terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A noite em que os touros de Pamplona caíram


A noite em que os touros de Pamplona caíram

Júlio

Me organizar. É isso que eu preciso. Organizar o que eu estava pensando e o que eu iria fazer, não vou perder meu tempo tentando entender o que estava sentindo, talvez mais tarde, tomando café, depois de dormir pelo menos um dia inteiro, dois, quem sabe. Uma e vinte e cinco. Acho que essa hora já está dormindo, vai lá saber que porcaria de dia deve ter tido. Pode ter sido um dia cheio, ou simplesmente ter pego alguma roupa na tinturaria, comido um pedaço de pizza, meio fria-meio velha, e ido dormir. Não. Especular não faz parte de me organizar. Eu olho para os papeis e para a sujeira do fast food que havia comido minutos antes, seria o suficiente para não sentir fome tão cedo. Sede sim, três cervejas e meio litro de refrigerante de limão não foram suficientes. Mas, melhor não me incomodar com isso agora.

Bato as mãos no volante lentamente esperando o intervalo comercial do rádio terminar. Estação AM. Um início de madrugada de terça para quarta. Inverno de 2006. Faz frio em Porto Alegre, chove no porto dos casais. Ironicamente, antes de ser substituído pela vinheta comercial, com direito a jingle de uma farmácia e tudo mais, Humberto Alavés havia dado a previsão do tempo. Parcialmente nublado, com chuvas ocasionais. O cenário se apresentava diferente. Aquela chuva torrencial, o vento ruidoso e as nuvens cor de breu indicavam algo que talvez, simplesmente talvez, tenha escapado a percepção do sempre tão acurado Humberto Alavés. O telefone toca, uma, duas vezes, fico algum tempo parado olhando sem muito foco, mas, percebendo a luz azul piscando. Ninguém disse que eu tenho que atender, principalmente depois do que aconteceu.

Melhor me distrair com outra coisa. Melhor ficar algum tempo sem pensar em nada. Mais tarde me abandonaria, mas, ali ainda podia sentir uma perspectiva de que alguma coisa iria melhorar.

Abro o porta-luvas, esbarro em tudo pelo caminho, maço de cigarros vazio, palanca de marchas, lata vazia de cerveja. Enfio a mão fundo, desconfiando de mim mesmo se havia guardado o que estava procurando ali ou em outro lugar. Do outro lado da rua a van entrega, curiosamente, o jornal. Cedo demais, pouca coisa pra virar pauta, eu acho. Bom, sem nada de novo nos esportes, nem na cultura e nem na política fica fácil fechar o jornal, poder ir embora mais cedo. Remexo mais um pouco o porta-luvas. No fundo, estava lá.

Faço uma breve ginástica para tirar a jaqueta da maneira mais rápida possível, não que o Gol tenha muito espaço interno, mas, não se mostrou grande desafio. A partir daí não lembro de muita coisa, sei que rolei a manga da minha camiseta cinza para cima, na altura do que sobrava do meu bíceps. Tirei o cinto e deixei o pequeno estojo de couro no colo por alguns instantes. Atei o braço e puxei a tira de coro com os dentes, acariciando com a outra mão o meu braço, procurando por alguma veia que estivesse apta a colaborar comigo. Sempre havia uma, principalmente nessas horas. Acho que foi assim.

A sensação era muito boa, muito familiar. Como voltar para casa depois de um fim-de-semana na praia. Fazia algum tempo que eu havia parado de olhar, mas desta vez não pude tirar os olhos daquilo. A pequena agulha hipodérmica entrando, como se dançasse para dentro do meu corpo, então o vermelho do sangue se misturando com o líquido laranja que havia ali, numa triste combinação de cores que lembrava mais algum pigmento da palheta do Goya do que qualquer outra coisa no mundo. Tão bonito quanto o degradê do céu no fim de tarde, arcando entre o azul da noite e o vermelho do sol. Poesia ingênua, entre o sol e as cores de Goya nada poderia definir a sensação e o delírio que estava por vir. Então como um disparo, o sangue, agora misturado, volta para dentro da veia e, sem teimar muito, a agulha sai, deixando uma tímida gotícula de sangue ali no lugar, fazendo companhia para as outras marcas e furos.

