domingo, 23 de dezembro de 2007

Mais Humano que flores - um conto de natal


I
Hélio é uma criança de oito anos. Mais importante que seus oito anos, é o fato de ser uma criança. E ele é bom nisso, em ser criança. Sua irmã Natalie não é mais criança, faz um bom tempo, mas isso nunca foi problema para Hélio, ou, Helinho, como ela o chamava.

Já estava com sono, Hélio havia brincado no quintal por horas a fio. Tinha jogado bola, brincado de batman, construído um foguete espacial com as cadeiras de plástico de sua mãe. Estava quase dormindo depois do jantar enquanto contava tudo para Natalie. Batman havia jogado bola na lua e construído um foguete. "Um dia agitado, bem agitado" ficava repetindo ele enquanto Natalie o pegava no colo e o levava para o quarto que dividiam no andar de cima da pequena casa.

"Eu trabalhei no mercado, vendemos tanta coisa para as ceias de fim de ano, e depois eu passei na igreja para ajudar o padre Olavo... E..."

Já estava cochilando. Natalie o colocou na cama e ficou observando por uns instantes, mas, se surpreendeu, quase se assustou quando estava saindo do quarto e apagando a luz e ouviu o chamado do irmão.

"Mana, não vai ainda"

"Quer ouvir uma história, meu anjinho?"

O garoto fez que sim com a cabeça enquanto puxava as cobertas por sobre o pescoço, sorrindo, fez com que todo o cansaço e sono de sua irmã fossem embora.

"Bom, era uma vez, há muito, muito tempo atrás, um castelo onde vivia um príncipe muito corajoso. E este príncipe ia receber a visita de uma belíssima princesa. Como saberia quem é ela, ficou se perguntando o príncipe, se tantas mulheres lindas andavam pelo palácio. Até que mais uma vez ele leu a carta que a princesa havia mandado, em que dizia que ele saberia quem ela era..."

O choro de Hélio impediu que Natalie continuasse narrando a história. Assustado ele se levantou e pendurou-se no pescoço dela. Os gritos vindos do andar de baixo eram altos, tão altos quanto os sons de pratos e de garrafas quebrando.

Natalie deitou-se junto de hélio e ambos cobriram-se com as cobertas, cuidando para que nenhuma parte do corpo ficasse exposta ao lado de fora da cama.

"Vou te abraçar aqui até tu dormir, Helinho..."

E assim ela fez até que ele dormiu. Então, pé por pé, um bom tempo depois de o andar de baixo ter se silenciado, ela saiu do quarto.


II
Ana Luíza agarra os braços por baixo dos seios. Se escora na pia e deixa as lágrimas lavarem os restos de maquilagem que haviam em seu rosto. Ela soluça e limpa o nariz com as costas da mão. Olha para o relógio, vê os ponteiros juntos no número doze e liga o rádio. A voz familiar do locutor a acalma um pouco, mas não muito.

O chão dá cozinha parece uma versão caseira de uma trincheira de batalha. Comida e bebida esparramadas por todos os lados, garrafas de vinho estateladas entre a geladeira e o fogão, pratos caros, presentes de noivado de sua avó, quase todos quebrados em pedacinhos ao redor da mesa e da despensa. Ela tenta varrer mas isso só a faz chorar mais, mas, desta vez baixinho, como se estivesse envergonhada de estar chorando ainda. O sangue seco no lábio a incomoda, bem como as contrações e o peso da enorme barriga de sete meses.

Natalie a observa de longe sem ser vista. Suspira fundo e conta números até se perder, quinhentos, talvez seiscentos.

Ana Luíza senta à mesa e risca um fósforo. Deixa-o queimar até a ponta do dedo, vai repetindo um a um até acabarem dentro da caixinha amarela. Enquanto queimam ela vai deixando cair na medida em que tocam seus dedos. Oras apagando antes disso, com o peso de uma lágrima ruidosa caindo pelo rosto.

Natalie fecha os olhos tão apertados quanto consegue, fazendo força e segurando o marco de madeira da porta até sua pequena mão branca doer.


III
Naldo, o chefe da família, um homem gordo, enorme, com uma barba espessa e negra se senta na modesta cama de casal. Abre uma das gavetas da mesa de cabeceira e pega uma frasqueta. Bebe o conteúdo e dá um arroto grosso e sonoro.

Ele se levanta e dá passos trôpegos pelo quarto, balançando a frasqueta vazia e bradando qualquer canção tradicional francesa, ou irlandesa. Naldo se diz o mais culto dos homens que moram no conjunto habitacional popular da prefeitura, o único que sabe a diferença entre quatro ou cinco tipos de uva diferentes e fala três línguas.

"Die fin ahora"

Fala alta e se cuspindo, repete inúmeras vezes, pensando consigo próprio os anos que tomou para aprender alemão, francês e espanhol, para acabar entregando cartas. Uma porcaria de um carteiro, pensa ele. E todos os clientes dos correios, segundo ele próprio.

Naldo se senta mais uma vez na cama, guarda a frasqueta de onde a tirou e, desta vez, tira de lá um revolver. Abre o tambor, tira quatro das cinco balas e então gira.
Gira mais uma vez, e então outra, daí a quarta, quinta. Na sétima vez coloca o cano da arma contra a própria cabeça. Aperta o gatilho.

Clic.

"Não. Também não é nesse ano..." Fala baixinho enquanto se deita puxando as cobertas e pensando que é o cara mais sortudo do mundo, capaz de sobreviver a trinta e duas roletas russas natalinas.

IV
Natalie, que ouvira tudo de trás da porta do quarto onde o pai estava, faz uma cara de braba, vai até o banheiro e joga água no rosto. Se olha no espelho e se orgulha do que vê.

Já no quarto ela enrola em papel de seda, retirado de algumas frutas do mercado, um pequeno livro com o título de Uma aventura na neve.

Da outra cama Hélio espia curioso, ao se acordar pelo barulho dos papéis sendo embrulhados ao redor do livro. Natalie sorri para ele, que pergunta curioso:

"Mas... e o papai noel?"

A garota sorri e põe o livro dentro de uma bolsa.

"Me pediu ajuda porque fui uma boa garota esse ano"

Natalie coloca um casaco e prepara as roupas de frio em Hélio, que fica facilmente no colo dela devido ao seu tamanho tão pequeno.

Sem ser notada, Natalie bate a porta da casa e segue em direção à estação de trem. Exausta, com o irmão ainda no colo, ela deita do lado de fora da grade de entrada para a estação e se entristece ao perceber que não poderá entrar. Ela então acende um fogo dentro de uma lixeira e deita perto com o irmão caído sobre seu peito.

V
"Feliz natal, Helinho"

Hélio acorda ainda no colo da irmã, estranhando o cheiro de fumaça da lata ao lado, que os fornecera calor por toda noite.

Ela dá o pacote para ele, que o abre sem pensar muito, ele também ganha uma maçã.

"Aposto vai que vai gostar, maninho. Vai sim. Tu não disse que sempre quis saber como era a neve?"

O garotinho sorri de uma orelha até a outra.

"Mas mana, como acaba aquela história que tu tava contando antes de..."

Natalie derrama uma lágrima. Então disfarça e sorri.

"O príncipe não encontrou nenhuma princesa bonita, mas encontrou uma plebéia que precisava de ajuda. Mais tarde ele descobriu que se tratava da princesa, testando o caráter do príncipe para saber se ele daria um bom rei. Daí ele ajudou ela e quando limpou ela e deu para ela umas roupas novas, ela lhe pareceu lindíssima, e então ela falou pra ele que era ela o tempo todo, e viveram felizes para sempre."

Os dois sorriem e se abraçam.

(Trilha: Oasis - Stop Crying your heart out)

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Quarto Crescente


Raquel

O som estava alto. Muito mais alto do que podíamos perceber, dado tanta bebida que tínhamos tomado. O quarto estava bastante escuro. Camila estava dormindo no chão e eu e Pablo estávamos na cama, fazendo carinho no corpo um do outro. Por alguns instantes ele mordeu meus lábios, segurou meu seio por cima do sutiã e depois esfregou o rosto no meu pescoço. Era o ponto final.

Rolei para o lado e peguei a cerveja que tinha deixado no bidê.

