segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Tokyo



Parte I - A chegada em tokyo
Quando cheguei a Tokyo me senti muito bem. Por apenas cinco minutos. Instantaneamente fui golpeado por uma vontade de voltar para casa, de largar tudo que tinha pra fazer por ali – mesmo que isso não estivesse claro pra mim ainda, o que eu tinha para fazer – e voltar, o mais depressa possível. Até cheguei a andar em direção ao guichê da Ocean Air, mas havia uma densa camada de japoneses comprando passagens ali e, na hora me dei conta de que, onde quer que eu fosse, estaria cercado por eles. Não adiantava me esconder. Eu, Bertrand Beaureve estava ferrado.

Então aumentei o volume do meu rádio, enfiei o mais fundo que pude os meus fones de ouvido e andei em direção aos estranhos e monocromáticos táxis que ficavam ali fora do terminal onde eu estava.

Rodando um pouco pela cidade consegui me acalmar. Quando acendi o meu cigarro fui repreendido naquela língua estranha, ao menos acho que foi o que ele disse. Não que eu tenha dado muita importância, ou mesmo apagado o cigarro. Depois de cruzar algumas avenidas vi que o motorista se deu por vencido. Santa incomunicabilidade.

Entreguei para ele um cartão com o endereço do hotel em que pretendia me hospedar. O nome, rua, bairro, qualquer coisa naquele cartão era praticamente impronunciável.
Ele franziu o cenho ao ler e sacudiu a cabeça, falou por alguns minutos como se eu estivesse compreendendo tudo que ele estava dizendo.

Minha cara de babaca olhando a rua, as pessoas, os néons não o fez entender que eu não o compreendia desta vez.

Em algum momento da corrida comecei a responder coisas aleatórias para ele toda vez que se dirigia a mim. Ano em que meus times favoritos de esporte foram campeões, músicas dos Beatles que eu mais gostava. Capitais latino-americanas com nomes estranhos como Quito, Lima e Brasília.

Todo mundo que anda muito de táxi deve ter sua cota de estórias engraçadas pra contar. Motoristas turcos em Berlin. Motoristas sérvios na Ukrania, indianos em Nova York. Mas, certamente, japoneses no japão eram os campeões da estranhes.

Não demora muito para se dar conta de que Tokyo é um mundo aparte do resto do mundo.

Quando cheguei ao hotel pedi para o porteiro traduzir o valor da corrida, nem ele nem o taxista me entendiam. Dei trinta euros para ele e saí lentamente do carro. Devo ter perdido muito dinheiro. Ou, sei lá, saído barato. Não era uma preocupação no momento.

Ficaram os dois lá, discutindo com a nota européia na mão e me olhando.
Quarto 404. Em menos de quinze minutos já estava deitado na cama prestes a dormir. O relógio apontava duas da tarde.
Na minha cabeça, uma madruga ensolarada.

Me adaptar ao horário de Tokyo me tomou três ou quatro dias, já nem me lembro mais. Não acredito que seja a tarefa mais difícil e, talvez possa nomear cinco amigos meus que tenham feito a mesma viagem e se adaptado em menos tempo.

Mentira, só lembro de dois. Michel e Laszló.

O quarto era bastante pequeno, tinha uma cama, um frigobar, um pequeno televisor pregado no teto. O carpete era vermelho escuro. As paredes eram cor de creme. As cortinas eram brancas. Os marcos da porta e das janelas eram marrons quase pretos. Havia um enorme quadro com um kanji pintado, logo acima da cama.

De início foi ótimo. Pretendia sair o mínimo possível daquele quarto.

O televisor possuía apenas quatro canais. Esportes, notícias, novelas e sacanagem. Nenhum interessante. Esportes estranhos, notícias incompreensíveis, novelas de baixo orçamento e sacanagem pra pervertidos.

Desabafei olhando pela janela para o alto da cidade.

‘Melhor me acostumar com o silêncio distante disso aqui’.

