
Eu aperto os cacos de vidro com a mão. Os fecho em um punho cerrado que logo se tinge de vermelho. As gotas caem por cima da mesa, do cinzeiro, no pé da taça de vinho vazia. No meu rosto, o mais débil dos sorrisos, a mais inocente das criancices. Eu te olho na foto, velha, tu e a foto, velhas. A mão começando a arder e os pequenos cacos furando a pele, alguns se aninhando dentro da palma da minha mão.
Pra que fazer isso, tu pensa, como tu é exagerado! Tu não tem nem um dos dois pés no chão, tu merecia uma cadeira de rodas, só pra ti ver como é, realmente, não ter nenhum dos pés no chão. “Quando eu ando de avião, eu me sinto em casa” eu fico dizendo, só pra mexer contigo, de como sou sonhador, e de como isso é a única coisa que me mantém vivo, os sonhos acordados. O gosto de jasmim que o meu sangue tem. Claro que eu dou umas lambidas nas pequenas feridas da minha mão. Eu já não preciso dos cacos, eu deixo eles fazendo companhia pra nossa aliança. Tu sabia que a gente usa aliança no dedo anular esquerdo porque os romanos descobriam que tinha ali, no dedo, uma veia que ia até o coração? E eu não tinha te dito que eu tinha te dado o meu coração?
Eu quero ele de volta. Eu preciso dele agora.
Eu também preciso que tu venha pegar teus livros, que traga o meu isqueiro que eu deixei na tua bolsa, e me livre dessa foto tua, tão feia, com o cabelo desgrenhado e uma barriga horrível. Tu nunca devia ter engordado, tu fica presunçosa fora do peso. Parece tão melhor do que tu realmente é. Na verdade tu não presta. E tu foi embora. Esse foi teu único pecado. Não que a gente não tivesse a nossa coleção de pecados coletivos, comuns, cúmplices, mas, o teu grande pecado, aquele que vai te mandar direto pro inferno, foi ter ido embora, assim, de manhã, sem esperar eu acordar. Tudo bem, trepar com as malas prontas, pular em cima de mim rindo da minha cara enquanto eu, chorando feito uma criança, implorava pra tu ficar. Isso acontece, isso te excita, a minha indigna submissão te excitou do início ao fim.
Não precisa voltar tão cedo. Pode ficar um bom tempo longe, curtindo umas férias no Caribe, na Jamaica, na puta que te pariu. Mas no fundo eu preciso que tu fique longe de mim. Já não me basta nada, nada que venha de ti. A não ser o meu isqueiro, que ficou na tua bolsa. E meus livros que tão na tua casa.
E o gato.
Tu tem que levar o gato. Eu sou infantil. Eu não tenho condição de criar um gato. Eles se criam sozinhos, tu vem e diz sempre, mas, ele não me ouve. Juro que ele não me ouve e ainda debocha da minha cara, subindo na poltrona e lambendo o rabo. Leva o gato, dá ele pra tua mãe. Pelo menos alguém tem que fazer companhia pra ela.
Vem, me traz minhas coisas, leva as tuas e deixa o chá. Eu que comprei, lá em rivera. Era pra nós tomarmos, depois de trepar, mas tu não gosta de chá. Tu não gosta de nada. Nem de trepar. Só quando ninguém na rua te quer, o que é quase sempre. Ninguém te quer, e nunca vai te querer.
Mas eu preciso que tu venha resolver isso tudo, antes que eu termine com essa garrafa de vinho, e essa foto horrível tua fique realmente manchada com gotinhas de sangue. Vê, como no fundo só eu preciso de ti?
2 comentários:
teus textos me encantam.
acho que tudo que vem de ti me encanta.
embora a coerência impeça, esse texto de alguma forma parece a ótica da Heloísa na mesma situação..
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