quinta-feira, 24 de abril de 2008

Tom e o pó de estrela

“Lembrei. Lembrei da Jaqueline, da Sandra, da Talita e da Laura. Por um instante pude dar nome ao gosto de cada uma, melhor que isso: Escondi no meu quarto a calcinha delas. Noites de solidão, meu rosto afogado na seda, lycra, algodão de uma noite com duas semanas de prazo de validade vencido. Mas que o presente já se fez futuro, entende, o que eu to falando? Sempre que me masturbo pensando em alguma delas acontece isso. Vícios, uma cara trota, um pudim de cachaça e todo o sono que a bebedeira pode nos brindar. Sacou? Bebedeira. Brindar. E todas essas obviedades que fazem nosso dia-a-dia palatável. Um, se tivesse que escolher um beijo... (uma pausa dinâmica e enfática.) Seira o da Lia. Claro que esse maço de cigarros e o uísque me ajudam a admitir isso. Não, não vou me lembrar amanhã, não preciso, não vai me dizer nada. Um breve silêncio...... Ina, que mulher deslumbrante, por duas semanas guardei a calcinha dela na fronha do meu travesseiro. Duas porcarias de semanas. Mas era uma mala, uma bobinha.”

O ouvi com atenção, rodeando minha aliança no dedo. Bebericando do copo entre uma frase e outra. Fiz o sinal de que deveria ir embora e pensei se deveria deixar meu moletom ali, sei que ele não levantaria da rede nem pra abrir a porta para mim. Acabaria dormindo ao relento, mas havia ainda meia garrafa, e todas as viagens no tempo que alguém bêbado consegue ter, tempo, espaço, um gato preto olhando do 504, no prédio da frente. Tom tinha toda a companhia de que precisava. Por uma noite me convenceu de que a memória era toda a viagem no tempo de que ele precisava.



Para Tom Saavedra

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