Eu não era dono das melhores frases, ou de colocações interessantes sobre o mundo. Mas naquele momento decidi que mudaria isso, a começar por aquela simples frase, ia começar a esculpir algo diferente de mim mesmo. Me re-inventar.

Tarde demais talvez. Há quem pense que sim. Há quem pense que não. Há quem não pense coisa alguma, e esses, geralmente são as melhores companhias para um drink num bar de hotel.

Não foi o meu caso. Não queria descer e me socializar com ninguém. Queria meu silêncio ali.

Desliguei a luz e me deitei. Sorri um pouco e fiquei observando as sombras jogadas pra dentro do quarto, fortes pelas luzes da cidade. Tristes como só elas sabiam ser. Poesia à parte, estava tudo uma merda, não tinha muito prospecto de melhorar e eu estava há milhas e milhas de casa.

E assim se seguiu a minha primeira semana em Tokyo, a capital do Japão.

Parte II - Da dificuldade de se comprar cigarros
Eu levantei perto das seis da tarde naquela segunda-feira. Estranhamente de bom humor. Havia lido até alguma hora que não sei qual era, parte de um romance cubano.

Acredito ter sonhado a noite inteira com bares e canções latinas. Mulheres dançando e carros coloridos rodando ruas de chão batido.
Fiquei um bom tempo namorando no espelho os meus dentes amarelados. Eram bastante alinhados, mas, café desde os quinze e cigarros desde os dezoito fazem com que seus dentes fiquem assim quando chega aos trinta. Principalmente se você esquece de cuidar deles.

Pensei em telefonar para alguém, mas, não me vinha ninguém na cabeça. Poderia ligar um número qualquer e contar para o estranho ou estranha que atendesse sobre meus últimos dias ali em Tokyo, mas, nunca fui do tipo que fala. Se alguém procurar por mim em uma foto de grupo, nunca vai achar. Eu me misturo bem, só chamo atenção pelos dentes levemente amarelados, pelo físico magro e... Só.

Desci para a rua e fiquei zanzando por ali, sem prestar atenção nos nomes das placas ou a direção que ia. Devo ter andado em círculos algumas vezes, mas isso não importava. Meus cigarros tinham acabado há dois dias e eu não tinha conseguido comprar nem umzinho.

Muita gente vem ao Japão e reclama que é muito cheio de gente. Reclamam da comida, dos preços caros das coisas, da incompreensível obsessão por bonecas de olhos grandes vestidas de colegiais tomando o lugar das super-modelos nas propagadas de seja lá o que for.

Eu, por outro lado, reclamo da imensa dificuldade de se comprar cigarros.

Não os encontro em lugar nenhum, quando os encontro me deparo com pessoas que não falam nenhuma língua além do japonês e, além disso, com o péssimo habito de ficar sorrindo para o cliente mesmo que não o compreenda.

Devo ter andado algumas vezes por todo bairro onde estava, tentando gesticular das maneiras mais ridículas possíveis a minha vontade de conseguir um cigarro. Qualquer marca. Qualquer tipo. Até mentolados.

É isso que faz a abstinência de qualquer hábito. Nos faz ridículos perante uma cultura milenar.

‘Firipo Morisu’ eu falei para o garoto atrás do balcão. Tentando fazê-lo compreender o que eu queria. Ele começou a cantar uma música do The Doors. De Philip Morris para Jim Morrison em alguns segundos. Nada mal. Nada mal mesmo.

Sem cigarro algum, voltei para o hotel e tentei dormir. Minha surpresa foi ter conseguido. Devo ter apagado por um longo tempo, nem a fome me despertou. Nem a vontade de ir ao banheiro, nada. Absolutamente nada.

Com o passar do tempo a necessidade de fumar foi diminuído.
Quando descobri que tudo tinha que fazer era pedir por To-ba-co, já estava flertando com a idéia de parar de fumar e a crise de abstinência já tinha virado motivo de chacota interna do meu corpo.

Não, sem cigarros para mim desta vez. Nada como o choque cultural para destruir as artimanhas dos vícios urbanos.

Mas as andanças e voltas por Tokyo, dia, noite e madrugada, renderam muitos frutos. Alguns deles mais interessantes que outros.

