
A verdade é que eu não queria estar lá. Estava com muita dor de cabeça, um pouco de ressaca e entediada já ao chegar. Serviço comunitário por péssimo comportamento, não pude deixar de pensar, “se com dezesseis anos tenho que fazer isso, que porcaria vou ter que fazer quando for adulta?”
Seis visitas a um asilo para cuidar de algum velho, ou velha, deprimido que nem a família agüenta. Eu poderia estar errada, mas, tinha todo direito de pensar isso, eu não pretendia envelhecer, ao menos não estar viva para me ver enrugada e velha, dependendo do dinheiro de algum ex-amor. Não... Simplesmente não.
Eu estava no pátio, sentada em um banco de madeira chumbado na grama. Estava com os pés em cima do banco e a saia jogada por cima das coxas, tapando-as para que continuassem braquinhas, fugindo do sol forte de verão. Já era final de tarde, mas ainda estava quente e abafado. Uma brisa calma levava aquele ar morno de lá pra cá, hora balançando um pouco as folhas e flores, hora se escondendo entre as amoreiras. Isso eu não podia negar, o lugar era muito bonito, bastante bucólico e tranqüilo. Mas estes lugares são carregados de uma tristeza e um cheiro de morte que são inconfundíveis e bastante constrangedores.
Enquanto observava alguns moradores do asilo caminhando, e esperava interminavelmente por alguém que fosse me levar até o velho de quem eu tomaria conta, brinquei com as pontas do meu cabelo até ficarem oleosas. Pensei em ligar para o Marco e me desculpar pela briga boba. Mas, antes que eu pudesse criar coragem para pegar o telefone, ou mesmo tentar formular alguma desculpa esfarrapada, uma jovem moça de branco me interrompeu.
“Elis?”
“Isso...”
“Como a cantora?”
“Sabe que eu nunca tinha parado pra perceber isso?”
“Oi?”
“Nada não. É tu que vai me levar para o...?”
“Duarte. Maestro Omar Duarte”
“Maestro?”
”Ele foi Maestro da filarmônica municipal durante décadas.”
“Hmm...”
“Bom, acho que vocês vão se dar bem. Ele é um homem muito interessante, mas muito reservado.”
Fiquei com vontade de pedir para ela não falar dele como se fosse um pretendente a namorado. Talvez fosse o jeito dela, mas era altamente irritante. Os minutos caminhando até o alojamento onde ele estava, um quarto simples de solteiro com uma janela para um outro pátio, foram tortuosos ao ponto de eu fingir uma ligação telefônica para que ela ficasse quieta e parasse de falar das qualidades do tal Maestro. Quem sabe ela era tão solitária quanto aquelas pessoas ali ao nosso redor, por isso esse jeito tão estranho, escondendo a solidão com um pacote de dentes brancos e um sorriso falso.
Ela me deixou do lado de fora da porta e me desejou, estranhamente, boa sorte.
“...Está aberta.”
Como um trovão. Uma voz rouca e imponente. Mas de forma alguma combinava com aquele homem mirrado, quase sumindo dentro de um pijama de algodão listrado, prostrado em uma cadeira de rodas que parecia ser tão velha quanto ele.
A pele marcada, com vários vincos. O rosto cinza e os olhos negro-leitosos, contemplando alguma coisa ao longe pela janela. Duarte não se deu ao trabalho de virar para me receber, ao menos dizer “olá!” ou olhar para minha cara. Estava com o queixo apoiado em uma das mãos, como uma criança entediada em um dia de chuva. O sol, recortado pela janela, fazia com que sua sombra se esparramasse pelo vazio do quarto, pouco mobilhado e decorado. A não ser pela cama, um pequeno armário e uma estante com livros, ao lado de um criado mudo, nada havia ali.
Não lembro quanto tempo foi que levou para que ele voltasse a falar. Mas com certeza mais de dez minutos.
“Não precisa ficar parada na porta.”
Claro que eu não precisava.
Dei alguns passos e encostei a porta deixando a mão pendurar para trás, pensei em me apresentar, um mínimo de educação. Mas surpreendentemente ele pensou em algo para falar antes de mim. Surpreendente porque ele parecia um daqueles senhores que falam no máximo duas ou três vezes por dia.
