A verdade era simples. Como sempre é. Eu precisava de dinheiro para comprar algo bonito para ela. Não estava ganhando muito dinheiro como entregador de jornal da vizinhança, nunca se ganha. E o fato de precisar de grana estava me incomodando, mas... Já fazia um ano, era melhor levar algo muito bonito e interessante. A final, não é todo dia que se faz um ano.
Quando me olhei no espelho vi que não podia sair assim de casa. Sardas, espinhas e uma barba rala que indicava a saída da minha puberdade. Olhos azuis devidamente escondidos atrás de um óculos de armação grossa e calças jeans devidamente combinadas com uma camisa de flanela xadrez. Tênis all-star vermelho pra combinar com o cabelo.
Não, não era assim que eu ia ganhar dinheiro, mesmo que fossem uns trocos.
Na escala de idéias para conseguir comprar algo bom para ela deveria ir descartando uma a uma conforme fossem falhando, não haviam muitas coisas a tentar, mas, as quatro que listei antes de dormir me pareciam boas saídas. A não ser pela última.
Uma a uma elas falharam. Pedir dinheiro para Gisele, minha irmã, foi a primeira a se mostrar infrutífera.
Tentar vender algo foi a seguinte. Não tinha nada para vender, alguns livros, uns romances do Mark Twain, mas nada de valor. Nada que valesse a pena me desfazer por tão pouco, talvez nem o próprio Mark Twain não conseguisse comprar coisas boas para alguém de que gostasse muito.
Pedir um aumento como jornaleiro foi constrangedor ao ponto de uma risada indecorosa da minha chefa, uma gorda de família italiana, me fazer compreender que, dali, não conseguiria absolutamente nada, e, se mais algum tempo ficasse ali na sala dela, estaria correndo risco de perder os poucos trocados que já ganhava, ao que, sua risada foi pausando e se transformando em uma cara amarrada e sisuda.
Cortar a grama do Sr. Malmann.
Ele sempre precisava de alguém para cortar a grama, ninguém conseguia fazer isso mais de uma vez, pelo volume de trabalho e por ter de lidar com aquele homem tão estranho que morava na curva, no fim da rua.
Engoli seco e toquei sua campanhinha, esperando dragões e sapos pularem debaixo de pedras arredondadas ali perto da porta. Nada disso aconteceu, ao invés, Lurdes, a enfermeira disse que eu podia cortar a grama e que assim que tivesse acabado receberia uma gorda recompensa.
O gramado era grande, dava trabalho, mas, já era isso ou nada. No dia seguinte seria um ano, e eu precisava de um bom presente. Pensei nela, em Lea, e comecei o trabalho.
Não era meu dia, não que os anteriores tivessem sido, há algum tempo não era mais meu dia, mas aquele estava realmente parecendo com uma grande piada divina sob minha cabeça, se é que é lá em cima que “eles” ficam.
Depois de alguns raios e trovões uma chuva densa e pesada começou a cair, e eu não era besta o suficiente pra continuar cortando a grama ali, não faltava muito e, se dependesse da visão do dono da casa, não seria difícil tapeá-lo de que tudo estava pronto.
Corri para a varanda e bati, com um leve murro na porta, ao invés de tocar a campanhinha, mas, som nenhum houve, se não o ranger da porta abrindo, estava destrancada e a luz difusa e translúcida da pequena tempestade que caía pouco alumiou a cozinha do Sr. Malmann.
Sua voz rouca e lenta dele me chamou para dentro e, aquela figura estranha e misteriosa, que não via desde pequeno, se mostrou ali, na meia luz de um lampião alaranjado, envolto em uma belíssima armação de cobre.
“Que bom que entrou, não queria que se molhasse. Quem sabe não quer um pouco de chá, jovemzinho? Acabei de esquentá-lo. Não está lá muito quente, não posso beber nada além de morno, mas, garanto que o gosto está muito bom, é de frutas cítricas, Lurdes trouxe para mim do mercado hoje de manhã”
Ele parecia não parar de falar e eu fiquei bastante tempo ali parado, olhando para tudo e para ele, foi uma grande falta de educação, mas, a casa era enorme, algumas janelas ajudava a trazer a luz de fora para dentro mas ela se perdia logo logo, parecia haver mais ali do que em um cofre de leilão. Tinha cheiro de vida guardada, enrolada em naftalina e folha de louro.