Passei duas horas conversando com uma garota chilena que estava passeando com o namorado japonês. Tive uma discussão com um ex-boxeador americano que trabalhava em um cassino perto do meu hotel. Consegui comprar frutas de um vendedor de rua heptagenário que havia estado em Hiroshima. Depois de muita insistência consegui utilizar um banheiro público, cheio de botões e trancas e maçanetas. Mas nada, nada mesmo, foi mais interessante do que Miyu Ichigawa.

Parte III – Recordar é viver...
Preciso de alguns momentos pra recapitular as quatro primeiras vezes que encontrei Miyu Ichigawa.

Bar estranho e colorido. Zoológico vazio no dia de chuva. Cinema limpo quinta-feira de manhã e o seu Toyota no estacionamento da universidade.

Não foi necessário vê-la mais do que uma vez para me lembrar do que eu estava fazendo ali. Eu estava num processo complicado de encasulamento. Um processo tão complicado que tinha feito eu deixar meu emprego, amigos, família e tudo aquilo que a gente sempre deixa quando sai do país.

Mas, encontrar Miyu não foi como aqueles momentos de “redenção do homem quando encontra uma mulher”.

Foi mais o encontro de duas pessoas que tinham sobrado na seleção para os papeis principais das próprias vidas. Dois jovens adultos que ainda perdiam tempo com os mesmos questionamentos que decorrem toda a adolescência. Talvez nosso olhar tivesse entregue que, nem eu nem ela, tínhamos parado de pensar nas três coisas que todo mundo, com tempo demais livre no período da faculdade, pensa. A) Fome na áfrica e sua solução. B) Política interna do país e sua solução. C) O tão esperado revival do rock dos anos 90 e sua solução.

No fundo eu tinha razão nesse quisito.

Então, bar estranho e colorido. Eu estava escrevendo uma carta para um amigo que morava na Inglaterra, George Mill. Ele era um aficionado por futebol e uma ótima companhia para uma cerveja. Era, e ainda é, capaz de dar a escalação de todas as equipes do Arsenal, campeãs nas últimas décadas.
Além de reclamar pelos cotovelos de coisas como a mídia que a Rainha ganhava e as coisas que escreviam no The Sun.

Já era noitinha e eu estava tentando botar em palavras algumas questões importantes que me levaram à chegar ao Japão.

Meu pai recém havia morrido. Usei um pouco do dinheiro da herança para viajar o mundo. Mamãe tinha sua vida, nos víamos duas ou três vezes por ano. Ela não tinha ido ao enterro do velho. E só soube que eu estava no Japão por minha irmã, um pouco depois da minha saída.

Queria compartilhar com George minha perda, claro, ele adorava meu pai. Mas queria, talvez me sentir menos só naquele momento. Eu ainda achava a minha companhia a melhor do mundo, mas, estava ficando um pouco entediado, algo que não sentia desde a quarta série do primário.

Foi quando desci até a recepção do hotel para pedir para postarem a carta para mim, que fiquei pensando no que George falaria.

Possivelmente ele iria reclamar, dizer para mim sair, aí eu saí. Deixei a carta na recepção e, com um inglês elegantíssimo, o homem, baixo e com um bigode comprometedor, disse para não me preocupar que ele colocaria no correio pela manhã. Já era noite e não foi difícil achar um táxi que me levasse para algum lugar.
Lembrei do panfleto que uma garota de cabelo multicolorido tinha me entregue, na saída do metrô, no outro dia. Era sobre um lugar chamado Rain-Bow. Mostrei o papel para o taxista e deixei ele se virar.

Àquela altura, já estava acostumado com os táxis nipônicos.

Foi no bar que encontrei Miyu Ichigawa. Nos esbarramos uma vez na saída do banheiro, depois, casualmente, sentamos um do lado do outro no bar, já no fim da festa. Eu tinha uma fileira enorme de copos vazios, pequenos e vazios, na minha frente. Ela bebia algo que mais parecia um suco de laranja do que algo alcoólico.