Não lembro se ele riu ou fez cara de brabo, mas, acabamos nos vestindo e, pé por pé, passamos por cima da Camila. Não que eu não o quisesse, longe disso. Pablo é lindo, tem o corpo magro, peludo e loiro. Não é lá muito alto, mas é uma graça. E fazia algum tempo que era a minha graça.

Pablo

A gente ficou um bom tempo na escada, sentado, falando qualquer bobagem, discutindo desde o oriente médio até quanto tempo demoraria um corpo de uma modelo para cair por toda as cataratas do Niágara. Eu estava muito excitado, mas, sabia que aquele joguinho deixava Raquel ligada. Menos mal não termos acordado a Camila, coitada, tão sozinha deitada no chão, dormindo feito uma pedra. Nada que dois martinis não façam. Nada mesmo

Já eram mais ou menos duas e meia da madrugada. Só um jovem pode dar uma quase precisão de horário, é uma coisa que se perde com a idade. Depois de velho a gente para de falar coisas como “São tipo-quase-três-e-quinze”. Desse tipo de coisa que se sente falta de verdade. E dos romances, claro, depois de velho a gente... Bom, não que eu seja, ou esteja ficando velho, mas, parte da jovem adultidão é consumir a paciência das pessoas reclamando de velhice.

Isso. Velhice, foi aí que eu e Raquel decidimos que era hora de ir.

Raquel

Eu deixei o Pablinho ir jogar bilhar mais uma vez, com o Mathias e o Marino. Enquanto isso fui me despedindo devagar de algumas amigas, tomando alguns drinques enquanto ele não reaparecia. Poderíamos ficar mais algum tempo

Helene me perguntou se estava tudo bem, e eu expliquei toda a situação, das cervejas e cigarros até o quarto e de lá para a mais rápida saída para a minha casa e por fim para meu quarto, chuveiro quarto mais uma vez e uma rápida passadinha pela cozinha antes de voltar pro quarto. Certamente Helene não me entendeu. Mas não era a intenção também.

Enquanto as outras garotas desenhavam minha explicação para ela Pablo apareceu, pegou minha mão, com a sua ainda suja de giz azul, e fomos rapidamente para fora, acenando para todos como se fossemos o casal Miss e Mister qualquer coisa da festa.
Pablo

Cruzamos o parque da rua de cima e nos assustamos com um barulho em uma árvore. Lembro de ter apertado a Raquel contra o meu peito e esperado tenebrosamente pelo pior. Um assassino, um estuprador, um drogado afim de encrenca, e todas as coisas que não gostamos ou queremos ver pela frente durante uma prosaica caminhada por um parque no meio da madrugada.

Raquel

Ela devia ter mais um menos um metro de altura. Tinha as bochechas bem sujinhas e cachos dourados igualmente sujos. Era a coisa mais linda. Estava se escondendo dentro de uma fenda na árvore, uma enorme figueira. Tiritava de frio, apesar da noite de primavera, e estava vestindo um vestido amarelo rasgado em várias partes, era bem magrinha e mentia constantemente que não estava com fome, às vezes nos parando e dizendo “eu não estou com fome. Não me olhe.”

Pablo

Ela disse que não tinha nome, mas, que chamavam ela de cachinhos dourados. Não acreditei. Perguntei se podia chamá-la de Catherine, pois, recém havia terminado de ler Jardim do Éden, do Hemmingway, e, como todo garoto deslumbrado, precisava aplicar aquela maravilhosa história ao mundo que eu vivia. Ali era o primeiro elo.

Raquel acabou me convencendo a levar ela junto para algum lugar. Lugar algum que fosse. Não gostei muito da idéia. Nunca gostei de crianças e aquela, apesar de mais interessante que as outras, ainda não me convencia de muito.

Raquel

Discutimos. Tive de colocar Catherine no chão, ela estava dormindo no meu colo e os loucos gritos do Pablo a acordaram. Ela tinha já uns cinco anos, mas, pelo que vi, gostava de se comportar ora como se tivesse onze, ora como se fosse um bebê.

Já não choro mais com as brigas de Pablo, deixo-o soltar tudo pra fora e depois que ele se acalma as coisas ficam bem. Estávamos caminhando pela rua Elmo, perto do centro. Aí ele me deu as costas e saiu andando.

Catherine e eu ficamos olhando, sem muito o que falar. Catherine virou pra mim e disse que só nos acompanhou pois achava que nós precisávamos muito mais dela do que ela de nós. No fundo ela tinha razão.

Pablo

Eu não me arrependo. Estava muito brabo e saí andando. Mas, não fui muito longe. O orgulho não me deixou voltar, mas, como eu precisava ir para a casa da Raquel, fiquei parado no meio do caminho. Olhando para as coisas e para o céu. Fechei os botões da camisa até proteger bem o pescoço e cruzei os braços embaixo de um poste de luz quase da minha altura, bem pequeno.

Raquel

Eu podia abraçar ela. Mas foi ela quem fez isso. Disse que acontece, que já viu acontecer e que não era nada. Estava sentada do meu lado no meio fio. Minha saia tinha esparramado e ela tinha aproveitado pra sentar em cima, ao que adicionou “Não quero sujar meu vestido, foi mamãe quem me deu”. Não quis perguntar onde estava mamãe, e, pelo jeito que ela me olhou, acho que me agradeceu demais por isso.

Por muitos instantes pareci pequena, menor que ela. Mas extremamente protegida.

Ela sorriu e me deu a mão. Começamos a andar.

Pablo

Foi bom. Raquel e Catherine me encontraram pouco tempo depois, com alguns sorrisos e bebendo uma coca-cola. Eu olhei para elas e abracei as duas da melhor maneira, e mais desajeitada que pude.

Raquel

Quando encontramos Pablo, ele nos deu o mesmo olhar que sempre me dá quando está arrependido, o olhar que me derrete e me fez gostar dele desde a primeira vez. Caminhamos em direção à minha casa com a lua às costas. Catherine no meu colo e o braço de Pablo ao redor do meu ombro.

Sr. Malmann – Ou, é saudade, sempre saudade



A verdade era simples. Como sempre é. Eu precisava de dinheiro para comprar algo bonito para ela. Não estava ganhando muito dinheiro como entregador de jornal da vizinhança, nunca se ganha. E o fato de precisar de grana estava me incomodando, mas... Já fazia um ano, era melhor levar algo muito bonito e interessante. A final, não é todo dia que se faz um ano.

Quando me olhei no espelho vi que não podia sair assim de casa. Sardas, espinhas e uma barba rala que indicava a saída da minha puberdade. Olhos azuis devidamente escondidos atrás de um óculos de armação grossa e calças jeans devidamente combinadas com uma camisa de flanela xadrez. Tênis all-star vermelho pra combinar com o cabelo.

Não, não era assim que eu ia ganhar dinheiro, mesmo que fossem uns trocos.

Na escala de idéias para conseguir comprar algo bom para ela deveria ir descartando uma a uma conforme fossem falhando, não haviam muitas coisas a tentar, mas, as quatro que listei antes de dormir me pareciam boas saídas. A não ser pela última.

Uma a uma elas falharam. Pedir dinheiro para Gisele, minha irmã, foi a primeira a se mostrar infrutífera.
Tentar vender algo foi a seguinte. Não tinha nada para vender, alguns livros, uns romances do Mark Twain, mas nada de valor. Nada que valesse a pena me desfazer por tão pouco, talvez nem o próprio Mark Twain não conseguisse comprar coisas boas para alguém de que gostasse muito.

Pedir um aumento como jornaleiro foi constrangedor ao ponto de uma risada indecorosa da minha chefa, uma gorda de família italiana, me fazer compreender que, dali, não conseguiria absolutamente nada, e, se mais algum tempo ficasse ali na sala dela, estaria correndo risco de perder os poucos trocados que já ganhava, ao que, sua risada foi pausando e se transformando em uma cara amarrada e sisuda.

Cortar a grama do Sr. Malmann.

Ele sempre precisava de alguém para cortar a grama, ninguém conseguia fazer isso mais de uma vez, pelo volume de trabalho e por ter de lidar com aquele homem tão estranho que morava na curva, no fim da rua.

Engoli seco e toquei sua campanhinha, esperando dragões e sapos pularem debaixo de pedras arredondadas ali perto da porta. Nada disso aconteceu, ao invés, Lurdes, a enfermeira disse que eu podia cortar a grama e que assim que tivesse acabado receberia uma gorda recompensa.
O gramado era grande, dava trabalho, mas, já era isso ou nada. No dia seguinte seria um ano, e eu precisava de um bom presente. Pensei nela, em Lea, e comecei o trabalho.