“Não me importa teu nome. Vocês vem. Vão. Voltam uma semana depois. Vem e vão denovo. E pronto. Vou te salvar a paciência, não precisa ficar ou falar nada. Se quiser ir eu digo que tivemos ótimas conversas sobre um passado saudoso e que mal posso esperar por teu retorno. Mas, se for ficar. Não vai ganhar meu desafeto com teu silêncio... Muito antes pelo contrário.”
Parecia um desaforo. E no fundo era. O que mais um velho mal amado poderia dizer no final da vida, fiquei pensando. Mas, era contraditório, ao mesmo tempo em que parecia rude, era tudo o que eu queria. Mas tinha algo errado ali.
“Minha carona só chega às sete e meia...” Falei sem a pretensão de ser ouvida, enquanto tateava pelo meu corpo procurando por um isqueiro. Um cigarro me faria bem. Poderia fumar quase a carteira toda naquela hora e meia que tinha para matar ali. Duarte permanecia imóvel, a não ser pelo visível movimento do peito, para respirar, Inspiradas profundas, expiradas ruidosas.
Me escorei numa das paredes, com um pouco de medo que ela caísse e tudo viesse abaixo, pois era muito fina, dava para ouvir as pessoas do quarto ao lado assistindo um programa de auditório na televisão, o som dos passos junto com o andador no corredor, e das conversas no jardim. O silêncio torna os ruídos mais altos, pensei ao reparar no som do fumo queimando perto dos lábios, e da pedra riscando toda vez que rumava um novo cigarro até a boca.
Ocasionalmente ele murmurava alguma coisa, algo incompreensível. Gesticulava com uma das mãos e depois tornava a se concentrar na janela.
Quando comecei a fumar o último cigarro, procurei por uma lixeira, havia uma no canto, do outro lado da cama, que não o da mesinha de cabeceira. Nele havia um lenço. Coloquei o maço de Marlboro no lixo e toquei o pano. Era muito macio e tinha um pequenino rasgão na ponta, como se estivesse preso a algum lugar. Tinha tons de marrom e preto, se misturavam graciosamente.
Ainda sem olhar para mim ele gritou, agarrando forte o apoio dos braços na cadeira de rodas.
“Nunca mais toca nesse pano, sua garotinha.”
Claro que me chamar de garotinha não era nada, mas, certamente eu imaginava qual era a intenção daquelas palavras. Minhas pulseiras farfalharam e fizeram um ruído e, batendo os pés no chão, bastante consternada, saí dali deixando a porta atrás de mim, sem entender, sem querer entender e sem nenhum cigarro para fumar, ainda com uma dor de cabeça aguda.
Demorou um pouco para minha carona chegar, não expliquei nada para ninguém ali, apenas saí ignorando qualquer chamado pelo meu nome e me sentei no meio-fio.
A sexta-feira seguinte chegou rápido. Minha tentativa de me desvencilhar daquele trabalho não tinha se sustentado e mais uma vez eu estava lá. Rabugento e louco, pensei. Aquele homem não passava de um idiota. Desta vezes não precisei ficar horas esperando para que alguém me indicasse algo. Ao chegar, sorri para a mulher atrás da escrivaninha, e deixei um documento ali, para que ela anotasse e me desse depois uma espécie de recibo por estar lá. Em algum momento pensei em tentar suborná-la e me dar todos de uma vez, mas, certamente não teria nada para lhe oferecer além de dois chicletes e algumas moedas. Não, não parecia o tipo de pessoa que faria algo por tão pouco.
Eu entrei e fui surpreendida por um leve sorriso, pequeno, com parte da boca apenas, mas que logo se tornou a mesma carranca do outro dia. Omar Duarte estava ali sentado na cadeira de rodas praticamente no mesmo lugar, cheguei a pensar que a cadeira era tão chumbada no quarto quanto os bancos do jardim, ou algo que o valha. Ele coçou a barba e tornou a olhar para um álbum de fotos no que tinha ao colo.
Por algum motivo achei que deveria me desculpar por alguma coisa, seja lá o que fosse.
“Olha... eu não sabia que...”
Vagarosamente ele virou para mim, parecendo um pouco indefeso.
