quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Quarto Crescente


Raquel

O som estava alto. Muito mais alto do que podíamos perceber, dado tanta bebida que tínhamos tomado. O quarto estava bastante escuro. Camila estava dormindo no chão e eu e Pablo estávamos na cama, fazendo carinho no corpo um do outro. Por alguns instantes ele mordeu meus lábios, segurou meu seio por cima do sutiã e depois esfregou o rosto no meu pescoço. Era o ponto final.

Rolei para o lado e peguei a cerveja que tinha deixado no bidê.

Não lembro se ele riu ou fez cara de brabo, mas, acabamos nos vestindo e, pé por pé, passamos por cima da Camila. Não que eu não o quisesse, longe disso. Pablo é lindo, tem o corpo magro, peludo e loiro. Não é lá muito alto, mas é uma graça. E fazia algum tempo que era a minha graça.

Pablo

A gente ficou um bom tempo na escada, sentado, falando qualquer bobagem, discutindo desde o oriente médio até quanto tempo demoraria um corpo de uma modelo para cair por toda as cataratas do Niágara. Eu estava muito excitado, mas, sabia que aquele joguinho deixava Raquel ligada. Menos mal não termos acordado a Camila, coitada, tão sozinha deitada no chão, dormindo feito uma pedra. Nada que dois martinis não façam. Nada mesmo

Já eram mais ou menos duas e meia da madrugada. Só um jovem pode dar uma quase precisão de horário, é uma coisa que se perde com a idade. Depois de velho a gente para de falar coisas como “São tipo-quase-três-e-quinze”. Desse tipo de coisa que se sente falta de verdade. E dos romances, claro, depois de velho a gente... Bom, não que eu seja, ou esteja ficando velho, mas, parte da jovem adultidão é consumir a paciência das pessoas reclamando de velhice.

Isso. Velhice, foi aí que eu e Raquel decidimos que era hora de ir.

Raquel

Eu deixei o Pablinho ir jogar bilhar mais uma vez, com o Mathias e o Marino. Enquanto isso fui me despedindo devagar de algumas amigas, tomando alguns drinques enquanto ele não reaparecia. Poderíamos ficar mais algum tempo

Helene me perguntou se estava tudo bem, e eu expliquei toda a situação, das cervejas e cigarros até o quarto e de lá para a mais rápida saída para a minha casa e por fim para meu quarto, chuveiro quarto mais uma vez e uma rápida passadinha pela cozinha antes de voltar pro quarto. Certamente Helene não me entendeu. Mas não era a intenção também.

Enquanto as outras garotas desenhavam minha explicação para ela Pablo apareceu, pegou minha mão, com a sua ainda suja de giz azul, e fomos rapidamente para fora, acenando para todos como se fossemos o casal Miss e Mister qualquer coisa da festa.
Pablo

Cruzamos o parque da rua de cima e nos assustamos com um barulho em uma árvore. Lembro de ter apertado a Raquel contra o meu peito e esperado tenebrosamente pelo pior. Um assassino, um estuprador, um drogado afim de encrenca, e todas as coisas que não gostamos ou queremos ver pela frente durante uma prosaica caminhada por um parque no meio da madrugada.

Raquel

Ela devia ter mais um menos um metro de altura. Tinha as bochechas bem sujinhas e cachos dourados igualmente sujos. Era a coisa mais linda. Estava se escondendo dentro de uma fenda na árvore, uma enorme figueira. Tiritava de frio, apesar da noite de primavera, e estava vestindo um vestido amarelo rasgado em várias partes, era bem magrinha e mentia constantemente que não estava com fome, às vezes nos parando e dizendo “eu não estou com fome. Não me olhe.”

Pablo

Ela disse que não tinha nome, mas, que chamavam ela de cachinhos dourados. Não acreditei. Perguntei se podia chamá-la de Catherine, pois, recém havia terminado de ler Jardim do Éden, do Hemmingway, e, como todo garoto deslumbrado, precisava aplicar aquela maravilhosa história ao mundo que eu vivia. Ali era o primeiro elo.

Raquel acabou me convencendo a levar ela junto para algum lugar. Lugar algum que fosse. Não gostei muito da idéia. Nunca gostei de crianças e aquela, apesar de mais interessante que as outras, ainda não me convencia de muito.

Raquel

Discutimos. Tive de colocar Catherine no chão, ela estava dormindo no meu colo e os loucos gritos do Pablo a acordaram. Ela tinha já uns cinco anos, mas, pelo que vi, gostava de se comportar ora como se tivesse onze, ora como se fosse um bebê.

Já não choro mais com as brigas de Pablo, deixo-o soltar tudo pra fora e depois que ele se acalma as coisas ficam bem. Estávamos caminhando pela rua Elmo, perto do centro. Aí ele me deu as costas e saiu andando.

Catherine e eu ficamos olhando, sem muito o que falar. Catherine virou pra mim e disse que só nos acompanhou pois achava que nós precisávamos muito mais dela do que ela de nós. No fundo ela tinha razão.

Pablo

Eu não me arrependo. Estava muito brabo e saí andando. Mas, não fui muito longe. O orgulho não me deixou voltar, mas, como eu precisava ir para a casa da Raquel, fiquei parado no meio do caminho. Olhando para as coisas e para o céu. Fechei os botões da camisa até proteger bem o pescoço e cruzei os braços embaixo de um poste de luz quase da minha altura, bem pequeno.

Raquel

Eu podia abraçar ela. Mas foi ela quem fez isso. Disse que acontece, que já viu acontecer e que não era nada. Estava sentada do meu lado no meio fio. Minha saia tinha esparramado e ela tinha aproveitado pra sentar em cima, ao que adicionou “Não quero sujar meu vestido, foi mamãe quem me deu”. Não quis perguntar onde estava mamãe, e, pelo jeito que ela me olhou, acho que me agradeceu demais por isso.

Por muitos instantes pareci pequena, menor que ela. Mas extremamente protegida.

Ela sorriu e me deu a mão. Começamos a andar.

Pablo

Foi bom. Raquel e Catherine me encontraram pouco tempo depois, com alguns sorrisos e bebendo uma coca-cola. Eu olhei para elas e abracei as duas da melhor maneira, e mais desajeitada que pude.

Raquel

Quando encontramos Pablo, ele nos deu o mesmo olhar que sempre me dá quando está arrependido, o olhar que me derrete e me fez gostar dele desde a primeira vez. Caminhamos em direção à minha casa com a lua às costas. Catherine no meu colo e o braço de Pablo ao redor do meu ombro.

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