
No canto pálido e de remo em punho ficava ali parado a respirar a fina névoa que vinha do lago, sentado no meio do pequeno bote até que ele tocasse bruscamente as madeiras podres e velhas do pequeno trapiche, do outro lado da margem do Uruguayo.
O canto triste se fez presente, uma a uma as vozes doces se enrolaram em uma única melodia. O céu azul acinzentando se confundia com a imensa nuvem que o cobria e tocava o horizonte do rio, enegrecido pelas turvas e calmas águas, perturbadas pelos sons do meu remo, insistente e persistente, tentando chegar ao outro lado.
A melodia se tornou simples e alegre, mas só por alguns segundos. Me escondi na minha meninice e chorei por alguns instantes, sendo abraçado por pequenas nuvens em forma de dançarinas sem pernas, mas que bailavam no ar, me abraçavam, levavam consigo um pouco dos meus longos cabelo e se misturavam com a névoa. Mais e mais alta a música que era cantada pelas pequenas nuvens se levavam para algum lugar no céu, que eu olhava e procurava distinguir naquela paisagem toda monocromática, às vezes cinza ocre, às vezes cobre e madeira.
Então, como atendendo o pedido da minha ansiedade o mundo se calou.
Perto de mim pude ver o trapiche. Onde deveria amarrar o pequeno bote.
Num triste sopro de vento, mesclando o cheiro morto do Uruguay com as perfumarias de boticário de minhas roupas, segurei firme o remo e vi que nenhum som se fazia presente. Arranhei a madeira do bote, estapeei tudo que pude ver, mesmo não tendo voz alguma tentei gritar, ao que apenas o mudo som dos gestos podia ouvir. E nada mais.
De longe foi crescendo o som dos tambores sendo tocados e, no lugar de tudo que podia ver com os olhos foi substituída a imagem. Apenas os bombolegueros à sombra sendo tocados por alguém.
Arrumei minha saia e juntei as pernas, apertei os seios contra meu próprio corpo com meu braço. E no crescendo das batidas na pele de couro dos tambores me vi caída no bote, incapaz de me mover, sendo abraçada e paparicada pelas pequenas donzelas em forma de nuvem, com braços pouco definidos entre rastros de vapor e névoa. No meu rosto o triste sorriso de um carinho mudo, cênico e sutil. Para cada pecado um toque no tambor, para a riqueza do meu não silêncio, o balançar da marola do Uruguay, trazendo de um lado para o outro todas as almas.
Um comentário:
Bem, eu gostei do teu texto, mas na ótica que compreendo ele, não tem muita semelhança com o meu. Os finais são opostos, as viagens tem motivações diferentes.
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