segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

TRILOGIA DO AMOR: Obrigado


Quando a enfermeira abriu a porta eu me senti naquele lugar como se não tivesse saído de lá nunca. Muitas tardes, manhãs, noites, madrugadas ali, por todos aqueles cantos. Para onde eu olhava parecia me defrontar com alguma lembrança, que vinha sem ser chamada, apenas para me deixar mais insegura em estar ali, na casa do Pedro mais uma vez. Pela primeira vez depois do acidente.

“Ele tá no pátio, tomando sol. Acho que está de bom humor, os remédios pra dor tem funcionado, mas os médicos estão muito preocupados com as dosagens, não querem que ele fique dependente nem nada disso, mas, mesmo depois de três anos ele continua com muitas dores. Sabe, Heloisa, eles disseram que ele voltaria a andar, mas, uns meses atrás mudaram de opinião. Parece que o dano no disco é irreparável.”

Depois de um tempo não prestando muita atenção, nem olhando pra ela, me dei conta do que ela estava falando e de como ainda me sentia culpada por tudo aquilo. Tentei demonstrar o que estava sentindo em um olhar no mínimo educado. Mas repreensivo.

“Desculpe minha indelicadeza, eu esqueci que você estava também no acidente...”

Nenhuma de nós teve coragem de falar nada por alguns momentos. Ela se virou para me apontar o caminho como se eu não o conhecesse. Não deu tempo de me ver corar de vergonha com a situação. Segurei firme minha bolsa e andei atrás daquela mulher estranha, procurando não olhar por muito tempo para lugar nenhum. Os que eram mais difíceis de ignorar eram os que passávamos muito tempo nos amando. Indo nus, de um lugar para o outro ali dentro, alimentados apenas pelo nosso próprio desejo um pelo outro.

Ela nos deixou a sós, e, antes de sair avisou que se precisássemos de algo, ela estaria na sala.

Moisés estava de olhos fechados, tomando o sol direto no rosto, com uma cara bastante pacífica. Parecia ter engordado poucos quilos, ainda mantinha seu charme atraente, sua pele bastante escura, seu rosto grande e seus dreads grossos, presos por uma fita azul escura. Ele estava vestindo roupas velhas, uma calça cor de mogno e uma camiseta branca amarelada pelo tempo. Demorei pra me lembrar delas, mas, as reconhecia.

A dificuldade era em saber se ria ou se chorava, se me mostrava feliz ou triste. Qualquer opção era sincera demais e me deixaria vulnerável, algo que eu não queria.

Me aproximei timidamente e me assustei com aquela voz grave e familiar.

“Oi, Heloísa.” Disse ele sem abrir os olhos.
“Oi. Oi... Tu ouviu minha voz?”
“O vento tá soprando pra cá, eu reconheci teu perfume.”
“É mesmo?” Falei me aproximando.
“Não, eu ouvi tua voz mesmo, lá de dentro.”

Acho que ele sentiu meu nervosismo, pareceu querer me deixar menos nervosa. Não que tenha funcionado, mas a intenção me pareceu muito amável. Era difícil reconhecer ele ali, daquele jeito. Era difícil ver ele depois de tanto tempo. Queria me desculpar por não ter ido visitar ele no hospital, depois do acidente, quando ele esteve em coma, ou depois das cirurgias, tão duras com ele. Mas me faltava a coragem pra isso.

Ele abriu um pouco os olhos, fazendo uma meia careta por causa do sol.

“Posso te pedir pra me empurrar para a sombra?”

Senti um calafrio ao tocar, sem querer, em seu ombro ao invés da guia para empurrar a cadeira. Ele cuidadosamente, ao perceber que tinha ficado travada, pegou minha mão e botou no lugar certo.

“Ali perto da mesinha e da cadeira está ótimo. A não ser que tu queira ir para dentro. São as melhores opções de lugares que eu tenho pra te oferecer.”

A cada sílaba a vontade de chorar ia crescendo e mandando embora minha vontade de rir de nervosa.

“Eu sei porque tu veio...”
“Acho que não sabe. Bom, talvez não a coisa toda...”
“Veio para se desculpar, não? Por ter sumido depois do acidente?”
“É... Eu acho que sim. Mas eu não sei se mereço perdão pelo que fiz...”
“A mim cabe perdoar, julgar é com o cara lá de cima...”
“Moisés. Eu...”
“Tudo bem, Helô.”

Ele segurou minha mão e esboçou distantemente um sorriso. Estava com a barba por fazer, do jeito que eu mais gostava, um pouco de bigode junto com o cavanhaque, tudo ligado na costeleta pela base do rosto, e, ao redor uma barba por fazer. Eu não consegui acreditar que aquele homem abatido há alguns anos era com quem eu trocava juras de amor quentes e vulgares e, acima de tudo, um carinho e um amor incondicionais.

