
As árvores caídas nos campos, delicadas e quietas, com seus falhos e folhas como se fossem longos cabelos jogados pelos lados, realmente se assemelham à uma mulher aninhada’ao’amor. Os poetas já exploraram essa metáfora, não exaustivamente, mas, ela aparece em diversos trabalhos importantes.
E eu, mesmo sendo um grande leitor de Robert Frost, nunca tinha sentido na minha própria pele tudo aquilo. Até então eram apenas páginas muito bem escritas, mas, enquanto se despia e deitava na cama, Marília era como a metáfora. Ou pelo menos como uma metáfora, certamente parecia representar algo que não apenas uma linda mulher se deitando na minha cama.
A luz da lua invadia o quarto pela janela e banhava tudo ali de forma uniforme, deixando silhuetas e volumes incrivelmente atraentes em nossos corpos.
Ela deitou de bruços e me olhou por cima do ombro. Estava nu, apoiado na janela do quarto, com as costas para a rua, olhando para ela e para o céu estrelado, hora tentando contar as estrelas, hora tentando descobrir, de longe, apenas com o olhar, cada canto do corpo dela. Eram estrelas demais para se contar, e ela era linda demais para se olhar.
Fechar os olhos não adiantava, apenas dava vasão a novas viagens sem volta da minha imaginação, que, sempre que eu fechava os olhos, ali naquele momento, cruzava estrelas, a lua, a Marília, o meu corpo.
Não se tratava de amor.
Ou talvez se tratasse.
Talvez isso fosse o que me atraia mais nela do que em qualquer outra garota. Não era simplesmente desejar ela, ou, de alguma forma, amá-la e me entregar a ela eternamente e da forma mais profunda enquanto não terminássemos de transar. Se tratava sim de algo que estava ali representando o amor, algo no seu lugar, que não era amor, mas, era algo semelhante, que encaixava perfeitamente no seu lugar e também tinha fim em si mesmo, e, para todos os efeitos, poderia ser chamado de qualquer coisa, pois, quem saberia mesmo o que é seriam apenas os donos daquelas peles se tocando, centímetro por centímetro. Ou seja, eu e ela.
Ela gemia de forma graciosa, se prestasse muita atenção, poderia encontrar algum padrão de canto em cada som, sopro, ofego que saia de sua boca, enfeitada não por caretas vulgares que nos acostumamos diariamente – para quem tem a sorte de transar diariamente – mas eram faces e rostos diferentes como que exclamando um solo frenético de piano ou de trompete, ao melhor estilo jazz bebop.
Gracioso e impossível de não acompanhar com o corpo inteiro.
Marília dormiu logo após terminarmos de nos entregar um ao corpo do outro. Parecia feliz e exausta, não por competência minha, mas, por dela própria em se satisfazer com aquilo e com tudo que deveria estar passando em sua cabeça. Algo que nunca perguntei, mas, adoraria ter investigado tanto quanto amar ela.
Cruzei os braços atrás da cabeça com um sorriso bobo de jovem adulto. Fiquei admirando o ventilador de teto girar lentamente, pois estava emperrado na velocidade 1. Parecia não querer chegar a lugar algum, sem destino, apenas apreciando o caminho. Parecia ter mais vida do que eu em meus dias mais tristes.
Mas não consegui ficar assim muito tempo. Estava acordado demais para aquilo e exausto demais para dormir. Então fiz o que normalmente não tinha a oportunidade de fazer.
Vesti uma calça jeans, preta e surrada, sem cuecas por baixo.
Então saí sem camisa, de jeans e tênis, até a frente do prédio. Acendi um cigarro sem mesmo saber por que e segui andando pela rua.
Tentei limpar minha mente, não pensar em nada, mas, geralmente, quanto mais tento, mais poluída fica a mente. Começo a pensar que não estou conseguindo e por aí vai. Até que parei embaixo de um poste de rua, não muito mais alto que eu e com uma luz tão amarela quanto meus dentes. No chão havia uma poça d’água que havia se juntado com a chuva que caíra durante quase toda a tarde. Embora abafada, a noite preservava o ar úmido que tinha durante o dia.
Me abaixei, apoiando-me nos joelhos e fiquei olhando para aquele reflexo distorcido no chão, dividindo lugar com a sarjeta, uma boca de bueiro e um saco grande de lixo, daqueles azuis de vinte litros. No meio de tudo meu rosto, que flutuava enquanto as cinzas do cigarro batiam na água.
Não lembro quanto tempo fiquei me olhando, mas sei que foi aí que consegui me livrar de qualquer pensamento que havia na cabeça, só me dei por mim quanto estava devolta ao apartamento, novamente nu, me deitando na cama. Ao que Marília abriu levemente os olhos e indagou.
‘Eu tava sonhando que tava sozinha, ou tu foi dar uma voltinha?’ Falou sorrindo, repousando a mão no meu peito, enrolando algum cabelinho.
‘Tava contigo o tempo todo’.
Então ambos fechamos os olhos e dormimos como nunca havíamos dormido antes em nossas vidas. Podia ver isso no sorriso dela nos meus sonhos, e certamente meu silêncio figurava como ator principal nos sonhos dela.
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