segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Amanhã vai ser outro dia


Me chamo Eliza Ramos-Salles. Quem bem me conhece pode me chamar de Liza. Quem não conhece não precisa conhecer. A princípio, sou assim, áspera. Alguém com câncer, um não muito destrutivo, mas, daqueles que não te dão a certeza de acordar no outro dia, não tem lá muito motivo pra ser simpática. Ainda mais as solteiras com quarenta e poucos. Eu inclusa.

Eu acordei triste. Como as manhãs anteriores, e as outras, e mais outras em uma longa seqüência que já se perdia de vista. Margarida, minha irmã mais nova, não muito, mas mais nova, estava fazendo café na cozinha, podia cheirar no ar aquele aroma familiar.

Dei bom dia enquanto escovava os dentes andando pela casa, ao que ela respondeu se lembrava que tinha uma surpresa para mim hoje. Não, eu não lembrava. Achava que era uma brincadeira de mau gosto, não se brinca lá muito com alguém morrendo, pelo menos era o que eu achava, ou queria achar.

Pensar na vida, nessas épocas, acaba sendo o único ofício. Eu não podia mais costurar, nem tinha mais vontade. Margarida era podre de rica, podia me sustentar, não seria por muito tempo. Sadicamente a lembrava com o mais cinco dos sorrisos possíveis. Quanto mais vezes por dia melhor.

À noitinha, depois de tomar um rápido e desleixado banho de gato, elas foram chegando. Uma por uma. A mulher que trabalhava no serviço público, sua amiga, a que trabalhava na feira. A mulher do delegado, a namorada do jardineiro. Todas com a mesma quase meia idade, medo da menopausa e trejeitos bastante constrangedores.

Estavam festejando algo, com comidinhas, bebidinhas, e todos os inhas que eu podia agüentar, afinal, estava morrendo e elas queriam, apenas, me alegrar um pouco. Empunhando seu papo chato, mesquinhez e fofocas diárias. Claro, nos cinco primeiros minutos a gente ri. Mas, depois, tudo que sobram são os rostos constrangidos.

Eu vestia uma bandana preta, tinha perdido todo cabelo e pelos no processo. Mas, não estava parecendo um rato. Ou uma rata. Tinha pego sol durante a semana, mesmo contra a opinião médica, ao que simplesmente respondi “O que pior pode acontecer?”

Não preciso dizer que ele não gostou muito.

Mas, claro. Não se brinca com câncer. Não se faz dele um motivo de risadas bobas nem nada. Mas, o que fazer além de rir de mim mesma e aproveitar o resto? Quando nada mais pode ser feito?

Mas eu estava em um bom dia. Para alegrar elas, lembrei-as de que eu era a vítima, de que tinham de sentir pena de mim. Fiquei contando histórias de como o meu cabelo havia caído pouco a pouco, chumaços por todos os lados, pelos pela cozinha.
O tipo de coisa que elas queriam ouvir, para temer e assim atingir a catarse desses sentimentos. Sentindo pena de mim pelo que havia acontecido elas achavam que estavam espiritualmente livres de qualquer remorso moral. No fundo estavam certas, e, se eu estivesse no lugar delas, era a primeira a fazer isso.

“Vamos lá animar a pobre Liza, vamos.”

Quando todas já haviam ido embora, eu tinha de limpar tudo, claro, isso eu podia. E me deparei com um estranho cartão com um telefone, colocado na minha bolsa, que estava por ali.

De início eu não dei bola. Com tudo arrumado, fui ver tevê na sala. Mas logo desisti. Estava curiosa demais para saber o que era.

Claro que eu liguei.

E, depois de muito tempo, sorri. Sorri quando abri a porta e disse que aquele distinto rapaz podia entrar, e, que tinha sido difícil de conseguir seu telefone. Ao que ele retribuiu com um sorriso.

Quando saiu tive de pegar dinheiro da carteira da Margarida para pagá-lo.

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