na poltrona e lambendo o rabo. Leva o gato, dá ele pra tua mãe. Pelo menos alguém tem que fazer companhia pra ela.
Vem, me traz minhas coisas, leva as tuas e deixa o chá. Eu que comprei, lá em rivera. Era pra nós tomarmos, depois de trepar, mas tu não gosta de chá. Tu não gosta de nada. Nem de trepar. Só quando ninguém na rua te quer, o que é quase sempre. Ninguém te quer, e nunca vai te querer.
Mas eu preciso que tu venha resolver isso tudo, antes que eu termine com essa garrafa de vinho, e essa foto horrível tua fique realmente manchada com gotinhas de sangue. Vê, como no fundo só eu preciso de ti?
Heloísa

“Tu tá sozinha?”
“Tô... O que tu quer me ligando essa hora?”
“Só me escuta...”
Enquanto despejei nela tudo o que tinha tirado o meu sono, liguei o fogão e coloquei a chaleira com água para esquentar. Acendi um cigarro e encostei minhas costas nuas e suadas no marco da porta. O cheiro de grama cortada estava forte, o orvalho da noite deve ter provocado isso. É o tipo de coisa que eu fico prestando atenção enquanto tiro ela da cama, com uma ligação, com um monte de porcaria sussurrada. Um monte de mentira que nem eu acreditava. Eu precisava daquilo. Ela de uma noite de sono. Claro que ela precisava dormir. Quatro horas e meia de avião? Um bom tempo no terminal? Mas pra mim não interessava.
“...Tu tá em outro fuso-horário?” Óbvio que ela tava. Eu só precisava da confirmação oral.
Queria mostrar pra ela que eu estava arrependido. Que o julgamento tinha consumido tudo de mim. Claro que eu era inocente. Eu sabia disso, o meu advogado sabia, o juíza sabia, o júri sabia. Mas pra ela não importava. Eu tinha herdado a culpa dela, junto com o casal de cachorros, um par de labradores, o Mouro e a Palestina. Isso e a merda do perfume dela que ela tinha jogado na parede do quarto. E que ainda fedia lá. Não.
Eu não tinha motivo algum para jogar tudo aquilo na cara dela. Nem pra dizer que ainda morro de medo de me cortar em algum pedaço de vidro do perfume. A idéia de me cortar e ficar com um corte infeccionado, impregnado do cheiro que ela usava pra tapear o suor desgastante do verão, simplesmente me dava asco. Tive que me controlar. Queria gritar que ela me dava asco. Asco! ASCO!
“...Espera um segundo, eu tô esquentando água.” A água fervendo, gritando no ar.
Eu não ia fazer chá, nem passar café, só achei que olhar a chaleira fumegante era bonito. Entre e a insônia e a angustia, decidi que precisava de algo bonito, já que ela não estava lá, mesmo já estando feia. Cabelo loiro. Nunca foi loira, inventou de ser loira. Mentiu o amarelo nos cabelos pra si mesma e conseguiu acreditar, ao contrário de mim. Velha. Acha que ainda pode ter filhos? Com quarenta e nove anos. Ela realmente achava que podia ter filhos ainda. Me sugar na cama diariamente era o caminho para a maternidade. Mesmo eu sendo um brocha, uma porcaria de amante, uma péssima companhia para dividir um colchão, uma coberta no inverno.
“Eu pintei o cabelo de castanho... de novo.” Ela disse, com o maior desinteresse do mundo. Como quem quer terminar uma conversa com um novo tópico para a próxima vez que nos encontrássemos.
“Como eu faço pra dormir?” Perguntei esperando a maior resposta do mundo. Algo bíblico, já sentado no chão, esperando o suspiro desesperado da angústia fazer coro com a chaleira.
“Fecha os olhos e torce pra que tu não consiga sonhar. Dorme do outro lado da cama.”
Como se a cama tivesse um lado que não era meu nem dela. Nem de ninguém.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
3 segundos antes de amar - (repostagem)

O som da respiração dele é forte e barulhento, seu rosto tem pingos de suor por todos os cantos, perto da boca, em cima do lábio. Ele me olha assustado, com olhos de remorso e medo, as mãos paralelas ao rosto, deitado naquela cama, com mais lembranças nossas do que de muitas outras meninas que estiveram ali. O quarto fede a maconha de má qualidade. Insuportável, mas, que garota apaixonada não faz vista grossa pra essas coisas? Ele sempre fuma depois de me "ver".