Queria poder ficar ali, queria ficar saboreando as coisas de antes, sem pensar no peso de tudo, queria lembrar cada detalhe do nosso amor sem pensar que teria de viver um dia na próxima manhã. Queria lhe fazer amor da mesma maneira que fazíamos durante os cinco anos que passamos juntos, sem nunca cansar do corpo um do outro, sempre achando lugares novos e maneiras novas de sentir aquilo tudo que nos unia. Mesmo nossos silêncios ou nossas brigas, tão raras, mas tão duras. Não demorou muito para me dar conta de que ainda o amava. Mas essa era a pior notícia que eu poderia ter. Não que o que eu tinha pra lhe falar fosse melhor.

“Eu vou me casar agora, em outubro.”

Não resisti em tirar minha mão, ela não merecia estar ali junto da dele.

“Foi isso que eu vim falar. Eu achei que tu merecia saber. Tu foi... Tu é importante demais pra mim. Eu queria a tua benção.”
“Benção.”

Então ele permaneceu imóvel, não parecia respirar, nem nada. Estava com um olhar sério vidrado em mim, queria que ele gritasse, que me xingasse, que me julgasse por ser alguém tão fraca e tão ruim.

“Eu vim porque, quando a gente tava junto, tu me deu uma carta, que tinha escrito do lado de fora para abrir somente no dia que eu deixasse de te amar. Só que...”
“Só que tu chegou aqui, linda como sempre. Com o mesmo perfume que colocava quando sabia que ia me ver. E descobriu, ao me ver aqui, que ainda me amava.”
“É...”
“Isso não é amor, Heloísa. Isso é pena. Isso é a pena que tu sente por mim e o remorso por ter me abandonado. Eu tava em coma, como eu poderia lutar pra tu não me deixar?”
“Pára, Moisés, tu tá me magoando com isso que tu tá dizendo.”
“E o teu silêncio não me magoou? Tua ausência?”

O rancor escorria das nossas palavras, as minhas e as dele. Por longos minutos continuamos fazendo ping-pong da culpa, tentando fazer um ou o outro se sentir pior, impotente. Até que desisti ao ver ele escondendo um par de lágrimas.

“Eu não tive coragem de ler a carta...”
“...Escrevi ela depois de fazer amor contigo no teu aniversário. Aquele que passamos na praia, no inverno.”

Fiquei lembrando e saboreando os pedaços de memória espalhados por todo meu corpo. Podia sentir cada segundo passado junto dele naquele dia.

“Porque tu escreveu ela?”
Ele teve de fechar os olhos e respirar fundo para me responder.

“Porque um dia eu sabia que, em algum dia, tu não iria mais me amar.”

Levei a mão até o cabelo e baguncei um pouco ele, tentando me distrair, tentando pensar alguma coisa que não nas palavras dele.

“Como tu pode pensar isso de mim, Moisés?”
“Não sei, eu escrevi ela torcendo para que nunca fosse aberta.”
“Tu acha que eu tenho que ler ela?”
“Tu me ama?”
“Quando tu souber responder isso tu resolve o problema da carta.”

Abri a bolsa e tirei a carta. Coloquei ela na frente dele. Moisés deu uma olhada rápida e continuou se concentrando em me olhar nos olhos.

“E tu, Moisés. Deixou de me amar?”
“Faz diferença pra ti saber essa resposta?”
“Não sei... Tu fala com uma naturalidade...”
“É que eu nunca tive medo de deixar de te amar, porque eu sempre soube que te amaria pra sempre.”

Eu começo a chorar e tento me levantar pra ir embora. A mão forte dele me segura. Me viro, procurando algum traço de amor no rosto dele. Lá, lágrimas.

“Acha que é fácil pra mim te amar, nessa cadeira de rodas? Sem poder fazer nada do que amávamos, sem poder te pegar no colo e andar contigo pelo casa, procurando algum lugar para fazermos amor? Sem poder me levantar daqui pra impedir que tu vá embora.”

Caio vagarosamente me ajoelhando junto à cadeira de rodas dele. Puxo seu rosto junto ao meu e deixo nossas lágrimas se misturarem, cada um com seu gosto e seu jeito, seu peso, sua maneira de rolar pelo rosto. Então beijo-o. Com o corpo todo.

“Obrigado meu amor, obrigado por não deixar de me amor, por não esquecer disso que é tão nosso e que fica guardado no nosso corpo. Tu tem razão, eu nunca tive a coragem necessária, mas eu sei que eu vivi tudo tão forte, queria que nada disso tivesse acontecido.”

Ele segura meu rosto entre as mãos e me olha com a mesma ternura de anos atrás.

”Vai embora, Helô. Vai embora agora senão tu não vai conseguir ir nunca mais.”

“Obrigado. obrigado, meu amor.”

Eu me levanto. Saio correndo pela casa. Entro no carro e saio dali o mais rápido possível. No semáforo fico soluçando junto com as lágrimas. Tento socar o volante, mas logo me dou por vencida.

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