
Mauro amava Elza. Elza amava Mauro. Até onde ele especulava. Quarenta e oito minutos. São Leopoldo até Porto Alegre. A porcaria do trem lotado. Ele estava feliz, havia preparado uma surpresa para ela. Algo que, na cabeça dele, a faria se apaixonar perdidamente. Se não fosse quem fosse, se não fosse Ela. Elza, do beijo magnífico, sem muita língua, mas com a boca toda, as mãos perdidas procurando um lugar, um ninho, uma pousada em qualquer canto das costas, da cintura.
Mesmo com o trem chacoalhando, tentou escrever um poema no caderno. Puxou com cuidado de dentro da mochila uma caneta, e virou algumas páginas procurando por algum lugar em branco para escrever, ou mesmo um lugar rabiscado, onde pudesse escrever por cima. Algo confessional, lúgubre. Palavras soltas tentando traduzir aquela sensação de estrada sem volta. O adolescente sentimento, ou impressão, de ter trocado a saúde física e emocional por lampejos de criatividade que não o levaria à lugar algum. Ao menos é o que seu pai dizia, nos jantares de quinta-feira principalmente, enquanto ambos comem em silêncio a comida feita pela irmã.
Deixou o poema de lado, ficou deslumbrado ao reconhecer a canção que os alto-falantes do trem estavam jorrando – My Way, Frank Sinatra – cantou junto. Sozinho na verdade. Não passava de uma versão orquestrada, um arranjo que lembrava algo do Benny Goodman – que na verdade se chamava Benjamin – da época do sexteto.
”Farrapos” anunciava o maquinista – Era assim que chamavam eles ainda? As pessoas que dirigiam o trem?. Então abriu a mochila e verificou mais uma vez o presente. Um sutiã preto, com laços roxos no topo de cada bojo e um no meio, entre os dois. Junto, preso por um clips, seis páginas rasgadas, tiradas de um livro de contos do autor favorito. O esquerdo, gostava mais do seio esquerdo, sempre tivera essa impressão mesmo quando nunca os tinha visto.
Mas era Elza. Colocaria o sutiã, reclamaria de como apertavam-lhe os seios – ao que ele mentalmente retrucaria “quem mandou ter peitos tão grandes” – e o agradeceria com uma trepada fria, enquanto as páginas se deixariam amarelar em algum canto da bagunça elegante e distinta que era a escrivaninha dela.
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