
O som dos talheres batendo nos pratos e na comida era o mesmo de sempre. Comum e indiferente. O vinho era mesmo de um ou dois jantares atrás. A sala estava decorada da mesma forma desde que nos mudamos para aquele apartamento. As mesmas cortinas brancas, o mesmo carpete caramelo, os mesmos sofás cor de vinho. Não havia nada de diferente, mesmo que eu procurasse por algo.
Gabriel havia colocado a mesa do jeito que eu gostava, com os pratos de frente um pro outro, e não do lado. Tinha feito um macarrão bastante comum, mas, com um gosto de partir o coração. Nunca dei bola para as coisas que ele cozinhava, mas, fiquei tentando saborear o máximo possível dessa vez.
"Tu conseguiu aquele projeto que tu queria? Acabei esquecendo de te perguntar..."
"O resultado sai amanhã. De manhã, na primeira reunião. Chamaram alguns outros arquitetos, mas, bom... Tu viu o meu projeto."
"Me serve?" Falou ele me oferecendo seu cálice vazio. Ao que despejei cuidadosamente o pouco que havia ainda na garrafa.
"Vou ali na cozinha pegar mais, lembro de ter visto outra garrafa desse seco."
Enquanto abria a despensa me assustei com o abraço que recebi por trás. Com a cara de Gabriel enfiada em minhas costas.
"Que foi...Biel..."
"Eu te amo, Alexandre." Falou baixinho, procurando meu ouvido.
"Não faz isso, Biel... Vamos voltar pra mesa, eu to com fome."
Não lembro de termos conversado mais nada. A comida estava ficando fria e acho que isso acabou nos fazendo ficar quietos, apenas nos preocupando em comer. Ao menos foi assim pra mim. Volta e meia ele sorria, ao que eu retribuía piscando lentamente os dois olhos. Nossos pequenos códigos, nossas intimidades, mesmo elas, incapazes de sustentar a idéia de que era apenas mais um jantar.
"Tu volta amanhã ainda?"
"... Não, amanhã eu já durmo no apartamento novo."
"Quanto é o aluguel?"
"Biel, não precisa..."
"Eu posso te emprestar dinheiro, pro começo. Tu pode dormir aqui ainda, no sofá, se tu quiser."
"Biel, não..."
"Como tu vai pagar o aluguel?"
"Ai, Beil...pára..."
Ele soltou os talheres de forma ruidosa e fechou o rosto.
"Tu vai dividir com alguém."
Apenas confirmei com a cabeça. Aquilo colocou um ponto final na nossa conversa. Ele não precisava perguntar se era com um homem ou com um mulher, ele não precisava ou queria saber mais nada. Simplesmente limpou a boca com o guardanapo e agradeceu pela companhia.
Biel mordeu rapidamente o lábio inferior e foi se retirando vagarosamente sem me olhar. Logo desapareceu atrás da porta do nosso quarto enquanto eu o acompanhava com o canto do olho.
Comecei a tirar a mesa, coloquei o vinho de volta na despensa e o resto da massa na geladeira.
"O Bruninho não quis comer. Será que o Biel falou alguma coisa pra ele?"
Não sei por que pensei em voz alta, não tenho esse costume, mas acabou saindo. Tanta coisa diferente acontecendo, não estranharia se começasse a fazer algumas coisas de forma diferente.
Me sentei no sofá da sala, no escuro, por um instante. A pouca luz que vinha dos outros prédios era o suficiente para mim, não estava com sono, não queria ver tevê ou ler. Não queria ir até o quarto também. Sabia exatamente tudo que aconteceria se fosse até lá. Biel brigaria comigo, bateríamos boca por horas, correríamos o risco de acordar o Bruninho. Então de alguma forma transformaríamos aquela raiva em uma vontade de sentir o corpo um do outro tão junto, mas tão junto, que o espaço entre eles acabaria se tornando meramente um breve poema, ou de alguma forma assim como o Biel me explicaria depois. As roupas cairiam e então faríamos a única coisa que ainda sabíamos como fazer, pensando um no outro.
Não, melhor não. No fundo eu sabia que não precisava disso. Preferia me consolar com outras lembranças de Biel, de coisas nossas muito mais verdadeiras do que o sexo vulgar que vem com toda separação. Com todo fim.
O relógio apontava quinze para as dez. Me faltava a vontade de passar mais uma noite ali. Era melhor me despedir do Bruninho e recusar o convite do Biel, que a essa hora só se mantinha pela educação, provavelmente. Pelos onze anos juntos e pelo filho que tanto amávamos. Não era mais o sexo vulgar, era o garoto que ainda nos unia. Que ainda ligava um amor ao outro.
