
O som da respiração dele é forte e barulhento, seu rosto tem pingos de suor por todos os cantos, perto da boca, em cima do lábio. Ele me olha assustado, com olhos de remorso e medo, as mãos paralelas ao rosto, deitado naquela cama, com mais lembranças nossas do que de muitas outras meninas que estiveram ali. O quarto fede a maconha de má qualidade. Insuportável, mas, que garota apaixonada não faz vista grossa pra essas coisas? Ele sempre fuma depois de me "ver".
Devagar eu vou subindo, me ajeitando em cima do abdômen dele. Minha mini-saia xadrez cai devagar sobre o peito dele, ao mesmo tempo, sobe pela minha coxa, revelando um pedaço da minha calcinha branca. Minha blusa se pendura nos meus seios e nos meus ombros por apenas um botão. As pontas loiras do meu cabelo vermelho caem sobre meu rosto, que, estaria sério, se não fosse o cheiro de homem com medo, um aroma que me faz sorrir com o canto da boca. Foi enquanto olhava pra ele que tive a primeira seqüência de lembranças. De como nos conhecemos. Uma memória teimosa, mas, com os dias contados. Era convidativo saborear ela ali.
Eu trabalhava em um café, um desses quase chiques, com um par de computadores para as pessoas usarem, tinha uma decoração meio rústica, era com paredes alaranjadas e madeiras em mogno. João sempre ia lá as quintas à tarde, sentava sempre numa mesa diferente, mas, geralmente perto do rádio que, contra a vontade da dona, tocava algum jazz antigo que só eu ouvia. Mas só depois eu fui gratamente descobrir que era esse lixo cultural que nos juntava. Cultura dos anos 60 misturada com as bobagens novas de hoje em dia. João sempre me olhava, eu fingia que não via, e ele fingia que não sabia. Suas pilhas de livros e seus olhos escuros, seu jeans surrado e suas anotações fictícias para desviar o olhar de mim. Muito atraente. Mas, uma pena, depois da época de paquera silenciosa no café, eu jamais iria ver aquele João novamente.
Sacudo minha cabeça pra voltar à mim mesma. Começar o longo e tedioso processo de me desapegar daquelas lembranças. Eu tento me lembrar do único propósito que me faz voltar àquele apartamento, mesmo cheia de angústia e, para minha surpresa, sem a mínima ponta de arrependimento. Organizei os meus pensamentos e me concentrei no triângulo amoroso que estava se formando logo ali, naquele momento. Eu. João. E o revolver do meu irmão. Quem disse mesmo que ter um irmão bandido não tinha um lado positivo? O tempo se arrasta de um jeito saboroso. De algum modo eu estava comprando minha liberdade com um crime, mas, quando se está falando da liberdade da alma, qualquer cela de três por três metros, que vem de brinde com isso, parece gigante. Um preço extremamente razoável a se pagar. Eu não queria mais ser uma bonequinha para ele. Eu tenho amor por mim mesma. Entre um suspiro e outro, uma batida e outra do meu coração, tive outra seqüência de lembranças. Um segundo flashback, este sobre o dia em que as coisas mudaram de rumo, onde o conto de fadas ganhou um clima noir.
O vento batia forte e esvoaçava meu cabelo, tinha demorado horas pra arrumar, mas, valia a pena, tudo por ele valia a pena. Tínhamos marcado no parapeito da Usina. Era um dia cinza de agosto, um friozinho gostoso, mais porto-alegrês impossível. Eu fiquei me debruçando, pendurando boa parte do corpo pra fora da mureta até sentir ele me abraçar e com um singelo olhar e um tímido miado dizer "oi amor". Ele passeava a mão com nosso anel de prata pela minha roupa, e, delicadamente brincava com a minha mão.
Fazia isso enquanto discursava sobre algum poeta do início do século. Dizia que me amava entre uma história e outra, e comparava nosso romance a todos os épicos amorosos possíveis. Mais tarde, ainda naquele dia, o sorriso dele foi amarelando, e devagar ele foi ficando mais distante, um pouco arisco, sem motivo nenhum, simplesmente, de um momento para o outro, as coisas viraram o contrário do que eram. Ficou irritantemente quieto. Começou a falar de outras pessoas com quem ele estava tendo aulas, novas modelos com quem estava trabalhando. Livros que tinha sido apresentado por alguma menina do curso de letras.
Aquela última seqüência de lembranças era o ponto final. Minhas feições começaram a mudar, se tornando mais duras, o corpo começando a tremer um pouco. Eu não queria morrer, a saída fácil nunca era a minha favorita, eu queria que tudo acabasse, queria de volta todo amor que "perdi". Meus sorrisos, minhas alegrias, queria tudo. Até os sonhos bobos e os planos grandiosos de vivermos juntos. Pra mim é muito fácil culpar ele, ninguém é usada a troco de nada, claro que, em algum momento, eu tinha me colocado à disposição pra ele fazer o que quisesse comigo. Mas, isso é um pecado ingênuo. Nas regras do jogo, esse tipo de pecado não conta.
Eu saí do quarto e peguei um ônibus. Fiquei lendo "entre quatro paredes", do Sartre. Dali pra frente era um novo começo, eu e o livro. O resto do que eu sentia se misturou com o vermelho espirrado na cama.
(2005)
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