quarta-feira, 9 de abril de 2008

Como se fosse cereja...


Jezebel senta num canto da sala, apesar de ajeitar no chão seu vestido preto curtinho com muito zelo, não dá bola para a alça que cai do ombro, revelando o topo do seio. Ela sorri para a janela e para a noite de céu fechado, e bem como os pingos de chuva que caem aleatórios, de seu rosto caem algumas lágrimas. Ela sorri chorando, como sempre disse que faria sempre que pensasse nele, como uma boa menina apaixonada cheia de promessas, mentiras e elogios. O olho azul escondido entre os cílios e o rímel pouco se difere da lua azulada por holofotes de um hotel ali perto. Um canto de apartamento, um pedaço de lua, lágrimas e promessas quebradas, o cuidadosamente decorado universo de Jezebel.

De um abajur em pedestal baixo vem uma luz verde e forte que banha toda a sala, o silêncio é impecável, dispersado apenas pelo bater da chuva no vidro da janela, tirando a atenção da menina de vestido no chão, enquanto ela arranca pedaços de papel de parede e olha para uma foto dela com um menino, no alto de uma estante de livros e fotos em preto e branco de pessoas estranhas. Ela gosta de tirar fotos de estranhos na rua, mendigos, velhas senhoras, homens elegantes, cachorros. E ela gosta do menino na foto no porta-retratos mais alto.

Jezebel tem as mãos molhadas, um pouco de chuva, um pouco de lágrimas. No chão, junto com o vestido, caem tiras e pedaços de papel simples e azul, revelando partes machucadas de uma parede velha e amarelada, de madeira e com vários buracos de cupim. Os buracos são como se fossem machucados, marcas propositais, deixadas por alguém, como se precisassem estar lá, para serem lembrados, para remeter a algo.

No centro da sala um tripé solitário segura uma tela em branco, de papel macio e sedoso, com uma textura de veludo, esverdeado por causa do abajur. Perto dele alguns potinhos de tinta e pincéis. A chuva aumenta, o vento também. As cortinas roxas dançam um balé imaginário, coreografias sincronizadas de cada lado de uma janela aberta e chorosa. Balançam em uma mistura de ritmos frenéticos e suaves, tocando o chão e o teto, por vezes os dois ao mesmo tempo. Dançando como Jezebel e o menino jamais dançaram, como jamais quiseram, mas, sempre sentiram falta. O jacquard felpudo da cortina derruba um dos potinhos de tinta, e ela escorre pelo chão até tocar os dedos de Jezebel, que, enquanto aumentam as lágrimas, troca seu olhar de tristeza por um de ansiedade, se levanta e anda de um lado para o outro.

Tinta voa pela tela, sem analogias com pássaros, ou com liberdade, apenas voa pela tela, marcando e misturando, criando algo em cima do que já era, movimentos perdidos e interrompidos, violentos de natureza mas de resultado suave, até que um vaso quebra, a cortina bate, e ele cai, nunca fora do tipo distraída, até aquele momento. Ninguém poderia explicar aquilo para ela, o que era sua respiração ofegante, o que eram as manchas na tela, aqueles cacos no chão trouxeram calmaria, no lado de fora a crescente tempestade cessara.

De um salto o que era sol virou nublado, o que era nublado virou chuva, chuva tempestade e de tempestade o silêncio.
E Jezebel parada, de frente pro quadro, alça caída e unhas dos pés pintadas de preto, uma correntinha no tornozelo direito. O som das cortinas parando de dançar faz coro com duas batidas na porta. Na correntinha diz “cereja”.

Do outro lado da porta o menino da foto escora uma mão e diz “Sou eu”, como se a familiaridade da voz fosse o suficiente, se transformasse em uma chave. O silencio repousa sobre todos os objetos como um lençol jogado com desdém sobre uma poltrona feia.
“Eu voltei” diz ele, pingando, embrulhado em uma jaqueta de couro. Jezebel senta sobre os joelhos, tapa a boca, tapa os olhos, tapa o peito, tapa os ouvidos e quando se dá conta de que não poderia tapar todos ao mesmo tempo engatinha até a porta e senta de costas pra ela. Do outro lado o menino escorrega pela porta e senta de costas também. Jezebel brinca com a correntinha do tornozelo e ele acende um cigarro.

Delicadamente ela quebra o silêncio. “Não gosto quando tu fuma”, dito com simplicidade, beirando um mio de gato pequeno. “Só fumo quando estou triste, quando tenho saudade” intercalando uma frase com uma tragada de cigarro. “Eu não mandei você ir embora...” ela fala brincando com a correntinha, mas com mais firmeza na voz.

Ele hesita por um par de segundos e com a respiração pesada e o cigarro queimando nos dedos ele diz, “Acho que gosto de ti”. Jezebel tira a correntinha de um tornozelo e põe no outro, depois de reunir força pergunta, “Acha? Quando vai saber?”. Prontamente ele responde enquanto acaricia a porta como se fossem as costas dela, “Quando o frio desaparecer... Lembra?”

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