
“Tu tá sozinha?”
“Tô... O que tu quer me ligando essa hora?”
“Só me escuta...”
Enquanto despejei nela tudo o que tinha tirado o meu sono, liguei o fogão e coloquei a chaleira com água para esquentar. Acendi um cigarro e encostei minhas costas nuas e suadas no marco da porta. O cheiro de grama cortada estava forte, o orvalho da noite deve ter provocado isso. É o tipo de coisa que eu fico prestando atenção enquanto tiro ela da cama, com uma ligação, com um monte de porcaria sussurrada. Um monte de mentira que nem eu acreditava. Eu precisava daquilo. Ela de uma noite de sono. Claro que ela precisava dormir. Quatro horas e meia de avião? Um bom tempo no terminal? Mas pra mim não interessava.
“...Tu tá em outro fuso-horário?” Óbvio que ela tava. Eu só precisava da confirmação oral.
Queria mostrar pra ela que eu estava arrependido. Que o julgamento tinha consumido tudo de mim. Claro que eu era inocente. Eu sabia disso, o meu advogado sabia, o juíza sabia, o júri sabia. Mas pra ela não importava. Eu tinha herdado a culpa dela, junto com o casal de cachorros, um par de labradores, o Mouro e a Palestina. Isso e a merda do perfume dela que ela tinha jogado na parede do quarto. E que ainda fedia lá. Não.
Eu não tinha motivo algum para jogar tudo aquilo na cara dela. Nem pra dizer que ainda morro de medo de me cortar em algum pedaço de vidro do perfume. A idéia de me cortar e ficar com um corte infeccionado, impregnado do cheiro que ela usava pra tapear o suor desgastante do verão, simplesmente me dava asco. Tive que me controlar. Queria gritar que ela me dava asco. Asco! ASCO!
“...Espera um segundo, eu tô esquentando água.” A água fervendo, gritando no ar.
Eu não ia fazer chá, nem passar café, só achei que olhar a chaleira fumegante era bonito. Entre e a insônia e a angustia, decidi que precisava de algo bonito, já que ela não estava lá, mesmo já estando feia. Cabelo loiro. Nunca foi loira, inventou de ser loira. Mentiu o amarelo nos cabelos pra si mesma e conseguiu acreditar, ao contrário de mim. Velha. Acha que ainda pode ter filhos? Com quarenta e nove anos. Ela realmente achava que podia ter filhos ainda. Me sugar na cama diariamente era o caminho para a maternidade. Mesmo eu sendo um brocha, uma porcaria de amante, uma péssima companhia para dividir um colchão, uma coberta no inverno.
“Eu pintei o cabelo de castanho... de novo.” Ela disse, com o maior desinteresse do mundo. Como quem quer terminar uma conversa com um novo tópico para a próxima vez que nos encontrássemos.
“Como eu faço pra dormir?” Perguntei esperando a maior resposta do mundo. Algo bíblico, já sentado no chão, esperando o suspiro desesperado da angústia fazer coro com a chaleira.
“Fecha os olhos e torce pra que tu não consiga sonhar. Dorme do outro lado da cama.”
Como se a cama tivesse um lado que não era meu nem dela. Nem de ninguém.
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