segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ninguém



Eu aperto os cacos de vidro com a mão. Os fecho em um punho cerrado que logo se tinge de vermelho. As gotas caem por cima da mesa, do cinzeiro, no pé da taça de vinho vazia. No meu rosto, o mais débil dos sorrisos, a mais inocente das criancices. Eu te olho na foto, velha, tu e a foto, velhas. A mão começando a arder e os pequenos cacos furando a pele, alguns se aninhando dentro da palma da minha mão.

Pra que fazer isso, tu pensa, como tu é exagerado! Tu não tem nem um dos dois pés no chão, tu merecia uma cadeira de rodas, só pra ti ver como é, realmente, não ter nenhum dos pés no chão. “Quando eu ando de avião, eu me sinto em casa” eu fico dizendo, só pra mexer contigo, de como sou sonhador, e de como isso é a única coisa que me mantém vivo, os sonhos acordados. O gosto de jasmim que o meu sangue tem. Claro que eu dou umas lambidas nas pequenas feridas da minha mão. Eu já não preciso dos cacos, eu deixo eles fazendo companhia pra nossa aliança. Tu sabia que a gente usa aliança no dedo anular esquerdo porque os romanos descobriam que tinha ali, no dedo, uma veia que ia até o coração? E eu não tinha te dito que eu tinha te dado o meu coração?

Eu quero ele de volta. Eu preciso dele agora.

Eu também preciso que tu venha pegar teus livros, que traga o meu isqueiro que eu deixei na tua bolsa, e me livre dessa foto tua, tão feia, com o cabelo desgrenhado e uma barriga horrível. Tu nunca devia ter engordado, tu fica presunçosa fora do peso. Parece tão melhor do que tu realmente é. Na verdade tu não presta. E tu foi embora. Esse foi teu único pecado. Não que a gente não tivesse a nossa coleção de pecados coletivos, comuns, cúmplices, mas, o teu grande pecado, aquele que vai te mandar direto pro inferno, foi ter ido embora, assim, de manhã, sem esperar eu acordar. Tudo bem, trepar com as malas prontas, pular em cima de mim rindo da minha cara enquanto eu, chorando feito uma criança, implorava pra tu ficar. Isso acontece, isso te excita, a minha indigna submissão te excitou do início ao fim.

Não precisa voltar tão cedo. Pode ficar um bom tempo longe, curtindo umas férias no Caribe, na Jamaica, na puta que te pariu. Mas no fundo eu preciso que tu fique longe de mim. Já não me basta nada, nada que venha de ti. A não ser o meu isqueiro, que ficou na tua bolsa. E meus livros que tão na tua casa.

E o gato.

Tu tem que levar o gato. Eu sou infantil. Eu não tenho condição de criar um gato. Eles se criam sozinhos, tu vem e diz sempre, mas, ele não me ouve. Juro que ele não me ouve e ainda debocha da minha cara, subindo na poltrona e lambendo o rabo. Leva o gato, dá ele pra tua mãe. Pelo menos alguém tem que fazer companhia pra ela.

Vem, me traz minhas coisas, leva as tuas e deixa o chá. Eu que comprei, lá em rivera. Era pra nós tomarmos, depois de trepar, mas tu não gosta de chá. Tu não gosta de nada. Nem de trepar. Só quando ninguém na rua te quer, o que é quase sempre. Ninguém te quer, e nunca vai te querer.

Mas eu preciso que tu venha resolver isso tudo, antes que eu termine com essa garrafa de vinho, e essa foto horrível tua fique realmente manchada com gotinhas de sangue. Vê, como no fundo só eu preciso de ti?

Heloísa




“Tu tá sozinha?”
“Tô... O que tu quer me ligando essa hora?”
“Só me escuta...”