“Não tinha como saber.”’
“É que eu tenho...”
Mais uma vez ele me interrompeu, alisando a fronte e correndo a mão pelo lado do rosto.
“Não tinha como saber que tu era assim.”
Ele falou girando o álbum de fotos em minha direção como quem diz, “aproxime-se... Ou, entre”.
Com um pouco de desconfiança fui até ali. Por um longo tempo fiquei parada, deixando o rosto cair lentamente para ver melhor, até que coloquei minha mochila no chão e me apoiei sobre os joelhos. Não dava para julgar direito mas a mulher na foto parecia comigo, de uma forma distante, era uma foto preto e branca bastante velha, ela estava sentada em uma praça, Parecia sorrir para alguém fora do quadro da foto, estava usando um vestido de verão branco e tinha os cabelos caídos pelos ombros da mesma forma que eu,
Não havia necessidade de falar nada e por um bom tempo ficamos calados, ele fechava os olhos às vezes, como que lembrando das coisas ao redor daquela cena fotografada, o jeito do seu cabelo e como havia beijado aquela mulher,a maneira como ela segurava a sua mão e puxava para perto de si.
“Porque acha que é difícil?” Ele me perguntou com uma voz mansa e triste.
Seria complicado, e foi, dizer algo depois disso. Mas ele percebeu e, quando me sentei no chão com as pernas cruzadas ele respirou fundo e olhou para o teto, como se lá estivesse escrito toda sua vida e não apenas uma lâmpada e um ventilador velho de ferro.
“Ela se chamava Nádia e...”
A partir daí eu não prestei mais atenção no que ele falava, primeiro porque ele parecia estar perdido demais contanto a história para si mesmo, escolhendo as palavras que mais lhe agradavam para traduzir todas aquelas imagens e memórias, e segundo, ainda estava assustada por ela se parecer tanto comigo, fisicamente, claro.
“...Desculpe. Sei como é entediante ouvir sobre a vida de um velho tolo.”
A voz dele já não era ríspida, não parecia mais tão seca e tão profunda. Apesar de lacônico ele tinha uma felicidade estranha nos olhos, diferente da semana passada. Parecia estar em contato com algo perdido. Talvez algum parente tivesse trazido o álbum para ele, encontrado em uma caixa vazia em um sótão, ou porão. Estava um pouco empoeirado e castigado pelo tempo.
“Conheci ela em um teatro, Nádia dançava e...”
E, vagarosamente enquanto ia me aninhando no ritmo e na cadência com que ele narrava, me distraí com o calor pouco usual de uma lágrima rolando preguiçosamente pelo meu rosto. Então outra. E outra. Já havia ouvido histórias de amor, não que eu acreditasse muito nelas, mas sabia quando me deparava com algo interessante, e de um momento para outro tornou-se impossível não sentir a dor daquelas palavras, daquele amor perdido, roubado. Omar demorou a perceber minhas lágrimas, e, tão logo ele as percebeu, ao virar casualmente o rosto em minha direção, escondi meu rosto deixando os cabelos caírem pelo lado e olhei para baixo.
Eu podia ouvir o barulho de um ou outra gota batendo no assoalho de madeira, mais uma vez, o silêncio transforma as coisas que não ouvimos em gritos, em coisas que se pode ouvir até mesmo do topo do mundo. Daquele momento em diante não houve mais silêncio para mim, pois, mesmo a mais profunda das quietudes morre por teimar e fazer ela mesmo tão presente, tão perceptível. Aquele silêncio mentiroso evidenciava tanto barulho dentro e fora de mim que me era quase palpável. Entendi o que os poetas queriam dizer com “o silêncio é a primeira mentira bem escrita”. Também entendi um pouco da loucura que se cai sobre quem sente a mesma dor diariamente, por anos a fio, inquestionável e incessante.
Não deixei que visse meu rosto até a hora que fui embora.
“...Eu me chamo Elis.”
E levantei-me virando, dando-lhe as costas. Envergonhada do que havia sentido ao ouvir aquela história e pronta para beber muito de qualquer coisa, qualquer coisa suficiente para me fazer sentir algo diferente daquilo que estava se lastrando em mim.
