segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

TRILOGIA DO AMOR: Desculpa


“Não sejas assim, fala do teu coração para alguém como eu, muda teu destino e me perdoa do início ao fim, meu amor, teu perdão é minha água...”

Ana Clara canta na sacada do seu apartamento, pequeno e sujo, de um único quarto. Entoa as melodias de forma triste, como se aquele perdão da canção fosse o seu próprio. Como se fosse uma canção para ela, apoiando as mãos no parapeito, de blusa e cabelos negros e calcinha branca, pés descalços tocando com as pontas o chão frio, saboreando com a boca entreaberta o vento e o aroma simples da noite fria. O decote nas costas, que revela com delicadeza a breve nudez que aparece, reflete suave a pouca luz que vem de dentro da sala.

“Teu amor, teu perdão, meu amor, uma canção, uma única can-ção”

Os braços leves e raquíticos, marcados pelas seringas, balançam no ar, como se batessem asas, como se fizessem um paço de dança. Por fim, como se abraçasse a si mesma e toda sua eternidade com o alento do sentimento, que ali, para ela, se traduzia em medo e saudade.

O antes lindo e pequeno corpo de Ana Clara agora se prostava vencido no chão, segurando os joelhos e brigando com os choramingos que venciam a felicidade reticente de dos últimos versos que cantara e, com esforço, rastejando por entre pacotes de camisinha rasgados e garrafas vazias, Ana Clara se deita no colchão atirado num canto no chão. E dorme de exaustão, ao fim da rotina que repete há dias, depois de receber um cliente, depois antes de se dar por vencida em tolerar a si própria, o gosto amargo do ar que respira e a traição venenosa das veias e dos pensamentos, ambos bombeados por um coração doente. Para ela mesma, já morta. Tombada pela aids.

Exaustão. Sempre a exaustão que a leva ao sono, que é sempre evitado, como quem briga contra um dragão imenso. Mas a fraqueza já a impede até de olhar para tal dragão. De gemer em seu trabalho e de encarar a face no espelho, que, o único do apartamento, já fora quebrado em um acesso de embriaguez e loucura, logo após que descobriu que portava o HIV, contraído, pela ironia, não de um cliente, mas do namorado.

O suor frio. As dores. O corpo delgado se contorcendo encharcado junto à parede, no colchão. Um gole seco de whisky velho. O suficiente para acalmar, ou entorpecer os pontos de dor, enganá-los por uns instantes.

De súbito se levanta. Joga no chão pequenos porta-retratos de uma prateleira modesta. Fotos que já não agüentava mais olhar. Envelhecidas pelos maus tratos, agora rasgadas pelas mãos fracas de Ana Clara. Fotos dela mesma, grávida, ao lado do namorado, o amor de sua vida, até que se provasse o contrário. Seu corpo arqueado na parede. A calcinha branca amarelada e as unhas pintadas de roxo escuro, na mão direita pequenos pedaços de fotos rasgadas caindo no chão como neve. Na direito o punho cerrado batendo na parede com tanta força quanto conseguia espremer de seus braços.

Então, o retorno. Um som estranho vindo do outro lado da parede, da porta. Pelo olho mágico ninguém do outro lado, mas a insistência permanecia, a cada batida na parede outra vinha em retorno, então outra e mais outra, quase beirando um eco débil. Então a exaustão mais uma vez, e mais uma vez os sonhos.

O céu vermelho, uma neve cinza caindo sobre os carros, as árvores e as ruas. Ana Clara parada no topo do prédio jogando pétalas de lineus roxos para baixo, carregados velozmente pelo som e a languidez dos ventos. Aí o silêncio. Seu olhar perdido tomado pelo sorriso de uma criança no meio das nuvens, uma menininha. Da igreja, do outro lado da rua, lentamente os sinos começam a se mexer, com um espaço de tempo enorme até as primeiras marteladas recomeçarem.

“Um grito um, um amor. Pra mim, tão distante, me leva meu amor, me abraça com a tua dor.”

As rimas. Então a fome.

Ana Clara desperta e bebe um gole do vinho virado perto da cama. Ergue a garrafa e deixa o líquido morno descer cortando pela garganta. Ela se sente melhor, por alguns segundos. Então volta a se sentir como antes.

Com as mãos cruzadas junto ao ventre ela acaricia uma cicatriz e tenta se levantar, apoiando-se na parede. E, como se estivesse dançando na água, anda de um lado para o outro devolta até a sacada. E sobe.

O vento lhe acaricia o corpo de uma maneira triste.

“Me desculpa meu amor, me desculpa.”

Então com o mais débil sorriso ela deixa seu corpo pender para fora do prédio. Segura os braços e fecha os olhos vagarosamente, pensando no perfume delicioso que sua filhinha teria se não tivesse sido abortada. Em todo amor do mundo que iria ganhar de Ana Clara, em toda a felicidade de uma vida que se encontrava ali. Em algo tão pequeno, tão vivo e tão importante, onde a coragem de amá-la não se esvaia na ponta de uma agulha, ou na cama com um estranho. Desta vez Ana Clara teria todo o tempo do mundo para estar junto à pequena Lia, quem sabe Sabrina, ou mesmo Agnes. Em alguns segundos ela descobriria.

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