Conversamos. Bastante. Não lembro o quê. Mas lembro que eu não calava a boca. Também lembro que ela não parava de rir, e que estava usando um vestidinho bege até o meio das coxas.

Zoológico vazio no dia de chuva. Eu não lembrava muito da noite anterior, e, só quando olhei para meu braço, no banheiro, vi que tinha anotado algo. Um pouco borrado, mas bastante legível ainda. “Zoológico municipal. 16h.” Era meio dia e meia.

Estava chovendo bastante, era um dia estranho, meio cinza meio esbranquiçado, não combinava com o colorido frenético de Tokyo. Resolvi almoçar num lugar “internacional” ali perto. Café Park.
Era um restaurante/café/bar de um Africano que tinha morado muito tempo em Barcelona.

Comi, rapidamente, depois de esperar quase quarenta minutos, um prato grande de massa-aos-vários queijos com uma pequena jarra de vinho. Edward era o nome do Moçambicano com cidadania espanhola. Seu sobrenome era impronunciável e computadores não tem os caracteres necessários para escrevê-los.

Ele era casado com uma italiana, chefe da cozinha ali, Mora Piavese, um encanto de pessoa, quando longe da cozinha, segundo ele mesmo.

A pequena fortuna paga pela refeição colaborou com meu desânimo, tomei um pouco de chuva até o metro e de lá para o zoológico foi como num piscar de olhos, talvez pela minha falta de atenção em coisa alguma, mesmo meus pensamentos, randômicos e dispersos.

No metrô uma senhora velha e gorda ocupou todos os bancos. Tive de ir em pé, ela ficava sorrindo pra mim, como se não tivesse se dado conta que estava tirando o meu lugar. Eu era a única pessoa que não estava sentada. Minhas feições ocidentais pareciam acentuadas dessa forma.

Miyu estava linda. Seu cabelo comprido delicadamente preso por um prendedor em forma de borboleta, aparentemente pintado à mão. Estava vestindo um jeans simples e uma camisa cinzenta de mangas longas.
Seu corpo esguio parecia mais gracioso ainda. Ela estava usando um perfume bastante leve, um pouco cítrico. Quando não se está bêbado, pode se perceber essas coisas, pensei comigo mesmo.

“Que bom que veio”. Disse ela quase miando.
“Eu não esqueci, capaz que iria esquecer”
“Ahhh, então porque pediu pra eu escrever nosso encontro no seu braço?”
“Queria ver sua caligrafia, de onde veio, dizem que mulheres boas de verdade, com coração bom, tem boa caligrafia”. Não que eu estivesse mentindo, só estava me esquivando de um embaraçoso rumo que a conversa poderia tomar.
“Ahhhh...”. Soou bastante admirada. Miyu falava pausadamente, podia entender perfeitamente seu ingleponês.

Ficamos andando por horas ali no zôo. Estava chovendo, e, como eu não tinha nenhum guarda-chuva, acabamos ficando sob o dela, rosa com desenhos brancos de flores.

Os silêncios eram gostosos. Ficávamos volta e meia quietos, procurando os animais escondidos, se protegendo da chuva. Ela carregava junto uma máquina fotográfica, queria tirar algumas fotos de animais fofos como pandas e zebras, só pra constar os monocromáticos. Mas acabamos tirando apenas fotos tolas de nós mesmos.

Paramos na frente de uma enorme girafa. O único animal que se importou de nos entreter.
“Tem outra coisa que se diz. Não sei até onde é verdade, mas, dizem que um bom filme só é revelado quando se tem, entre as fotos, uma cena de beijo”. Minha sutileza era imbatível, ao menos era o que eu pensava.

“Ninguém nunca me pediu um beijo assim...”

Lembro de ela ter ficado bastante vermelha.

Aí ela se aproximou do meu rosto e, bem, bem perto da minha boca, me disse.

“Ainda está no começo do rolo.”

E andou uns passos à minha frente, rindo baixinho, virando para trás e fazendo sinal para eu a acompanhar.