Não era meu dia, não que os anteriores tivessem sido, há algum tempo não era mais meu dia, mas aquele estava realmente parecendo com uma grande piada divina sob minha cabeça, se é que é lá em cima que “eles” ficam.

Depois de alguns raios e trovões uma chuva densa e pesada começou a cair, e eu não era besta o suficiente pra continuar cortando a grama ali, não faltava muito e, se dependesse da visão do dono da casa, não seria difícil tapeá-lo de que tudo estava pronto.

Corri para a varanda e bati, com um leve murro na porta, ao invés de tocar a campanhinha, mas, som nenhum houve, se não o ranger da porta abrindo, estava destrancada e a luz difusa e translúcida da pequena tempestade que caía pouco alumiou a cozinha do Sr. Malmann.

Sua voz rouca e lenta dele me chamou para dentro e, aquela figura estranha e misteriosa, que não via desde pequeno, se mostrou ali, na meia luz de um lampião alaranjado, envolto em uma belíssima armação de cobre.

“Que bom que entrou, não queria que se molhasse. Quem sabe não quer um pouco de chá, jovemzinho? Acabei de esquentá-lo. Não está lá muito quente, não posso beber nada além de morno, mas, garanto que o gosto está muito bom, é de frutas cítricas, Lurdes trouxe para mim do mercado hoje de manhã”

Ele parecia não parar de falar e eu fiquei bastante tempo ali parado, olhando para tudo e para ele, foi uma grande falta de educação, mas, a casa era enorme, algumas janelas ajudava a trazer a luz de fora para dentro mas ela se perdia logo logo, parecia haver mais ali do que em um cofre de leilão. Tinha cheiro de vida guardada, enrolada em naftalina e folha de louro.

O senhor Malmann raramente saia para a rua. Há mais de dez anos ficava somente em casa e era cuidado por diferentes enfermeiras. Minha sorte era que a chuva tinha começado entre o turno da Lurdes e da Rosa Maria. Aquele intervalo de mais ou menos dez minutos se transformou em uma longa hora, por causa dos alagamentos nas ruas e das quedas de luz.

E eu estava ali, vendo os lábios dele se mexer mas sem escutar um único som. A não ser o da minha vontade de ir para casa, se aninhando em algum lugar dos fundos bolsos da minha flanela.

Sinceramente eu não lembrava muito dele. Apenas de que não gostava nada dele, nem de seu jeito silencioso e austero. Mas pouco do que vi parecia com as imagens que tinha dele na minha imaginação, o viril homem, sádico e com sotaque francês não passava de um viúvo com câncer no fígado, melancolicamente estacionado sobre uma cadeira de rodas tão velha quanto a mobília da casa. Quase toda de antes da guerra.

Seus poucos cabelos estavam desgrenhadamente cobrindo os rastros de calvice e seus óculos afundavam em seus rosto como se tivesse sido empurrado e moldado por um artista plástico, um que empurra os polegares fundo na argila mole e morna ainda.

O chá trazia um aroma gostoso para o ar da chuva.

“Senta...” Disse ele, perdendo as palavras e as letras ao rolarem para fora dos lábios.

Quando me percebi com uma xícara já em mãos ele derrubou a dele no chão, me assustando e fazendo derramar um pouco do líquido quente e fumegante na mão. Enquanto lavava com água fria na pia ele começou a entoar uma melodia triste e pausada, como se estivesse esperando a companhia de instrumentos que jamais chegariam. Uma milonga com letra em francês, ao que pude entender.

“Está vendo estas pernas, homenzinho? Não me servem de nada. Há muitos anos não me servem de nada.”

Me virei um pouco transtornado pelo rumo da conversa.

“Vou lhe contar o que houve, a não ser que este velho aleijado esteja exigindo demais de...”

Antes que ele pudesse terminar a frase, apesar de receoso e assustado, enrolei rapidamente um pano em torno da mão e sentei-me ali, junto a ele.

Lá fora os ventos sopraram balançando as plantas e os galhos de árvore, que derramavam sob o chão sombras pitorescas e deformadas. A chuva continuava.

“Está vendo esta foto? Está, garoto?” Falou quase me intimando, enquanto apontava para um retrato de uma linda mulher loira, segurando um livro, sentada numa cadeira de verão, ao que parecia ser uma versão de Matisse, para aquele jardim ali fora.

“É Eva G. Malmann. Minha querida esposa. Eu fui preso por estrangular ela e o amante. Na cadeia, ao saber que eu tinha matado a donzela Eva, fui surrado durante dias e noites intermináveis, até que me atiraram água gelada, em pleno inverno. Minhas pernas estavam inutilizáveis e, os doze anos que cumpri lá foram os piores da minha vida. E eu estive na grande guerra... Mas meu amor não foi suficiente, amor nunca é...”

Rosa Maria interrompeu a história entrando na casa, balançando firmemente alguns pacotes de super-mercado.

O velho tirou uma nota gorda e colocou no bolso da minha flanela. Me lançou o mais triste e profundo dos sorrisos, incapaz de ser comparado ou descrito, algo que via que era dele, talvez a única coisa que lhe sobrara, a habilidade de sorrir carregando todas as tristezas do mundo.

No outro dia acordei e coloquei minha melhor roupa, um chapéu bonito e uma cueca branca e limpa. Tinha em uma mão orquídeas roxas e na outra uma pequena caixa de chocolates de coco. Mamãe me olhou sabendo onde eu ia e Gisele me abraçou com uma estranha e incomum ternura.

Ao chegar no cemitério, sentei-me na frente da lápide de Lea e coloquei ali as orquídeas. Tirei um chocolate e coloquei ao lado de sua foto, que ficava perto da grama verde.

“Achei que não conseguiria vir, lembrei que gostava de orquídeas e de chocolates com coco. Já faz um ano e ainda não me acostumei a não te ver. Mamãe disse que eu já superei e que a vida de todo mundo continuou, de uma forma ou de outra. Mas, fico me perguntando o que aconteceu quando desligaram os aparelhos, ou quando o como se tornou tão profundo que o mundo lá fora parecia apenas um grão de poeira no meio de um grande espaço cheio de outras coisas mais interessantes, mais dentro de ti. Sinto tua falta, claro que sinto. Mas eu vim. Demorou um ano, me desculpe, mas, achei que te devia isso. Sei que devo muito mais coisas, coragem de te ver quando estava no hospital, de tantas outras coisas, mas eu vim. E trouxe flores e doces, assim como fazia antes. Fiz o que nunca achei que fosse fazer, mas, talvez fosse para o melhor. Não vou dizer que descobri que o velho estranho e triste no fundo era uma pessoa legal, boa e interessante. Ele ainda era um velho que havia matado a mulher, uma poetiza que seria famosa se não fosse tão sem sorte. Mas graças a ele eu pude vir aqui. Não acredito que se eu for lá e contar a ele que graças ao dinheiro dele pude ver o amor de uma quase vida, e que assim ele virasse alguém melhor. Mas certamente dentro de mim faz algum sentido que me foge o entendimento. Talvez vir aqui e ficar falando contigo como se me ouvisse seja tolo demais. Quanto tive a chance, não fui lá te dizer que te amava e que tudo ficaria bem, o que é no fundo tudo que a gente gosta, quer e precisa ouvir. Talvez Sr. Malmann precise que alguém diga que tudo vai ficar bem também, com ele e suas pernas quebradas e seu fígado doente. Mas ele continua morrendo um pouco todos os dias, talvez desde que sua mulher, Eva G. como ele ficava dizendo. Se eu fosse bom como tu era, e tão sensível como tu era, poderia dizer que um pouco de mim se vai todos os dias conforme o tempo passa e tu continua aqui. Mas não. O tempo talvez esteja estacionado para mim ainda. Quando fizemos amor escondido. Quando passamos a noite acordados no telefone, ouvindo um ao outro dormir. Não sei quando eu voltarei aqui, se ficarei contando das pessoas que encontrei e tudo que fiz. Talvez não encontre ninguém e não faça nada. Assim é melhor, apenas sentindo e lembrando tudo que foi, e o adeus que prometi pra mim mesmo que te daria e não te dei. Mas as coisas ficam perdidas nos cantos. Entre um chocolate e outro eu fico aqui, e tu aí, talvez me escutando, e, como um anjo invisível, azulado e translúcido, me abraçando e afagando meu cabelo. Gosto assim, gosto de pensar em como tu continua dentro de mim e na minha vida. Mas é estranho ver que se não fosse por um homem ferrado e velho eu não estaria aqui. Poderíamos conversar sobre como perdemos meninas importantes em nossas vidas, mas, certamente teu acidente e o assassinato de Eva G. terminariam o elo da conversa nos embebedando em um silêncio tão triste e calado como farpas na madeira da cama. Só dormimos uma vez um do lado do outro e sinto falta disso como se fosse algo próximo, algo que fizesse parte do meu mundo. Teu rosto afundado no travesseiro e deu corpo acomodado no meu, numa cama improvisada no sótom da tua casa, torcendo pra que ninguém nos pegasse. Claro que eu gostaria de vir aqui todos os anos ficar lembrando dessas coisas e de algumas outras, talvez acender um cigarro, pra manter alguma coisa escondida, algo que se relacione com um mundo de segredos que tínhamos. Mas boa parte de mim não tem vontade de voltar aqui, não sei de onde veio a força. Talvez da vergonha e da tentativa de arrumar a burrada de não ter ido te ver, mas, acho que no fundo é saudade. É sempre saudade. ”