Devagar eu vou subindo, me ajeitando em cima do abdômen dele. Minha mini-saia xadrez cai devagar sobre o peito dele, ao mesmo tempo, sobe pela minha coxa, revelando um pedaço da minha calcinha branca. Minha blusa se pendura nos meus seios e nos meus ombros por apenas um botão. As pontas loiras do meu cabelo vermelho caem sobre meu rosto, que, estaria sério, se não fosse o cheiro de homem com medo, um aroma que me faz sorrir com o canto da boca. Foi enquanto olhava pra ele que tive a primeira seqüência de lembranças. De como nos conhecemos. Uma memória teimosa, mas, com os dias contados. Era convidativo saborear ela ali.
Eu trabalhava em um café, um desses quase chiques, com um par de computadores para as pessoas usarem, tinha uma decoração meio rústica, era com paredes alaranjadas e madeiras em mogno. João sempre ia lá as quintas à tarde, sentava sempre numa mesa diferente, mas, geralmente perto do rádio que, contra a vontade da dona, tocava algum jazz antigo que só eu ouvia. Mas só depois eu fui gratamente descobrir que era esse lixo cultural que nos juntava. Cultura dos anos 60 misturada com as bobagens novas de hoje em dia. João sempre me olhava, eu fingia que não via, e ele fingia que não sabia. Suas pilhas de livros e seus olhos escuros, seu jeans surrado e suas anotações fictícias para desviar o olhar de mim. Muito atraente. Mas, uma pena, depois da época de paquera silenciosa no café, eu jamais iria ver aquele João novamente.
Sacudo minha cabeça pra voltar à mim mesma. Começar o longo e tedioso processo de me desapegar daquelas lembranças. Eu tento me lembrar do único propósito que me faz voltar àquele apartamento, mesmo cheia de angústia e, para minha surpresa, sem a mínima ponta de arrependimento. Organizei os meus pensamentos e me concentrei no triângulo amoroso que estava se formando logo ali, naquele momento. Eu. João. E o revolver do meu irmão. Quem disse mesmo que ter um irmão bandido não tinha um lado positivo? O tempo se arrasta de um jeito saboroso. De algum modo eu estava comprando minha liberdade com um crime, mas, quando se está falando da liberdade da alma, qualquer cela de três por três metros, que vem de brinde com isso, parece gigante. Um preço extremamente razoável a se pagar. Eu não queria mais ser uma bonequinha para ele. Eu tenho amor por mim mesma. Entre um suspiro e outro, uma batida e outra do meu coração, tive outra seqüência de lembranças. Um segundo flashback, este sobre o dia em que as coisas mudaram de rumo, onde o conto de fadas ganhou um clima noir.
O vento batia forte e esvoaçava meu cabelo, tinha demorado horas pra arrumar, mas, valia a pena, tudo por ele valia a pena. Tínhamos marcado no parapeito da Usina. Era um dia cinza de agosto, um friozinho gostoso, mais porto-alegrês impossível. Eu fiquei me debruçando, pendurando boa parte do corpo pra fora da mureta até sentir ele me abraçar e com um singelo olhar e um tímido miado dizer "oi amor". Ele passeava a mão com nosso anel de prata pela minha roupa, e, delicadamente brincava com a minha mão.
Fazia isso enquanto discursava sobre algum poeta do início do século. Dizia que me amava entre uma história e outra, e comparava nosso romance a todos os épicos amorosos possíveis. Mais tarde, ainda naquele dia, o sorriso dele foi amarelando, e devagar ele foi ficando mais distante, um pouco arisco, sem motivo nenhum, simplesmente, de um momento para o outro, as coisas viraram o contrário do que eram. Ficou irritantemente quieto. Começou a falar de outras pessoas com quem ele estava tendo aulas, novas modelos com quem estava trabalhando. Livros que tinha sido apresentado por alguma menina do curso de letras.