Me senti como se estivesse na pré-escola novamente, como essas crianças que se deslumbram e se intimidam com qualquer coisa que não faça parte do universo de seis ou sete coisas, de fato, que ela conhece.

A terceira vez que vi Miyu foi em um cinema numa quinta-feira de manhã. Eu não sabia que alguns cinemas, os mais undergrounds – ainda se usa essa palavra? Ou sou só eu? – da cidade tinham sessões estranhas pela manhã. Filmes B e C. Novelas brasileiras. Todo tipo de estranheza que pudesse ser mostrada na tela.

Naquele dia era o primeiro filme da Eva Green.
Nos sentamos no meio do cinema. Havia um mendigo no fundo, dormindo e roncando sonoramente, um casal gay mais ou menos na frente, trocando carícias mais ou menos íntimas, mas, não vulgares, ainda. E uma velhinha com traços ocidentais atrás de nós, duas fileiras distante.

Conversamos um pouco. Dessa vez eu não estava fedendo à cachorro molhado. E, até bem vestido estava. Um palito espinha-de-peixe e uma camisa azul de que gostava muito. Estava usando também meu chapéu da sorte.

“Sorria”

Disse Miyu, me assustando com o estouro do flash de sua câmera e tocando meus lábios rapidamente com os dela.

Lembro de ter olhado feio pra ela, bem feio. E mais feio ainda pra senhora atrás de nós, nos xingando em algo que parecia, ao mesmo tempo, turco, grego e russo.

“Não disse que para revelar bem o filme precisava de uma cena de beijo? Pronto, este filme está salvo.”

Fiquei atônito por alguns segundos bem longos. Ela ficou rindo, tinha a risada mais engraçada e doce do mundo. Mas minha cara pasma era de entristecer, eu realmente não estava entendendo o que estava acontecendo.

“Vamos, vamos ver o filme. Dizem que é muito bom.”

Então segurei a mão dela e toquei a ponta de seu nariz com o meu. Nossos lábios se encaixaram como se fossem duas metades separadas pelo tempo. Ou simplesmente sorte da anatomia divina. Tinha que pensar algo assim, e de fato pensei. Não queria que fosse só um beijo, então, toda metáfora, quanto mais patética melhor, era bem válida.

Não lembro de ter parado de beijar sua boca. Lembro do mendigo acordando e xingando o casal gay lá na frente. A velha se retirando no meio do filme. Mas, parar de beija-la, isso eu não me lembro.

Quando tomei coragem para repousar minha mão sobre seu seio, as luzes acenderam e de longe podia ouvir a rabeta do filme batendo no projetor. Mais uma vez pude ouvir aquele som maravilhoso que era a risada de Miyu Ichigawa.

A quarta vez foi alguns dias depois. Estava lendo uns livros na biblioteca da universidade e, ali no estacionamento, tínhamos marcado de nos encontrar mais tarde.

Dentro de seu Toyota, ficamos um bom tempo quietos. Ouvindo o barulho da rua abafado pelos vidros fechados. Miyu estava deprimida por algum motivo que nunca me falou. Talvez tivesse descoberto algo sobre mim que não gostava, ou estava arrependida de estar se envolvendo com um ocidental.
Ou, mais certo ainda, não tinha nada a ver comigo.

Queria lhe contar sobre as coisas que estava lendo, sobre coisas engraçadas. Mas seu rosto sério e triste me tirava toda vontade e coragem de qualquer coisa.

Ela ficou um longo tempo engatando marchas e girando o volante.

Uma parte de mim gostava bastante dela, era muito atraída por ela. Mas, outras só queria levar ela pra cama, terminar minha estadia no Japão e voltar para casa. E eu não ajudei muito quando disse...

“É melhor eu ir embora, não?”

Discutimos bastante, eu não estava entendendo bem, estava discutindo com uma mulher que eu mal conhecia, que mal me conhecia.

Do nada ela se calou, um pouco chorosa.

“Bertrand, me leva pro hotel.”