Alícia

“Ai, Neivinha, não sei, já é dez e meia passada. Eu não tô muito afim, sabe? Eu já vou sair na quinta e na sexta, não quero fazer nada hoje. Tem umas coisas de trabalho ainda que eu to vendo. Eu sou super careta, tu que não descobriu esse meu lado ainda. Ai, sabe como eu sou, quando tô sozinha quero companhia, quando tô acompanhada fico entediada... Não, eu não tô esperando gatinho nenhum. Ai, como tu é desconfiada. Hahaha. Hoje, eu quero ficar bonitinha, de pijaminha, bem quentinha curtindo esse clima. Ah, sei lá, eu gosto. É, tem que nascer aqui pra poder aproveitar, realmente saborear o clima. Ou em Londres, ou Seattle. Hahaha, sim, eu sempre disse, Porto Alegre é a Londres latina, só que um pouco mais decadente. Tem o clima gris, o rock’n’roll e um porto que funciona pra pouca coisa. Ah, mas quando a gente foi lá tava divertido. Tá, eu prometo. Não, não, que isso, tu nunca incomoda, eu até tô com sono, mas, quero tomar um banho bem quente e bem longo ainda. Um pouco elétrica, mas eu fico assim quando tô cansada, inquieta. Por isso quer relaxar na banheira. Tá certo, beijo, Neivinha.”

Tu... tu... tu. Clic. Acho que seria bom sair, mas, realmente não é clima. Eu e minhas manias, ficar escutando o sinal que dá quando alguém desliga o telefone.

Júlio

Minhas pupilas dilatadas. Minha respiração ofegante, o coração apertado e o peito ardendo e formigando. A eufórica calma, a tristeza calada se misturando com o som da chuva, ainda forte e insistente. Um momento de quietude. Então a paranóia.

As castanheiras batem forte e tem seu som ecoado por todo meu corpo, reverberado no meu peito e arrancado de todo seu sentido, sua poética e sua cadência entre meu inspirar e expirar. Então logo vêm as batidas dos lindos sapatos negros imaginários num tablado, duas mulheres replicadas por um interessante jogo de espelhos, seus movimentos repetidos por todos os lados seguindo um caminho da música que só elas parecem perceber. Solene, um bandoneon triste e insistente no fundo se esgueira entre o caos, surrado pelos gritos da multidão que tudo observa. Uma mulher igualmente triste, chorando como apenas um bandoneon bem tocado sabe chorar, apoiada no guarda-corpo de uma tribuna, canta, perseguindo a melodia, que agora também ganha companhia dos urros e grunhidos do touro, que se agita e se prosta entre os espaços deixados pelo toureador. Por entre as nuvens, o animal se deixa ficar num único filete cálido do sol, em tons pastéis com o negro de sua pele emperrado, sujo e escuro como a noite. Tarnado de vermelho ao longo de seu dorso soberano. As castanheiras se intensificam e se sobrepõem umas as outras. O bandoneon deixa de lado sua tristeza e começa a carregar em suas notas, diminutas, sobrepostas, uma leveza contínua quase frenética, porém pequena e pontual, marcando cada toque no chão que caracteriza aquela dança inebriada das mulheres de decote vermelho e seu flamenco proibido.

O homem distinto e elegante, no meio da arena, com a haste de veludo verde e anil em riste, observa sua obra prima, tudo que a cerca e seu par majestoso e imponente, agonizando em súplica com as patas dianteiras já dobradas e estendidas sob o chão em direção ao próprio ventre, com a língua de fora e ofegante a olhar fixamente para o brilho do sol na lámina, que não demora a lhe fazer companhia junto ao coração. Agora misturado na areia, o vermelho de seu sangue, o vermelho do vestido da loira sorridente com as castanheiras cerradas, o da morena de olhar fulminante e infantil, o dos cabelos da mulher apoiada no guarda-corpo, cantando baixinho o último verso e voltando para seu início, como se seu mundo se resumisse a isso, e por fim o vermelho do couro do bandoneon, que fica sozinho perambulando por um par de notas para avisar que se trata do fim.

Alícia

A sopa quente tem um gosto mais palatável, mas com esse frio logo vai ficar gelada e sem graça. Acho que deveria ter tratado a Neiva um pouco melhor, não que ela fique chateada, longe disso, mas sei que de alguma forma ela gostaria de passar mais tempo comigo, talvez se eu não pintasse tanto para fora. Outra hora eu saio com ela, melhor assim.