Aquela última seqüência de lembranças era o ponto final. Minhas feições começaram a mudar, se tornando mais duras, o corpo começando a tremer um pouco. Eu não queria morrer, a saída fácil nunca era a minha favorita, eu queria que tudo acabasse, queria de volta todo amor que "perdi". Meus sorrisos, minhas alegrias, queria tudo. Até os sonhos bobos e os planos grandiosos de vivermos juntos. Pra mim é muito fácil culpar ele, ninguém é usada a troco de nada, claro que, em algum momento, eu tinha me colocado à disposição pra ele fazer o que quisesse comigo. Mas, isso é um pecado ingênuo. Nas regras do jogo, esse tipo de pecado não conta.
Eu saí do quarto e peguei um ônibus. Fiquei lendo "entre quatro paredes", do Sartre. Dali pra frente era um novo começo, eu e o livro. O resto do que eu sentia se misturou com o vermelho espirrado na cama.
(2005)
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Três dias – (sonreisas brillantes de la muerte)

“E agora?...”
“Agora a gente... quero dizer, eu espero.”
...
Como tudo chegou ali? Tentava futilmente montar aquele quadro, dentro da minha cabeça tudo era lua. Onde eu havia errado? De quem eram as diversas culpas, as reações em cadeia que levaram tudo isso a um desfecho tão previsível... sim, mas, de toda forma, o fim que eu mais queria evitar. Muitas perguntas sem respostas, e no fundo eu não tinha muito tempo, nem para responder elas, nem para entender as respostas que eu já tinha. O nome da Nádia não parava de bater na minha cabeça, por uns instantes olhei para sua foto na estante. Não, talvez fosse paranóia minha. Iván poderia tirar minhas dúvidas, mas, certamente já estava morto.
“...O Iván...?”
“...Sim.”
...
Três dias antes.
Que horas são? Já é hora de ir embora? Quem é essa mulher de verde? Nunca vi ela aqui. Aparenta bem, dança bem. No escuro qualquer uma delas dança bem. Vestido curto, deve estar morrendo de frio. Esse gordo babando em cima dela me irrita. Onde tá a minha bebida. Aquela porcaria de garçonete deve cuspir no copo de todo mundo. Não devem ter aprovado o número dela, deve ser horrível no palco. Mas que cacete, essa mulher de verde é gostosa pra cacete. Eu já vi esse gordo em algum lugar. Preciso de um cigarro. Preciso ir no banheiro. Se eu sair daqui aquela vagabunda vai chegar com a porcaria da minha bebida. Sei disso. Sei de um monte de coisa. Cacete, onde eu coloquei meu isqueiro? O Iván tá atrasado. Só mais uma carreirinha, só mais uma. Quem foi que matou a Penélope? Foi a Sílvia Maestro ou a Bela Llavé? Uma carreirinha não mata ninguém, ninguém. Isso aí. Uma linhazinha aqui, no meu canto, no escurinho, esperando a porcaria da bebida, a porcaria do Iván. Olhando aquela gostosinha ali no palco tirar a roupa. Só uma carreirinha. A última, juro. A última antes da última. Sempre tem uma última antes da última. Uma última trepada antes de se casar. Um último anti-biótico antes que a doença te mate. Ou que tu desista. Barbitúricos, codeína, Tylenol. Antigamente era mais fácil. Foda-se antigamente, eu tô me mijando. Porra o Iván chegou.
“Espera aqui, se uma bisca aparecer com o meu uísque, manda ela deixar aí. Eu já venho.”
A gostosinha de verde tá me olhando. O gordo tá com a cara enfiada entre os peitos dela. Mas que merda. A puta ainda pisca pra mim. A cara desse gordo deve feder à pastel de rodoviária, gordura velha, essas porra que a gente encontra no centro da cidade.
Um idiota sentado no vaso.
“Eu preciso mijar.”
Ele continua me olhando com uma cara de quem não entende português.
“Puto. Hablas español? Quiero mijar, te passa. Pinche pibe....”
Cacete. Nada.
“Eco, ma vai, te manda...”
Cacete, ele também não viu a novelinha italiana das oito, que começava às nove.
“Ô, tu entende isso aqui?”