Bomboleguero



No canto pálido e de remo em punho ficava ali parado a respirar a fina névoa que vinha do lago, sentado no meio do pequeno bote até que ele tocasse bruscamente as madeiras podres e velhas do pequeno trapiche, do outro lado da margem do Uruguayo.

O canto triste se fez presente, uma a uma as vozes doces se enrolaram em uma única melodia. O céu azul acinzentando se confundia com a imensa nuvem que o cobria e tocava o horizonte do rio, enegrecido pelas turvas e calmas águas, perturbadas pelos sons do meu remo, insistente e persistente, tentando chegar ao outro lado.

A melodia se tornou simples e alegre, mas só por alguns segundos. Me escondi na minha meninice e chorei por alguns instantes, sendo abraçado por pequenas nuvens em forma de dançarinas sem pernas, mas que bailavam no ar, me abraçavam, levavam consigo um pouco dos meus longos cabelo e se misturavam com a névoa. Mais e mais alta a música que era cantada pelas pequenas nuvens se levavam para algum lugar no céu, que eu olhava e procurava distinguir naquela paisagem toda monocromática, às vezes cinza ocre, às vezes cobre e madeira.

Então, como atendendo o pedido da minha ansiedade o mundo se calou.
Perto de mim pude ver o trapiche. Onde deveria amarrar o pequeno bote.

Num triste sopro de vento, mesclando o cheiro morto do Uruguay com as perfumarias de boticário de minhas roupas, segurei firme o remo e vi que nenhum som se fazia presente. Arranhei a madeira do bote, estapeei tudo que pude ver, mesmo não tendo voz alguma tentei gritar, ao que apenas o mudo som dos gestos podia ouvir. E nada mais.

De longe foi crescendo o som dos tambores sendo tocados e, no lugar de tudo que podia ver com os olhos foi substituída a imagem. Apenas os bombolegueros à sombra sendo tocados por alguém.

Arrumei minha saia e juntei as pernas, apertei os seios contra meu próprio corpo com meu braço. E no crescendo das batidas na pele de couro dos tambores me vi caída no bote, incapaz de me mover, sendo abraçada e paparicada pelas pequenas donzelas em forma de nuvem, com braços pouco definidos entre rastros de vapor e névoa. No meu rosto o triste sorriso de um carinho mudo, cênico e sutil. Para cada pecado um toque no tambor, para a riqueza do meu não silêncio, o balançar da marola do Uruguay, trazendo de um lado para o outro todas as almas.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Onde a orquídea nasceu e ela morreu




Quieto no canto, tocando no piano, nota por nota, a mais débil melodia, contava os segundos entre um compasso morto e outro, escorregando cada um dos dedos pelas teclas empoeiradas. “Tortos e enrugados, mais parecem palitos do que dedos”, ficava repetindo para mim, parte para mim mesmo, parte rolando as palavras para fora da boca. Ali, sentado ao piano, acompanhado pela simples e monocromática melodia. E um copo grande, de requeijão, cheio de rum.

Do alto da estante, a gata dorme como se nada fosse lhe perturbar. Nem minha insistente ausência ao piano, nem o barulho da chuva nas telhas da cor de uma maçã colhida fora de época. Joaquina, Camélia, e um mundo de nomes de gente para uma gata danada que dorme, e vez em’quando me olha entre um bocejo e outro.

Ao que não posso negar. Faz com que a solidão vá embora, até que eu pisque os olhos e ela volte mais uma vez, acariciando minhas costas lordosas, já cansadas e minha garganta queimada pelo álcool e pelos gritos durante a noite, em meio ao choro ensandecido de saudade.

Diziam que queimava, os goles gordos e tácitos atrás de um cachecol bordô. Mas aquela noite-dia, tão escura, com uma meia lua inchada, como se tivesse chorado por dias e dias atrás das nuvens, era apenas uma continuação daquela vontade de queimar a boca e a garganta e os olhos e os tudos. Mas ali estavam apenas cinzas e brasas a serem irrigadas pelo rum amargo e envelhecido. Presente de casamento.

Com uma mão os baixos, com um dos pés o pedal quebrado e com o dedo indicador, torto, quebrado por um oficial militar, junto aos lábios fico fazendo o sinal de silêncio, para tentar calar algo dentro de mim.

E na janela, com praticamente a mesma força de Atlas, bate o vento. Umedecido pela chuva gris daquele dia, perdida naquela hora. E da janela se ouve pouco mais que o nada. Ainda no piano, as mesmas débeis notas, arrastadas pelos magros dedos.

Seus belos cabelos loiros enfurnados, as mãos cruzadas ao peito. O vestido rosa forte rasgado e furado por pequenos insetos. No alto de seu céu terroso, onde os pássaros voam, a cruz de seu nome e o distante epitáfio que rogara-lhe, com tórrida avidez, o malvado’tempo.

“Com o toque de um anjo, retirada do mundo, com o sopro do vento, a saudade encardida. No inverno do amor, jaz aqui, a dona da estação perdida”

Tokyo



Parte I - A chegada em tokyo
Quando cheguei a Tokyo me senti muito bem. Por apenas cinco minutos. Instantaneamente fui golpeado por uma vontade de voltar para casa, de largar tudo que tinha pra fazer por ali – mesmo que isso não estivesse claro pra mim ainda, o que eu tinha para fazer – e voltar, o mais depressa possível. Até cheguei a andar em direção ao guichê da Ocean Air, mas havia uma densa camada de japoneses comprando passagens ali e, na hora me dei conta de que, onde quer que eu fosse, estaria cercado por eles. Não adiantava me esconder. Eu, Bertrand Beaureve estava ferrado.

Então aumentei o volume do meu rádio, enfiei o mais fundo que pude os meus fones de ouvido e andei em direção aos estranhos e monocromáticos táxis que ficavam ali fora do terminal onde eu estava.

Rodando um pouco pela cidade consegui me acalmar. Quando acendi o meu cigarro fui repreendido naquela língua estranha, ao menos acho que foi o que ele disse. Não que eu tenha dado muita importância, ou mesmo apagado o cigarro. Depois de cruzar algumas avenidas vi que o motorista se deu por vencido. Santa incomunicabilidade.

Entreguei para ele um cartão com o endereço do hotel em que pretendia me hospedar. O nome, rua, bairro, qualquer coisa naquele cartão era praticamente impronunciável.
Ele franziu o cenho ao ler e sacudiu a cabeça, falou por alguns minutos como se eu estivesse compreendendo tudo que ele estava dizendo.

Minha cara de babaca olhando a rua, as pessoas, os néons não o fez entender que eu não o compreendia desta vez.

Em algum momento da corrida comecei a responder coisas aleatórias para ele toda vez que se dirigia a mim. Ano em que meus times favoritos de esporte foram campeões, músicas dos Beatles que eu mais gostava. Capitais latino-americanas com nomes estranhos como Quito, Lima e Brasília.

Todo mundo que anda muito de táxi deve ter sua cota de estórias engraçadas pra contar. Motoristas turcos em Berlin. Motoristas sérvios na Ukrania, indianos em Nova York. Mas, certamente, japoneses no japão eram os campeões da estranhes.