Essa cozinha me deixa emburrada, justo eu, não consegui perceber que ficaria tão entediada com essas cores. Bem que minha mãe me disse para pintar de branco, não por ser comum, mas, simplesmente por ser algo facilmente ignorado. Paredes brancas, teto branco, tudo branco, algo que não incomode, que não pareça estar lá. É, acho que teria sido melhor. Melhor ir para sala.

Fazia anos que eu não ficava assim quieta ouvindo a chuva. Dá um sono, principalmente com esses cheiros de tinta dos quadros ainda frescos. Preciso parar de teimar de pitar em casa. O atelier serve pra isso. Mais fácil dizer do que fazer. Fácil mesmo é ficar assim, recostada no sofá enrolada no cobertor tomando sopa. Sopa de aspargos, de lata, mas, já é algo. Aquele quadro tá torto, que agonia. Chama tanta atenção. Tudo tão certinho ao redor e ele ali torto. Que boba... E minha sopa aqui esfriando.

Júlio

Mais calmo.

Eu acaricio a testa e arrumo o cabelo, hora dividindo, hora jogando para um lado ou outro. Tento não acreditar no que aconteceu e ao mesmo tempo criar coragem para fazer o que tem de ser feito. Os fatos já parecem fora de ordem, nossa vida juntos emaranhada entre coisas vividas, sonhadas e passadas. Mas não chega a formar uma linha do tempo, é tênue demais.

Disse que não beberia, que nunca mais tocaria uma garrafa e todas essas mentiras que contamos quando nos sentimos acuados e prestes a perder algo que julgamos importante. Horas mais tarde eu estava voltando pra casa bêbado como sempre. Quando disse que iria sair senti uma tristeza na voz de Lívia. Se eu tivesse ficado um tempo ainda atrás da porta, mesmo com ela batida às minhas costas, poderia o choro de criança, tão característico dela. Também poderia ouvir o som das roupas sendo jogadas com rancor dentro de uma mala velha, cheia de adesivos recebidos por onde passou.

O barulho da minha chave não a assustou, sei que não. Todo o tempo que passei fora, imagino que ela tenha usado para se preparar para ir embora. Eu, na verdade, me assustei ao ver aquela mala solitária junto ao sofá. Lívia adoravelmente vestida com um vestidinho roxo e meias grossas por baixo. Parecia tão adorável, mas a mágoa escorria-lhe pelas bochechas, caída dos olhos.

“Não vou perguntar o que é isso. Não quero terminar essa briga assim.”

“Olha, Júlio, eu não devo satisfação pra ninguém, eu podia ter ido embora assim que tu saiu. Mas não seria certo, tu merece ouvir que... Que eu te amo, mas que eu tenho de ir embora”

“Porra, mulher, se tu me ama, porque cacete tu tá indo? Eu já disse que vou parar com tudo.”

“Tu não vai entender... Tu nunca entende.”

Um milhão de brigas, todas variantes dos mesmos motivos. Era o que parecia. E o que ela sempre brigava em dizer que não tinha nada a ver. Aquelas palavras dela não tinham um eco ou uma raiz, pareciam palavras de quem já não tinha mais nada para perder, e que, ironicamente, depois de perder tudo, parecia ter ganho o que estava lutando o tempo todo.

Aí ela pegou a mala e andou discretamente até mim, sem olhar para os lados ou para nada, para os lugares onde fizemos amor, ou algo parecido, por onde fomos juntos e também fomos um pouco o ninguém de cada um de nós. E me beijou, com um bocado de carinho e o rosto ainda molhado.

“Vai embora e não faz isso. Eu preferia que tu tivesse ido embora enquanto eu tava fora.”

“Porquê...?”

“Para não precisar mentir e te dizer que eu quero que tu fique. Que eu me importo. Que faz alguma diferença pra mim.”

Ela ficou em silêncio e deixou a mão rolar pelo meu rosto, nuca e peito.

“Júlio, não precisa tentar me magoar agora que eu to indo embora, tu já fez isso durante muito tempo... Eu já tô cansada de tudo.”