Eu levanto minha blusa de veludo cotelê e mostro o meu revolver. Tem horas que a gente tem de ser rude. Afinal, eu só mijo em vaso.
...
Dois dias antes.
“Vem, eu vou te levar pro lugar mais lindo do mundo. O lugar onde tu vai ser uma rainha pra todo o sempre. E todas essas merdas que tu diz que curte. Mas tem que ser num lugar lindo. Eu conheço a porcaria dos lugares lindos por aqui, eu vou te levar pra todos eles e tu vai escolher, vai dizer, aqui é a porcaria do lugar mais lindo do mundo, daí tu vai poder ser o que tu quiser. Se tu não quiser ser nada, só curtir a beleza do lugar, tudo bem, eu não to nem aí, eu vou estar provavelmente bêbado. Bêbado o suficiente pra não me lembrar de nada por um punhado de dias. Sabe um punhado de dias? É tipo uma semana, tu consegue pegar com uma mão. Só não consegue pegar um findi. Seriam sete dias, faltariam dedos na mão. Daí que vem essas coisas de punhado de dias. Eu gosto. Olha pra mim, tu acha que eu pareço com o Denis Mallow? Eu poderia ser ator, seria um danado de bom. Só não serviria pra pornô... Não me entenda errado... Não é por aí. É só que eu não acredito em amor na frente das câmeras, e, eu, quando tô pelado, sou como o William Shakespeare. Poesia pura. Olha meu bem, vem cá, eu vou parar logo ali na frente, daí a gente vai pro banco de trás, e eu te ensino o que é poesia. E não me vem com esse olhar de que eu monopolizo as conversas, que não dou espaço pras pessoas conversarem, é que, bom, tu me entende, eu penso rápido, eu tenho que pensar, saca? É isso, ou eu já era. Rápido na cabeça, rápido no gatilho. Não que eu tenha uma arma, é só uma porcaria de ditado. Quando eu era pequeno eu vi filmes de faroeste demais. Todos eram iguais, sempre tinha um babaca com cara de mal que queria enfiar chumbo no rabo de algum índio. Daí vinha um monte de índio à cavalo, e o cara com cara de mau se ferrava. Daí vinham uns amigos deles, com umas escopetas do tamanho de uma perna de zebra, no duro, e chumbavam a indiazada pra longe de lá. Todos eram assim, eu entendo de roteiros, eu seria um puta dum roteirista. Vem cá meu amor...”
Um dia antes.
A carta era bem simples, as instruções eram bem claras. Eu tinha que dar no pé, mas, eu era danado de teimoso. Se eu pudesse esperar mais uns minutinhos, tudo seria diferente. Por que ela tinha que me ligar? Se eu fosse ela eu não me ligaria. Tudo bem, era meu aniversário. Há há há, feliz quarenta e oito anos, bunda mole. Mas, ela, logo ela. Agora, ao invés de dar no pé, eu tinha que ir lá, ver ela, dizer pra ela, fazendo ela sentir meu bafo de café velho, que eu tava indo embora e que ela era a razão de tudo. E que eu amava ela pra cacete. Olha, eu te amo. E pronto, e me ir embora. Nem um amorzinho, nem um chamego. Nada. Se bem... A merda já tinha sido jogada no ventilador mesmo...
...
No dia.
Eu me sentei no sofá, com uma das pernas no chão e a outra por cima de uma almofada. Enquanto segurava a barriga para que não vazasse tanto sangue, olhava ofegante pela janela e para ele ali parado. Tentei me lembrar do gosto do meu sorvete favorito. A dor já era algo além do suportável. Eu já tinha levado um tiro antes.
Fiquei com medo.
Desta vez parecia diferente. Algo estava muito diferente. A dor era doce, bem doce. Eu já estava babando um pouco do meu próprio sangue e, contra a minha vontade, estava emporcalhando o aconchegante sofá da Nádia.
“E agora?...”
“Agora a gente... quero dizer, eu espero.”
...
“Eu vou morrer, tu pode ir fazer alguma outra coisa, tomar uma cerveja.”
“Eu não bebo, e eu tenho de ficar aqui.”
“Tu vai matar a Nádia?”
“É esse o nome dela? Não, não vou. Ela não vai chegar tão cedo.”