O senhor Malmann raramente saia para a rua. Há mais de dez anos ficava somente em casa e era cuidado por diferentes enfermeiras. Minha sorte era que a chuva tinha começado entre o turno da Lurdes e da Rosa Maria. Aquele intervalo de mais ou menos dez minutos se transformou em uma longa hora, por causa dos alagamentos nas ruas e das quedas de luz.
E eu estava ali, vendo os lábios dele se mexer mas sem escutar um único som. A não ser o da minha vontade de ir para casa, se aninhando em algum lugar dos fundos bolsos da minha flanela.
Sinceramente eu não lembrava muito dele. Apenas de que não gostava nada dele, nem de seu jeito silencioso e austero. Mas pouco do que vi parecia com as imagens que tinha dele na minha imaginação, o viril homem, sádico e com sotaque francês não passava de um viúvo com câncer no fígado, melancolicamente estacionado sobre uma cadeira de rodas tão velha quanto a mobília da casa. Quase toda de antes da guerra.
Seus poucos cabelos estavam desgrenhadamente cobrindo os rastros de calvice e seus óculos afundavam em seus rosto como se tivesse sido empurrado e moldado por um artista plástico, um que empurra os polegares fundo na argila mole e morna ainda.
O chá trazia um aroma gostoso para o ar da chuva.
“Senta...” Disse ele, perdendo as palavras e as letras ao rolarem para fora dos lábios.
Quando me percebi com uma xícara já em mãos ele derrubou a dele no chão, me assustando e fazendo derramar um pouco do líquido quente e fumegante na mão. Enquanto lavava com água fria na pia ele começou a entoar uma melodia triste e pausada, como se estivesse esperando a companhia de instrumentos que jamais chegariam. Uma milonga com letra em francês, ao que pude entender.
“Está vendo estas pernas, homenzinho? Não me servem de nada. Há muitos anos não me servem de nada.”
Me virei um pouco transtornado pelo rumo da conversa.
“Vou lhe contar o que houve, a não ser que este velho aleijado esteja exigindo demais de...”
Antes que ele pudesse terminar a frase, apesar de receoso e assustado, enrolei rapidamente um pano em torno da mão e sentei-me ali, junto a ele.
Lá fora os ventos sopraram balançando as plantas e os galhos de árvore, que derramavam sob o chão sombras pitorescas e deformadas. A chuva continuava.
“Está vendo esta foto? Está, garoto?” Falou quase me intimando, enquanto apontava para um retrato de uma linda mulher loira, segurando um livro, sentada numa cadeira de verão, ao que parecia ser uma versão de Matisse, para aquele jardim ali fora.
“É Eva G. Malmann. Minha querida esposa. Eu fui preso por estrangular ela e o amante. Na cadeia, ao saber que eu tinha matado a donzela Eva, fui surrado durante dias e noites intermináveis, até que me atiraram água gelada, em pleno inverno. Minhas pernas estavam inutilizáveis e, os doze anos que cumpri lá foram os piores da minha vida. E eu estive na grande guerra... Mas meu amor não foi suficiente, amor nunca é...”
Rosa Maria interrompeu a história entrando na casa, balançando firmemente alguns pacotes de super-mercado.
O velho tirou uma nota gorda e colocou no bolso da minha flanela. Me lançou o mais triste e profundo dos sorrisos, incapaz de ser comparado ou descrito, algo que via que era dele, talvez a única coisa que lhe sobrara, a habilidade de sorrir carregando todas as tristezas do mundo.
No outro dia acordei e coloquei minha melhor roupa, um chapéu bonito e uma cueca branca e limpa. Tinha em uma mão orquídeas roxas e na outra uma pequena caixa de chocolates de coco. Mamãe me olhou sabendo onde eu ia e Gisele me abraçou com uma estranha e incomum ternura.