Enquanto despejei nela tudo o que tinha tirado o meu sono, liguei o fogão e coloquei a chaleira com água para esquentar. Acendi um cigarro e encostei minhas costas nuas e suadas no marco da porta. O cheiro de grama cortada estava forte, o orvalho da noite deve ter provocado isso. É o tipo de coisa que eu fico prestando atenção enquanto tiro ela da cama, com uma ligação, com um monte de porcaria sussurrada. Um monte de mentira que nem eu acreditava. Eu precisava daquilo. Ela de uma noite de sono. Claro que ela precisava dormir. Quatro horas e meia de avião? Um bom tempo no terminal? Mas pra mim não interessava.

“...Tu tá em outro fuso-horário?” Óbvio que ela tava. Eu só precisava da confirmação oral.

Queria mostrar pra ela que eu estava arrependido. Que o julgamento tinha consumido tudo de mim. Claro que eu era inocente. Eu sabia disso, o meu advogado sabia, o juíza sabia, o júri sabia. Mas pra ela não importava. Eu tinha herdado a culpa dela, junto com o casal de cachorros, um par de labradores, o Mouro e a Palestina. Isso e a merda do perfume dela que ela tinha jogado na parede do quarto. E que ainda fedia lá. Não.

Eu não tinha motivo algum para jogar tudo aquilo na cara dela. Nem pra dizer que ainda morro de medo de me cortar em algum pedaço de vidro do perfume. A idéia de me cortar e ficar com um corte infeccionado, impregnado do cheiro que ela usava pra tapear o suor desgastante do verão, simplesmente me dava asco. Tive que me controlar. Queria gritar que ela me dava asco. Asco! ASCO!

“...Espera um segundo, eu tô esquentando água.” A água fervendo, gritando no ar.

Eu não ia fazer chá, nem passar café, só achei que olhar a chaleira fumegante era bonito. Entre e a insônia e a angustia, decidi que precisava de algo bonito, já que ela não estava lá, mesmo já estando feia. Cabelo loiro. Nunca foi loira, inventou de ser loira. Mentiu o amarelo nos cabelos pra si mesma e conseguiu acreditar, ao contrário de mim. Velha. Acha que ainda pode ter filhos? Com quarenta e nove anos. Ela realmente achava que podia ter filhos ainda. Me sugar na cama diariamente era o caminho para a maternidade. Mesmo eu sendo um brocha, uma porcaria de amante, uma péssima companhia para dividir um colchão, uma coberta no inverno.

“Eu pintei o cabelo de castanho... de novo.” Ela disse, com o maior desinteresse do mundo. Como quem quer terminar uma conversa com um novo tópico para a próxima vez que nos encontrássemos.

“Como eu faço pra dormir?” Perguntei esperando a maior resposta do mundo. Algo bíblico, já sentado no chão, esperando o suspiro desesperado da angústia fazer coro com a chaleira.

“Fecha os olhos e torce pra que tu não consiga sonhar. Dorme do outro lado da cama.”

Como se a cama tivesse um lado que não era meu nem dela. Nem de ninguém.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

3 segundos antes de amar - (repostagem)





O som da respiração dele é forte e barulhento, seu rosto tem pingos de suor por todos os cantos, perto da boca, em cima do lábio. Ele me olha assustado, com olhos de remorso e medo, as mãos paralelas ao rosto, deitado naquela cama, com mais lembranças nossas do que de muitas outras meninas que estiveram ali. O quarto fede a maconha de má qualidade. Insuportável, mas, que garota apaixonada não faz vista grossa pra essas coisas? Ele sempre fuma depois de me "ver".

Devagar eu vou subindo, me ajeitando em cima do abdômen dele. Minha mini-saia xadrez cai devagar sobre o peito dele, ao mesmo tempo, sobe pela minha coxa, revelando um pedaço da minha calcinha branca. Minha blusa se pendura nos meus seios e nos meus ombros por apenas um botão. As pontas loiras do meu cabelo vermelho caem sobre meu rosto, que, estaria sério, se não fosse o cheiro de homem com medo, um aroma que me faz sorrir com o canto da boca. Foi enquanto olhava pra ele que tive a primeira seqüência de lembranças. De como nos conhecemos. Uma memória teimosa, mas, com os dias contados. Era convidativo saborear ela ali.

