
Como quem deita sobre a mesa verde a primeira mão vencedora de uma noite de pôquer, deitei Ingrid no sofá, cuidando para que seu rosto repousasse sobre um solitário travesseiro de veludo que tinha por ali. Ela fechou então os olhos e eu acariciei sua saia como se fosse sua pele, movi parte de sua calcinha para junto da virilha e me acomodei ao seu lado.
Eu ia morrer. Isso era fato. Queria este clímax para minha própria história. Eu não tinha câncer. Nem tinha feito fortunas publicando jovens escritores. O pouco dinheiro que tinha, sem pagar as dívidas à Boris e Schnitz, tinha perdido em um cassino na América do Sul. Elizabet havia me abandonado em 1958. Voltado para mim em 1961. E, por fim, me abandonado definitivamente no outono daquele mesmo ano.
Os gemidos de Ingrid me deprimiam. Eram incompreensíveis, queria mandar que se calsse, mas, tudo que via em meus lábios eram algumas mentiras disfarçadas de paixão. Pouca atenção prestava nelas, perdia mais seu tempo se contorcendo e apertando as mãos no meu peito, estragando uma cara camisa de linho.
Dias depois ela saberia de minha morte, mas, não saberia como reagir. Permaneceria ocupada com seus poemas medíocres e suas aulas no colégio para crianças com necessidades especiais. No final do ano, venceria um concurso de poesia municipal e dedicaria a mim a sua vitória, da maneira mais silenciosa possível.
Seu corpo se estremesse e sua boca, junto à minha, pronuncia o mais alto e estranho grito de satisfação. Minhas mãos seguram firmes seus seios, flácidos, pequenos e amassados entre os vãos dos meus dedos. Antes que pudesse perceber estávamos dormindo.
Foi no seu quarto aniversário que Ingrid descobriu que era muda. Que levaria uma vida diferente da de todo mundo, mas, enquanto seus pais se escorçassem, fariam tudo para que ela não sentisse essa diferença. E sucederiam muito nisso, até que ela me encontrasse, já uma jovem adulta, e a fizesse perceber que não podia gritar como queria, como seu corpo pedia, ou mesmo sua alma, como escreveria mais tarde em um poema longo de quatrocentas linhas.
Com a vulgaridade necessária, descobri que era virgem. Que tinha me procurado por interesse de aprender a escrever um poema direito. Era linda, doce e a melhor maneira de me despedir de algo que não me importava muito, minha vida. Horas depois meu canivete romeno estava no meu estômago, e ela, sonhando comigo.
Patético como eu queria. Melodramático como necessitava ser. Quase podia ver um coro de mulheres grandes, gordas e negras cantando Amazing Grace. Lutara minha vida inteira contra os clichês e as simplicidades mundanas da vida, só então para me dar conta de que aquilo que mais lutava contra era o que mais desejava. Como uma cena de beijo em fim de filme, como pipoca no cinema, risada de criança em circo de quinta categoria, grito de gol em final de campeonato, sorriso nervoso em vitória eleitoral, página rasgada em álbum morto, cruz virada em túmulo de comunista, dente de leite embaixo do travesseiro, óculos de armação grossa em rosto de professora novinha, garrafa de vinho na mesa italiana, uísque na mão do mal’amado, vento forte na beira da praia, especialmente no fim de tarde, noiva chorosa em igreja fofoqueira, cozinha suja em apartamento de solteiro, gira-sol amarelo no quarto de um poeta frustrado. E tudo mais aquilo que faz a vida ser como é e adoramos, mesmo odiando às quartas e sextas pela tardinha.
Você viu as cataratas do Niagara?
Eu vi água. É água, é só o que é.
A china, viu a grande parede?
Todas as paredes são grandes se o teto não cai.
Eu vi toda a luz do mundo, em uma faisca por aí.(Bjork)
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