Ao chegar no cemitério, sentei-me na frente da lápide de Lea e coloquei ali as orquídeas. Tirei um chocolate e coloquei ao lado de sua foto, que ficava perto da grama verde.
“Achei que não conseguiria vir, lembrei que gostava de orquídeas e de chocolates com coco. Já faz um ano e ainda não me acostumei a não te ver. Mamãe disse que eu já superei e que a vida de todo mundo continuou, de uma forma ou de outra. Mas, fico me perguntando o que aconteceu quando desligaram os aparelhos, ou quando o como se tornou tão profundo que o mundo lá fora parecia apenas um grão de poeira no meio de um grande espaço cheio de outras coisas mais interessantes, mais dentro de ti. Sinto tua falta, claro que sinto. Mas eu vim. Demorou um ano, me desculpe, mas, achei que te devia isso. Sei que devo muito mais coisas, coragem de te ver quando estava no hospital, de tantas outras coisas, mas eu vim. E trouxe flores e doces, assim como fazia antes. Fiz o que nunca achei que fosse fazer, mas, talvez fosse para o melhor. Não vou dizer que descobri que o velho estranho e triste no fundo era uma pessoa legal, boa e interessante. Ele ainda era um velho que havia matado a mulher, uma poetiza que seria famosa se não fosse tão sem sorte. Mas graças a ele eu pude vir aqui. Não acredito que se eu for lá e contar a ele que graças ao dinheiro dele pude ver o amor de uma quase vida, e que assim ele virasse alguém melhor. Mas certamente dentro de mim faz algum sentido que me foge o entendimento. Talvez vir aqui e ficar falando contigo como se me ouvisse seja tolo demais. Quanto tive a chance, não fui lá te dizer que te amava e que tudo ficaria bem, o que é no fundo tudo que a gente gosta, quer e precisa ouvir. Talvez Sr. Malmann precise que alguém diga que tudo vai ficar bem também, com ele e suas pernas quebradas e seu fígado doente. Mas ele continua morrendo um pouco todos os dias, talvez desde que sua mulher, Eva G. como ele ficava dizendo. Se eu fosse bom como tu era, e tão sensível como tu era, poderia dizer que um pouco de mim se vai todos os dias conforme o tempo passa e tu continua aqui. Mas não. O tempo talvez esteja estacionado para mim ainda. Quando fizemos amor escondido. Quando passamos a noite acordados no telefone, ouvindo um ao outro dormir. Não sei quando eu voltarei aqui, se ficarei contando das pessoas que encontrei e tudo que fiz. Talvez não encontre ninguém e não faça nada. Assim é melhor, apenas sentindo e lembrando tudo que foi, e o adeus que prometi pra mim mesmo que te daria e não te dei. Mas as coisas ficam perdidas nos cantos. Entre um chocolate e outro eu fico aqui, e tu aí, talvez me escutando, e, como um anjo invisível, azulado e translúcido, me abraçando e afagando meu cabelo. Gosto assim, gosto de pensar em como tu continua dentro de mim e na minha vida. Mas é estranho ver que se não fosse por um homem ferrado e velho eu não estaria aqui. Poderíamos conversar sobre como perdemos meninas importantes em nossas vidas, mas, certamente teu acidente e o assassinato de Eva G. terminariam o elo da conversa nos embebedando em um silêncio tão triste e calado como farpas na madeira da cama. Só dormimos uma vez um do lado do outro e sinto falta disso como se fosse algo próximo, algo que fizesse parte do meu mundo. Teu rosto afundado no travesseiro e deu corpo acomodado no meu, numa cama improvisada no sótom da tua casa, torcendo pra que ninguém nos pegasse. Claro que eu gostaria de vir aqui todos os anos ficar lembrando dessas coisas e de algumas outras, talvez acender um cigarro, pra manter alguma coisa escondida, algo que se relacione com um mundo de segredos que tínhamos. Mas boa parte de mim não tem vontade de voltar aqui, não sei de onde veio a força. Talvez da vergonha e da tentativa de arrumar a burrada de não ter ido te ver, mas, acho que no fundo é saudade. É sempre saudade. ”
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