Eu trabalhava em um café, um desses quase chiques, com um par de computadores para as pessoas usarem, tinha uma decoração meio rústica, era com paredes alaranjadas e madeiras em mogno. João sempre ia lá as quintas à tarde, sentava sempre numa mesa diferente, mas, geralmente perto do rádio que, contra a vontade da dona, tocava algum jazz antigo que só eu ouvia. Mas só depois eu fui gratamente descobrir que era esse lixo cultural que nos juntava. Cultura dos anos 60 misturada com as bobagens novas de hoje em dia. João sempre me olhava, eu fingia que não via, e ele fingia que não sabia. Suas pilhas de livros e seus olhos escuros, seu jeans surrado e suas anotações fictícias para desviar o olhar de mim. Muito atraente. Mas, uma pena, depois da época de paquera silenciosa no café, eu jamais iria ver aquele João novamente.

Sacudo minha cabeça pra voltar à mim mesma. Começar o longo e tedioso processo de me desapegar daquelas lembranças. Eu tento me lembrar do único propósito que me faz voltar àquele apartamento, mesmo cheia de angústia e, para minha surpresa, sem a mínima ponta de arrependimento. Organizei os meus pensamentos e me concentrei no triângulo amoroso que estava se formando logo ali, naquele momento. Eu. João. E o revolver do meu irmão. Quem disse mesmo que ter um irmão bandido não tinha um lado positivo? O tempo se arrasta de um jeito saboroso. De algum modo eu estava comprando minha liberdade com um crime, mas, quando se está falando da liberdade da alma, qualquer cela de três por três metros, que vem de brinde com isso, parece gigante. Um preço extremamente razoável a se pagar. Eu não queria mais ser uma bonequinha para ele. Eu tenho amor por mim mesma. Entre um suspiro e outro, uma batida e outra do meu coração, tive outra seqüência de lembranças. Um segundo flashback, este sobre o dia em que as coisas mudaram de rumo, onde o conto de fadas ganhou um clima noir.

O vento batia forte e esvoaçava meu cabelo, tinha demorado horas pra arrumar, mas, valia a pena, tudo por ele valia a pena. Tínhamos marcado no parapeito da Usina. Era um dia cinza de agosto, um friozinho gostoso, mais porto-alegrês impossível. Eu fiquei me debruçando, pendurando boa parte do corpo pra fora da mureta até sentir ele me abraçar e com um singelo olhar e um tímido miado dizer "oi amor". Ele passeava a mão com nosso anel de prata pela minha roupa, e, delicadamente brincava com a minha mão.
Fazia isso enquanto discursava sobre algum poeta do início do século. Dizia que me amava entre uma história e outra, e comparava nosso romance a todos os épicos amorosos possíveis. Mais tarde, ainda naquele dia, o sorriso dele foi amarelando, e devagar ele foi ficando mais distante, um pouco arisco, sem motivo nenhum, simplesmente, de um momento para o outro, as coisas viraram o contrário do que eram. Ficou irritantemente quieto. Começou a falar de outras pessoas com quem ele estava tendo aulas, novas modelos com quem estava trabalhando. Livros que tinha sido apresentado por alguma menina do curso de letras.

Aquela última seqüência de lembranças era o ponto final. Minhas feições começaram a mudar, se tornando mais duras, o corpo começando a tremer um pouco. Eu não queria morrer, a saída fácil nunca era a minha favorita, eu queria que tudo acabasse, queria de volta todo amor que "perdi". Meus sorrisos, minhas alegrias, queria tudo. Até os sonhos bobos e os planos grandiosos de vivermos juntos. Pra mim é muito fácil culpar ele, ninguém é usada a troco de nada, claro que, em algum momento, eu tinha me colocado à disposição pra ele fazer o que quisesse comigo. Mas, isso é um pecado ingênuo. Nas regras do jogo, esse tipo de pecado não conta.

Eu saí do quarto e peguei um ônibus. Fiquei lendo "entre quatro paredes", do Sartre. Dali pra frente era um novo começo, eu e o livro. O resto do que eu sentia se misturou com o vermelho espirrado na cama.


(2005)