
Quando dissemos adeus juramos nunca mais voltar. Prometemos todas as mentiras sujas que sucedem todo fim trágico de relação humana, acreditamos com uma fé sobrenatural no poder de cura do espírito que só o amor tem e assim que demos as costas um ao outro começamos a derrubar as memórias das paredes, deixando ali apenas um cheiro de mofo para que todos olhassem e, os poucos curiosos sentissem falta.
Não é fácil dizer adeus, e, quando se diz, ou se emprega toda uma força no sentido de cada palavra ou as cicatrizes permanecem abertas. Assim preferem os sádicos, mas o olhar que trocamos ao longe não acusava isso.
Me virei para frente e tão alto quanto pude disse.
‘E viveram felizes para sempre. Até que o para sempre se tornou uma dor, uma daquelas que se convive por preguiça de procurar um médico. Então, sem percebermos, por causa das outras dores, aquela dor vira uma lembrança, que volta e meia figura entre os cantos do mundo. Daí vira memória, e da memória cruza a ponte para o esquecimento. E no caso dos homens, bate a porta atrás de si sem mais olhar para ela.’
Tento fingir um sorriso. Sinto o cheiro do corpo dela em minhas mãos e fico próximo de uma lágrima. Ou de uma torrente delas.
Dobro os joelhos e caio no chão.
‘Caio’
Diz ela do outro lado, com um pedaço da saia nas mãos, afastando da linda coxa.
Então o silêncio. Imperativo e lustroso, iluminado por refletores quentes com filtros frios, azulados e noturnos como as coisas que fazemos escondidos.
‘Não. Ainda não é assim’.
Grita o diretor de uma cadeira no meio da platéia.
Depois do ensaio, fora do teatro pergunto para Isabela se ela não quer pegar um táxi comigo, ao que ela responde que sim, sem muito interesse. Um charme, uma fleuma impassível encantadora, mas, difícil de ser apreciada.
‘Gosta do texto?’ pergunto ingênuo enquanto dou um dos endereços para o taxista.
‘Não sei. Gosto, não gosto. Não faz lá muita difrença. Moço, eu fico na República, ali com a José do Patrocínio...’
‘Ahhh... Vai ficar na cidade baixa?’
‘É o jeito, preciso beber um bocado pra agüentar esses ensaios’. Diz ela sem tirar os olhos do vidro, sem olhar pra mim.
‘Olha...’ Falei arredondando as vogais mas sem a intenção de falar realmente algo.
‘Não precisa falar, a gente se entrosa nos ensaios. Deixa as formalidades pra lá e me beija logo, eu desço primeiro e a gente já tá chegando’.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ela se virou para mim e me beijou.
Com força. Agarrando minha roupa, meu peito, minha barriga, coxas. Desajeitada e manhosa. Enquanto abria e fechava os olhos, hora pra entender, hora pra aproveitar de alguma maneira aquilo ali, percebi o taxista nos observando pelo retrovisor com a mesma cara de surpresa que eu estaria se não tivesse uma garota em cima de mim.
‘Obrigado...’ Disse ela, sorrindo e voltando para seu canto.
‘Só assim para mim sair do personagem, eu tava muito carregada’. Adicionou ela.
Pela primeira vez na vida decidi falar o que estava pensando. Me parecia uma boa oportunidade e não parecia ter muito a perder.
‘Eu não sei se tu é mais uma atriz louca que ele chama, se tu é pra lá de profissional ou se tu tava arrumando a desculpa mais estranha do mundo para me beijar...’
Ela sorriu quase de orelha a orelha.
‘Tu pode pagar a primeira cerveja e descobrir’.
Denovo. Pela primeira vez iria ver o onde minha curiosidade iria me levar, mesmo sem saber se torcia para acabar na cama dela ou ganhando aulas para melhorar minha atuação naquela doidera de peça que estávamos fazendo.
Não que uma coisa excluísse a outra, para a minha sorte.
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