Lembro do som da porta batendo. E de ficar sentado por horas a fio, respirando ocasionalmente e contemplando a enorme tela na parede. Uma cena de uma tourada, replicada da memória dos dias de fúria de uma artista ao visitar Pamplona. Comprado com carinho, a única moeda que importava para mim naquela noite. Acho que a dor daquele touro fazia coro com a minha e o torpor de seus últimos suspiros, tão deixados em claro naquela pintura, se espreitava entre as coisas que eu estava sentindo.

Alícia

Melhor deitar aqui mesmo, amanhã eu levo essa cumbuca para a cozinha. Tanta coisa pra fazer amanhã, já devia ter dormido. Eu devia roer menos as unhas, elas tão sempre cheias de tinta, eu devia pagar as contas atrasadas também. Tá tão friozinho, mas tá tão gostoso.

Júlio

Eu pego a tela enrolada no banco de trás e abro a porta do carro, rapidamente corro em direção à porta. 303? 305? Era no terceiro andar, era um número ímpar.

“Alícia?”

“Quem é?”

“...É o Júlio.”

“Bom... Não vou te deixar na chuva...”

Estava encharcado, pelo menos a tela estava enrolada e protegida.

O barulho inaudível do interfone e da porta elétrica abrindo, as gotas de chuva batendo forte nas poças ao meu redor. O prédio deveria ter uma marquise. O elevador estava ali no térreo, e, antes que eu pudesse me acostumar com o pouco espaço que havia ali dentro a porta já estava abrindo e eu já estava em mim denovo.

Eu toquei a porta, leve, quase sem fazer barulho, mas, ainda assim de forma audível. Podia ouvir no fundo um disco da Tracey Thorn tocando, não muito mais alto do que a forma que eu havia batido na porta. A porta se abriu apenas um tanto. Alícia surgiu atrás de uma correntinha, preenchendo um pequeno vão que dava par dentro de seu apartamento.

“Oi, Júlio.”

Disse ela quase sorrindo, sem jeito, sem simpatia e sem agrado, mas de forma extremamente educada.

Paro e olho para uma das mãos vazias e para a tela na outra.

“Se eu tivesse flores, seria mais fácil entrar?”

“Seria.”

“Eu imaginei. Não tem nenhuma floricultura aberta essa hora, né?”

“Não é teu dia de sorte.”

“Eu já tinha parado pra pensar nisso hoje.”

“Que pena, achei que tinha alguma originalidade no que eu tava falando.”

“Bom, já passa da meia noite. Hoje ninguém me disse isso, e, podemos fingir que eu não pensei isso depois da meia noite.”

“Parece bom. Mas, pro teu azar tu não é bom em mentir ou fingir.”

“A gente faz de conta que sim.”

“E como fazemos isso?”

Me aproximo, chego perto o suficiente pra me embriagar de seu perfume e ver meu rosto cansado refletido nos olhos dela.

“Posso começar dizendo que não gosto muito de ti.”

“...Acho melhor mentir outra coisa, já passei tempo demais tentando me convencer disso. O que é que tu tem na mão?”

“A que sobrou.”

“Sobrou do quê?”

“Longa história...”

“Resume, tô com sono.”

Da forma mais desajeitada possível me esgueiro naquele pequeno vão procurando pela boca dela com a minha. A corrente cai e a porta abre.

“Não diz nada, não me fala da Lívia, não me diz que tu tem que ir embora logo ou antes do sol nascer. Só fica aqui um pouco, comigo, deitado nesse sofá.”

“Foi aqui que a gente dormiu aquela vez?”

Ela calou minha boca com a ponta dos dedos.

Eu estendo a tela junto da parede.

“Nossa, tu ainda tem isso. Porque tu trouxe? Quer devolver? È pra isso que tu tá aqui? Assim no meio da madrugada? Andou bebendo demais denovo Júlio?”

Me aconchego ao lado dela no sofá.

“Era a única coisa minha de verdade. Achei que faria algum sentido trazer ela aqui.”

“Tu ainda não me disse porque tu tá aqui. Mas que bom que tu veio.”

“É que não faz muito sentido estar em outro lugar.”

Eu adormeço rápido junto ao perfume do pescoço dela.


FIM


nota do autor: Orgulhosamente uma visão positiva do "amor".

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