segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Onde a orquídea nasceu e ela morreu




Quieto no canto, tocando no piano, nota por nota, a mais débil melodia, contava os segundos entre um compasso morto e outro, escorregando cada um dos dedos pelas teclas empoeiradas. “Tortos e enrugados, mais parecem palitos do que dedos”, ficava repetindo para mim, parte para mim mesmo, parte rolando as palavras para fora da boca. Ali, sentado ao piano, acompanhado pela simples e monocromática melodia. E um copo grande, de requeijão, cheio de rum.

Do alto da estante, a gata dorme como se nada fosse lhe perturbar. Nem minha insistente ausência ao piano, nem o barulho da chuva nas telhas da cor de uma maçã colhida fora de época. Joaquina, Camélia, e um mundo de nomes de gente para uma gata danada que dorme, e vez em’quando me olha entre um bocejo e outro.

Ao que não posso negar. Faz com que a solidão vá embora, até que eu pisque os olhos e ela volte mais uma vez, acariciando minhas costas lordosas, já cansadas e minha garganta queimada pelo álcool e pelos gritos durante a noite, em meio ao choro ensandecido de saudade.

Diziam que queimava, os goles gordos e tácitos atrás de um cachecol bordô. Mas aquela noite-dia, tão escura, com uma meia lua inchada, como se tivesse chorado por dias e dias atrás das nuvens, era apenas uma continuação daquela vontade de queimar a boca e a garganta e os olhos e os tudos. Mas ali estavam apenas cinzas e brasas a serem irrigadas pelo rum amargo e envelhecido. Presente de casamento.

Com uma mão os baixos, com um dos pés o pedal quebrado e com o dedo indicador, torto, quebrado por um oficial militar, junto aos lábios fico fazendo o sinal de silêncio, para tentar calar algo dentro de mim.

E na janela, com praticamente a mesma força de Atlas, bate o vento. Umedecido pela chuva gris daquele dia, perdida naquela hora. E da janela se ouve pouco mais que o nada. Ainda no piano, as mesmas débeis notas, arrastadas pelos magros dedos.

Seus belos cabelos loiros enfurnados, as mãos cruzadas ao peito. O vestido rosa forte rasgado e furado por pequenos insetos. No alto de seu céu terroso, onde os pássaros voam, a cruz de seu nome e o distante epitáfio que rogara-lhe, com tórrida avidez, o malvado’tempo.

“Com o toque de um anjo, retirada do mundo, com o sopro do vento, a saudade encardida. No inverno do amor, jaz aqui, a dona da estação perdida”

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