No caminho de casa tentei lembrar do nome do disco que Nádia estava dançando quando eles se dormiram juntos pela primeira vez. Algum jazzista antigo. Charlie Parker, John Coltrane, Duke Ellington, Dizzy Gillespe. Poderia ser qualquer um deles.
Quando cheguei na loja já havia me decidido, e, quando cheguei em casa mal podia esperar para ver a agulha arranhando os sulcos do disco e reproduzindo aquilo que fora trilha Sonora da vida daquele homem.
Tinha melodias tristes, mas, ao mesmo tempo algo que dava vontade de dançar, ou mesmo balançar o corpo vagarosamente, acompanhando o sopro longo de cada nota que se espalhava no ar.
Quando a sexta-feira seguinte chegou, peguei um vinho que tinha em casa e o disco que havia comprado. Coloquei-os na mochila e fui para o asilo, saí com tempo, preferi caminhar todo o trajeto. Não estava tão quente. Estava um pouquinho frio na verdade. Coloquei uma saia longa e uma blusa com um pequeno corte junto aos seios. Também peguei um cachecol, um leve e de cor escura, um preto meio azulado. Era uma cor que eu gostava muito mais jamais descobrira o nome, parecia com o céu no inverno antes de amanhecer. Só que mais puxado para o azul.
A mulher da frente do asilo, que cuidava as entradas e saídas me olhou da mesma maneira, mas de uma forma diferente, procurou não encontrar meus olhos, apenas verificou se era eu, ao olhar minha identidade, e voltou a anotar o que estava copiando. Tinha um livro bem grosso na sua frente.
“Eu preciso dos atestados, recibos, sei lá...”
“Quando tu for embora eu te dou.”
Toquei a ponta da mesinha com os dedos antes de deixar ela de lado.
Bati na porta do Maestro e fui entrando, preparei um sorriso sincero, mas fui detida rapidamente por uma enfermeira. A mesma que me levou até ali da primeira vez.
“Elis, podemos conversar um pouquinho?”
Então fechou a porta e se encostou na parede.
“O Sr. Duarte teve um problema. Ele teve uma recaída e uma reação à um dos remédios que o psiquiatra daqui prescreveu e... Bom, ele não ouve ou fala mais e não reconhece mais ninguém.”
Queria perguntar “como assim?” ou algo do gênero. Mas eu preferi entrar, e antes que ela pudesse dizer alguma coisa fechei a porta na cara dela. Pude ouvir ela escorrer uma das mãos pela madeira antes de seus passos desaparecerem no corredor.
Omar estava sentado no mesmo lugar. Agi naturalmente, larguei minhas coisas e fiquei falando com ele, esperando que tivesse algo em retorno. Mas nem um músculo, olhar, sorriso. Nada.
Eu coloquei o disco numa espécie de vitrola e tomei um gole do vinho. Deixei cair um bocado dentro da boca e, de forma pouco feminina, pouquíssimo delicada, enguli tudo de uma vez.
Olhei para a foto de Nádia na mesa de cabeceira e tentei arrumar o cabelo de forma parecida com o dela. Então, tirei os sapatos e coloquei meu cachecol junto ao pano marrom.
Desajeitadamente comecei a dançar por ali, da forma mais ingênua e atenciosa possível. Girei, tentando entrar num ritmo parecido com o da música e fiquei na frente do Maestro. Encolhi-me quase sentando no chão e proteji a boca com uma das mãos, sufocando os soluços. Mais uma vez molhando aquele assoalho com algumas lágrimas.
Me aproximei, devagar, e coloquei um cobertor, que estava dobrado ao lado da cadeira, sob suas pernas. O quarto estava frio, apesar de um dia de verão, principalmente para alguém que não pode se mexer e fica apenas parado em uma cadeira de rodas. O vento cortava as folhas no jardim, como me mostrava a janela, e se juntava acanhadamente à melodia do disco.
Eu o olhei por um longo momento e então, sem pensar muito, e coloquei de forma muito infantil meus lábios sob os dele e os apertei com alguma forma de carinho. A agulha arranhava os sulcos do vinil e dançava pelos acordes finais da música, e, pela janela algumas gotas de chuva começavam a tilitar no vidro.
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