“Quando ela chegar, e ver o meu corpo estirado no chão, cheio de sangue aqui, vai ficar puta...”
“Não vai ser novidade...”
“Onde foi que eu errei?”
“A mulher de verde.”
“Eu imaginei...”
“Me faz um favor, pega esse porta-retrato aí pra mim?”
...
Eu me rasguei da foto. Fiquei olhando pra Marla. Ela estava com um pequeno vestido de verão, segurando uma dessas bolas coloridas. Tinha uma borboleta nos cabelos e estava olhando com o sorriso mais maravilhoso do mundo para a câmera. Ela não tinha um ou dois dentes da frente. Parecia um anjo. Era aniversário dela. Dez, onze. Tentei, sem sucesso, não sujar a foto de sangue. O homem se aproximou.
”Filha?”
“Sim... Minha e da Nádia. Se chamava Marla.”
“Morreu?”
“Leucemia.”
“Comemoramos seu aniversário no hospital, dias antes de ela morrer...”
Então a dor aumentou. Fechei os olhos pela última vez e ouvi os ecos das risadas e cantigas de Marla. Nádia que me desculpe.
nota.do.autor: You have always told me youd not live past 25
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Cheiro De Nicotina
As coisas não podia ser piores. Eram meus dois últimos Marlboros e na minha carteira eu só tinha o dinheiro do ônibus. Mesmo assim, peguei os dois e os acendi. Era a última coisa que eu podia fazer. Um para fumar, o outro para ficar ali, queimando no cinzeiro e me fazendo compania, quase como uma vela de sétimo dia. Não que eu estivesse sozinho, ou mesmo morto, longe disso, estava no meio da porcaria do aeroporto rodeado de todo tipo de mundo. Um final de dia atípico, principalmente se tratando de uma sexta.Trago lentamente e fico brincando de fazer pequenos circulos com a fumaça. Rio de mim mesmo, ainda que de forma discreta, observando no meu reflexo o biquinho ridiculo estampado nos lábios, cuspindo rodinhas de fumaça. Adoráveis porém igualmente ridículas. Algumas pessoas ficam olhando envolta, deve ser inveja, não é fácil fazer as rodinhas, leva anos de prática, e uma enormidade de dinheiro em cigarros.
Foi assim que nos conhecemos.
Mentira. Minto rapidamente para mim mesmo...
Não, verdade. Foi assim, sim. Eu assobrando rodelinhas de fumaça no balcão do bar, uma espelunca no subsolo de um hotel, e ela lá, com uma câmera com uma lente maior do que ela, me fotografando, sem pedir, sem vergonha. Não lembro quem estava mais bêbado, mas, lembro bem de ter me sentido um bocado invadido, usado, praticamente abalado. Nunca tivera me sentido tão bem.
Mas... Jamais ia perceber que era ela. A Ela. A ela que eu escrevia numa agenda velha, denoite, em casa, bebendo vinho do porto, achando que eu valia alguma coisa. Claro que eu levava um sermão lá na redação, quase diariamente, sobre meu pequeno romance e minha frieza. Eu pensava nela, admito, sem problemas. A não ser que eu tivesse de falar sobre ela. Aí era apenas uma amiga, alguém que queria um emprego no jornal e me via como uma ponte até o editor. "O que tu quer com um colunista meia roda?" Claro que nunca perguntei isso, mas, por várias vezes ficou trancado na garganta. Eu? Meia Roda? Não, não. Bom, talvez sim, não que eu tenha publicado nada relevante nos últimos anos... Ou... Bom, também teria de aceitar o fato de que ela queria algo de mim, e aí é uma longa, longa história que eu nunca li.
Abro minha agenda e anoto algumas coisas em dias aleatórios, a mocinha que trás os cafés ali no Café Escuro me conhece bem, quando levanto o rosto e procuro por seus olhos, ela já preenche minha xícara com café preto fumegante, forte, muito forte, passado com pouca água. E claro, sem açúcar. Doze. Doze aviões já levantaram vôo desde que eu chegara ali.
Cada vez que levava a xícara aos lábios, me embreagava do cheiro de nicotina na ponta dos dedos.
"Um jornal? Un periódico, a newspaper... Algum?"