O telefone tocou. Não me preocupei em atendê-lo. Ao que pareceu, Beil também não. A secretária eletrônica deu conta do recado.
"Olá, você ligou para a casa de Alexandre Figueroa e Gabriel del Grecco. Não podemos atender no momento, deixe seu recado após o bip." Bip. "Oi, Alê, é a Tininha, a gente precisa conversar, não vai fazer bobagem hein? Eu falei com a Rebeca, ela te empresta a chave do carro dela, é pra tu pegar amanhã de manhã. Me liga assim que der, beijos."
Não era hora de lidar com aquilo também. Sabia que não estava sozinho. Era melhor ir logo dar boa noite para o Bruninho.
Abri a porta do quarto do Bruno com muita calma, ele estava quase dormindo, mas ainda de olhos abertos.
"O que está fazendo campeão? Não é hora de dormir, não?"
"Eu tava contando as estrelas, sempre me perco no meio do caminho."
O quarto estava com a luz apagada, e, as estrelas eram estrelas de plástico que brilham no escuro, inúmeras delas povoando o teto.
"Da última vez que nós contamos juntos eram oitenta e seis, não eram?"
"Eram sim, pai. Agora eu lembrei, foi naquela noite que nós saímos para jantar não foi?"
"Isso, quando os papais fizeram dez anos juntos."
Lembro com carinho daquela noite. Uma década ao lado do Biel. As coisas já não estavam muito bem, mas foi uma época boa. Eu já havia conhecido o Ângelo, já tinha me encontrado com ele algumas vezes. Porra. Eu tinho ido pro motel com ele na noite anterior.
Bruninho interrompeu meu transe antes que eu começasse a chorar como uma criança mais nova do que ele.
"Ficamos nós três na cama contando as estrelas né, pai? Foi tão legal. A gente não pode fazer isso hoje, chama o Biel pai. Chama!"
Nessas horas é impossível não se sentir um monstro. Então tive que fazer o que melhor fazia quando queria explicar algo para o Bruninho. Eu mentia.
"O Biel tava com dor de cabeça e foi deitar, tava com muito soninho também."
"Ahhh... Então, pai, me conta uma historinha?" Me disse já me entregando um livro de fábulas que eu tinha dado para ele no dia do seu aniversário, poucas semanas atrás.
"Era uma vez..."
Enquanto narrava a estória para ele de uma forma bastante mecânica, comecei a lembrar de tudo que estava acontecendo. De como eu e Beil havíamos brigado no dia do aniversário dele, mas, tivemos de acobertar tudo para que ele não ficasse triste. Que no meio daqueles sorrisos falsos e daquela intimidade forçada conseguimos encontrar um amor muito forte. E, que, depois de nos amarmos por horas, ficamos jurando coisas um para o outro de uma forma adolescente, quase infantil, enquanto olhávamos o sol nascer pela janela. E, acima de tudo, que ficaríamos juntos pelo Bruninho.
Nunca consegui cumprir promessa alguma.
"...E daí o príncipe beijou a princesa e eles foram felizes para sempre."
"E o baile?"
"E no baile eles dançaram a noite inteira, e depois, assistiram o sol nascer do alto de uma colina, abraçados, jurando ficarem juntos para sempre."
"E ficaram juntos para sempre, pai?"
"Ficaram."
Queria prometer me desculpar com ele por tantas mentiras, mas, dificilmente reuniria a coragem necessária para isso.
Ele já estava dormindo quando dei-lhe um beijo na testa e me apoiei para me levantar.
"Adeus, meu amor."
Biel estava na porta.
"Há quanto tempo tu tá aí nos espiando."
"O suficiente."
"Olha... Fala o que tu quiser...Mas não aqui, o Bruninho não tem nada a ver."
Enquanto ele se dirigiu até a sala eu fui até a porta e coloquei minha chave. Beil mudou de idéia.
"Não preciso te lembrar o que tu tinha me prometido... Uma das tantas coisas..."
"Não, eu mesmo já fiz isso."
Abri a porta e fiquei parado, esperando covardemente por uma reação do Biel.
"Tchau, Biel..."
Ele correu a pouca distância até mim, já descalço mas ainda de jeans e camiseta. Com a cara amassada de sono e inchada de choro. Segurou meu rosto e me beijou.
"Eu te amo, Biel... Não pensa outra coisa de mim..."
"Então porque tu tá indo embora?"
Então o beijei por mais uma vez e deixei para ele minhas costas e meus passos cansados até o elevador.
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