Eu não entendi, até hoje não entendi e fico sem ter como explicar pra mim mesmo, tarefa que sempre exijo pra tudo em minha vida, a não ser por essa exceção, que segundo Miyu, comprova a regra.

Parte IV – Os encantos perdidos em sorrisos tristes
Até hoje não sei como fiz para dirigir o Toyota de Miyu. Tinha o volante do outro lado e, rapidamente, tive de me adaptar às regras de trânsito japonesas.
Na marra.

Ela ficou calada o tempo todo, tentava sorrir pra mim, podia ver pelo espelhinho retrovisor. Mas, algo estava estranho ali, parecia exausta. Certamente tinha passado por algum conflito interno, dessa vez, por minha causa.

Quando chegamos no quarto ela se debruçou na janela, ficou olhando o início de noite e contando os andares. Quatro, demoradamente falou ela enquanto olhava com certa atenção para uma garrafa de vinho aberta que eu tinha esquecido na mesinha.

“Podemos beber um pouco?” Perguntou ela com uma cara triste.
“Se tu me explicar por que está com essa cara.” Respondi de forma bastante lacônica, como se as palavras resvalassem para fora de minha boca.

Bebemos. Mas ela não me explicou o que havia acontecido. Ao invés ficou contando coisas de sua infância e eu da minha. De como eu havia passado de um sorridente sonhador à uma mistura de economista e músico de quinta. Contei que queria ser jogador de futebol, marcar um gol pelo Olympic de Marseille e ganhar a copa dos campeões. Ela sorriu e disse que queria ter sido dançarina, ou cantora, mas, se contentava com a carreira como professora do primário.

“Deve gostar de crianças, eu não gosto muito.”

“Eu aprendi a gostar. Acho que veio com o tempo, durante a faculdade.”

Ficamos saboreando um longo tempo, deitados na cama, ainda de roupa e sapatos, aquele gosto amargo das coisas que gostaríamos de ser. Não estávamos bêbados, não havia vinho suficiente para isso, mas, tínhamos tirado um aroma de nós que, talvez, fosse o que estava nos incomodando no carro, na biblioteca.

Daí eu apaguei a luz do abajur. Expliquei que era uma palavra francesa, aliás, bem mais bonita do que lamp. Ou mesmo lampshade.

Ela gostava do meu sotaque francês, do meu inglês distinto. Falava as duas línguas fluentemente. Mamãe era francesa, papai era inglês, eu tinha nascido de emergência, num hospital do leste da europa e maninha havia nascido quando estávamos morando, temporariamente, na Espanha.

Demorei para ir lhe falando da minha vida e dessas coisas. A primeira coisa que lhe falei foi de papai. De como havia morrido. Mas nunca paramos muito pra falar nessas coisas. Não as minhas.

Fiquei um longo tempo olhando pra ela no escuro. Ela se levantou e foi até o banheiro, ficou um longo tempo lá dentro. Ouvi o barulho do chuveiro e, no meio daquilo tudo, ouvi sua linda voz cantarolando uma bossa nova, de João Gilberto – ao que mais tarde ela explicou o que era, quem era.

Tirei minha roupa, de pé, andando no quarto, fiquei apenas de cuecas. Boxers. Meu corpo não dava inveja a ninguém. Mas, não era nada mal também, pensando bem, era bem bom. Levando em consideração o abuso de nicotina, álcool e a falta de sono dos últimos quatro anos. Pelo menos eu tinha abandonado o açúcar refinado, de longe a pior das drogas. No meu mundo, é claro.

Liguei o rádio e procurei por algo que não sabia o que era. Nenhuma estação fazia sentido e as músicas eram basicamente ridículas. Puxei de um canto um disco do Elliot Smith e coloquei. Eu mesmo tinha gravado em casa, para emergências. Necessidades de me sentir triste ou acompanhar um trago. Ou naquele caso, uma doce garota.

O disco começava com um cover de close your eyes.

Miyu saiu do banheiro enrolada em uma toalha, já seca, cantarolando a música. Foi difícil vencer a vontade de chorar.