Folha da tarde, datada já do dia anterior, tudo bem, meia noite e cinco, mas, jornal do dia anterior de qualquer forma. Fico mendigando os restos de nicotina da ponta dos dedos enquanto folho pelas páginas lidas e re-lidas. Alta do dólar, baixa da bolsa, alta da bolsa, baixa do dolar, chega um ponto que perde o sentido, a mesma notícia todo dia, apenas invertendo a ordem. Uma maravilha que me mantém ocupado. Isso e o rebolar da moça pra lá e pra cá com o café, servindo as pessoas ali, que reclamam, em maior parte, pelo atraso dos vôos
"Se tem pressa, não sai tão cedo de casa, os vôos sempre atrasam..." Falo baixinho pra mim mesmo e depois anoto num canto de folha, provavelmente o tema da minha coluna para o próximo dia.
Alguém que descreve um romance ao invés de contá-lo há de ser um péssimo amante. A moça rebolando, os dedos perto do nariz, falsamente coçando o bigode, aproveitando o cheirinho do cigarro recém fumado. O vício dos olhos, o vício da alma. Entre a paranóia e a genialidade, prefiro me abster. Viver e dar conta de mim mesmo já é trabalho duro demais. Uma maravilha de coluna para o próximo dia, os gênios, os amantes e os que ficam fumando e bebendo café, geralmente tarde da noite, no aeroporto. Sim, sim. E ela, lá no canto dela. E a moça do café aqui, me servindo e a todo mundo que precisa dela, do seu rebolado maroto e do café na ponta dos dedos, o uniformezinho cliché-marrom... "Achei ótimo, combina com café, chocolate, essas coisas de 'cafés'" Me confessou ela em uma dessas madrugadas. Riqiquinha, ela.
Tento me acalmar, bobagem, estou calmo. Coração palpitando, fôlego prejudicado, mas absolutamente calmo. No rádio toca um samba-bossa conhecido, tento assoviar junto com a melodia, mas, assim como beber e subir escadas, assoviar depois de fumar é impossível. Me satisfço em apenas ficar pensando nas últimas horas ali, sentado. O tempo não passa, claro que não, para quem não espera nada, o relógio tiquitaqueia num ritmo bastante diferente. Aliás, já é horário de verão e eu não me incomodo em arrumar o relógio. Faço o movimento voluntário de levar a mão ao coração procurando o maço de cigarros no bolso de dentro da jaqueta. De novo, me resta só ficar cheirando as pontas dos dedos. Isso e cantarolar a melodia, baixinho, sem que eu possa ser notado. Convenientemente, uma música que ela, A Ela, adorava, e possivelmente deve estar escutando agora enquanto cruza as nuvens.
Mais café. Dessa vez a mocinha para e senta do meu lado.
"Quem era o irmão Henfil. Porque ele partiu?" Pergunta ela. Dezoito? Dezenove no máximo. Barriguinha de desleixe, cabelo preso com uma borboleta negra. Pele combinando com o avental, um tom um pouco mais claro.
"Um safado e um sortudo."
"Oi?"
Bom, eu tentei.
"Era um cartunista e escritor, fugiu da ditadura."
"E porque ele fugiu?"
"Ele não tinha mais o que fazer... Eu também fugi."
"Deve ter tanta história legal pra contar..." Ela sorri da maneira mais doce do mundo.
"Não, na verdade não tenho nada pra contar, acho que foi por isso que me tornei escritor."
"Eu, oficialmente, estou no meu intervalo agora, que tal se eu pegar um café pra mim, preencher o teu e tu me contar um pouquinho desse nada. Tu sempre senta aí, e fica anotando e me olhando, no início fiquei com medo, mas agora estou é curiosa pra saber quem era o distinto homem da mesa número 3"
Ela levanta e vai.
O-fi-ci-a-lme-n-te. Desenhando com a boca pequena cada letra, um espetáculo.
Mas ela volta. Com um cigarro na mão.
"Acende pra mim?"
Eu acendo o cigarro dela, devagar, sem tirar os olhos dos dela. Riquinha... e tão bonitinha. Ela joga a fumaça na minha direção e pergunta se eu quero um.
Eu sorrio.
É claro, eu sempre quero um.
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