Não demora muito para se dar conta de que Tokyo é um mundo aparte do resto do mundo.

Quando cheguei ao hotel pedi para o porteiro traduzir o valor da corrida, nem ele nem o taxista me entendiam. Dei trinta euros para ele e saí lentamente do carro. Devo ter perdido muito dinheiro. Ou, sei lá, saído barato. Não era uma preocupação no momento.

Ficaram os dois lá, discutindo com a nota européia na mão e me olhando.
Quarto 404. Em menos de quinze minutos já estava deitado na cama prestes a dormir. O relógio apontava duas da tarde.
Na minha cabeça, uma madruga ensolarada.

Me adaptar ao horário de Tokyo me tomou três ou quatro dias, já nem me lembro mais. Não acredito que seja a tarefa mais difícil e, talvez possa nomear cinco amigos meus que tenham feito a mesma viagem e se adaptado em menos tempo.

Mentira, só lembro de dois. Michel e Laszló.

O quarto era bastante pequeno, tinha uma cama, um frigobar, um pequeno televisor pregado no teto. O carpete era vermelho escuro. As paredes eram cor de creme. As cortinas eram brancas. Os marcos da porta e das janelas eram marrons quase pretos. Havia um enorme quadro com um kanji pintado, logo acima da cama.

De início foi ótimo. Pretendia sair o mínimo possível daquele quarto.

O televisor possuía apenas quatro canais. Esportes, notícias, novelas e sacanagem. Nenhum interessante. Esportes estranhos, notícias incompreensíveis, novelas de baixo orçamento e sacanagem pra pervertidos.

Desabafei olhando pela janela para o alto da cidade.

‘Melhor me acostumar com o silêncio distante disso aqui’.

Eu não era dono das melhores frases, ou de colocações interessantes sobre o mundo. Mas naquele momento decidi que mudaria isso, a começar por aquela simples frase, ia começar a esculpir algo diferente de mim mesmo. Me re-inventar.

Tarde demais talvez. Há quem pense que sim. Há quem pense que não. Há quem não pense coisa alguma, e esses, geralmente são as melhores companhias para um drink num bar de hotel.

Não foi o meu caso. Não queria descer e me socializar com ninguém. Queria meu silêncio ali.

Desliguei a luz e me deitei. Sorri um pouco e fiquei observando as sombras jogadas pra dentro do quarto, fortes pelas luzes da cidade. Tristes como só elas sabiam ser. Poesia à parte, estava tudo uma merda, não tinha muito prospecto de melhorar e eu estava há milhas e milhas de casa.

E assim se seguiu a minha primeira semana em Tokyo, a capital do Japão.

Parte II - Da dificuldade de se comprar cigarros
Eu levantei perto das seis da tarde naquela segunda-feira. Estranhamente de bom humor. Havia lido até alguma hora que não sei qual era, parte de um romance cubano.

Acredito ter sonhado a noite inteira com bares e canções latinas. Mulheres dançando e carros coloridos rodando ruas de chão batido.
Fiquei um bom tempo namorando no espelho os meus dentes amarelados. Eram bastante alinhados, mas, café desde os quinze e cigarros desde os dezoito fazem com que seus dentes fiquem assim quando chega aos trinta. Principalmente se você esquece de cuidar deles.

Pensei em telefonar para alguém, mas, não me vinha ninguém na cabeça. Poderia ligar um número qualquer e contar para o estranho ou estranha que atendesse sobre meus últimos dias ali em Tokyo, mas, nunca fui do tipo que fala. Se alguém procurar por mim em uma foto de grupo, nunca vai achar. Eu me misturo bem, só chamo atenção pelos dentes levemente amarelados, pelo físico magro e... Só.

Desci para a rua e fiquei zanzando por ali, sem prestar atenção nos nomes das placas ou a direção que ia. Devo ter andado em círculos algumas vezes, mas isso não importava. Meus cigarros tinham acabado há dois dias e eu não tinha conseguido comprar nem umzinho.

Muita gente vem ao Japão e reclama que é muito cheio de gente. Reclamam da comida, dos preços caros das coisas, da incompreensível obsessão por bonecas de olhos grandes vestidas de colegiais tomando o lugar das super-modelos nas propagadas de seja lá o que for.

Eu, por outro lado, reclamo da imensa dificuldade de se comprar cigarros.

Não os encontro em lugar nenhum, quando os encontro me deparo com pessoas que não falam nenhuma língua além do japonês e, além disso, com o péssimo habito de ficar sorrindo para o cliente mesmo que não o compreenda.

Devo ter andado algumas vezes por todo bairro onde estava, tentando gesticular das maneiras mais ridículas possíveis a minha vontade de conseguir um cigarro. Qualquer marca. Qualquer tipo. Até mentolados.

É isso que faz a abstinência de qualquer hábito. Nos faz ridículos perante uma cultura milenar.

‘Firipo Morisu’ eu falei para o garoto atrás do balcão. Tentando fazê-lo compreender o que eu queria. Ele começou a cantar uma música do The Doors. De Philip Morris para Jim Morrison em alguns segundos. Nada mal. Nada mal mesmo.

Sem cigarro algum, voltei para o hotel e tentei dormir. Minha surpresa foi ter conseguido. Devo ter apagado por um longo tempo, nem a fome me despertou. Nem a vontade de ir ao banheiro, nada. Absolutamente nada.

Com o passar do tempo a necessidade de fumar foi diminuído.
Quando descobri que tudo tinha que fazer era pedir por To-ba-co, já estava flertando com a idéia de parar de fumar e a crise de abstinência já tinha virado motivo de chacota interna do meu corpo.

Não, sem cigarros para mim desta vez. Nada como o choque cultural para destruir as artimanhas dos vícios urbanos.

Mas as andanças e voltas por Tokyo, dia, noite e madrugada, renderam muitos frutos. Alguns deles mais interessantes que outros.

Passei duas horas conversando com uma garota chilena que estava passeando com o namorado japonês. Tive uma discussão com um ex-boxeador americano que trabalhava em um cassino perto do meu hotel. Consegui comprar frutas de um vendedor de rua heptagenário que havia estado em Hiroshima. Depois de muita insistência consegui utilizar um banheiro público, cheio de botões e trancas e maçanetas. Mas nada, nada mesmo, foi mais interessante do que Miyu Ichigawa.

Parte III – Recordar é viver...
Preciso de alguns momentos pra recapitular as quatro primeiras vezes que encontrei Miyu Ichigawa.

Bar estranho e colorido. Zoológico vazio no dia de chuva. Cinema limpo quinta-feira de manhã e o seu Toyota no estacionamento da universidade.

Não foi necessário vê-la mais do que uma vez para me lembrar do que eu estava fazendo ali. Eu estava num processo complicado de encasulamento. Um processo tão complicado que tinha feito eu deixar meu emprego, amigos, família e tudo aquilo que a gente sempre deixa quando sai do país.

Mas, encontrar Miyu não foi como aqueles momentos de “redenção do homem quando encontra uma mulher”.

Foi mais o encontro de duas pessoas que tinham sobrado na seleção para os papeis principais das próprias vidas. Dois jovens adultos que ainda perdiam tempo com os mesmos questionamentos que decorrem toda a adolescência. Talvez nosso olhar tivesse entregue que, nem eu nem ela, tínhamos parado de pensar nas três coisas que todo mundo, com tempo demais livre no período da faculdade, pensa. A) Fome na áfrica e sua solução. B) Política interna do país e sua solução. C) O tão esperado revival do rock dos anos 90 e sua solução.

No fundo eu tinha razão nesse quisito.

Então, bar estranho e colorido. Eu estava escrevendo uma carta para um amigo que morava na Inglaterra, George Mill. Ele era um aficionado por futebol e uma ótima companhia para uma cerveja. Era, e ainda é, capaz de dar a escalação de todas as equipes do Arsenal, campeãs nas últimas décadas.
Além de reclamar pelos cotovelos de coisas como a mídia que a Rainha ganhava e as coisas que escreviam no The Sun.

Já era noitinha e eu estava tentando botar em palavras algumas questões importantes que me levaram à chegar ao Japão.

Meu pai recém havia morrido. Usei um pouco do dinheiro da herança para viajar o mundo. Mamãe tinha sua vida, nos víamos duas ou três vezes por ano. Ela não tinha ido ao enterro do velho. E só soube que eu estava no Japão por minha irmã, um pouco depois da minha saída.