Eu havia tocado close your eyes uma vez, em um palco. Estava tocando a flauta transversa e Camille Pillet estava cantando, era o teatro Ilone D’brie. Estava tudo muito bem iluminado, o clima perfeito. Casa cheia. Eu era convidado de Camille para o fechamento da noite. Havíamos ensaiado exaustivamente, mas, a voz descompromissada de Miyu, andando em minha direção, tornava aquilo tudo, aquelas memórias maravilhosas, tão pouco, muito pouco perto daquela simplicidade minimalista.
Nunca contei para ela dessa minha aventura no teatro, nem de que um dia toquei flauta, mas isso nunca fez diferença na vida de ninguém. Coisas que ficam no passado, raramente, no meu mundo, tendem a voltar à tona ou ser relevantes. O que importava era aquela mulher na minha, guria ainda, na minha frente.

Um dia, talvez escrevesse parágrafos gordos sobre ela. Pensava isso, cogitava ao menos.

Não sabia como convidá-la para vir para a cama. E, enquanto confabulava comigo mesmo, manejava alguma palavra, fui surpreendido pelo som da toalha tocando o chão e aquele corpo nu vindo em minha direção, lentamente, sem saber seu destino, ou mesmo se importar com um ponto de chegada.

Toquei seus cabelos, me ajeitei ao seu lado. Miyu tinha o mais interessante e envolvente perfume. Era natural de seu corpo, eu acho. Sei que me envolvia, me castigava até. Era levemente doce, timidamente suave.

Ela não teimava em dizer alguma coisa, usava o silêncio e meu nervosismo a favor dela. As faixas do disco foram se sucedendo enquanto uma nuvem longa como um barco atravessava o céu, tapando a lua e deixando o quarto um bocado mais escuro.

Deslizei meus dedos pelo seu corpo, não conseguia pensar em outra coisa ou outra pessoa.
Queria ver seu corpo se contorcendo e seus dentes mordendo os lábios.

Timidamente ela beijou meus ombros e segurou minhas mãos. Fechava e abria os olhos sem ter muito critério para isso. Simplesmente fechava quando eu chegava mais perto de seu corpo, de sua barriga e de seus seios. E os abria novamente quando percebia minha boca longe dela.

Enquanto transávamos ela tentava cantar algumas partes das músicas. De início me surpreendi, pensando bem na situação. Mas, talvez, fosse esse tipo de coisa que mais sentia falta em todas as outras vezes que transei com alguém. Ninguém.

Lembro de ela ter dormido um tempo depois. E eu ali acordado. Levantei um pouco da cama, sem que ela acordasse, fiquei um bom tempo olhando pela janela.

Parte V – Irotobi
Tenho na minha carteira uma foto antiga. Minha de Miyu, bastante lavada e de baixo contraste, as partes escuras bastante enterradas e enegrecidas. Irotobi disse ela quando me entregou, o nome do efeito.

Por muito tempo sonhei com aquela noite. As músicas, o sangue nos lençóis. Os beijos intermitentes e carinhosos.

Minha estadia em Tokyo, até então, não tinha sido proveitosa o suficiente.
Continuava sem um rumo, com remorso do passado e sem perspectiva de olhar para frente. Mas estava dormindo com uma mulher bastante bela, interessante e diferente de todo mundo que tinha conhecido na vida.

Podia contar sua vida em cinco ou seis momentos, recortando as coisas mais significativas capazes de desenhar o todo, o grande todo, que havia por trás. Miyu me encantava dessa forma. E nas pequenas coisas, e em tudo.

Mas, ao mesmo tempo tinha vontade de partir. Havia algo em mim que eu não reconhecia direito, que era extremamente meu e, ao mesmo tempo, me parecia de outro mundo. Eu estava com passagem comprada, poderia ir embora a qualquer momento.

No meio da noite, sem conseguir dormir, ao contrário de Miyu, que parecia tão exausta que nada poderia lhe acordar, desci até o loby, andei pela rua e pedi um cigarro para um estranho.

Já não era mais um cigarro, era o tempo que precisava, longe dela para saber que sentia sua falta.

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