Queria compartilhar com George minha perda, claro, ele adorava meu pai. Mas queria, talvez me sentir menos só naquele momento. Eu ainda achava a minha companhia a melhor do mundo, mas, estava ficando um pouco entediado, algo que não sentia desde a quarta série do primário.

Foi quando desci até a recepção do hotel para pedir para postarem a carta para mim, que fiquei pensando no que George falaria.

Possivelmente ele iria reclamar, dizer para mim sair, aí eu saí. Deixei a carta na recepção e, com um inglês elegantíssimo, o homem, baixo e com um bigode comprometedor, disse para não me preocupar que ele colocaria no correio pela manhã. Já era noite e não foi difícil achar um táxi que me levasse para algum lugar.
Lembrei do panfleto que uma garota de cabelo multicolorido tinha me entregue, na saída do metrô, no outro dia. Era sobre um lugar chamado Rain-Bow. Mostrei o papel para o taxista e deixei ele se virar.

Àquela altura, já estava acostumado com os táxis nipônicos.

Foi no bar que encontrei Miyu Ichigawa. Nos esbarramos uma vez na saída do banheiro, depois, casualmente, sentamos um do lado do outro no bar, já no fim da festa. Eu tinha uma fileira enorme de copos vazios, pequenos e vazios, na minha frente. Ela bebia algo que mais parecia um suco de laranja do que algo alcoólico.

Conversamos. Bastante. Não lembro o quê. Mas lembro que eu não calava a boca. Também lembro que ela não parava de rir, e que estava usando um vestidinho bege até o meio das coxas.

Zoológico vazio no dia de chuva. Eu não lembrava muito da noite anterior, e, só quando olhei para meu braço, no banheiro, vi que tinha anotado algo. Um pouco borrado, mas bastante legível ainda. “Zoológico municipal. 16h.” Era meio dia e meia.

Estava chovendo bastante, era um dia estranho, meio cinza meio esbranquiçado, não combinava com o colorido frenético de Tokyo. Resolvi almoçar num lugar “internacional” ali perto. Café Park.
Era um restaurante/café/bar de um Africano que tinha morado muito tempo em Barcelona.

Comi, rapidamente, depois de esperar quase quarenta minutos, um prato grande de massa-aos-vários queijos com uma pequena jarra de vinho. Edward era o nome do Moçambicano com cidadania espanhola. Seu sobrenome era impronunciável e computadores não tem os caracteres necessários para escrevê-los.

Ele era casado com uma italiana, chefe da cozinha ali, Mora Piavese, um encanto de pessoa, quando longe da cozinha, segundo ele mesmo.

A pequena fortuna paga pela refeição colaborou com meu desânimo, tomei um pouco de chuva até o metro e de lá para o zoológico foi como num piscar de olhos, talvez pela minha falta de atenção em coisa alguma, mesmo meus pensamentos, randômicos e dispersos.

No metrô uma senhora velha e gorda ocupou todos os bancos. Tive de ir em pé, ela ficava sorrindo pra mim, como se não tivesse se dado conta que estava tirando o meu lugar. Eu era a única pessoa que não estava sentada. Minhas feições ocidentais pareciam acentuadas dessa forma.

Miyu estava linda. Seu cabelo comprido delicadamente preso por um prendedor em forma de borboleta, aparentemente pintado à mão. Estava vestindo um jeans simples e uma camisa cinzenta de mangas longas.
Seu corpo esguio parecia mais gracioso ainda. Ela estava usando um perfume bastante leve, um pouco cítrico. Quando não se está bêbado, pode se perceber essas coisas, pensei comigo mesmo.

“Que bom que veio”. Disse ela quase miando.
“Eu não esqueci, capaz que iria esquecer”
“Ahhh, então porque pediu pra eu escrever nosso encontro no seu braço?”
“Queria ver sua caligrafia, de onde veio, dizem que mulheres boas de verdade, com coração bom, tem boa caligrafia”. Não que eu estivesse mentindo, só estava me esquivando de um embaraçoso rumo que a conversa poderia tomar.
“Ahhhh...”. Soou bastante admirada. Miyu falava pausadamente, podia entender perfeitamente seu ingleponês.

Ficamos andando por horas ali no zôo. Estava chovendo, e, como eu não tinha nenhum guarda-chuva, acabamos ficando sob o dela, rosa com desenhos brancos de flores.

Os silêncios eram gostosos. Ficávamos volta e meia quietos, procurando os animais escondidos, se protegendo da chuva. Ela carregava junto uma máquina fotográfica, queria tirar algumas fotos de animais fofos como pandas e zebras, só pra constar os monocromáticos. Mas acabamos tirando apenas fotos tolas de nós mesmos.

Paramos na frente de uma enorme girafa. O único animal que se importou de nos entreter.
“Tem outra coisa que se diz. Não sei até onde é verdade, mas, dizem que um bom filme só é revelado quando se tem, entre as fotos, uma cena de beijo”. Minha sutileza era imbatível, ao menos era o que eu pensava.

“Ninguém nunca me pediu um beijo assim...”

Lembro de ela ter ficado bastante vermelha.

Aí ela se aproximou do meu rosto e, bem, bem perto da minha boca, me disse.

“Ainda está no começo do rolo.”

E andou uns passos à minha frente, rindo baixinho, virando para trás e fazendo sinal para eu a acompanhar.

Me senti como se estivesse na pré-escola novamente, como essas crianças que se deslumbram e se intimidam com qualquer coisa que não faça parte do universo de seis ou sete coisas, de fato, que ela conhece.

A terceira vez que vi Miyu foi em um cinema numa quinta-feira de manhã. Eu não sabia que alguns cinemas, os mais undergrounds – ainda se usa essa palavra? Ou sou só eu? – da cidade tinham sessões estranhas pela manhã. Filmes B e C. Novelas brasileiras. Todo tipo de estranheza que pudesse ser mostrada na tela.

Naquele dia era o primeiro filme da Eva Green.
Nos sentamos no meio do cinema. Havia um mendigo no fundo, dormindo e roncando sonoramente, um casal gay mais ou menos na frente, trocando carícias mais ou menos íntimas, mas, não vulgares, ainda. E uma velhinha com traços ocidentais atrás de nós, duas fileiras distante.

Conversamos um pouco. Dessa vez eu não estava fedendo à cachorro molhado. E, até bem vestido estava. Um palito espinha-de-peixe e uma camisa azul de que gostava muito. Estava usando também meu chapéu da sorte.

“Sorria”

Disse Miyu, me assustando com o estouro do flash de sua câmera e tocando meus lábios rapidamente com os dela.

Lembro de ter olhado feio pra ela, bem feio. E mais feio ainda pra senhora atrás de nós, nos xingando em algo que parecia, ao mesmo tempo, turco, grego e russo.

“Não disse que para revelar bem o filme precisava de uma cena de beijo? Pronto, este filme está salvo.”

Fiquei atônito por alguns segundos bem longos. Ela ficou rindo, tinha a risada mais engraçada e doce do mundo. Mas minha cara pasma era de entristecer, eu realmente não estava entendendo o que estava acontecendo.

“Vamos, vamos ver o filme. Dizem que é muito bom.”

Então segurei a mão dela e toquei a ponta de seu nariz com o meu. Nossos lábios se encaixaram como se fossem duas metades separadas pelo tempo. Ou simplesmente sorte da anatomia divina. Tinha que pensar algo assim, e de fato pensei. Não queria que fosse só um beijo, então, toda metáfora, quanto mais patética melhor, era bem válida.

Não lembro de ter parado de beijar sua boca. Lembro do mendigo acordando e xingando o casal gay lá na frente. A velha se retirando no meio do filme. Mas, parar de beija-la, isso eu não me lembro.

Quando tomei coragem para repousar minha mão sobre seu seio, as luzes acenderam e de longe podia ouvir a rabeta do filme batendo no projetor. Mais uma vez pude ouvir aquele som maravilhoso que era a risada de Miyu Ichigawa.

A quarta vez foi alguns dias depois. Estava lendo uns livros na biblioteca da universidade e, ali no estacionamento, tínhamos marcado de nos encontrar mais tarde.

Dentro de seu Toyota, ficamos um bom tempo quietos. Ouvindo o barulho da rua abafado pelos vidros fechados. Miyu estava deprimida por algum motivo que nunca me falou. Talvez tivesse descoberto algo sobre mim que não gostava, ou estava arrependida de estar se envolvendo com um ocidental.
Ou, mais certo ainda, não tinha nada a ver comigo.

Queria lhe contar sobre as coisas que estava lendo, sobre coisas engraçadas. Mas seu rosto sério e triste me tirava toda vontade e coragem de qualquer coisa.

Ela ficou um longo tempo engatando marchas e girando o volante.

Uma parte de mim gostava bastante dela, era muito atraída por ela. Mas, outras só queria levar ela pra cama, terminar minha estadia no Japão e voltar para casa. E eu não ajudei muito quando disse...

“É melhor eu ir embora, não?”

Discutimos bastante, eu não estava entendendo bem, estava discutindo com uma mulher que eu mal conhecia, que mal me conhecia.

Do nada ela se calou, um pouco chorosa.

“Bertrand, me leva pro hotel.”

Eu não entendi, até hoje não entendi e fico sem ter como explicar pra mim mesmo, tarefa que sempre exijo pra tudo em minha vida, a não ser por essa exceção, que segundo Miyu, comprova a regra.

Parte IV – Os encantos perdidos em sorrisos tristes
Até hoje não sei como fiz para dirigir o Toyota de Miyu. Tinha o volante do outro lado e, rapidamente, tive de me adaptar às regras de trânsito japonesas.
Na marra.

Ela ficou calada o tempo todo, tentava sorrir pra mim, podia ver pelo espelhinho retrovisor. Mas, algo estava estranho ali, parecia exausta. Certamente tinha passado por algum conflito interno, dessa vez, por minha causa.

Quando chegamos no quarto ela se debruçou na janela, ficou olhando o início de noite e contando os andares. Quatro, demoradamente falou ela enquanto olhava com certa atenção para uma garrafa de vinho aberta que eu tinha esquecido na mesinha.

“Podemos beber um pouco?” Perguntou ela com uma cara triste.
“Se tu me explicar por que está com essa cara.” Respondi de forma bastante lacônica, como se as palavras resvalassem para fora de minha boca.

Bebemos. Mas ela não me explicou o que havia acontecido. Ao invés ficou contando coisas de sua infância e eu da minha. De como eu havia passado de um sorridente sonhador à uma mistura de economista e músico de quinta. Contei que queria ser jogador de futebol, marcar um gol pelo Olympic de Marseille e ganhar a copa dos campeões. Ela sorriu e disse que queria ter sido dançarina, ou cantora, mas, se contentava com a carreira como professora do primário.

“Deve gostar de crianças, eu não gosto muito.”

“Eu aprendi a gostar. Acho que veio com o tempo, durante a faculdade.”

Ficamos saboreando um longo tempo, deitados na cama, ainda de roupa e sapatos, aquele gosto amargo das coisas que gostaríamos de ser. Não estávamos bêbados, não havia vinho suficiente para isso, mas, tínhamos tirado um aroma de nós que, talvez, fosse o que estava nos incomodando no carro, na biblioteca.

Daí eu apaguei a luz do abajur. Expliquei que era uma palavra francesa, aliás, bem mais bonita do que lamp. Ou mesmo lampshade.

Ela gostava do meu sotaque francês, do meu inglês distinto. Falava as duas línguas fluentemente. Mamãe era francesa, papai era inglês, eu tinha nascido de emergência, num hospital do leste da europa e maninha havia nascido quando estávamos morando, temporariamente, na Espanha.

Demorei para ir lhe falando da minha vida e dessas coisas. A primeira coisa que lhe falei foi de papai. De como havia morrido. Mas nunca paramos muito pra falar nessas coisas. Não as minhas.

Fiquei um longo tempo olhando pra ela no escuro. Ela se levantou e foi até o banheiro, ficou um longo tempo lá dentro. Ouvi o barulho do chuveiro e, no meio daquilo tudo, ouvi sua linda voz cantarolando uma bossa nova, de João Gilberto – ao que mais tarde ela explicou o que era, quem era.

Tirei minha roupa, de pé, andando no quarto, fiquei apenas de cuecas. Boxers. Meu corpo não dava inveja a ninguém. Mas, não era nada mal também, pensando bem, era bem bom. Levando em consideração o abuso de nicotina, álcool e a falta de sono dos últimos quatro anos. Pelo menos eu tinha abandonado o açúcar refinado, de longe a pior das drogas. No meu mundo, é claro.

Liguei o rádio e procurei por algo que não sabia o que era. Nenhuma estação fazia sentido e as músicas eram basicamente ridículas. Puxei de um canto um disco do Elliot Smith e coloquei. Eu mesmo tinha gravado em casa, para emergências. Necessidades de me sentir triste ou acompanhar um trago. Ou naquele caso, uma doce garota.

O disco começava com um cover de close your eyes.

Miyu saiu do banheiro enrolada em uma toalha, já seca, cantarolando a música. Foi difícil vencer a vontade de chorar.

Eu havia tocado close your eyes uma vez, em um palco. Estava tocando a flauta transversa e Camille Pillet estava cantando, era o teatro Ilone D’brie. Estava tudo muito bem iluminado, o clima perfeito. Casa cheia. Eu era convidado de Camille para o fechamento da noite. Havíamos ensaiado exaustivamente, mas, a voz descompromissada de Miyu, andando em minha direção, tornava aquilo tudo, aquelas memórias maravilhosas, tão pouco, muito pouco perto daquela simplicidade minimalista.
Nunca contei para ela dessa minha aventura no teatro, nem de que um dia toquei flauta, mas isso nunca fez diferença na vida de ninguém. Coisas que ficam no passado, raramente, no meu mundo, tendem a voltar à tona ou ser relevantes. O que importava era aquela mulher na minha, guria ainda, na minha frente.

Um dia, talvez escrevesse parágrafos gordos sobre ela. Pensava isso, cogitava ao menos.

Não sabia como convidá-la para vir para a cama. E, enquanto confabulava comigo mesmo, manejava alguma palavra, fui surpreendido pelo som da toalha tocando o chão e aquele corpo nu vindo em minha direção, lentamente, sem saber seu destino, ou mesmo se importar com um ponto de chegada.

Toquei seus cabelos, me ajeitei ao seu lado. Miyu tinha o mais interessante e envolvente perfume. Era natural de seu corpo, eu acho. Sei que me envolvia, me castigava até. Era levemente doce, timidamente suave.

Ela não teimava em dizer alguma coisa, usava o silêncio e meu nervosismo a favor dela. As faixas do disco foram se sucedendo enquanto uma nuvem longa como um barco atravessava o céu, tapando a lua e deixando o quarto um bocado mais escuro.

Deslizei meus dedos pelo seu corpo, não conseguia pensar em outra coisa ou outra pessoa.
Queria ver seu corpo se contorcendo e seus dentes mordendo os lábios.

Timidamente ela beijou meus ombros e segurou minhas mãos. Fechava e abria os olhos sem ter muito critério para isso. Simplesmente fechava quando eu chegava mais perto de seu corpo, de sua barriga e de seus seios. E os abria novamente quando percebia minha boca longe dela.

Enquanto transávamos ela tentava cantar algumas partes das músicas. De início me surpreendi, pensando bem na situação. Mas, talvez, fosse esse tipo de coisa que mais sentia falta em todas as outras vezes que transei com alguém. Ninguém.

Lembro de ela ter dormido um tempo depois. E eu ali acordado. Levantei um pouco da cama, sem que ela acordasse, fiquei um bom tempo olhando pela janela.

Parte V – Irotobi
Tenho na minha carteira uma foto antiga. Minha de Miyu, bastante lavada e de baixo contraste, as partes escuras bastante enterradas e enegrecidas. Irotobi disse ela quando me entregou, o nome do efeito.

Por muito tempo sonhei com aquela noite. As músicas, o sangue nos lençóis. Os beijos intermitentes e carinhosos.

Minha estadia em Tokyo, até então, não tinha sido proveitosa o suficiente.
Continuava sem um rumo, com remorso do passado e sem perspectiva de olhar para frente. Mas estava dormindo com uma mulher bastante bela, interessante e diferente de todo mundo que tinha conhecido na vida.

Podia contar sua vida em cinco ou seis momentos, recortando as coisas mais significativas capazes de desenhar o todo, o grande todo, que havia por trás. Miyu me encantava dessa forma. E nas pequenas coisas, e em tudo.

Mas, ao mesmo tempo tinha vontade de partir. Havia algo em mim que eu não reconhecia direito, que era extremamente meu e, ao mesmo tempo, me parecia de outro mundo. Eu estava com passagem comprada, poderia ir embora a qualquer momento.

No meio da noite, sem conseguir dormir, ao contrário de Miyu, que parecia tão exausta que nada poderia lhe acordar, desci até o loby, andei pela rua e pedi um cigarro para um estranho.

Já não era mais um cigarro, era o tempo que precisava, longe dela para saber que sentia sua falta.

Amanhã vai ser outro dia


Me chamo Eliza Ramos-Salles. Quem bem me conhece pode me chamar de Liza. Quem não conhece não precisa conhecer. A princípio, sou assim, áspera. Alguém com câncer, um não muito destrutivo, mas, daqueles que não te dão a certeza de acordar no outro dia, não tem lá muito motivo pra ser simpática. Ainda mais as solteiras com quarenta e poucos. Eu inclusa.

Eu acordei triste. Como as manhãs anteriores, e as outras, e mais outras em uma longa seqüência que já se perdia de vista. Margarida, minha irmã mais nova, não muito, mas mais nova, estava fazendo café na cozinha, podia cheirar no ar aquele aroma familiar.

Dei bom dia enquanto escovava os dentes andando pela casa, ao que ela respondeu se lembrava que tinha uma surpresa para mim hoje. Não, eu não lembrava. Achava que era uma brincadeira de mau gosto, não se brinca lá muito com alguém morrendo, pelo menos era o que eu achava, ou queria achar.

Pensar na vida, nessas épocas, acaba sendo o único ofício. Eu não podia mais costurar, nem tinha mais vontade. Margarida era podre de rica, podia me sustentar, não seria por muito tempo. Sadicamente a lembrava com o mais cinco dos sorrisos possíveis. Quanto mais vezes por dia melhor.

À noitinha, depois de tomar um rápido e desleixado banho de gato, elas foram chegando. Uma por uma. A mulher que trabalhava no serviço público, sua amiga, a que trabalhava na feira. A mulher do delegado, a namorada do jardineiro. Todas com a mesma quase meia idade, medo da menopausa e trejeitos bastante constrangedores.

Estavam festejando algo, com comidinhas, bebidinhas, e todos os inhas que eu podia agüentar, afinal, estava morrendo e elas queriam, apenas, me alegrar um pouco. Empunhando seu papo chato, mesquinhez e fofocas diárias. Claro, nos cinco primeiros minutos a gente ri. Mas, depois, tudo que sobram são os rostos constrangidos.

Eu vestia uma bandana preta, tinha perdido todo cabelo e pelos no processo. Mas, não estava parecendo um rato. Ou uma rata. Tinha pego sol durante a semana, mesmo contra a opinião médica, ao que simplesmente respondi “O que pior pode acontecer?”

Não preciso dizer que ele não gostou muito.

Mas, claro. Não se brinca com câncer. Não se faz dele um motivo de risadas bobas nem nada. Mas, o que fazer além de rir de mim mesma e aproveitar o resto? Quando nada mais pode ser feito?

Mas eu estava em um bom dia. Para alegrar elas, lembrei-as de que eu era a vítima, de que tinham de sentir pena de mim. Fiquei contando histórias de como o meu cabelo havia caído pouco a pouco, chumaços por todos os lados, pelos pela cozinha.
O tipo de coisa que elas queriam ouvir, para temer e assim atingir a catarse desses sentimentos. Sentindo pena de mim pelo que havia acontecido elas achavam que estavam espiritualmente livres de qualquer remorso moral. No fundo estavam certas, e, se eu estivesse no lugar delas, era a primeira a fazer isso.

“Vamos lá animar a pobre Liza, vamos.”

Quando todas já haviam ido embora, eu tinha de limpar tudo, claro, isso eu podia. E me deparei com um estranho cartão com um telefone, colocado na minha bolsa, que estava por ali.

De início eu não dei bola. Com tudo arrumado, fui ver tevê na sala. Mas logo desisti. Estava curiosa demais para saber o que era.

Claro que eu liguei.

E, depois de muito tempo, sorri. Sorri quando abri a porta e disse que aquele distinto rapaz podia entrar, e, que tinha sido difícil de conseguir seu telefone. Ao que ele retribuiu com um sorriso.

Quando saiu tive de pegar dinheiro da carteira da Margarida para pagá-lo.

Ingrid...


Como quem deita sobre a mesa verde a primeira mão vencedora de uma noite de pôquer, deitei Ingrid no sofá, cuidando para que seu rosto repousasse sobre um solitário travesseiro de veludo que tinha por ali. Ela fechou então os olhos e eu acariciei sua saia como se fosse sua pele, movi parte de sua calcinha para junto da virilha e me acomodei ao seu lado.

Eu ia morrer. Isso era fato. Queria este clímax para minha própria história. Eu não tinha câncer. Nem tinha feito fortunas publicando jovens escritores. O pouco dinheiro que tinha, sem pagar as dívidas à Boris e Schnitz, tinha perdido em um cassino na América do Sul. Elizabet havia me abandonado em 1958. Voltado para mim em 1961. E, por fim, me abandonado definitivamente no outono daquele mesmo ano.

Os gemidos de Ingrid me deprimiam. Eram incompreensíveis, queria mandar que se calsse, mas, tudo que via em meus lábios eram algumas mentiras disfarçadas de paixão. Pouca atenção prestava nelas, perdia mais seu tempo se contorcendo e apertando as mãos no meu peito, estragando uma cara camisa de linho.

Dias depois ela saberia de minha morte, mas, não saberia como reagir. Permaneceria ocupada com seus poemas medíocres e suas aulas no colégio para crianças com necessidades especiais. No final do ano, venceria um concurso de poesia municipal e dedicaria a mim a sua vitória, da maneira mais silenciosa possível.

Seu corpo se estremesse e sua boca, junto à minha, pronuncia o mais alto e estranho grito de satisfação. Minhas mãos seguram firmes seus seios, flácidos, pequenos e amassados entre os vãos dos meus dedos. Antes que pudesse perceber estávamos dormindo.

Foi no seu quarto aniversário que Ingrid descobriu que era muda. Que levaria uma vida diferente da de todo mundo, mas, enquanto seus pais se escorçassem, fariam tudo para que ela não sentisse essa diferença. E sucederiam muito nisso, até que ela me encontrasse, já uma jovem adulta, e a fizesse perceber que não podia gritar como queria, como seu corpo pedia, ou mesmo sua alma, como escreveria mais tarde em um poema longo de quatrocentas linhas.

Com a vulgaridade necessária, descobri que era virgem. Que tinha me procurado por interesse de aprender a escrever um poema direito. Era linda, doce e a melhor maneira de me despedir de algo que não me importava muito, minha vida. Horas depois meu canivete romeno estava no meu estômago, e ela, sonhando comigo.

Patético como eu queria. Melodramático como necessitava ser. Quase podia ver um coro de mulheres grandes, gordas e negras cantando Amazing Grace. Lutara minha vida inteira contra os clichês e as simplicidades mundanas da vida, só então para me dar conta de que aquilo que mais lutava contra era o que mais desejava. Como uma cena de beijo em fim de filme, como pipoca no cinema, risada de criança em circo de quinta categoria, grito de gol em final de campeonato, sorriso nervoso em vitória eleitoral, página rasgada em álbum morto, cruz virada em túmulo de comunista, dente de leite embaixo do travesseiro, óculos de armação grossa em rosto de professora novinha, garrafa de vinho na mesa italiana, uísque na mão do mal’amado, vento forte na beira da praia, especialmente no fim de tarde, noiva chorosa em igreja fofoqueira, cozinha suja em apartamento de solteiro, gira-sol amarelo no quarto de um poeta frustrado. E tudo mais aquilo que faz a vida ser como é e adoramos, mesmo odiando às quartas e sextas pela tardinha.

Você viu as cataratas do Niagara?
Eu vi água. É água, é só o que é.
A china, viu a grande parede?
Todas as paredes são grandes se o teto não cai.

Eu vi toda a luz do mundo, em uma faisca por aí.(Bjork)

Bem Vindos

Esta é a terceira versão da revista eletrônica sobre
literatura chamada High and Dry (sim, por causa
da música do Radiohead).

Aproveitem.

El Editor.